Born to Die | Exile

32 Exile | Attachment


Notas iniciais
OI, AMIGOS! Tudo bem com vocês? Como foi de virada de ano? Eu espero que tenha sido incrível. Hoje temos aqui um novo capítulo de Exile com reviravoltas, o retorno de DOIS personagens para lá de especiais, uma declaração de amor e... será que vocês conseguem adivinhar quem é o irmão da Willa? Hmmm... Até o próximo capítulo ♥ Confira o meu tumblr com novidades, gifs e fotos sobre Born to Die - http://msbarbiebelcher.tumblr.com/



ATTACHMENT
Arquivo anexo

Antiga Mansão dos Vingadores.

Tony Stark estava na Mansão dos Vingadores por puro masoquismo e talvez, um pouco de saudosismo. Ele tinha alguns assuntos inacabados por ali. Assuntos com o governo. Obrigações por ser o responsável por aquele lugar. E entre as sessões de fisioterapia de Rhodes e Visão morando ali, sozinho, Stark visitava os amigos, para saber se ele podia ser útil em alguma coisa e acabava por se pegar remoendo a culpa pelos últimos meses. O que ele fez errado? Ele... ele sabia bem que uma escolha podia separar pessoas por conta dos seus ideais, mas aquilo tudo, não era sua culpa. Steve foi impulsivo. Natasha foi uma traidora. Wanda foi mimada. Sam era um pau mandado. Barton não deveria ter deixado a sua família pela causa. Ele nem sabia o que dizer sobre o tal cara que ficava pequeno e Willa o decepcionou. Ele sabia que entre ele e Steve ela escolheria o Capitão sem pestanejar, mas... ele não conseguia deixar de sentir-se traído pela ninja. Ele acreditava que eles tinham uma amizade. Se enganara ou ela tinha um jeito estranho de mostrar.
Ele sentia falta. Essa era a verdade. Ele sentia falta do barulho nos corredores. De Wanda preparando comidas fedidas e típicas de Sokovia. De Natasha e Willa treinando com Steve na academia. De Sam disputando corrida com Rhodes pelos corredores. Das festas, claro. Era só entre eles, mas eram as melhores. Que o amaldiçoassem, mas ele sentia falta até das missões e olha que nesses últimos tempos, ele não se sentia como antes, preparado para enfrentar qualquer barbudo mal encarado querendo dominar o mundo.
Tinha como tudo voltar a ser como antes? Tinha como aquela sala voltar a ser movimentada e barulhenta e feliz?

Na sala de conferência, Tony conferia alguns documentos. Sem os vingadores e ele mesmo incapaz de fazer muito pelo mundo, Tony buscava meios fáceis, de longo prazo e duradouros para manter a terra vigiada. Ele sabia que Nova York tinha o Peter e alguns perrapados de olho na ruas. Los Angeles também não estava desprotegidas, desde que surgira aquele cara de cabeça flamejante e a garota das sombras, mas e o resto? Ele não conseguiria dormir tranquilo a noite (coisa que ele naturalmente não fazia a anos) se não conseguisse certificar disso. Analisou algumas anotações sobre rotas espaciais, satélites, alertas, tempo de demora de aviso entre um satélite e um aparelho telefônico na Terra, como os satélites foram afetados com a chegada de Chitauri. Tudo estava ok. Quando ele deu por si... Era fim de tarde. Ele suspirou. Não sabia dizer se foi por alivio ou desconforto. Ele queria um problema, ele sentia falta de um problema, ele precisava de um problema.

Então, quando a campainha do sistema de voz tocou, e a voz de FRIDAY, anunciou a chegada de um visitante inesperado exigindo conversar com Tony, ele sorriu, tentando esconder a ansiedade sufocante com o seu ego inflado.

— Quem é a essa hora? — Tony questionou ao sistema de inteligência artificial e ele não teve resposta. Ele abandonou os dados que conferia em uma das dez telas de LED. Subitamente encontrou-se questionando como esse visitante sabia onde ele estava, quando ele não informava a ninguém do seu paradeiro quando ele ia para ali. Para a pessoa se dispor, ir ali no fim do mundo, para falar com ele, só podia ser algo urgente ou o seu assassinato. Ele levantou o torso, preocupado. E ele não era o único.

— Ele está aqui — disse Visão cruzando a parede com sua magnânimidade, sem receber um olhar de espanto de Stark. Ele arqueou as sobrancelhas, buscando entender o mistério por trás das suas palavras. — O General Ross.

— Sem reunião marcada? — Tony que cruzava a sala na direção da tela de segurança, apertou alguns botões, analisando por ângulos diferentes a chegada do General acompanhado de um soldado, no entanto, seguia sozinho pelos corredores da Mansão, a caminho da sala de conferencia. Isso não era bom. Isso não era nada bom. Ele encontrara alguém? Queria interrogar Tony, Visão para poder ir a fundo em alguma pista?

— Senhor Stark, o senhor acredita que é algo sobre a Senhorita Maximoff? — Visão questionou com o seu olhar vacilando com uma mescla de preocupação e temor. Notando que Stark manteve-se em silêncio e perdido em sua mente, o androide aproximou-se. — Senhor, está tudo bem? Está tendo um princípio de crise de ansiedade?

Tony respirou fundo contendo o que podia ser uma possível crise ou o que podia ser considerado medo de encarar a verdade ao dizer a Visão que suas ações, podem ter colocado Wanda na mira do General. Deu um tapinha na mesa, arrumou as mangas da camisa e vestiu o seu paletó com facilidade de quem faz isso com frequência, apontando para o General na tela.

— Eu vou ao encontro dele, ouvir o que diabos ele quer de mim e você fique fora das nossas vistas. — Ele arrumou a lapela e respirou fundo, recebendo um olhar duvidoso do androide.

— Não acredito que essa seja uma escolha prudente, Senhor Stark-

— Ele só viria atrás de mim, inclusive aqui, sem me comunicar previamente, se algo muito importante acontecesse, algo que ele deseje esfregar na minha cara para cantar vitória e o ego pequeno dele. Eu não acredito que a Wanda corra riscos... — Visão deixou seus ombros caírem em alivio. — Mas, não posso pensar o mesmo de Steve.

— Seja prudente.

— Ser prudente é o meu nome do meio.

