Bosque Solidão
1 One Shot
Notas iniciais
- Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, para o meu, para o meu amor passar... – cantarolava baixinho a caminho de casa.
Era tarde da noite, a rua estava deserta. O céu sem estrela alguma para iluminar o caminho. Até mesmo os postes de luz iam apagando-se, um por um.
O cheiro de chuva estava no ar e o vento cada vez mais forte, trazendo consigo os sons que tornam a noite sombria.
Faltava pouco para chegar em casa quando começo a ouvir um som diferente junto com o vento, algo como uma musica, e quanto mais perto chego do bosque, mais alta a musica fica.
Um bosque há muito esquecido, vazio e sombrio, chamado solidão.
Curiosa, entro no bosque. Caminho cada vez mais escuridão adentro, e a musica cada vez mais alta.
Começa a chover. As nuvens carregadas cobrem o céu, e os relâmpagos são minha única fonte de luz.
Quase desisto e vou embora, até que vejo alguém mais a frente, de costas para mim. Minha curiosidade sem fim aparece, e é claro que continuo andando.
Um relâmpago ilumina o céu e então eu enxergo a “pessoa” claramente. Meu corpo inteiro se arrepia e sinto um calafrio. Eu não deveria estar ali.
- Dentro dele, dentro dele mora um anjo... – cantava, aquela musica que havia me atraído até aqui. – Que roubou, que roubou teu coração.
E então vira-se para mim. Era um anjo.
Uma parte de mim fica encantada com a beleza do anjo. Enquanto que a outra parte grita para que eu corra pra longe dali o mais rápido possível.
O medo paralisa-me no lugar. Mal consigo respirar. O grito por ajuda começa a se formar. E meu coração dispara, ou seria o que aconteceria, se ele não estivesse nas mãos daquele anjo.
O anjo então sorri pra mim e me oferece o coração. Essa é a deixa para que eu saia correndo.
Eu teria conseguido fugir, mas o bosque estava cada vez mais escuro e já não lembrava o caminho de volta. Eu não conseguia ouvir nada ao meu redor, exceto o anjo cantando.
- Nessa rua, nessa rua tem um bosque, que se chama, que se chama solidão... – e então a musica parou.
Olhei ao meu redor em busca de algum sinal, de alguma saída, ou mesmo se ele estava por perto.
- Estou tão sozinho... – sussurrou em meu ouvido.
Outro relâmpago iluminou o bosque.
Quando virei pra trás ele não estava mais lá. Mais desesperada do que nunca, desisti de tentar achar o caminho de volta e simplesmente sai correndo em qualquer direção.
- Dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou teu coração...
Corri. Mais do que poderia correr, e mais do que pensaria ser possível naquele bosque.
- Se eu roubei, se eu roubei seu coração...
A voz estava cada vez mais perto. Eu não vou conseguir, eu não vou conseguir. Meu coração batia cada vez mais rápido. E ele sabia disso, ele o tinha em suas mãos.
O relâmpago iluminou tudo de novo, e eu o vi. Alguns metros do meu lado. Por causa da distração tropecei e cai. Antes que pudesse levantar ele já estava ali.
Pegou o meu coração e sorriu ao mostrar-me um punhal que tinha em mãos. Aquele sorriso, magnifico e horrível ao mesmo tempo, entregou o que ele ia fazer.
Ele então esfaqueou o coração que tinha em mãos. O meu coração. E enquanto o coração, lentamente, parava de bater, ouvi-o cantar:
-É porque, é porque te quero bem.
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