Boto ?

1 capitulo unico


Notas iniciais
Eu queria poder escrever e dirigir um ou dois capítulos dessa novela!

Era uma festa como tantas outras.

Tinha música, tinha comida, tinha gente alegre em toda parte...

“Me solta, Zelão!”

“Eo num posso! Eo num posso lhim deixa aqui, Juliana!”

Poucos foram os que perceberam o pequeno tumulto. Era muito barulho...

E o ato só foi interrompido já na porta da casa da Mãe Benta.

“Solta ela!”

“Ocê não se meta, seu dotôzim! Que ocê num sabe cum que ta lidano!”

O doutor não ia deixar passar em branco.

Voou pra cima do rival, e socou-lhe a cara, pra que aprendesse quem é que estava a lidar com quem.

É pena que só serviu pra que Zelão largasse o braço da professora pra retribuir a pancada de Renato. O pobre rapaz caiu no chão com a boca sangrando, mas parecia não se importar com isso. Levantou disposto a quebrar a cara de Zelão (literalmente).

Zelão, por sua vez, preparou o punho. Aquele “dotôzim” ia ver estrela!

Zelão!

Foi Serelepe quem falou, interrompendo a briga, que já ia ficar boa.

“Que ocê ta fazeno, Zelão?!” – Pedro Falcão vinha logo atrás, seguido pela filha armada de espingarda.

“Ele estava arrastando a Juliana, como se ela fosse propriedade dele!” – Renato berrou, cheio de raiva.

“É isso mermo que eu to ovino?!” – Gina, que ainda não tinha percebido o motivo da briga, preparou a espingarda pra atirar. Só não atirou porque o pai pediu, em silencio.

Zelão não respondeu. Olhou de relance para a professora, que ainda imóvel, apenas o olhava. A expressão no rosto dela era de medo e incerteza, mas é claro que Zelão só via o medo que ela parecia ter dele.

“Ocê ia raptar ela, Zelão...?” – Serelepe falou devagarinho, dando passos vagarosos na direção do amigo.

“Raptar...” – Zelão repetiu. Ele lembrava bem o significado daquela palavra – “ocê acha, Lepe... queu ia ter coragi de machucá a Perfessora...?”

O silencio do menino foi sua única resposta.

E como diz o ditado, “quem cala, concente”.

“Então... por que foi que ocê trouxe ela pra cá, Zelão?” – foi Ferdinando quem falou. Sua voz era quase como um sussurro. Ele havia acabado de alcançar o tumulto, seguido por Seu Giácomo, Milita, e Viramundo. Todos apreensivos.

Zelão não levantou a cabeça. Ele sabia que todos os olhos ali, inclusive os lindos olhos azuis de Juliana, estavam voltados pra si.

“Eo só tava tentano proteger ocê... eo num ia lhe fazer ninhum mal...” – falou baixinho.

Juliana abriu a boca pra falar, mas Pedro Falcão falou primeiro.

“Proteger do que, seu cão danado?!” – esbravejou com voz firme de pai bravo.

Zelão não esboçou reação. Continuava a olhar pro chão. Seu rosto escondido pela aba do chapéu.

Foi Mãe Benta quem falou em defesa do filho.

“Do boto...” – ela disse séria.

Mãe Benta viu o rosto incrédulo de Renato ficar ainda mais incrédulo quando todos que ali estavam pareciam chocados, se não amedrontados, com o que ela havia dito.

“Boto...?” – Foi Milita a primeira a falar, agarrando o braço do pai, que sequer conseguia fechar a boca.

“Diacho...” – Gina apertou a espingarda com mais força, correndo pro lado de Juiana, que continuava imóvel olhando Zelão.

Renato abriu a boca, mas Viramundo foi mais rápido.

“Entãose o amigo Zelão fez um bem pra Perfessora... o Boto não perdoa não.” – falou sério, olhando pra Milita, que ainda segurava o braço do pai boquiaberto – “Ele fez foi um bem...”

“Ele fez foi besteira!” – Renato retrucou.

“O amigo bai me descurpár, mas... Viramundo tem razón, si?” – Giacomo apertou a mão da filha. – “Io non ia querer que minha Milita fosse... fisgada pelo Boto...”

“Ocê vai lá pra casa, Juliana!” – Gina falou – “Lá, o Boto nem vai passa perto, porque se passa...” – ela armou a espingarda.

Juliana não tinha voz.

O Boto era uma lenda! Coisa de folclore! Ela não acreditava, não queria acreditar, que toda aquela gente acreditasse nessas coisas. Mas se não fosse verdade, se não fosse mais do que uma lenda, isso significaria que Zelão havia mentido... não! Mentido, não! Ele só tinha feito o que tinha feito, porque tinha achado que tava fazendo o certo. Ele nunca a machucaria...

Ela olhou pra ele, tentando ler seu coração em seu rosto, mas a aba do chapéu atrapalhava. Zelão também não havia dito mais nada.

“É mio oceis ficare aqui. Ainda tá de noite, e ainda tá teno festa” – Mãe Benta sugeriu. Sua voz mais séria que de costume – “O Boto não vai embora até levar um argúem com ele. Se ele queria a Perfessora, vai procurar até cansar, e vai embora, mas isso é só quando o sol nascer”

Ninguém parecia discordar. Muito pelo contrario. Giacomo e Viramundo pareciam escoltar Milita pra dentro da porteira; Pedro Falcão ficou relutante em deixar a filha, e ela até prometeu que metia uma bala na fuça de qualquer um que tentasse qualquer gracinha, mas foi só quando Ferdinando prometeu que não iria deixar a moça fazer nenhuma bobagem, que ele voltou pra casa, pra ficar com a esposa; Renato voltou pro posto de saúde. Boto é coisa de folclore! Essa gente tem é que abrir os olhos!

