Bouina
7 CAPÍTULO 07
A noite parecia não ter fim. Do lado de fora, o rio respirava devagar, como se o próprio mundo tivesse adormecido, exceto por Brisa, cujo coração parecia não querer parar.
Ela estava deitada de lado, o corpo pequeno encolhido sob o lençol fino. O quarto estava abafado, o ar úmido colando na pele. Mesmo assim, ela tremia. Não de frio, mas de um medo que parecia ter se entranhado dentro dela, no mesmo lugar onde se guardam as lembranças que ninguém quer reviver.
Cada vez que fechava os olhos, via Safira.
A bacia de barro. O cheiro de fumaça e ervas queimadas. A pele negra e as escamas seguidas de pele de cobra. Os olhos amarelos; totalmente amarelos, sem vida, sem alma.
O coração de Brisa pulsava forte, descompassado. Ela levou as mãos ao peito, tentando conter o tremor. Era como se ainda estivesse na casa da avó, com as velas tremulando e o vento cortando a pele.
“Ela tem que saber o que somos... saber da origem...”
A voz da avó ecoava em sua cabeça, grossa, cansada, cheia de dor.
Brisa virou-se na cama. O soalho de madeira rangia a cada movimento, cada tábua reclamando sob seu peso.
Olhou para o teto escuro, onde as sombras dançavam conforme a luz do início do amanhecer atravessava as frestas da janela. As paredes, tingidas de azul pálido, pareciam respirar com ela.
O tempo passava devagar. Ela se sentia sozinha. Tão sozinha, que quis chamar pela mãe, mas algo a conteve.
Marina estava em silêncio no outro cômodo, talvez dormindo, talvez apenas fingindo. Desde que voltaram do ritual, não haviam trocado uma palavra. Apenas um olhar — rápido, distante e envergonhado. — e o pedido seco para que Brisa fosse descansar. Mas descansar era impossível. Pois a cada instante, a imagem de Safira voltava mais nítida.
O olhar sem pupilas. A pele escura, trocando de forma. E o medo. O mesmo medo que agora vivia nela.
Brisa rolou na cama e fechou os olhos com força. Tentou se lembrar de quando tudo era simples. Dos dias em que Safira vinha brincar, das vezes que riam dentro do rio, mergulhando até o fundo para ver quem encontrava primeiro as pedrinhas coloridas. Mas essa lembrança se partiu.
Partiu-se ao meio, pois agora sabia o por que da prima a evitava tanto. E soube, tarde demais, que o afastamento não era por desinteresse. Era por medo. Talvez de si mesma, do julgamento, ou da própria família.
Um nó apertou sua garganta.
Por que ninguém tinha dito nada? Por que ela nunca disse nada?! Eram quase irmãs.
Por que em sua família sempre haviam os segredos, os silêncios, os olhares trocados entre adultos que pensavam que ela não percebia?
Ela se lembrou do rosto da mãe pálido sob a luz das velas, ajoelhada no chão, pedindo perdão. Lembrou da avó gritando, da discussão, de falarem de seu pai que nunca era pronunciado.
O pai.
Um eco sem rosto.
O homem que era apenas um vazio nas histórias.
Ela se lembrava de quando era criança e perguntava quem ele era. A mãe desviava o olhar, fingindo não ouvir. A avó mudava de assunto, mexia na chaleira, falava do tempo, de qualquer coisa. E os outros... os outros apenas baixavam a cabeça, ou diziam que ela era filha do boto.
Com o tempo, aprendeu a não perguntar. Mas um espaço frio permanecia no peito, uma ausência que parecia observar, à espreita.
Brisa respirou fundo. Sentia o coração bater forte, os pensamentos desordenados. Uma sensação de calor subia pelo corpo, um calor estranho, quase febril.
Quando finalmente o sono veio, não era para descanso, mas para um pesadelo que a aguardava.
Estava de novo no rio.
A água subia até sua cintura, fria e escura. A lua se refletia como um espelho prateado. Brisa se inclinou para olhar o reflexo e o que viu fez o sangue gelar.
A pele do reflexo não era dela.
Era negra, coberta de escamas que brilhavam à luz da lua.
Ela gritou e o som não saiu. Tentou correr, mas as águas a puxaram.
Braços invisíveis, fortes como raízes, a prendiam sob a superfície.
E, lá embaixo, no fundo, olhos verdes intensos a observavam.
Ela acordou de súbito, ofegante, o corpo coberto de suor. O lençol colado à pele. As mãos trêmulas.
