Konohamaru ainda ouvia o zumbido quando levantava-se dos escombros da destruição causada pela auto detonação da ninja. A parede que outrora havia o protegido, agora, apresentava-se aos pedaços. Os ninjas que haviam causado tal destruição agora já não estavam mais lá, a construção a ser investigada estava ao chão, completamente destruída.

Ele havia falhado na missão, era o que pensava.

Buscava por seus alunos, mas a fumaça ao redor devido às queimadas impedia a plena visualização. Foi quando ouviu a voz de Mitsuki ao fundo de uma neblina. Ao atravessar, Mitsuki estava agachado, realizando ninjutsus médicos em Boruto, que parecia melhorar aos poucos, mas ainda não havia aberto os olhos. Estávamos lutando, quando tudo aquilo aconteceu. Não vi para onde o aquele mascarado foi – Exclamava o ninja das cobras. Konohamaru, observou que Boruto mantinha pulso e respiração regular, mas notou a falta da Uchiha, perguntando a Mitsuki seu paradeiro.

Mitsuki explicou que durante a explosão, havia fincado seu braço na terra para manter estabilidade, tentando segurar sarada com seu outro braço, mas a mesma foi levada pela explosão para onde sua visão não chegava. Mitsuki havia enviado cobras para procurar sua companheira, enquanto curava Boruto. Konohamaru, passou a procurar pela sua aluna, procurando entender a cinemática da explosão e para onde ela poderia ter caído.

O local das instalações era ao redor de um monte, rodeado por colinas, vegetação e uma grande cachoeira com uma queda d'água considerável.

Konohamaru, fez diversos clones das sombras, que passaram a vasculhar ao redor e os vestígios do antigo prédio. Enquanto isso, as cobras de Mitsuki retornavam com informações iniciais ruins. A Uchiha não parecia estar nos arredores próximos. Mitsuki ainda não entendia ao certo as emoções que sentia naquele momento, um aperto em seu peito surgiu, tão profundo quanto um ataque que esmagasse seu coração. Mil cenários passaram por sua mente, mas o mesmo necessitava de concentração, afinal era um ninja e essa era a missão que havia sido designada para eles. Seus pensamentos foram interrompidos por Boruto, que havia acordado atordoado.

O Uzumaki pulou em guarda, ainda sem entender que o combate já havia se encerrado. – Onde está ele? – Indagou Boruto sobre o paradeiro do ninja mascarado. Mitsuki mal pode iniciar a explicação do que ocorreu, foi interrompido por outra pergunta. – Cadê ela? – Agora Boruto falava com a voz mais aguda, mostrando certa ansiedade para saber a resposta de sua pergunta. Konohamaru, voltava com uma armação de óculos característica. Todos sabiam do que se tratava, a armação havia sido encontrada próxima a borda da cachoeira. Ela ainda continha as lentes de Sarada, mas agora estavam estilhaçadas. Todos foram diretamente para borda da queda d'água.

Os sentimentos eram mistos, mas todos tinham algo em comum, temiam pelo pior.

Boruto ainda mancando não conseguia ver nada além de água e destroços a cair ao fundo da correnteza. O jovem ninja sentia que as coisas não poderiam terminar assim, era muito injusto que alguém cheia de sonhos, ambições e desejos não pudesse completar tudo isso. Era injusto que o mesmo não pudesse ajudar a realizar esses sonhos. Boruto perguntou a seu Sensei se mesmo poderia ajudá-lo – Me espere lá embaixo. Konohamaru não teve tempo de responder, Boruto havia pulado a queda d'água em busca de Sarada.

A corrente o puxava para baixo com força irregular, como se a própria água se recusasse a ceder passagem. Boruto forçou os olhos abertos, mas tudo o que via eram sombras distorcidas e fragmentos do que um dia fora a construção. O frio atravessava o corpo rápido demais, roubando o ar e a orientação. Ele nadou às cegas, tateando o fundo com uma urgência quase desesperada. Cada segundo parecia longo demais. O chakra começava a falhar, dispersando-se de forma errática, e Boruto sentiu o peito queimar ao segurar o ar por mais tempo do que deveria.

Subiu para o topo, buscando encher os pulmões de ar para voltar a busca. Decidido a dar tudo de si para encontrar sua colega de time, usou o que restava de chakra para ativar mais uma vez seu doujutsu. Com o jogan ativado, pode procurar por fluxos de chakra.