Tony assentiu e resolveu encontrar o General na metade do caminho, na intenção de recepcioná-lo apropriadamente, como cavalheiros. Encontrou ele na metade do caminho, arrumou a lateral do paletó e apontou para ele acompanha-lo a entrar na sala de reunião com muito espaço e uma mesa longa. Ofereceu a cadeira, mas o General negou negando com a mão livre. Ele não estava ali para bater um papo. Entregou nas mãos de Tony dois arquivos cheios de folhas e muito pesado. Sem cordialidades, Stark abriu o primeiro arquivo esperando encontrar todos os seus delitos, mas acabou encontrar uma foto 16x4 de Willa Fairchild, presa a um grampo. Logo abaixo tinha uma outra foto de uma pré-adolescente com características semelhantes a ela, uma imagem típicas para fazer identidades e passaportes. Tony virou a foto, encontrando o carimbo governamental. E por fim, uma última foto, a mesma menina, no que deveria ser os seus dez anos, abraçada a uma menino um pouco menor do que ela, com traços semelhantes acompanhados de uma mulher de cabelos curtos e castanhos e um homem de cabelos loiros escuros e olhos grandes e azuis. Tony precisou sentar depois disso.

Não podia ser...

Uma certidão de nascimento ganhou a atenção de Stark. Aquelas informações, aqueles dados. Em uma primeira olhada parecia loucura, um enredo de um livro de suspense mal escrito, mas em uma segunda olhada ainda mais conferindo aquela foto de família, tudo fazia sentido. Tony precisou repousar os arquivos para pateticamente não derruba-los no chão. Sem se abalar com o emocional frágil de Stark, o General mudou o peso de um pé a outro com a mão repousada diante do seu corpo comprimindo um sorriso quase maligno.

— O que você sabe sobre a senhorita renascida dos mortos? — Ele soou debochado, ao ponto de revirar o estômago de Tony. Ela sabia daquilo? Ela tinha conhecimento de suas origens? Ela não tinha a menor ideia daquilo.

— Você pode não acreditar em mim, mas eu nunca tive acesso a essas informações antes. — E se ele tivesse certamente não dividiria com Ross, antes de falar com Willa. Quer dizer, Riddle... — Isso é verdade? Ela é filha dos...?

— Não importa quem ela é. Senhor Stark, o senhor não está se atendo ao meu problema aqui — Ele apontou o indicador para a foto atual de Willa. — Ela é um problema.

— Eu pensava que todos os vingadores fossem. — Tony debochou, arqueando as sobrancelhas e mexendo no conteúdo do arquivo, buscando por mais informações.

— Os ex vingadores são minha prioridade máxima, Stark. — Tony assentiu, conhecia aquela ladainha. Passou a mão na barba, lendo alguns detalhes sobre a infância de Willa e tentando guardar o máximo de informação que seu cérebro podia comportar para caso o General arrancasse aqueles arquivos de sua mão e ele não pudesse verificar cada informação escrita ali. — Mas ela se tornou o minha prioridade depois do meu último interrogatório com Helmut Zemo.

Tony uniu as sobrancelhas, olhando o General com uma interrogação em sua face.

— Você me perdeu aqui. O que o Zemo tem haver com Riddle, Willa e qualquer outro nome que ela possa ter usado nos últimos 20 anos?

— Supostamente? Eles se conhecem, conheceram, e ao que tudo indica eram aliados durante essa baderna toda. — Tony pestanejou por vezes demais para um ser humano, olhando o General totalmente bestificado. O que ele estava aprontando agora? Inventar mentiras para jogar na mídia e sujar os nomes de cada um deles? — Eu estou investigando a fundo essa informação, mas como você mesmo viu no arquivo, a história da Senhorita Riddle é muito mais clara do que ela nos permitiu ver nesses últimos anos...

— Foi ótimo você retomar a isso... Como você conseguiu essa informação?

— Favores de uma velha amiga que vive nesse mundo e em outros. — Cada doido acreditava nas suas doideiras, Tony pensou. — Eu preciso de ajuda aqui, Anthony. O que você sabe sobre a renascida?

— Você está a cegas. — Stark comprimiu um sorriso cheio de si. Era por isso que ele estava ali. Não era para se gabar. Ele jogou aquele arquivo em suas mãos, por desconfiar que ele desconhecia seu conteúdo e isso o deixaria um passo a frente do bilionário, mas no fundo, bem no fundo, ele não tinha nada. Só um bando de papel.

— Everett está me vigiando feito uma águia. — Ross esbravejou repousando as mãos na cintura. — Se eu não entregar a ele um relatório com respostas ligando essa mulher com esse criminoso, ele é capaz de cometer uma loucura, Stark. Ele quer ter razão a qualquer custo. — Tony abaixou o seu olhar, pensando em como Willa se meteu nessa e como ele podia ajudá-la. — E eu estou falando aqui de tortura para esse Zemo, eu estou falando de Everett acionar as autoridades e mandar um mandato de prisão para a tal amiga da Fairchild, aquela Jessica alguma coisa.

— Ela é uma civil. — Tony ficou estarrecido.

— Everett quer respostas e para consegui-las, ele não está colocando dois pesos e uma medida. Se ele tiver que prender você para conseguir o que precisa, ele o fará. Se ele tiver que revirar o inferno pessoalmente, ele o fará.

— Eu acredito que da minha parte, o seu relatório ficará sem respostas. — Ele fechou o arquivo, trocando um olhar singelo com Ross. — Eu vou esperar a ordem de prisão.

— Sua arrogância pode ser um charme no início, Stark, mas no final, soará como um homem velho e cansado tentando reconquistar a atenção que um dia lhe foi concedida. — Stark não fez nada mais do que inclinar a cabeça e aceitar o conselho. — Pensa nisso. Você pode ter o benefício da dúvida dos meus superiores por conta das suas máquinas geniosas e a sua inteligência, mas para alguns, inclusive, os seus amiguinhos ex vingadores, você é só um vendido.

Stark negou com a cabeça, levantando-se da cadeira e arrumando o paletó. Ele não ia cutucar a onça com vara curta. Empurrou o arquivo para Everett e ele gesticulou com a mão.

— Não. Fique. Como uma lembrança da nossa conversa e um aviso do que está por vir. — Ele começou a caminhar para deixar a sala, mas parou e olhou para ele. — Ah, e eu não estava blefando, nós podemos ter os nossos acordos, mas se eu descobrir que você sabia sobre o envolvimento da Riddle com o Helmut Zemo, você será o primeiro a visitar a minha sala de interrogação.

Tony acompanhou Everett deixar a sala e abaixou o seu olhar para os arquivos, até que de soslaio, ele o viu desaparecer no corredor. Pegou o celular e abriu a tela holográfica, largando ela na mesa e expandindo, buscando pelas câmeras de segurança do seu sistema. Everett caminhava com pressa para a saída e falava em seu celular.

— FRIDAY, identifique com quem o General está falando.

Visão entrou na sala, parando diante de Stark, conferindo a pasta sobre a mesa com um inclinar de curiosidade com sua cabeça.

— Sinto muito, senhor, mas a ligação está bloqueada. — O sistema de inteligência artificial respondeu e Tony bufou, pensativo.