Olhou ao redor, sentiu o cheiro da madeira úmida, o som lento do rio batendo nas estacas da casa e tocou o próprio braço. Por um instante, jurou sentir a textura das escamas sob os dedos.
Mas era só pele. Pele quente. Pele humana.
Ela se sentou, abraçou os joelhos e ficou ali, em silêncio, o coração disparado.
Naquele instante, percebeu o quanto não conhecia sua própria história.
Não sabia o porquê da distância da mãe com a família.
Não sabia o que realmente havia acontecido com Safira.
E, acima de tudo, não sabia quem era o homem que chamava de pai apenas em pensamento, sem rosto, sem nome.
As lágrimas vieram devagar.
Escorreram sem som, misturando-se ao suor e ao calor da madrugada.
Do outro cômodo, um ruído; talvez a mãe se movendo, ou o ranger das tábuas ao vento, farfalhando pelas frestas da janela.
Brisa respirou fundo, lembrando-se da promessa que Marina fez antes de se recolher:
“Amanhã a mamãe promete que iremos conversar sobre tudo.”
Mas o “amanhã” parecia um lugar distante. E, no fundo, Brisa temia o que essa promessa poderia significar. Porque parte dela já sabia que, quando o sol nascesse, nenhuma verdade traria paz.
Apenas mais perguntas.
E, talvez, o começo do fim da menina que ela foi até ali.

O primeiro raio de sol atravessava as frestas da madeira quando Brisa se levantou.
A cabeça latejava, os olhos ardiam, e o coração parecia ainda bater no mesmo ritmo frenético da madrugada anterior.
Andou devagar até o pequeno cômodo onde o cheiro de café fresco preenchia o ar. Sobre a mesa, o café-da-manhã estava servido; simples, mas arrumado com carinho.
Havia pão, leite, biscoitos doces, e uma toalha branca dobrada sob o prato.
Era raro ver tanto à mesa. Parecia um banquete e um gesto de paz.
Marina estava sentada, os olhos estavam vermelhos e o rosto marcado pelas lágrimas da madrugada. Uma das pernas dobradas sobre a cadeira, o queixo apoiado no joelho. Chorava em silêncio, abraçada à própria perna, como se quisesse se esconder dentro de si mesma.
Quando ouviu os passos leves da filha se aproximando, ergueu o olhar, forçando um sorriso frágil. Mas o gesto morreu nos lábios assim que percebeu a expressão grave no rosto da menina e o silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.
— Brisa... — sussurrou, a voz embargada. — Me perdoa, filha.
Ela limpou o rosto com as costas da mão, sem conseguir conter o tremor do próprio corpo.
— Vem, senta-se comigo, por favor.
A menina hesitou por um instante.
A cena parecia quebrada, como se o tempo tivesse rachado e deixado mãe e filha em lados diferentes do mesmo espelho. Mesmo assim, obedeceu. Sentou-se na outra ponta da mesa, de frente para Marina
O silêncio pesou.
A madeira das cadeiras rangia, o vento do rio entrava pela janela trazendo o cheiro úmido da manhã.
— Você não precisa se desculpar, mãe. — murmurou Brisa, baixinho, quebrando o silêncio. — Eu te amo. Sempre te amei. Você é tudo pra mim...
Marina deixou escapar um soluço entre lágrimas. Um sorriso pequeno, trêmulo, surgiu em seu rosto.
— Você é a melhor coisa que me aconteceu, Brisa... — disse ela, com a voz trêmula. — Eu era tão jovem quando te tive. Tinha apenas um pouco mais do que a tua idade quando descobri que carregava um bebê... que carregava você.
Suspirou fundo, encarando o nada.
Houve um instante de hesitação, como se ponderasse até onde deveria contar a verdade.
— Eu não falo de seu pai porque... nem eu o conheço de verdade. Foi algo... um ato de loucura... uma tentativa de fugir de quem eu era. Do que eu estava me tornando.
Marina encarava a filha com pesar nos olhos. O olhar dela, porém, desviava por frações de segundo, como se escondesse algo. As lágrimas não paravam de descer, era como se lembrar a colocasse em completa negação.
Brisa abaixou o olhar sem coragem de encarar a mãe nos olhos. As mãos brincavam à beira do prato, apertando o tecido da toalha como se quisesse agarrar alguma segurança.