Foi então que percebeu algo diferente entre os destroços. Um brilho fraco, quase imperceptível, refletia a pouca luz que atravessava a queda d’água. Ele se aproximou, ignorando a dor que latejava no corpo inteiro.

Sarada estava presa entre fragmentos de concreto e metal retorcido. O corpo imóvel, os cabelos flutuando de maneira antinatural ao redor do rosto. O sangue se misturava à água, tornando difícil distinguir onde começava a ferida e onde terminava o ambiente.

O coração de Boruto falhou uma batida.

Ele a puxou com cuidado desesperado, sentindo resistência ao deslocar os escombros. Quando finalmente conseguiu libertá-la, percebeu o quão leve ela parecia — leve demais. O chakra dela era fraco, instável, como uma chama prestes a se apagar. Ao toque sua pele estava fria, como se ali não estivesse mais força. Porém, ele não poderia deixar que aquilo terminasse assim.

Boruto envolveu o corpo de Sarada com o próprio braço e impulsionou-se para cima, usando o pouco chakra restante para vencer a correnteza. Os pulmões queimavam, a visão escurecia nas bordas, mas ele não diminuiu o ritmo. Quando rompeu a superfície, puxando ar de forma desordenada, gritou por ajuda antes mesmo de alcançar a margem. Sarada não reagia.

Naquele instante, Boruto compreendeu uma lição que jamais aprenderia em treinamento algum: muitas batalhas não eram travadas contra inimigos mais fortes, mas contra o tempo — e o tempo raramente esperava.

Konohamaru e Mitsuki surgiram entre a vegetação quase ao mesmo tempo. A visão que encontraram os paralisou por um breve segundo. Boruto estava de joelhos, encharcado, segurando Sarada nos braços. A jovem Uchiha, antes tão firme e determinada, agora permanecia imóvel, o corpo pesado demais para alguém tão cheia de sonhos.

Ela não tinha forças sequer para sinalizar consciência. A respiração era irregular, quase imperceptível, e o chakra que Mitsuki conseguia sentir nela era fraco, fragmentado, como se estivesse se dissipando a cada instante.

Konohamaru se aproximou rapidamente, assumindo o controle da situação com a voz firme, ainda que o olhar denunciasse o peso da culpa. Mitsuki já se movia, ajoelhando-se ao lado deles e iniciando ninjutsus médicos de contenção, tentando estabilizar o que ainda podia ser salvo.

Boruto não soltou Sarada. Mesmo quando Konohamaru ordenou que a colocassem no chão, seus braços demoraram a obedecer. O medo havia se instalado de forma silenciosa e absoluta — não o medo da morte em batalha, mas o medo de perder alguém que nunca percebeu o quanto significava.

E, naquele momento, todos entenderam: a missão havia terminado, mas a luta mais difícil ainda estava apenas começando.

Konohamaru foi o primeiro a se mover. A experiência falou mais alto do que o choque inicial. Havia um hospital de campanha a algumas horas dali, utilizado por vilas menores da região para emergências de alto risco. Não era o ideal, mas era a única opção viável naquele momento. Sarada não suportaria uma viagem longa até Konoha naquele estado. Precisamos levá-la agora — disse ele, já formando selos de mão.

Mitsuki assentiu em silêncio. Seus ninjutsus médicos haviam feito o possível para estabilizar a Uchiha, selos de contenção de hemorragia e estímulo mínimo do fluxo de chakra, técnicas que Sarada o ajudou a aperfeiçoar durante treinamentos. Ainda assim, o chakra dela permanecia frágil, instável, como se pudesse se dissipar a qualquer solavanco mais brusco.

Boruto carregava Sarada com cuidado excessivo, como se temesse que qualquer movimento errado pudesse quebrá-la. O corpo dela estava frio demais, leve demais. Ele sentia a respiração irregular contra o próprio peito, cada inspiração curta soando como um aviso.

Avançaram pela mata em ritmo forçado. Konohamaru seguia à frente, abrindo caminho e atento a qualquer ameaça residual. Mitsuki mantinha a mão próxima ao corpo de Sarada, pronto para reforçar os selos médicos sempre que sentia o fluxo de chakra dela oscilar perigosamente.