— Consegue algo? — Ele trocou um olhar com Visão, apontando para o General caminhando agora no corredor da entrada principal.

— Não. — Após concentrar-se por alguns segundos. — Há uma interferência. Eu sinto muito, senhor.

— Ao menos ele está indo embora. — Tony distanciou-se da mesa, tirando o blazer. Visão manteve-se concentrado nos movimentos de Everett. Com um olhar temeroso, Tony pegou os arquivos e abriu os dois sobre a mesa, analisando as fotos de Willa /Riddle e pegou por fim, a sua certidão de nascimento com um olhar pesaroso. Na outra pasta Visão conferiu uma foto de Helmut Zemo como civil e a outra como o bandido encarcerado que foi acusado. Havia muito mais sobre ele ali, mas Tony impediu Visão de aprofundar-se ao encontrar um envelope com um DVD dentro. Ele tirou ali e colocou no aparelho da sala.

A tela ficou preta e um chiado irrompeu. Logo, surgiu a imagem de um homem acorrentado com os cabelos castanhos bagunçados e barba para fazer. Ele estava um pouco mais magro da última vez que Tony lembrava de tê-lo visto, mas mantinha aquele olhar superior desconcertante em homens como Stark. Ele conhecia aquele olhar. Era de autoridade, era de reconhecimento, era de certeza. O ângulo da câmera mudou, mostrando Everett entrando na sala e sentando diante dele, sem arquivos, sem blocos, apenas ele. Helmut Zemo não moveu nem um centímetro de seu corpo.

— Eu quero deixar bem claro que eu estou farto. — Everett revelou batucando o indicador arqueando as suas sobrancelhas com deboche. — Em outro momento da minha vida, eu acharia isso instigante. Um bandido que não fala dos seus crimes. Um joguinho de mentes. Vencer você no seu próprio jogo.— Helmut piscou os olhos, inalterável. — Mas, aqui está a verdade: eu estou velho, Zemo. Velho, farto de caras como você, com egos grandes demais e uma coragem fora da caixinha de achar que você podia fazer tudo isso e sair em pune. O seu silêncio no início era compreensível. Então se tornou um problema. E agora eu tenho certeza que você ainda está jogando o seu joguinho. Isso tudo é uma encenação, é uma brincadeira para você. Então, retomando, eu estou farto. Cansado de sentar em uma sala fechada, buscando entender essa sua cabeça doentia, então me diga: o que você quer? Sair daqui? Viver exilado em uma ilha?

— O que você quer dizer? — O sokoviano questionou, incerto das intenções do homem.

— Então você tem uma voz! Pensei que tinha perdido. — Helmut manteve seu olhar incisivo sobre ele. — O que você acha que significa? Eu estou te oferecendo uma moeda de troca. Você me diz tudo, como chegamos aqui e iremos fornecer a você o que desejar.

— O que eu quero você não pode me dar.

— Me tente. — Everett sorriu.

— Eu quero ver a Riddle.

— Riddle? — Everett negou com a cabeça, confuso. — Quem é Riddle?

— Você conhece ela como Willa Fairchild. Traga ela aqui e eu falarei tudo. — Ross empertigou com uma faísca de empolgação em seu olhar e Zemo comprimiu um sorriso satisfeito. — Com ela. — Isso foi o bastante para a besta queimar na feição dele

— Você realmente acha que eu vou permitir que você seja interrogado por uma criminosa?

Três batidas ecoaram na sala e Ross crispou os lábios, levantando da cadeira arrumando o paletó recebendo um olhar milimetricamente moldado por Helmut. Ele não só faria isso, como conseguiria muito mais.

— É o seu funeral. — Ele debochou comprimindo um sorriso. Se Everett pudesse, colocaria ele para tremer com uma boa carga de choque.

Helmut abaixou a sua cabeça, em um claro sinal de que não responderia mais nada dali por diante, retornando ao seu estado meditativo.

Ross respirou pesado marchando para fora da sala.

Poucos milésimos passaram e Helmut olhou diretamente para a câmera de segurança na extremidade da sala e comprimiu um sorriso. A tela ficou preta.

— Sr. Stark, o que esse homem quer com a Senhorita Fairchild? — Visão questionou. Talvez o General tenha falado sobre isso com o bilionário.

— Eu não tenho a menor ideia — Tony negou com a cabeça, aflito pela incerteza. — E isso é um problema.

— Alguma ideia de como solucionar isso, senhor?

Tony podia optar por recolher-se a sua insignificância e acompanhar a distância o desenrolar dos eventos. Ross queria isso. Queria que ele tomasse uma atitude, só para ter algo para acusar ele e como ele prometeu, garantir algumas horas para interrogar Tony e quem sabe até levar para um júri. Era mídia, era dinheiro, era poder. Ele podia muito bem acreditar que aquilo era um truque de Ross. Aquilo tudo podia ser só uma história de reencontro familiar, bem emocionalmente para comover a ele e quem sabe a mídia, se isso vazasse. Mas, e se fosse verdade? Ele iria querer estar em qual lado nessa história?

— Para começar, precisamos encontrar Willa e conversar com ela sobre suas origens. — Tony refletiu e deixou as palavras abandonarem os seus lábios com o cenho enrugado. — Vai ser algo bem emocional, eu vou chorar, ela vai chorar, todos choraremos... — Ele disse jocoso, trocou um olhar com Visão e negou com a cabeça. — E depois disso, precisamos falar sobre o Zemo.

— Eu posso me encontrar com Wanda. — Visão ofereceu sua ajuda. — Ela tem contato direto com Willa e pode saber como encontra-la.

— Ótimo, faça isso. — Tony assentiu, apontando o indicador para ele acompanhá-lo e Visão levitou em seus encalços. — Eu vou ler melhor esses papeis, preciso conferir a veracidade dessas informações... E... — Ele parou no corredor, unindo as sobrancelhas, refletindo a sua decisão. — Eu preciso ligar para uma pessoa. Está na hora de arrumarmos a bagunça da nossa casa, Visão.

— Eu achava que tudo estava organizado, Senhor.

Tony nada disse, pensando apenas que chegara a hora de fazer uma prometida ligação a um antigo amigo. Já Visão tentava lembrar onde estava os produtos de limpeza daquela casa. A sala realmente precisava de uma varrida.


Local desconhecido
Motel de estrada.