Marina prosseguiu:
— Eu quis te poupar, meu amor. — A voz dela vacilou, como se cada palavra pesasse demais. — Você não precisava carregar o que eu carregava e carrego. Eu só queria que tivesse uma vida diferente da minha... longe das sombras que sempre perseguiram nossa família. — Ela respirou fundo. — Por isso nunca te contei nada. Não por vergonha... mas por medo. Medo de que o passado encontrasse você também.
Brisa sentiu as lágrimas virem sem controle.
— Mãe... você sofreu tanto por mim. Eu sei disso... — a voz dela falhou. — Mas não mente mais pra mim. Por favor...
Marina respirou fundo. A garganta fechava a cada palavra.
— O que vou te contar agora... — a voz dela soou quase num sussurro, trêmula — nunca deveria ter chegado até você. Pelo menos, não da forma que veio... nem do jeito que tem acontecido. — Os olhos de Marina marejaram outra vez, o medo reluzindo nas lágrimas. — Nossa família é amaldiçoada, Brisa. Há gerações, somos forçadas a nos transformar.
Brisa franziu a testa, sentindo o ar rarear, como se o próprio mundo esperasse pela próxima palavra.
— Transformar? — murmurou, sem compreender. — Em quê, mãe?
Marina ergueu o rosto devagar, como quem carrega um segredo que queima por dentro.
— Em Boiuna, minha filha. — A voz saiu rouca, partida. — Nós viramos cobras.
A menina empalideceu.
— Mãe... não... isso é um delírio.
Mas as palavras da mãe continuavam, como um veneno que se espalhava.
— No começo, ainda temos forma humana. A pele começa a mudar, a cair... e o corpo inteiro se transforma.
Os olhos de Brisa se arregalaram, e num instante, a imagem da prima voltou a sua mente: a pele escura, as escamas reluzindo sob as velas, os olhos amarelos.
— Não pode ser verdade... — ela sussurrou, tremendo. — Mãe, aquilo... aquilo que eu vi... era isso?
— Era. — Marina chorava. — Filha, é verdade! Nós nos tornamos cobras. A sede por sangue é o que nos domina.
Ela cobriu o rosto com as mãos.
— Enquanto somos humanas, conseguimos controlar... mas quando a transformação vem por completo... o sangue é o que nos faz matar. Saciar a fome.
Brisa recuou instintivamente na cadeira, o coração disparado. As mãos tremiam sobre a mesa, os olhos presos na mãe como se esperassem que ela desmentisse tudo. Sentia o ar pesado, quase irrespirável, e por um instante, teve a impressão de que o chão sob seus pés não era mais firme.
— Por que você nunca me contou? — a voz de Brisa subiu, trêmula, rasgando o silêncio. — Isso é uma traição, mãe! Eu estou... eu estou me transformando também, é isso?
O corpo dela estremeceu, um arrepio subindo pelas costas. As lágrimas queimavam o rosto, e a respiração vinha curta, entrecortada.
— E a Safira? — a voz vacilou. — Você mentiu pra mim... pra todo mundo!
Marina se levantou, trôpega, se aproximando de Brisa com as mãos trêmulas estendidas no ar, implorando por um pouco de calma.
— Brisa, filha, por favor... me ouve...
— Não, mãe! — gritou ela, recuando com o olhar em pânico. — Não se aproxime! Não me toque!
O som da respiração delas encheu o pequeno cômodo. O café esfriava na mesa, o leite se derramava pela borda da caneca.
— Eu te amo... — sussurrou Marina, soluçando. — Eu só quis te proteger. Eu juro que nunca mais vou mentir.
A menina olhou para a mãe com os olhos marejados, sem conseguir conter o desespero.
— Você acabou comigo, mãe. — A voz dela era um fio de dor. — Eu não sei mais quem eu sou. Eu me perdi de mim mesma.
As lágrimas caíam uma após a outra, silenciosas, intermináveis.
A menina caiu de joelhos, o corpo estava vencido pelo peso da revelação. Sentou-se sobre as próprias pernas, as mãos cobrindo o rosto, tentando conter o choro, mas o som escapava em soluços rasgados, desordenados, como se a dor precisasse sair de qualquer jeito.
O corpo inteiro parecia tremer. A verdade recém-dita, as mentiras guardadas por tanto tempo, a covardia que agora ganhava forma diante dos olhos; tudo a feria ao mesmo tempo. Era um caos dentro do peito, um turbilhão que misturava medo, raiva e confusão.
