Born To Survive

2 My name's Hell. Hell Kind.


Depois de uma visita nada agradável, Charlie sabia que deveria “caçar” para garantir seus suprimentos para os próximos dias. Não é recomendável sair da caverna, ironicamente, aquele é o lugar mais seguro que se pode ter. Então caçar coisas que sejam consideradas saudáveis é um problema, lembrando que Tártaro não é um lugar que se tenha isso. Uma aventura atrás da outra. Sair de “casa” sem saber se vai voltar. Mas Charlie sabe que volta. Mesmo que tenha medo, não pode morrer. Ainda não. Ela não pode partir dessa pra melhor, nem deixar o Tártaro. Para que essas coisas possam acontecer, é necessário acabar sua missão. Que não sabe qual é.

Que ótimo.

Pegou sua lança que ficava na prateleira de pedra que fez (como tudo que se encontra ali dentro), colocou seus suprimentos na mochila que ainda possuía desde que caiu no inferno, assim como sua garrafa de água, etc.

Por um milagre dos Deuses, um pequeno riacho se encontra dentro de sua caverna. Garantindo água corrente, que posteriormente a hidratada e proporcionava uma vida “normal”. Lembrando que não existe vida normal no inferno.

Encheu sua garrafa de água, pegou dois pedaços assado de galinha infernal (que era inofensiva, pobre coitada), colou dentro de sua bolsa e com a lança na mão, deixou a caverna.

O calor tomou conta e o ar ficou incrivelmente difícil de respirar. Andou com muito cuidado, olhando sempre pro chão. Ela já havia pisado em larva, pedras quentes, espinhos e não é uma das melhores experiências.

Observava os pequenos monstrinhos que andavam rapidamente, escondendo-se do que aparentava ser uma ameaça. O caminho estava livre, por isso continuou seguindo em frente. O local onde furtava seus suprimentos não estava longe. O lugar tinha vários animais, que andavam perdidos, Charlie pegava os mais inofensivos. Sentia-se culpada, mas aprendeu do pior jeito, que a realidade é assim. Os bons são mortos, e os mais malvados sobrevivem.

Finalmente chegou, escondeu-se atrás de um morro de pedra, observando os melhores atrativos da noite. Sabia que não poderia pegar algo grande, chamaria muita atenção e seria quase impossível carregar, sem contar que ela não comeria a carne toda em tempo, fazendo que apodrecesse e deixasse a caverna totalmente mal cheirosa.

Parecia uma visão, mas ela tinha certeza que viu um coelho. Não tinha noção do motivo de um coelho, criatura dócil, morar no Tártaro.

Melhor não pensar, seguir os instintos é o melhor.

Aproximou-se do coelho que estava longe dos outros, e com rapidez e crueldade, atravessou sua lança no pequeno corpo. Os outros animais não a viram.

Tirou a lança do coelho, pegou o bicho e saiu andando de volta pra sua caverna, com um sorriso no rosto. Ela não precisaria sair pelos próximos dias.

Quando já tinha a caverna em seu campo de visão, sentiu uma presença.

Olhou pra trás, não viu ninguém. A situação era igual em seus dois lados.

Tentou ignorar, já que ela tem um grande faro. Além disso, consegue sentir emoções. Deveria ser algum monstro que está muito longe dela, é normal.

Respirou aliviada quando abriu a porta pesada de seu lar, entrou e fechou-a rapidamente. Lançou sua lança no chão e foi em direção ao fundo da caverna, onde iria tratar do coelho.

Novamente sentiu uma presença. Ignorou com a mesma facilidade que chegou.

-Ei! –Uma voz conhecida soou atrás dela.

Charlie virou-se rapidamente, com o coração na boca.

Era Kind.

-Vocês quase me mataram de susto! Não dá pra avisar não?

-Eu estou sozinha. –Avisou.

-Isso é bom. Eu acho. –Charlie pigarreou.

-Eu gosto de ficar sozinha.

-Temos algo em comum.

-Na verdade – Kind se aproximou – gosto de ficar com qualquer pessoa, sem que ela seja a Marta.

-E por quê?

-Ela me odeia, só me usa.

-Então não ande com ela.

Kind suspirou, como se isso não fosse funcionar.

-Não funciona – falou, acabando de vez com as dúvidas de Charlie.

-Continue.

-Não consigo sobreviver aqui, não sou um monstro.

-Não é? – Charlie colocou o coelho sobre uma pedra e aproximou-se mais de Kind.

-Não, fui transformada nisso por maldição. Eu sou só uma garota normal.

-Bom, eu também. –Charlie deu um sorriso glorioso. — E se isso te serve de consolo, consigo viver aqui muito bem.

Kind sorriu.

Foi a primeira vez que Charlie viu alguém sorrindo, desde que chegou ali.

-Tenho você como ídolo, por sua história.

Charlie achou estranho.

- Então é por isso que Marta me odeia? – Deduziu.

-Não, ela não sabe disso. E odeia todo mundo.

-Engraçado.

- O que? – Kind ficou visivelmente confusa.

- Você aqui, contando sua vida pra uma estranha.

Kind riu e falou:

- Você não é estranha, muito menos perigosa. Sei muito sobre sua vida.

-E como sabe?- Charlie sentiu-se desconfortável – sou um livro aberto?

- Não. Posso passar a noite aqui?

-Eu não sei...

-Por favor! – Kind ficou de pé em questão de segundos e juntou a mão como se fizesse uma oração – Não me faça voltar pra Marta, deixe que eu fique aqui.

Incrivelmente Charlie sentiu boas vibrações, o que só sentia quando estava perto de um animal indefeso.

-Tudo bem, mas não tente me atacar.

Finalmente Charlie conseguiu sonhar com Atena.

Muito bem, minha filha. Ela dizia. Você está encontrando seu caminho. Ajude a quem precisa e receberá ajuda. Use sua inteligência, espere pelos outros. Estou orgulhosa.

E com isso, a imagem de Atena desapareceu no forte vento.

Charlie suava. Tudo bem, era normal. Não é nada demais.

Olhou pro lado e viu Kind dormindo no chão, sentiu-se mal por ter feito isso, mas não havia outra cama. E Charlie queria fingir pelo menos que era barra pesada, pensou se estava passando a imagem de boba, pois seu coração já estava mole.

Sempre foi uma garota prestativa, sempre.

Com insônia, ficou se remexendo na sua cama improvisada.

Pensou sobre o sonho que tivera, sobre a sua mãe ter pedido para esperar os outros. Quem são os outros? E como estou achando meu caminho? Será que Kind faz parte dele?

Começou á considerar essa hipótese, já que em um mundo de semideus, nada é por acaso.

Quando acordou, encontrou tudo arrumado.

Viu Kind cantando baixinho e tratando do coelho.

-Bom dia, eu acho. –Disse.

- Bom dia, eu também acho. – Kind sorriu.

-Tento levar uma vida normal por aqui, se eu durmo e depois acordo, é de dia.

- Nunca pensei nisso, acho que perdi meu senso humano.

- Não fale assim. –Charlie tornou-se apreensiva.

Kind deu um sorriso triste.

-Ai meus Deuses! –Charlie colocou as mãos na cabeça.

-Aconteceu alguma coisa?

-Nunca perguntei seu nome, me desculpe.

-Meu nome é Hell. Heel Kind.

-Não gosto. – Charlie foi sincera.

-Nem eu! –Kind concordou.

-Olha, nos meus pensamentos, te chamo só de Kind. Que tal adotarmos esse nome?

-Adoraria.

Charlie sorriu vitoriosa.