Willa não tinha sono naquela noite. Pietro tomou um banho e apagou na cama. Quando ela deixou o banheiro, secando os cabelos, ela ligou a televisão no mute e ficou passando de canal em canal lendo as notícias nos headlines e perdia gradativamente o interesse. Distraída, perdeu os minutos penteando os cabelos e admirando o estacionamento externo do hotel fuleiro de estrada. No quarto vizinho, um casal transava e a garota gritava tanto que Willa se questionava como o cara não percebia o fingimento. Willa deveria ao menos tentar descansar ou comer alguma coisa, mas ela não tinha desejo algum. Ela entrara no modo missão. Quando trabalhava para a Casta, ela precisava estar completamente focada na missão entregue a ela, com isso, ela alimentava-se para manter-se em pé, dormia para recuperar suas energias e ajudar na cura de prováveis ferimentos e toda sua concentração era entregue ao trabalho, até ele encontrar-se completo. Uma das suas missões mais duras na Casta foi aprender a controlar o seu sono nesses períodos de missão. Era muito difícil dormir e manter os seus sentidos atentos, uma maestria meditativa que levou quase uma década e hoje em dia, ela estava pronta para guerrilhar com uma horda de ninjas enquanto sonhava com o Idris Elba. A fome também foi uma apredizagem com adornos da meditação e tal proeza era ensinada para situações de tortura e prisão. Willa conseguiu ficar duas semanas sem se alimentar, mas depois disso, ela precisou ir para o soro. E ela mal se dava conta que acabava por abdicar dessas coisas naturalmente, quando a sua mente encontrava-se num vácuo emocional. Ela sorriu, lembrando que Sam era quem lembrava que ela precisava comer alguma coisa, ao menos beliscar uns ameindoins. No fundo, Wilson achava que a qualquer momento a ninja desmaiaria por conta de uma anemia ou inanição.

Ela não conseguia parar de pensar naqueles arquivos sobre a escrivaninha. Aquelas fichas, aquelas fotos, aquelas pesquisas... O quarto de hotel não tinha um aparelho de DVD, para a sua decepção. Ela tinha três DVDs provavelmente recheados de arquivos e prováveis imagens que poderiam responder as perguntas inundando a sua consciência. Ela poderia comprar um aparelho em alguma dessas lojas de departamento que, eles cruzaram numa cidade próxima, mas ela não queria mexer em seu cartão de créditos (fraudado) tão perto do esconderijo de Steve. Ela não sabia onde ele estava agora e nem se ele retornaria, então, era melhor não colocar o seu esconderijo em risco.
Willa fechou os olhos, sentindo um nó corroer a sua garganta. Ela não suportava mais viver em um fio. Esses últimos meses vivendo as escondidas, foi uma benção. Ela estava entre os seus, na Casta, com Pietro como companhia, recebendo notícias dos outros. Por mais fantasmagórica que aquela segurança fosse, o que ela fez com si foi tapar os olhos para aquilo que hora ou outra explodiria em sua cabeça: o seu passado.

Deixou os seus olhos vagarem no quarto e encontrou Pietro dormindo, em paz e ela ansiou por seu conforto, por suas palavras. Arrastou-se até a cama e deitou atrás de seu corpo envolvendo os seus braços sobre a sua cintura, abraçando ele. Não demorou para Pietro resmungar algo e segurar a sua mão. Ela não dormiu, mas encontrar o calor do corpo dele, o seu cheiro, trouxe a ela uma reafirmação de realidade, de segurança, de amanhã. Ela só precisava disso para conseguir desligar aquele comichão em seu coração. Ela encontraria um jeito, ela encontraria a sua resposta.

Ela perderá um pouco a noção do tempo. Retornou os seus olhos para a televisão em algum momento que o início da noite trazia tons mais escuros para o estacionamento. Um novo noticiário iniciava e trazia uma notícia de última hora: o retorno de Daniel Rand para a cidade de Nova York.

Willa se sentou na cama, atordoada, aumentou o volume da televisão.

"Daniel Rand, 25 anos foi encontrado vagando pelas ruas de Nova York descalço e sem teto. Testemunhas dizem que ele não mostrou em nenhum momento uma atitude violenta, mesmo assim, após um incidente não explicado pelas Empresas Rand, o filho de Wendell Rand foi colocado sob observação em uma clínica psiquiátrica, pelos socios da empresa, Ward e Joy Meechum. As ações das Empresas Rand tiveram queda considerável após o retorno do filho mais jovem do casal Rand. Essa instabilidade deve ser contida pelos acionistas nos próximos dias quando mais detalhes sobre esse retorno de Daniel for dividido com a mídia, inclusive possíveis detalhes envolvendo o falecimento de sua família, também dada como morta no acidente de jatinho para o Himalaias."

— Olha só, eu não sou o único a retornar dos mortos... — Pietro proferiu em um resmungo. Sem resposta, percebeu que Willa olhava para a tela atônita. Ele se sentou, coçando os cabelos bagunçados e repousou sua mão sobre o ombro dela para trazê-la para esse mundo. — Ei, você está aqui?

— Michael... — Ela deixou o nome escapar pelos seus lábios e Pietro notou as lágrimas pesadas escorrendo pelo rosto de Fairchild, um choro pesado e abafado em seus lábios cobertos pela sua mão. Com um gemido de lamurio, ela desabou a chorar e sem saber ao certo o que fazer, Pietro decidiu que primeiro desligaria a televisão, assim afastaria da atenção dela o que tivesse engatilhado nela aquele sentimento. Então, deixou as suas mãos repousarem nos ombros de Willa. De cabeça abaixada, ela tinha a testa apoiada no joelho e ela chorava compulsivamente. Ele não tinha a menor ideia de como ajudá-la. Além do que ele sabia que era bom em fazer. Consola-la.

Pietro a abraçou, aninhando ela em seu corpo protetoramente. Acarinhou seu cabelo, beijou a sua testa, secou suas lágrimas, mesmo que depois, ela retornasse a chorar novamente, e até balançou ela em seus braços, como uma rede para acalmar as suas emoções. E em algum momento, acalmou.

Willa sentia tanta falta de Michael. Era uma falta pulsante. Sua mente que normalmente, era um nó quando ela tentava expurgar alguma memória da sua infância. Mas, era um redemoinho de eventos sem inicio e sem fim, onde ela só sabia que em algum momento, ela comemorou aniversários, viajou para a praia, dançava e tinha amigos. Só que ali, ela lembrou de algo com tamanha clareza que a sua emoção dominou cada partícula do seu corpo. Ela estava em uma casa que ela reconhecia como lar. Era grande, era aconchegante, era ótima para brincar de pique esconde.

“Cadê você?’’ Ela cantarolou, abrindo o armário do corredor e empurrando os casacos para longe, suspirando em desagrado. Seu irmão era bom em se esconder, mas ela era boa em encontrá-lo. Ela vasculhou todo o primeiro andar e não encontrou nenhum sinal dele. Se ele não estava ali, deve ter ido para o segundo andar. E ela tinha uma ideia de onde encontrá-lo. No quarto de seus pais, tinha um armário falso, atrás de uma cômoda. Ele dizia que ali era um bom lugar para se esconder.