O trajeto pareceu longo demais, mesmo sem obstáculos. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo som apressado dos passos e pela respiração irregular da Uchiha.

Quando finalmente avistaram a construção branca do hospital, Boruto sentiu um alívio breve demais para ser reconfortante.

— Emergência! — gritou Konohamaru ao atravessar as portas.

O ambiente calmo foi rompido de imediato. Médicos ninjas se moveram com rapidez, macas surgiram, e Sarada foi cuidadosamente retirada dos braços de Boruto. Mitsuki começou a relatar o quadro em frases curtas e precisas — trauma múltiplo, explosão, submersão, chakra instável, hemorragia interna suspeita.

Os médicos trocaram olhares sérios. Levem para a sala de emergência agora — ordenou um deles. — Preparem suporte de chakra e exames imediatos.

Boruto permaneceu parado por um instante, observando enquanto levavam Sarada para longe. Seus braços ainda estavam na mesma posição, como se o peso dela ainda estivesse ali.

A porta se fechou.

E, pela primeira vez desde a explosão, o mundo pareceu silencioso demais.

Mitsuki e Boruto estavam sentados, em uma sala enquanto esperavam por notícias. Konohamaru estava em telefone com o Hokage e sua cúpula para informar do fracasso da missão e do atual estado de saúde da Uchiha.

Boruto permaneceu imóvel diante da porta fechada. O corredor parecia grande demais, vazio demais. O silêncio que se instalara não era ausência de som, mas a presença incômoda de pensamentos que ele não conseguia calar. As imagens voltavam de forma desordenada: o brilho fraco sob a água, o corpo preso entre os destroços, o peso estranho de Sarada em seus braços. Leve demais. Frágil demais. Ele apertou as mãos, sentindo ainda o frio da pele dela impregnado nos dedos.

Sempre acreditara que, se fosse rápido o suficiente, forte o bastante, conseguiria impedir qualquer desfecho assim. Que bastava agir sem hesitar. “Se tivesse treinado mais com o Sensei Sasuke”, “Se eu conseguisse utilizar melhores os poderes do Karma”,”Se eu fosse mais forte” todos esses eram pensamentos que passavam pela cabeça de Boruto nesse momento.

Agora, percebia o quão ingênua aquela certeza havia sido. Não importava o quanto corresse ou lutasse, havia momentos em que o tempo simplesmente avançava sem pedir permissão.

Boruto se sentou lentamente em um dos bancos do corredor, os olhos fixos na porta da sala de emergência. Pensou em quantas coisas nunca dissera. Em como sempre presumira que haveria um depois. Um momento melhor, mais calmo, menos perigoso. A ideia o apertou por dentro de um jeito novo, desconfortável.

Mitsuki permanecia de pé ao seu lado, em silêncio. Observava Boruto com atenção discreta, como se tentasse compreender algo que não se manifestava em palavras. Ele sentia aquela tensão estranha no peito novamente, mais intensa agora, mas ainda não sabia dar nome a ela.

O som da porta se abrindo interrompeu tudo.

Um ninja médico saiu da sala, retirando as luvas manchadas de sangue enquanto se aproximava. Seu semblante era sério, profissional, mas não indiferente.

— Conseguimos estabilizá-la por enquanto — disse, direto. — Ela sofreu múltiplos traumas. Há fraturas e perfurações internas, além de hemorragia significativa. A submersão agravou o quadro respiratório. O fluxo de chakra dela está desorganizado, o que dificulta a regeneração natural.

Boruto se levantou de imediato.

— Ela vai ficar bem? — perguntou, a voz mais baixa do que esperava.

O médico hesitou por um breve instante.

— Ela está viva. Mas o estado ainda é crítico. Precisaremos mantê-la em observação constante.

Ele consultou rapidamente uma prancheta antes de continuar:

— Precisamos realizar uma transfusão de sangue imediata. Fizemos os testes de compatibilidade… — o olhar do médico se voltou diretamente para Boruto. — Apenas você é compatível no momento.

Boruto sentiu o coração acelerar, mas não hesitou — Quanto vocês precisarem — respondeu, sem pensar.

Será apenas o necessário para estabilização inicial — explicou o médico. — Ainda assim, o procedimento exige cuidado. Depois disso, ela permanecerá em observação. As próximas horas serão decisivas.

