Notas iniciais
Hey pessoal! Obrigada por terem acompanhado Born to Die! A Lu normalmente faz as notas e eu sou péssima nisso, mas peço desculpas pela demora para postar e digo que nos sentimos muito felizes pelos reviews e acompanhamentos, vocês são awesome! Nice Holidays para vocês ♥

Louis adentrou o grande portão de ferro batido. Enquanto enfiava as botas na neve rala e branca que cobria o caminho até a porta principal, não deixava de notar a maneira quase artesanal em que o gradil se desenhava em pequenas curvas que contribuíam para uma figura espiralada de uma floresta. Ás arvores sem folhas e o jardim branco sem flores o agradavam mais que grama fresca e margaridas. Talvez fosse aquele velho senso de familiaridade ou aquela habitual ansiedade de estar com aqueles com quem compartilhara tanto que o fazia apreciar o inverno.

Quando tocou a campainha, Rose abriu a porta com o maior dos sorrisos enquanto Scorpius carregava uma bandeja de aperitivos para a sala de estar. James e Abbie estavam aconchegados no tapete, Roxanne e John dividiam uma poltrona, ela acomodada no assento e ele sentado no braço. Izzie e Al ocupavam a outra extremidade do tapete enquanto o sofá estava vazio, embora anteriormente estivesse sendo utilizado por Rose e Scorpius.

A sala de estar era o único cômodo finalizado no sobrado de Rose e Scorpius. Quando decidiram que era hora de morarem juntos – mais ou menos três anos após o fim da escola – juntaram suas economias, salários modestos e compraram o sobrado mais velho da vizinhança porque Rose se apaixonou pelos portões e grades.

Ela lembrava-se com um sorriso no rosto e um quê de irritação da voz de James dizendo na época: “isso está caindo aos pedaços”. Rose gostava de como cada cômodo em construção e reforma da casa tinha um pedaço dos dois e também dos amigos que apareciam para ajudar até mesmo sem serem convidados – no caso de James.

Todos tinham coisas a compartilhar naquele quinto janeiro consecutivo, Louis podia ver a ansiedade em seus olhos. Pela primeira vez em cinco anos, também carregava boas notícias. Mal conseguia disfarçar as olhadelas furtivas para o relógio.

– Zurique. – Roxanne respondeu a Rose com a voz mais aguda que o de costume e os dentes expostos. – Vamos fazer parte de uma equipe de pesquisadores, nada muito glamouroso ainda, afinal somos os novatos.

– Que ótima notícia! – Izzie disse com simpatia enquanto James perguntava quando seria a festa de despedida e quem estava responsável pelas bebidas.

– Vamos mês que vem ainda, James. – John disse pacientemente enquanto Al girava os olhos. Abbie estava rindo de como a voz de Isobel também atingia um tom diferente quando ela se esforçava para ser simpática e menos antissocial ou bicho-do-mato.

Izzie estava feliz pelos dois. Estava ainda mais feliz por não precisar recorrer ao subterfúgio de repassar passagens de seus livros favoritos mentalmente para escapar das interações sociais. Acontecia às vezes, não podia negar, principalmente quando era Abbie dando voltas até chegar ao assunto em que gostaria de tocar ou seu namorado falando sobre teorias mirabolantes nos filmes que assistia.

Tinha algo especial naqueles encontros que permitia que sua mente vagasse e ainda assim estivesse ali, talvez fosse a cara de felicidade de todos. Não aquela felicidade arrogante que a fazia querer arrancar o sorriso da cara das pessoas e socar-lhe os olhos. Era camaradagem.

– Consegui um emprego no ministério. – Ela sorriu triunfante quando percebeu que a conversa se tornou paralela. Não por querer chamar atenção para si mesma. Odiava atenção. Mas por ser uma das raras ocasiões em que estava orgulhosa de si.

– Você já não trabalhava lá? – Scorpius perguntou, após secar os lábios com guardanapos. Era maravilhoso o contraste dos amigos: Scorpius usava guardanapos e James enfiava sanduíches na boca já cheia apenas para fazer o sorriso de Rose se transformar em um olhar de reprovação.