Mãe Benta fez um chá, pra todo mundo ficar quentinho.

Gina até pediu que Viramundo tocasse uma moda, mas todos concordaram que era melhor não. Se o Boto ouvisse cantoria, ia ser atraído, e achar Juliana.

“Eo vi ele de longe...” – Zelão falou, depois de muito tempo, mais pra si do que pros outros. O celeiro nunca tinha estado tão cheio.

“Ocê viu o Boto, Zelão?!” – Serelepe se assustou.

“Bão...” – Zelão pensou por um minuto – “ver, ver... com o rosto, o buraquin na testa, num vi. Mas ouvi um furdunço na água, e tinha uma camisa branca assim, na bêrinha do rio... aí, eu vim falar ca mãe. Tava teno festa, e nóis num pode descuida dessas coisa” – falou preocupado.

“Ele devia de tê acabado de entrá de vorta na água” – Mãe Benta falou, pensativa. – “Ocê tá ovino, Juliana? O Boto podia querer lhe pegar, fia. Quano ele vem pras superfície, ele fica de ôio nas moça que fica quietinha... E meu fio me disse que ocê tava toda triste...”

Juliana arregalou os olhos.

Mãe Benta continuou – “Ele vê elas assim, calada, amuada, e vem quereno alegrá...e quano ele conquista elas, leva pro fundo do rio, prelas num podê mais respira, e faz o que quer....”

Juliana tomou um gole de chá, e disfarçou o desconforto. O Boto era só uma lenda do folclore, ela tinha certeza, mas dizer isso assim parecia grosseria.

Ela olhou de relance pra Zelão, que ainda não lhe tinha dirigido a palavra depois da confusão.

“Fecha as porta, fio” – a voz de Mãe Benta era preocupada e séria até demais.

O filho fez o que lhe fora dito, e cada um pegou um cantinho no celeiro. Só Juliana ficou onde estava. Zelão sentiu os olhos dela, e não se conteve. Teve que falar o que sentia.

“Eo sei...” – começou, sem erguer a cabeça – “...eo sei que ocê acha que é bestage do povo daqui... que Boto num ixiste...” – Juliana ficou parada no mesmo lugar, ainda olhando pra ele, que ainda olhava pro chão – “... mas eo ispero que ocê saiba, Juliana, que eo nunca que ia mahucar ocê... e nem ia mentir.”

Silêncio.

Zelão nem tinha esperança de ouvir nada. Ele até achava muito que ela tivesse escutado tanto.

Certo de que não ouviria a voz de Juliana, ele lhe deu as costas, pra se recolher prum canto só seu.

“Espere, Zelão...”

Ele parou de andar, mas não se virou.

Juliana foi quem se aproximou.

“Eu sei...” – falou baixinho – “...eu sei que você nunca me machucaria.”

“Esse povo tudo anda dizendo queu sô um monstro, queu vô perdê a cabeça, e fazê uma besteira...” – ele respondeu, ainda sem se virar.

Juliana fechou os olhos. Uma lágrima escapou.

“Se a gente não pode ficar junto, Zelão... se esse amor agora parece impossível... eu quero lhe dizer, que você é muito mais do que essa gente toda pinta” – falou com convicção – “E eu quero que você saiba... e pode ter certeza disso, Zelão, que você tem minha confiança.”

Ele não falou, mas se virou.

Juliana se aproximou mais.

Tomada por amor, ela aproximou os lábios dos de Zelão, que permaneceu imóvel até o último minuto.

Ele se afastou antes que seus lábios fossem tocados pelos da Professora.

“Se a senhora não se incomodá, Perfessora Juliana, eu vô me recoiê...” – falou, evitando os olhos da moça, que parecia surpresa pela rejeição – “E se num fô atrevimento dum argúem como eu, eu gostaria de lhe pedir...” – virou-se — “...que não me maltrate mais do que já maltratou”

Juliana, ainda surpresa, mal conseguia falar.

“Maltratar...?”

“Tripudiar...” – Ela ouviu Zelão dizer. – “Tripudiar deu... é isso que ocê ta fazeno.”

“Zelão, eu jamais iria...” – ela tentou, mas foi interrompida.

“Me dê linceça, Perfessora... que amenhã eu tenho que levantá cedo”

E ele se foi.

Foi pra um canto no celeiro, onde ninguém o incomodaria.

Deixou Juliana pra trás, tristemente remoendo o que ele havia lhe dito.

“Tripudiar de você, Zelão... nunca...”

E assim foi-se a noite.

Com Gina e Ferdinando sem pregar o olho, pra garantir que Zelão não faria nenhuma bobagem; com Zelão sem dormir, pensando na amada; com Juliana acordada, sem conseguir tirar Zelão da cabeça; e com Milita e Viramundo prometendo pra si mesmos que nunca mais ficariam de assanhamentos na beira do rio.

“Amanhã teu pai vai percebê que tem uma camisa dele faltano...”

“Com isso ocê não se preocupe, que eu dô meu jeito. Agora nóis tem é que agradecer que o Zelão só viu a camisa que caiu do varal, e não nóis dois junto”

“Gradecido, Seu Boto! Mas eu fazia tudo de novo, vô nem minti!”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!