O coração doía tanto que ela mal conseguia respirar. As mãos escorregaram do rosto e foram aos cabelos, puxando, apertando, como se buscassem acordá-la daquele pesadelo. Os olhos, marejados, se perderam no vazio à frente, sem foco, como se o mundo tivesse parado de fazer sentido.
Ela não entendia mais nada. Só sentia o desespero pulsar dentro dela.
— Como eu posso confiar em mim agora? Eu não quero... — ela soluçou — eu não quero matar ninguém... não quero ser um monstro!
Ergueu o olhar aflito.
— O meu pai sabia disso?
Marina enxugou as lágrimas, a expressão e a endureceu.
— Seu pai não existe, filha. Não mais. Somos só eu e você.
Brisa respirou fundo, com raiva e confusão.
— E por que você não se transforma então?
— Porque eu tive você. — Marina tentou sorrir, mas a voz vacilou, frágil. — Você foi a minha bênção. — As palavras saíram suaves demais, quase ensaiadas. — Os espíritos me livraram da maldição quando você nasceu.
A menina piscou devagar, tentando encaixar o impossível dentro da razão.
— Então... se eu tiver uma filha... eu também vou me libertar?
Marina desviou o olhar, rápido demais, o sorriso se apagando como uma chama sem ar.
— Não. — respondeu depressa. — Os ancestrais me abençoaram. Não sei o motivo, mas foi só a mim. — Fez uma pausa longa demais, como se buscasse as próximas palavras. — Não há como cortar a maldição, mas... com o tempo, ela se enfraquece. — engoliu seco. — As transformações... vão sumindo, quando envelhecemos.
Marina forçou um sorriso vazio.
— Sua avó, por exemplo, já não se transforma mais. Mas sua tia, sim.
As palavras da mãe ecoavam dentro dela como um trovão abafado, algo que não fazia sentido, mas ela ainda não sabia por quê.
— E o meu pai... como o conheceu?
Marina respirou fundo, os olhos marejados, mas frios, e respondeu com um riso amargo:
— Foi depois de uma festa local. Ele era... encantador. — Os lábios tremeram, e por um instante, algo sombrio passou pelo olhar dela. — Sedutor demais. — fez uma pausa, e então, com voz baixa: — Você tem os olhos dele.
O silêncio entre elas pareceu se estender.
— Foi uma noite só, Brisa. Um ato sem razão. — As palavras saíram rápidas, como quem quer encerrar o assunto. — Mas dali nasceu você. E, desde então, a minha vida foi toda sua.
Brisa apenas a observou, sem perceber o leve tremor nas mãos da mãe, nem o modo como ela evitava encará-la por mais de um segundo.
Brisa não sabia o que doía mais: se a revelação da maldição ou o fato de descobrir que nasceu de algo que nunca foi amor.
Uma pontada de vergonha a atravessou. Abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre as mãos, como se quisesse desaparecer.
— Eu sou um fardo, mãe? — a voz saiu baixa, trêmula, quase um sussurro de criança perdida.
Marina ajoelhou-se diante dela e tomou suas mãos com desespero suave, os olhos suplicantes.
— Jamais, Brisa. — disse, firme, mas com o coração visivelmente em frangalhos. — Você é tudo o que tenho. Tudo o que sou.
Brisa, porém, sentiu as palavras vazias, distantes, como se o amor da mãe estivesse coberto por uma sombra que ela ainda não conseguia enxergar. Puxou as mãos devagar, recuando.
Levantou-se, os olhos marejados e o peito em estilhaços.
— Eu preciso ficar sozinha, mãe. — A voz falhou. — Preciso pensar... preciso entender tudo isso.
Marina deu um passo à frente, mas não teve coragem de segui-la.
Antes que qualquer resposta saísse, Brisa já havia se virado.
A porta rangeu ao se abrir, e o som dos passos dela ecoou pelo deque de madeira, leve e triste, até sumir na distância, levando consigo tudo o que ainda restava entre as duas.
Brisa correu pela ponte de tábuas que ligava as casas. O vento batia forte, bagunçando seus cabelos. O rio refletia o sol nascente; dourado, vivo, indiferente à dor dela.
Correu até o começo da mata e se escondeu atrás de uma árvore grossa.
Chorou sem se conter; pelas mentiras, pela prima, pela mãe, pela infância que acabava naquele instante.
Cada lágrima que caía parecia levar um pedaço dela junto. E no fundo do peito, algo sussurrava… Um som estranho, quase como o silvo de uma serpente...
Chamando-a pelo nome.
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