– Eu era estagiária. – Isobel explicou, com as maçãs do rosto coradas e os olhos brilhantes. – a Sra. Weasley requisitou meus serviços e me ofereceu uma posição melhor.

– Sendo assim, gostaria de anunciar que arranjamos um apartamento bonito com vista para o parque e espaço para gatos. – Al falou, segurando a mão da namorada delicadamente. Al tinha um daqueles sorrisos que a faziam perder o fôlego, do mais tímido ao mais triunfante como aquele que fazia seus olhos verdes diminuírem um tanto. – Vamos precisar de ajuda na mudança.

– Tenho um compromisso. – James fez uma careta e encolheu os ombros.

– Claro. – Al girou os olhos.

– Ficaremos felizes em ajudar. – James se consertou abraçando Abbie pelos ombros.

– Odeio esse tipo de casal que fala no plural. – Foi a vez dela de girar os olhos. – “Nós te ajudaremos”, “nós gostamos de quiche”, “nós queremos muitos presentes”, “nós vamos nos casar”.

– James te pediu em casamento? – Rose perguntou surpresa.

– Você aceitou? – Scorpius perguntou ainda mais surpreso.

– Vocês estão tão crescidos! – Louis comentou surpreso, puxando a mão de Abbie para ver o anel.

– Coisa de gente adulta sem noção com certeza! – Abigail falou de olhos arregalados.

Izzie apontou como os olhos delas eram do mesmo tamanho enquanto Abbie negava. Todos ficaram se parabenizando e compartilhando felicidades. E ao pensar que na mesma data anos atrás compartilhavam tristezas, vícios e medos... Era quase poética a maneira como todos cresceram e se tornaram genuinamente felizes.

Quase fantasioso se não fosse levado em consideração os primeiros janeiros em que Scorpius dormira no sofá de James por querer andar com as próprias pernas e não voltar para casa, ou quando Chewie quase morreu por causa de um vizinho ridículo que não gostava de seu miado e resolveu envenená-lo, ou quando Rose pegou todo o dinheiro de sua poupança e resolveu abrir seu próprio laboratório de poções farmacêuticas – ainda que Abbie gostasse de dizer que esses eram problemas de classe média, já que ela ainda estava pagando os empréstimos da faculdade. Nos primeiros janeiros, Louis pensou que não poderia amar novamente, por mais comum que seja o sentimento após uma grande perda. Ninguém jamais seria como Ethan Morrison.

Entretanto, estava feliz que naquele janeiro as coisas pudessem ser diferentes. O timing era na verdade quase perfeito, Louis pensou, enquanto levantava-se para abrir a porta. As pessoas olhavam anéis de diamante e ofereciam um ótimo design de interiores que conheciam e que era bem baratinho, combinavam idas ao pub, ao que Lou apenas concordava com a cabeça – James sempre insistia que Louis e Al o acompanhassem, já que Scorpius era chato, de acordo com ele.

Quando abrira a porta fora inevitável sorrir.

Estava tão frio que se sentira mal só em tê-lo feito sair de casa e encontra-lo ali. Na verdade, ele que insistira em aparecer, por isso se agasalhou até o pescoço e se esforçou em encontrar seu caminho por entre a vila de casa parecidas e a ponta rosada de seu nariz indicava que estava procurando há um tempo – aquele não era um dos dias mais gélidos, mas o rapaz jamais se acostumaria com aquele clima frio e úmido da Inglaterra.

Louis tirou-lhe o casaco e aproveitou para aquecê-lo em um abraço aliviado e satisfeito.

– Eu demorei tanto assim? – Sussurrou ao ouvido de Louis.

– Só estou feliz em te ver. – Disse, ainda sem perceber todos os olhares as suas costas e o súbito silêncio.

– Nós também estamos felizes em vê-lo. – James sorriu. Era como uma daquelas crianças curiosas, que fica balançando os ombros com uma voz débil repetindo “Louis tem um namorado, Louis tem um namoraaaa-do”. Ele não estava externalizando, mas Scorpius tinha certeza de que era isso que se passava na cabeça do amigo. – Quem é o rapaz garboso?