Willa era boa em ser silenciosa. Aprendeu tal dom durante os períodos natalinos, para tentar descobrir o que ganharia de natal dos pais, logo, quando brincavam de pique esconde, ela mal era percebida pelo irmão e os amigos. Ela lembra de um deles sempre resmungando que ela roubava. E ela só retrucava que era melhor do que ele. Quando ela chegou na entrada do quarto dos pais, ela ouviu a risada de seu irmão. Ele estava achando que tinha ganho, então ela resolveu brincar com isso. No corredor, ela gritou que estava muito difícil encontrá-lo. Quis tentar deixá-lo despreparado. Correu arrastando os pés e se escondeu atrás da cama. Ela conhecia seu irmão, ela sabia que ele ia deixar o esconderijo e arriscar bater na parede e ele fez. Pé ante pé, deixou o esconderijo, rindo. Willa saltou, gritando boo e o menino quase caiu para trás, tentando manter-se em pé para ainda ter uma chance de correr. As chances diminuíam quando os dois não conseguiam parar de rir. Eles desceram as escadas e cruzaram o caminho da mãe, falando no telefone com algum dos seus sócios. Willa conseguiu alcançar o irmão a tempo, antes dele tocar no ponto de chegada. Segurou ele pela cintura e os dois caíram no tapete, por sorte macio e começaram a rir. A mãe dupla pediu para eles tomarem cuidado e voltou ao escritório, negando com a cabeça. Seus filhos eram duas pestinhas que ela amava demais.

“Um dia eu ainda vou te vencer... E vai ser eu quem vai te achar, maninha” Seu irmão disse buscando o a e se sentando.

“Até lá, vamos brincar de novo? Só que dessa vez, temos que nos esconder só no primeiro andar... Meus joelhos estão cansados de tanto subir essas escadas” Ela resmungou massageando os joelhos.

“Quem mandou ter pressa para nascer...” Ele implicou com a irmã e ela foi mais rápida agarrando ele pela barriga e enchendo-o de cosquinhas.

“Agora você vai ver quem é a mais velha, seu monstrinho!”

O menino gargalhava quase que chorando, enquanto Willa atingia ele nos pontos que o fazia mais rir. Eles eram a imagem da felicidade. Da felicidade que não mais existia.

Willa segurou o braço de Pietro, agarrando o corpo dele em um abraço. Quando seus braços envolveram o seu corpo, ele a sentiu tremer em sua posse. Willa o fitou com a vista avermelhada e olheiras inchadas de tanto chorar, mas foi a ponta do nariz vermelhinho, que fez Pietro mexer com as pontas dos dedos, era quase como se ela tivesse ficado presa do lado de fora de casa, em um dia de nevasca. Ela o beijo, com urgência. Agarrando suas mãos na lateral da sua camisa, na beirada da sua camisa e ele deixou as suas mãos segurarem o rosto dela, com afeto, acarinhando com uma delicadeza e respeito. O corpo dela encontrou encaixe no seu e eles se entregaram ao momento. Pietro tinha esquecido como era bom sentir esse comichão em seu coração, essa ansiedade corroendo as suas emoções, como era bom estar com alguém por gostar daquela pessoa e não por contar em saciar um desejo. Eles passaram por tanta coisa nesses últimos meses. Fugindo, vivendo as escondidas na Casta, brigando por causa da obsessão de Willa em ajudar Bucky, consumindo de ciúme por vê-la tão apaixonada por um cara que escolheu se congelar a viver com ela, quando ele faria de tudo para ser o mundo dela. Então, ele se jogou em casinhos e ela mostrou se importar com ele, talvez, até fosse ciúme, ou uma preocupação amiga, mas isso, fez ele perceber que talvez eles ainda tivessem uma chance, eles só precisavam arriscar contra as probabilidades. Ele precisou vê-la abandonar o caso de Bucky para concentrar-se em desvendar a sua história para entender que esse era o cerne de Willa: ela não sabia se dar em medidas, ela se dava por inteiro. Fosse em uma missão, fosse em uma investigação, fosse um caso, fosse no amor. Willa era tudo ou nada.

Pietro era louco por ela, uma loucura boa que consumia seu coração quando estava com ela, que fazia ele sentir oruglho da mulher que ela era e que sabia que o caminho que ela escolhesse seria o melhor para ela e ele ficaria feliz por ela, mesmo que esse caminho não levasse a ele. Maximoff era convencido, mas se Willa passou anos treinando para ler as pessoas com um olhar, ele viveu isso diariamente nas ruas e por dividir a cama de muitas mulheres ao longo dos anos e ele sabia que dentro dela, ainda queimava aquela paixão que foi arrancada dela tão prematuramente. Essa mesma paixão que quando ele identificava em algum dos seus casinhos, ele escapava pela porta mais próxima e desaparecia, silenciosamente, na história da pessoa. Só que com Willa era diferente. Sempre foi. Se dependesse dele, ele não a deixaria mais, nem pelas mãos da morte, nem por outro motivo. Ele escolhia ficar ao seu lado, como amigo, como parceiro ou como seu amor. E a escolha dela, a escolha dos seus corações definiria os seus caminhos, como hoje definiu.

— Eu não sei o que faria sem você — Ela sussurrou aninhada no tórax nu de Maximoff, o seu pé alisava a perna dele levemente. Ela o sentiu soltar uma risada, afagando as costas nuas dela.

— Você não precisa de mim — Ela negou com a cabeça, apoiando a mão na cabeça para assim olhá-lo melhor.

— Você não tem ideia de como eu preciso — Ela deixou os seus dedos vagarem no rosto do Sokoviano, acarinhando-o. — Você me entende.

— Talvez, mas não para o que você acredita precisar. — Ele ponderou, sorrindo por sentir seu ego acarinhando por suas palavras.

— Você me dá força, Pietro — Ela revelou com emoção.

— Não, eu te dou convicção — Ele proferiu com firmeza. — Eu te dou carinho. — Ele deixou a sua mão vagar até o rosto dela, acarinhando com afetuoso. — Eu te dou amor. — O seu indicador e dedo médio apertaram o queixo redondinho dela, a levando rir. — Eu te dou reafirmação. A força está em você, Willa. — Era piegas, mas era verdade. Essa força, essa selvageria, esse desejo por fazer o certo, queimava no coração e na alma dela, como Willa, como Yanagi, como Riddle. — Essa força estava aí antes de te conhecer e está aqui e agora. Queimando, pedindo para escapar em um grito de liberdade. Não sou eu, Willa, nunca foi, sempre foi você. Na Casta, nos Vingadores, sozinha...