— Está em coma induzido — explicou o médico. — Precisamos dar tempo ao corpo dela. O fluxo de chakra ainda está sendo mantido artificialmente. Agora é observar e esperar.

Esperar. Boruto odiava essa palavra.

Antes que Boruto pudesse formular qualquer outra pergunta, passos firmes ecoaram pelo corredor. Konohamaru se aproximava, o semblante cansado, mas determinado.

Já avisei Konoha — disse, colocando a mão no ombro de Boruto. — Uma equipe médica especializada está a caminho. Assim que Sarada estiver estável o suficiente, ela será transferida para o hospital principal da vila.

Boruto assentiu em silêncio. A informação trazia algum alívio, mas não afastava o peso que se acumulava em seu peito. Parte dele queria perguntar se aquilo seria suficiente. Outra parte tinha medo da resposta.

Boruto não se lembrava quando havia se deitado em uma maca. Apenas quando a agulha atravessou a pele e uma sensação fria percorreu seu braço, acompanhada de um peso estranho no peito. O ninja médico ajustava os selos com cuidado, mantendo o fluxo de chakra estável enquanto o sangue era transferido.

Ele virou o rosto para o lado, tentando evitar olhar para o próprio braço, mas seus pensamentos insistiam em retornar à sala ao lado.

Sarada.

Era estranho pensar que algo tão simples quanto sangue, algo que sempre esteve ali, silencioso, agora podia significar a diferença entre ela viver ou não. Boruto sentiu uma pontada de culpa ao lembrar quantas vezes se colocou em perigo sem pensar nas consequências. Quantas vezes acreditara que sempre haveria alguém para consertar tudo depois. Em todas essas oportunidades, lá estava Sarada, com sua preocupação de sempre e apreço pela responsabilidade. No fundo, o Uzumaki gostava da preocupação dela consigo.

O chakra fluía, controlado, e junto dele vinha uma exaustão lenta. Não apenas física, mas mental. Boruto fechou os olhos por um instante, lembrando do som da respiração irregular de Sarada, do peso do corpo dela nos braços, da forma como parecia pequena demais diante de tantos sonhos que ela tem. Por um breve momento, o cansaço pareceu bater mais forte, suas pálpebras se encontraram lentamente, a cama parecia afundar e um peso invisível a ser colocado sobre seu corpo. Boruto lentamente ia adormecendo, queria, ele precisava.

— Está indo bem — disse o médico, quebrando o silêncio. — Seu chakra é estável. Isso ajuda muito, iremos precisar de mais alg…

Boruto não chegou a ouvir o restante da frase. O cansaço venceu antes que pudesse resistir, e ele caiu em um sono profundo na maca.

Konohamaru, por sua vez, já não se encontrava mais no hospital. Antes de partir, deixou dezenas de clones das sombras posicionados ao redor da construção, junto ao Rei Macaco Enma. Eles seriam responsáveis pela guarda de seus alunos. Aquela não era apenas uma medida preventiva, era uma promessa silenciosa de que nada mais lhes aconteceria sob sua vigilância.

Ainda assim, havia algo que não lhe saía da cabeça. Ele precisava voltar aos destroços.

Aquele que um dia ainda sonhava em se tornar Hokage carregava uma dúvida incômoda, insistente: qual teria sido a razão para uma auto-detonação? O que poderia ser tão importante a ponto de não poder, sob hipótese alguma, ser descoberto?

O cenário da antiga instalação era ainda mais devastador do que ele se lembrava. As estruturas do prédio estavam completamente destruídas. Paredes inteiras haviam desabado sobre maquinários retorcidos; vigas de metal, que antes sustentavam a construção, encontravam-se partidas ao meio e espalhadas pelo chão como ossos expostos.

Konohamaru aproximou-se de um dos maiores montes de destroços. Com esforço, retirou pedras e placas de concreto que se acumulavam ali, até que algo diferente veio à tona. Um acesso subterrâneo.

O que encontrou abaixo não era apenas parte do galpão, mas um laboratório. E, curiosamente, aquele espaço parecia ainda mais destruído do que todo o resto, como se tivesse sido alvo de uma tentativa deliberada de apagamento anterior à explosão final.