– Pessoal, este é Raphael, meu namorado. – Louis o apresentou, fazendo Abbie deixar escapar algo que parecia um guincho de alegria. – Raphael, esses são Roxanne e John, Abigail e James, Rose, Scorpius, Al e Izzie você já conhece.

– Muito prazer em conhece-los e em revê-la, Izzie. – Rose achou bonitinha a maneira como Raphael enrolava o “r” e falava de maneira quase musical. Seu sotaque espanhol combinava com seu rosto bronzeado e seu sorriso branco, que contrastava com os cabelos negros e olhos de mesma cor. – Louis fala muito de vocês.

Quando Louis via Alvo e Izzie de mãos dadas falando em seu apartamento numa zona menos agitada da cidade que permitiria a presença do gato gordo e idoso Chewie e da recém-adquirida Rey, James e Abigail em sua velha forma de implicância mútua reclamando sobre empregos e planejando um futuro que envolvia uma volta ao mundo e um casamento no Chile, ou Rose e Scorpius sempre abraçados girando os olhos para qualquer ideia mirabolante do amigo, John e Roxanne falando sobre a beleza das estrelas e o tanto que ainda há a se descobrir, se sentia mais à vontade para apresenta-los a Raphael. Ao notar que o namorado já se misturava, mesmo que timidamente e aceitava bebidas e petiscos enquanto falava sobre a Espanha e como conhecera Louis na Itália, nas férias de verão, sentira-se como se fizesse parte de uma figura completa. Um belo quadro, uma obra de arte finalizada e prazerosa de se admirar.

Lou lembrava-se com carinho que Scorpius lhe dissera certa vez que ele merecia que o mundo soubesse que era amado e que amava alguém, não só porque tinha esse direito, mas porque o mundo deveria ver coisas bonitas para se inspirar. Quando olhava para Raphael sabia que aquelas pessoas o ajudaram nos últimos cinco anos a chegar a um ponto em que poderia amá-lo.

De alguma maneira eles foram em diante, seguiram em frente e estavam uns nos times dos outros.

Na verdade, eram um time e isso era certo. Do meio da ruína fizeram um palácio, sem os velhos vícios, sem os velhos preconceitos e com novas perspectivas. Louis se sentia alguém novo às vésperas dos seus vinte e três anos: alguém que estava finalmente pronto para amar outra pessoa sem querer encontrar nela tudo que Ethan foi e tudo o que ele representa em sua vida, porque ele sempre seria incomparável.

Ethan sempre seria importante para cada uma daquelas pessoas que estavam ali presentes. Ele foi o primeiro amor, o melhor amigo, o amigo de infância, a dupla de poções, o colega de quarto, de certa forma o responsável por trazer justiça a alguém importante e alguém que os uniu, que criou laços e os fizeram crescer e amadurecer.

Sempre faria falta, mas agora a falta era menos insuportável. Agora a falta é uma saudade por vezes avassaladora, por vezes nostálgica e por vezes, daquela que te faz olha para lugar algum e apenas sorrir.

Em um gesto que repetiram várias vezes nos últimos anos, ergueram as taças de whisky de fogo na madrugada e sorriram, esperando a frase que Louis escolhera. Scorpius conseguia ver até mesmo sem prestar a atenção a explosão de cores e aromas provenientes dos amigos, de amarelo sol a cor de anoitecer, de algodão doce a chiclete de menta.

Eram ciano. Ciano era a cor de mar, de amizade. De Ethan.

“J'ai tendu des cordes de clocher à clocher; des guirlandes de fenêtre à fenêtre; des chaînes d'or d'étoile à étoile, et je danse”*. – Louis sorriu para os amigos, que o brindavam com seus cristais e olhares jubilosos. Era um momento sublime em que novos ciclos se abriam e outros se completavam. Novas histórias eram escritas e muitos sonhos compartilhados e de olhos fechados, quando se concentrou o suficiente, pode avistar a figura de dezesseis anos de Ethan sorrindo, enquanto escutava Louis mais uma vez recitando Rimbaud em francês.

Notas finais
*“Estendi cordas de campanário a campanário; guirlandas de janela a janela; correntes de ouro de estrela a estrela, e danço.” Arthur Rimbaud.
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