— Eu me sinto tão exausta, tão farta... — Ela suspirou, negando com a cabeça. — Eu queria que uma vez na vida tudo não soasse como a merda de um enigma na minha vida.

— Talvez soe assim por que você seja um enigma. Riddle não significa isso no seu idioma? — Ela assentiu e Pietro empolgou-se, virou mais para ela, sorrindo. — Quando o Stone te deu o nome de Yanagi não foi por ele ver você uma força como a do carvalho? — Ela assentiu, impressionada por Pietro lembrar desses pequenos detalhes sobre a sua vida. — Seus pais te deram o nome lindo de Riddle por ver em você um enigma encantador, desbravor e único a ser desbravado não apenas por eles, como pelas pessoas que em seu caminho cruzasse e você mesma.

— O jeito que você me vê... — ela riu, sentindo as bochechas aquecerem.

— Eu não te vejo, isso que te digo é o que vejo do seu reflexo. — Pietro sorriu deixando seus dedos passarem em uma mecha caída na lateral do seu rosto, colocando atrás de sua orelha. — Quando eu era criança, antes dos ataques acontecerem, eu ouvia minha mãe dizer que ela amava o meu pai com toda a sua suflet, alma, pertencia a ele e meu pai dizia que o amor dele era o reflexo dela, um refletia o outro, entende? Como sem um o outro não fosse capaz de se ver, de ser completo...

— Como uma alma gêmea. — Ela sorriu encantada pelo relato.

— Isso. Era algo deles, sabe, e quando eu ouvia eles falando um com o outro assim, trocando olhares onde eles pareciam trocar palavras, confissões... — Pietro deixou a sua mão acarinhar o rosto dela, levando um tempo maior ao admirar seus lábios, o contorno do seu rosto, as suas sardas e seus olhos. — Eles se amavam tanto. E eu me pegava pensando que se um dia eu me casasse eu não ia querer nada menos do que aquilo que eles tinham.

— Isso é lindo, Pietro. — E ela sentia um pouco de inveja de Pietro. Ele tinha uma história a se agarrar e ela queria ter isso também. Agora, ela podia ter isso. Pietro tinha razão, ela tinha tudo que era necessário para desvendar o enigma que estava por trás do seu passado, por trás dela mesma.

— Sabe o que você precisa, Willa? Além é claro de mais alguns beijos e muitos carinhos... — Ele disse em um riso frouxo, beijando o pescoço dela. — Você precisa respirar fundo e tomar as rédeas disso tudo.

— É o que eu estou pensando. Estou pensando aqui que talvez eu tive essa resposta o tempo todo e eu não me permitia enxergar, por estar com uma venda nos olhos — Ela pensou, refletindo nas suas próximas palavras.

Pietro assentiu.

— Já passou pela sua cabeça que talvez eu tenha entendido o Bucky tão bem porque uma pequena parte de mim estava tentando me avisar que eu e ele temos algo em comum? HYDRA. A Hydra é o meu link com o meu passado.

— Você sentiu isso comigo? Essa conexão? — Depois que ele perguntou, ele se arrependeu de ter deixado as palavras fugirem dos seus lábios, deixando os ombros caíram um pouco.

— Senti, com Wanda também. — Pietro se afastou um pouco surpreso. — Eu não sei como explicar, eu só sei que quando eu te vi, pela primeira vez, andando sobre a neve havia algo no azul dos seus olhos, no que você podia fazer, no que Wanda pode fazer... Na história por trás daquelas paredes que me fez sentir em casa.

— Se você tivesse parado no azul dos meus olhos seria uma bela declaração de amor, mas depois do se sentir em casa naquele lugar, eu estou um pouco aterrorizado.

— Piet... — Ela subiu sobre o corpo dele, encaixando o seu corpo no dele e acarinhando o seu rosto com um sorriso comprimido. — Eu estou com medo disso tudo, mas se eu preciso encarar esse medo para me encontrar, eu vou me afundar nesse terror.

— E eu estou aqui. E nós vamos enfrentar isso. Juntos. — Ele acarinhou o rosto dela, depositando um beijo carinhoso que não demorou a crescer para algo além, um sentimento apaixonado.

— Eu acho que não posso deixar de dizer que você é a melhor coisa na minha vida no meio dessa bagunça.

— Agora sim é uma boa declaração de amor — Ele riu e rodopiou, utilizando a sua agilidade e ficando sobre ela e prendendo as mãos de Willa um pouco acima de suas cabeças, o que a levou a sorrir maliciosa. — Você quer continuar com isso? Não com isso aqui, sua safadinha, mas com essa pesquisa? Sem Steve, sem Sam?

Pietro não diminuía o papel importante dos dois homens na vida de Willa.

— Eu tenho você. — Pietro sorriu, sentindo o seu coração encher de um sentimento que ele, pela primeira vez, não sabia descrever. — Vamos amanhã, eu e você até a casa do agente e vamos conversar com ele.

— Por conversar você quer dizer, meter a porrada nele ate ele começar a falar mandarim e a verdade?

— Eu estava falando no sentido de bater um papo mesmo, mas acho que isso também serve. — Pietro deixou suas mãos envolverem a lateral do corpo dela e deitou do seu lado.

— Willa...

— O que?

— Eu preciso te dizer algo. — Ela o olhou curiosa, pestanejando os seus olhos de um jeito tão adorável que Pietro precisou distanciar os seus pensamentos e beijar os seus lábios, até que eles se distanciaram e ele retornou a sua linha de raciocínio. — Eu sei que tenho sido a pessoa menos interessada em encontrar uma cura para o gatilho na memória do Bucky, mas as coisas mudam de imagem se você estiver no cenário. Eu demorei a me dar conta disso, mas o que é importante para você, é importante para mim. E se você largar isso tudo e o seu foco for salvar ele, eu vou estar do seu lado, mesmo que isso signifique que nós... bom, nós não sejamos mais um nós se ele retornar ao cenário. — Willa aprumou sua postura, unindo as sobrancelhas com surpresa e um pouco de assombro. — Se você quer concentrar todos os seus recursos em descobrir as pontas faltando para conectar a sua vida passada, eu estou contigo. Se eu tiver que parar o mundo para conseguir te devolver uma centelha de memória se quer do seu passado, eu paro, eu volto no tempo, eu até mesmo saio da galáxia se isso for necessário... — Ele abafou uma risada, coçando a nuca. — Tudo muda se você estiver envolvida. O que eu estou tentando dizer é que...

— Eu entendi. Obrigada. — Ela acarinhou o rosto de Maximoff, beijando-o com carinho. Se um dia ela pudesse entregar o seu coração a alguém, seria um privilégio que esse alguém fosse o Pietro. — Eu te faço uma playlist com músicas dos anos 70 se você decidir dar um de Perdido em Marte.