Ao fundo do ambiente, havia uma mesa cercada por computadores carbonizados. Konohamaru abriu gavetas e fichários, recolhendo documentos e papéis chamuscados. A maioria estava ilegível, consumida pelo fogo, mas alguns fragmentos haviam resistido o suficiente para contar uma história preocupante. Entre os arquivos, algo chamou sua atenção.

Um dos documentos continha perfis de ninjas. Poucas informações ainda podiam ser lidas, mas uma delas era impossível de ignorar. Em uma das folhas, havia a foto da mulher que enfrentou Konohamaru mais cedo. A mesma que causara tamanha destruição.

Ao lado da imagem, um nome — ou designação:

Delta. Membro interno da organização.

Os trechos legíveis descreviam modificações extensas em seu corpo. Implantes, alterações estruturais e aprimoramentos artificiais. Aos poucos, Konohamaru passou a compreender melhor o combate que havia enfrentado. A extensão de membros em batalha, a capacidade de adaptação física e, sobretudo, a absorção de chakra, uma habilidade que não apenas anulava ataques, mas potencializava sua condição física. Nada daquilo era natural.

Em outro documento, encontrou uma ficha ainda mais intrigante. A fotografia estava parcialmente destruída pelo fogo, tornando impossível distinguir se se tratava de um homem ou de um garoto. O nome também havia se perdido. Ainda assim, algo naquela ficha se destacava.

Uma estrela.

O indivíduo era descrito como um prodígio. As anotações indicavam habilidades semelhantes às de Delta, incluindo a capacidade de moldar o próprio corpo e tecidos conforme a necessidade do combate, além de domínio especializado de ninjutsu de fogo. Havia uma observação final, fragmentada, quase completamente danificada. Do pouco que ainda podia ser lido, uma frase se destacava:

Algo havia despertado. Em estágio quase final.

Konohamaru fechou os documentos lentamente. Se aquilo fosse verdade, a missão havia sido apenas um vislumbre de algo muito maior e muito mais perigoso do que imaginavam. Um sentimento maior emergiu, caso tivesse investigado melhor, talvez seus alunos não estariam no estado crítico de agora.

Boruto sonhava que corria que corria.No início, o caminho era familiar. O campo de treino atrás da Academia surgia diante dele, amplo e silencioso, como se nunca tivesse sido usado. O céu estava claro demais, imóvel demais. Ele corria sem dificuldade, sentindo o corpo leve, quase como se flutuasse.

À frente, Sarada caminhava.

Ela estava de costas, os cabelos balançando suavemente, os óculos refletindo a luz de um sol que não aquecia. Não parecia ferida. Não parecia cansada. Caminhava com a mesma postura firme de sempre, como se soubesse exatamente para onde ia.

— Sarada — tentou chamar.

A palavra morreu antes de se formar. Nenhum som saiu.

Ela continuou andando.

Boruto acelerou o passo, sentindo uma urgência estranha crescer no peito. O cenário mudou sem aviso. O campo de treino se dissolveu sob seus pés, dando lugar à trilha da missão. Árvores altas, sombras densas, o som distante de água caindo.

A cachoeira.

O barulho era ensurdecedor agora, como se estivesse dentro da própria cabeça dele. O chão tornou-se instável, escorregadio. Boruto tropeçou, caiu, levantou-se de novo. Sarada ainda estava à frente, sempre à mesma distância.

Ele correu mais rápido.

O peso começou a surgir. Cada passo exigia mais esforço do que o anterior, como se algo invisível o puxasse para trás. O ar ficou denso, difícil de respirar. Quando olhou para as próprias mãos, percebeu que estavam manchadas de vermelho — não sabia dizer se era sangue, água ou apenas uma lembrança que insistia em voltar.

Sarada parou.

Ela virou o rosto lentamente, e por um instante seus olhos encontraram os dele. O Sharingan estava ativo, girando de forma irregular, como se lutasse para permanecer aceso. Boruto tentou se aproximar, estendendo a mão.

— Espera… — tentou dizer.

Dessa vez, sentiu a garganta se mover, mas o som foi engolido pelo rugido da água.

A imagem dela começou a se desfazer, como reflexo quebrado. O cenário mudou outra vez.