— Vamos torcer pelo melhor, ok? — Pietro gargalhou com satisfação.

— Por você, eu vou tentar.


Cleveland

Eles deixaram o motel no dia seguinte.
Graças à agilidade de Pietro, o quarto ficou sem nenhum traço deles, nem DNA, nem digital, nem mesmo um fio de cabelo. Willa se preocupou em fazer as malas, guardar os documentos da HIDRA na pasta, encher o tanque de gasolina do carro, verificar o mapa para marcar no GPS a rota para Cleveland, comprar comida e bebidas para a viagem, e quando tudo estava pronto, ela pagou a diária em dinheiro.

Foi uma viagem bem longa, mas tranquila. Cada um dirigiu um pouco, curtiam as músicas nos rádios e para se distrair, brincavam de 20 perguntas e eu vejo com os meus olhinhos... E quando perdiam a criatividade, conversavam sobre amenidades.

Chegaram no destino de madrugada. Cruzaram a rua e vislumbraram a rua por alguns segundos, conhecendo o a rua residencial. Willa desligou o carro e trocou um olhar com Pietro, e ele não precisou de palavrar para entender. Sincronizados, eles deixaram o carro. Pietro circulou o carro com sua agilidade e parou ao lado de Willa. Eles sentiram a brisa fria da noite tocar suas peles, a lua iluminou o seu caminho para a casa do ex agente da HIDRA.

Willa estava relaxada, parada no meio da avenida, sentido a noite, suas mãos encontraram conforto dentro do bolso do seu casaco, confortável e com Pietro ao seu lado, ela se sentiu segura para entregar-se aos sons da noite, sem temer surpresas. Ela fechou os olhos e buscou o som da noite.
Era silenciosamente barulhento. Ela escutava o sono instável de um recém-nascido, como também o sono inquieto de algumas crianças, o pesadelo de uma menina, choramingando com medo do escuro e o sonho bem animado de um pré-adolescente. O mais distante que ela captou foi um casal meio bêbado brigando por que, ela descobriu que ele pulou a cerca. Ali perto, um idoso roncava alto e a esposa tricotava resmungando a incapacidade do marido de ser presente. Os cheiros eram distintos e intensos. Alimentos frescos, comidas congeladas, alimentos esquecidos em panelas, estragando vagarosamente, comida ensacada, comida escondida embaixo de cama, cheiro de produto de limpeza e higiênicos misturavam com o ar e causava um pouco de náusea em Willa.
Então, um cheiro destacou-se entre todos, aquele cheiro de podre. Não era lixo. Não era comida estragada. Ela conhecia esse cheiro. Era carne humana em decomposição.

Ela abriu os olhos e encontrou Pietro a admirando, em silêncio e atento. Ela captou algo. Ele assentiu, compreendendo. Ela seguiu para a casa diante deles e ele a acompanhou rente aos seus pés.

— Você está fazendo o que eu penso que está fazendo? — Pietro a assistiu colocar as mãos no bolso de trás dos jeans.

— Não toque em nada sem proteção. — Ela vestiu as luvas e tirou um grampo dos seus cabelos. Abaixou e fez um macete para abrir a porta da frente, recebeu um olhar estranho de Pietro, mas se ela não estava preocupada em acordar alguém, quem era ele para se preocupar. Ela tirou o cartão de crédito fraudado do bolso e passou na lateral da porta. Ela abriu em um estalo e Pietro tossiu pesado, por conta do cheiro, quando se engasgou, Willa parou diante dele com um olhar de alerta. —- E não importa o que você faça, não vomite.

Ela entrou na casa e Pietro a seguiu, buscando a todo custo não respirar. Ele puxou a manga da camisa tapando as digitais e fechou a porta com cuidado. Ela não permitiu que ele acendesse a luz e ele a obedeceu. Ela preferiu acender a lanterna, mesmo que ela não precisasse da claridade para enxergar, Pietro era seu parceiro e ele precisava. A sala era com pouca mobília e muito mal cuidada, muito empoeirada e desorganizada. O ex agente não vivia ali, ele se escondia. Ela mirou o celular a oeste de onde o casal encontrava-se e a luz focou em um homem na casa dos quarenta anos de ponta cabeça amarrado a um suporte, a boca aberta estava infestada de vermes. A pele pálida estava podre e carcomida. Os olhos dele um dia foram azuis, hoje tinham uma película esbranquiçada. Pela rigidez que o seu corpo aparentava, ele estava morto há muitos dias. Pietro chutou o balde de metal, próximo ao corpo e Willa olhou para o conteúdo: água com resquícios avermelhados. O balde que uma encontrara-se cheio, transbordou por excesso e acabou por evaporar em parte. Não precisava pensar muito: aquele homem foi cruelmente torturado. Quem fez aquilo não queria perder tempo e não dispunha de empatia para matar quem estivesse em seu caminho. Pietro encontrou um buraco na parede e aproximou-se, conferindo com atenção e chamou a atenção de Fairchild, com um assovio, mostrando aquele estrago feito por uma marreta pesadinha. Quem fez aquilo com aquele homem procurava por algo especifico e a dupla não duvidou que a pessoa conseguiu.

—O que será que tinha aí?

Willa não sabia dizer, mas boa coisa não era. Ela mirou a lanterna para o chão, encontrando o reboco da parede despedaçado. Acompanhou o caminho pelo chão e encontrou os pés de uma mesa de jantar e sobre ela, algumas caixas de papelões e uma caixa metálica em um tom verde musgo reconhecido por ela em uma só olhada, ela respirou fundo, sabendo o que encontraria na parte frontal: o emblema da HYDRA.

— Só podia ser. — Pietro resmungou. — Tem muita coisa aí, será que quem fez isso, procurava algo especifico?

— Bom, parece um arquivário, similar ao que Stone me deu. Tem pastas, DVDS, exames, mas eu não vejo um caderno aqui... — Ela foi apontando para cada item e acabou por pegar uma pasta, conferindo alguns papeis que em inglês descreviam algumas bases da HYDRA na Alemanha e Sibéria. — Eu acho que achei algo aqui. — Pietro aproximou-se dela, conferindo o que ela lia sobre o seu ombro. — Essa base na Sibéria é aonde o Bucky viveu por nas últimas décadas...

— E onde aqueles outros soldados estavam adormecidos, até serem mortos. — Willa uniu as sobrancelhas conectando as pontas soltas daquele caso. A tortura acometida naquele homem era tipicamente militar. Quem foi ali, sabia bem o que buscava, já que não se importou em deixar tudo aquilo para trás. Ele queria só uma coisa. O caderno que continha não apenas as informações sobre a Sibéria, como de cada caso guardado lá, inclusive os detalhes sobre o projeto principal daquela base

— Por Zemo. — Pietro a olhou, curioso. — Ele buscava o número do arquivo da missão 16 de Dezembro de 1991. O caderno que eu tenho, tem todos os detalhes sobre as missões, onde estão arquivos e os trabalhos de pesquisa de cada base. Se esse cara escapou da base da Sibéria e tornou-se um fugitivo da HYDRA, ele deve ter pego todos os documentos de suma importância da base...

— E esse caderno continha tudo e mais um pouco para acabar com a vida de muita gente. Zemo sabia disso, ele só precisou encontrar o agente certo para conseguir a informação da boca dele...

— E tem mais, os gatilhos do Bucky. Ele me disse que Zemo tinha o caderno onde elas estavam anotadas. Era esse caderno. Zemo tem as palavras que engatilham o Bucky.

— Você quis dizer o General Ross. — Pietro lembrou e Willa mordiscou os lábios, mas não reprimiu suas emoções.

— Que merda! — Willa largou os arquivos na mesa e passou as mãos nos cabelos, apoiando o corpo na base da mesa. Eles conseguiram tanto ali. Eles conseguiram revisitar os passos de Zemo e até conseguiram novos documentos que, ajudariam em sua pesquisa sobre o seu tempo, mas ao mesmo tempo, eles deixaram tanto escapulir, por não estarem na hora do jogo. Só de pensar nas coisas que o Ross poderia fazer com aquele caderno em suas posses...

— Willa, tem algumas fitas VHS... — Pietro não estava mais ao seu lado. Ela o encontrou tirando as fitas da caixa verde musgo e empilhando uma atrás da outra sobre a mesa.

— Vamos pegar tudo e levar conosco. — Willa não queria ficar muito mais ali. Em outra situação, ela enterraria aquele homem torturado, mas havia um comichão em seu coração, muito similar a rancor que a impediu disso.

— Não é isso... As fitas, todas tem o seu nome. — Ele estendeu para ela uma das fitas. Willa virou e encontrou escrito no adesivo RIDDLE #9.

— Eu vi um aparelho na sala...

Rapidamente Pietro se adiantou. Ligou a televisão e colocou a primeira fita no alcance das suas mãos. Willa se sentou na beirada do sofá, olhando rapidamente para a luminosidade do aparelho refletida na janela. Eles precisavam ser rápidos, antes de chamar a atenção de algum vizinho noturno. A fita chiou e chiou até que a tela foi dominada por listras e uma imagem em preto e branco surgiu em um estalo: uma sala médica. Pietro sentou ao lado de Willa, com o controle remoto nas mãos e os cotovelos apoiados nas coxas.

Uma paciente estava deitada em uma cama, parecia muito jovem para viver nessa situação. Ela tinha tubos em seus braços. O que parecia ser um aparelho cardíaco e pulmonar ligados a ela e não demorou para médicos surgirem na sua volta fazendo anotações e verificando o seu estado clinico. Pietro bateu no canto da tela chamando a atenção de Willa para a frase em negrito ali: Laboratório 7. R.R. 02 de Fevereiro de 2003. Progressivamente, os dias se passavam na gravação e a paciente não demonstravam evoluções drásticas. Até que um dia o aparelho pulmonar foi retirado dela e duas hastes de medicamento foram levados embora. Ela estava se recuperando. O gesso na perna também foi retirado dois dias depois e em sequencia, o do braço também. Mais dias passaram. Era abril e a paciente acordou. Isso trouxe uma movimentação intensa e fora do padrão para o laboratório. A tela de repente, ficou preta. Quando a imagem retornou havia passado algumas horas do dia reportado na gravação, a paciente R.R estava sentada na cama, sorria com cuidado e comia de uma mistura em uma cumbuca sob o olhar atento de um homem de cabelos escuros até o ombro, vestindo uma farda negra. A sua tensão era presente em seus ombros pesados e ele observava a garotinha como um leão protetor. Um homem de sobretudo e suéter entrou no laboratório acompanhado de dois agentes e ele parou ao lado da cama da jovem, sentando na beirada e...

— Eles estão conversando? — Pietro estranhou trocando um olhar incerto com Willa. — Quer dizer, vocês...

— Parece. Eu não lembro de nada disso... Como eu cheguei nesse laboratório, nesse estado? Quando criança??? — Ela negou com a cabeça, pegando o controle e aumentando o som ao máximo. — Não adianta. Não tem som algum. É gravação de segurança. Por que... Porque eles se prestariam a gravar cada segundo do meu dia? Eu era uma criança inofensiva...

— Talvez eles não temessem você, talvez eles estivessem te protegendo.

Willa uniou as sobrancelhas, refletindo as palavras de Pietro. Por que eles iriam querer protegê-la, naquela idade?

No vídeo, o homem virou e a câmera conseguiu pegar bem os seus traços, Willa semicerrou os olhos analisando o semblante dele. Era tão difícil com todo aquele pixel péssimo de gravação antiga. 2003 era uma época com uma qualidade boa em fotografia e vídeo. Usar aquele tipo de material era estratégico ou econômico. Ou mais fácil de descartar e deteriorar com o tempo — uma tática típica da HYDRA. Na imagem, Willa conseguiu destacar alguns pontos do homem: ele era alto de rosto arredondado e cabelos penteados para trás. Ele tinha uma postura perfeita de quem não poderia mostrar um defeito e até o jeito dele repousar as mãos sobre o ombro de Willa parecia milimetricamente pensado. A garota riu no vídeo e Willa sentiu um arrepio em sua espinha. Era uma risada tão genuína, tão sincera. Ela não tinha medo daquele homem, daquele lugar, daquela situação.

E não era só isso... Havia uma segunda presença ali que enebriou os sentidos de Willa. O homem olhou por sobre o ombro e gesticulou de forma grosseira para o soldado concentrado e firme em sua postura. Ele trocou um olhar com a pequena Riddle e ela sorriu para ele, acenando com animação. O soldado apenas assentiu, distante e seguiu. Ele deferiu um olhar para o homem em posição acima dele e assentiu, concordando com o seu pedido. O homem de olhar duro e inexpressivo concentrou-se no que havia adiante de si e deixou seus olhos vagarem até a câmera de segurança. Aquele filme podia estar pontilhado, com uma péssima qualidade de pixel, mas Willa conheceria o contorno daquele rosto, a envergadura daquele nariz, o olhar profundo acinzentado, a dureza da vida em sua expressão, a proporção do seu tórax, o seu braço metálico e o segredo de sua vida por trás do seu olhar inexpressivo escondendo a sua vida em camadas, ela conheceria aquele soldado em qualquer ângulo, forma, desenho, imagem, circunstância, existência.

— Bucky.

Notas finais
Olha só quem está de volta! ♥