Agora, Boruto estava em um corredor longo demais. Branco demais. Portas alinhadas dos dois lados, todas fechadas. No chão, óculos quebrados refletiam uma luz fria. Ele os reconheceu antes mesmo de se abaixar para tocá-los.

O coração disparou.

Ele correu pelo corredor, abrindo portas ao acaso. Em algumas, via apenas sombras. Em outras, leitos vazios. O som de um monitor distante marcava um ritmo irregular, cada vez mais lento.

No fim do corredor, Sarada estava deitada.

Imóvel.

Boruto tentou alcançá-la, mas o chão parecia se afastar a cada passo. Quanto mais se aproximava, mais distante ela ficava. O monitor ao lado dela emitia um som contínuo, agudo, que fazia sua cabeça latejar.

— Eu estou aqui — pensou, com força. — Eu cheguei.

Mas o tempo não parecia concordar.

Quando finalmente tocou o leito, tudo se dissolveu de uma vez. A luz apagou, o som cessou, e Boruto caiu em um vazio silencioso, pesado demais para resistir.

Ele foi trazido de volta à consciência de forma abrupta, como se fosse puxado para fora de um lugar que ainda não queria abandonar. O sonho parecia tão real quanto o desastre pelo qual haviam acabado de passar. Boruto despertou sobressaltado, o corpo coberto de suor frio, o coração acelerado demais.

Mitsuki estava ao seu lado.

— Você dormiu por quatro horas — explicou, com a voz calma, embora seus olhos denunciassem atenção constante. — Enquanto isso, os médicos aproveitaram para realizar exames laboratoriais e clínicos. Seus sinais vitais oscilaram um pouco enquanto dormia, mas agora estão estáveis.

Boruto respirou fundo, tentando organizar os pensamentos que ainda pareciam dispersos.

— E os outros? — perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.

— Sarada saiu da cirurgia — respondeu Mitsuki. — O estado dela é estável, e agora está em um quarto de observação. Konohamaru voltou há pouco e está recebendo curativos. Estamos… bem.

A palavra soou estranha até mesmo para Mitsuki. Havia um aperto em seu peito, uma sensação incômoda que ele ainda não sabia nomear, mas que se recusava a desaparecer.

Boruto levantou-se lentamente e seguiu pelo corredor. Não chegou a dar muitos passos antes de ser chamado por uma voz vinda de uma pequena sala lateral.

Era Konohamaru.

O jōnin estava sentado, recebendo soro e tendo ferimentos tratados. Apesar do cansaço evidente, manteve a postura firme ao ver seus alunos.

— Boruto… como você está? — perguntou. — Mitsuki me contou sobre a batalha. Vocês fizeram tudo o que estava ao alcance de vocês.

As palavras, claramente destinadas a confortá-lo, atravessaram Boruto sem deixar marcas. Ele se sentia anestesiado. Vazio. Como se nenhuma informação fosse suficiente para preencher o espaço que se abrira dentro dele.

Konohamaru pediu que ambos se sentassem. O semblante sério indicava que precisava compreender melhor o que haviam enfrentado.

— Estive no local da missão — começou. — Ainda não sei exatamente o que eles são ou o que querem, mas são extremamente perigosos. A ninja com quem lutei… e o adversário de vocês… ambos possuíam níveis de poder e habilidades que nunca observei em campo de batalha.

Mitsuki e Boruto trocaram um olhar breve antes de responder. Explicaram que o ninja mascarado parecia operar em um patamar completamente diferente, adaptando-se com facilidade às técnicas do Time 7, antecipando movimentos e anulando estratégias com precisão assustadora.

Boruto franziu o cenho, como se algo finalmente se encaixasse.

— Tem mais uma coisa — disse. — Ele usou o Rasengan.

A reação foi imediata.

Konohamaru se levantou bruscamente da cadeira, ignorando os protestos do médico ao lado.

— Isso é impossível — afirmou, a voz baixa, mas carregada de tensão. — Essa técnica é mantida em segredo. Apenas nós… e o Hokage… dominamos esse jutsu.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Se aquilo fosse verdade, então o inimigo não apenas observava Konoha, ele a conhecia por dentro.

A conversa foi interrompida pela entrada do médico-chefe na sala. Seu semblante, antes carregado pela urgência constante daquele hospital, parecia agora ligeiramente diferente. Pela primeira vez desde que haviam chegado ali, havia algo além da tensão em sua voz.

— Ela está melhorando — informou, de forma direta. — Após as transfusões e os procedimentos cirúrgicos, o fluxo de chakra começou a se estabilizar e apresentar crescimento progressivo.

Boruto sentiu o peito apertar, mas não da mesma forma de antes.

— Ainda precisará permanecer em observação — continuou o médico. — Ela não despertou, mas o quadro deixou de ser crítico. Já podem vê-la.

A frase ecoou na mente de Boruto por alguns segundos, como se ele precisasse ter certeza de que havia ouvido corretamente. Melhorando. Não acordou. Mas viva. Ali.

O médico não permaneceu para mais explicações. Assim que terminou, saiu apressado para atender outro paciente, como se aquela pequena vitória precisasse dividir espaço com tantas outras batalhas acontecendo ao mesmo tempo naquele hospital.

Boruto foi o primeiro a se levantar.

Por horas, tudo ao seu redor parecera distante, como se o mundo tivesse perdido peso e significado. Aquela notícia, simples e objetiva, foi a primeira coisa que conseguiu atravessar o vazio que o consumia. Não era alívio completo. Não era felicidade. Mas era algo.

E, naquele momento, isso bastava para fazê-lo andar.

Boruto atravessou o corredor em silêncio. O som de seus próprios passos parecia alto demais naquele ambiente, como se qualquer ruído fosse uma invasão. O corredor parecia maior que antes, grande o suficiente para mil pensamentos passarem em sua mente. Mas preferiu ignorar os pensamentos ruins, deveria seguir em frente, não só por si. Ao empurrar a porta do quarto de observação, sentiu o ar mudar, mais frio, mais pesado.

Sarada estava deitada na cama, envolta por lençois claros demais para alguém que havia passado por tanta coisa. Tubos e selos médicos se conectam ao seu corpo, mantendo estável aquilo que, horas antes, ameaçava se perder. O peito subia e descia de forma suave, quase imperceptível, mas regular o suficiente para lembrar que ela ainda estava ali.

Boruto se aproximou devagar.

Umas das enfermeiras se aproximou – Acabamos de extuba-lá, ela já está respirando sem uso de aparelhos… pode se sentar próximo a ela.

Ela parecia menor daquele ângulo. Não havia a postura firme, nem o olhar atento que sempre analisava tudo ao redor. Os óculos que antes estavam intactos, agora descansavam sobre a mesa ao lado, ainda com os sinais da batalha. O rosto estava pálido, marcado por pequenos curativos, e os cabelos escuros espalhavam-se pelo travesseiro sem qualquer ordem.

Ele parou ao lado da cama.

Por um momento, apenas observou. Tentou gravar cada detalhe, como se temesse esquecer aquela imagem. Não a Sarada que corria à frente em batalha, nem a que discutia estratégias com seriedade excessiva, mas aquela versão silenciosa, vulnerável, que nunca pensara ver.

Boruto estendeu a mão com cuidado e tocou a dela. Estava fria, mas não inerte. O contato foi leve, quase hesitante, como se tivesse medo de perturbá-la. Ainda assim, aquele simples toque pareceu ancorá-lo ali, naquele quarto, naquele instante.

Tudo o que não havia conseguido dizer se acumulou no peito. As palavras vieram tarde demais, e agora não havia voz que pudesse alcançá-la. Restava apenas a presença. Restava ficar.

Boruto permaneceu ali, segurando a mão de Sarada, sentindo o tempo passar de forma estranha, lenta demais e rápida demais ao mesmo tempo. Não fez promessas em voz alta. Não precisava.

Algumas coisas, ele percebeu, não precisavam ser ditas para existirem.

Mitsuki e Konohamaru logo chegaram, colocando as mãos nos ombros do Uzumaki, ambos sentiam que essa missão havia sido desgastante demais para o ninja que outrora estava a sorrir e reclamar do longo trajeto feito. Ficaram algumas horas junto do mesmo, monitorando Sarada, mas logo se retiraram para descansar, pois o dia seguinte seria corrido.

– Você vem – perguntou Mitsuki

Boruto negou com a cabeça, passaria a noite ali, à beira do leito de Sarada. Sentia que precisava garantir sua proteção.