Borderline
5 Welcome
Notas iniciais
Depois de uma semana no hospital pude voltar para casa, não aguentava mais ficar naquele lugar com comida ruim e cheiro de álcool entre outras coisas.
Recebi algumas visitas, a primeira foi Holly, estava tão feliz com a volta dela, eu sentia tanta falta da minha professora.
–Então você vai ficar em Lima? – perguntei, recostada em minha cama.
–Consegui emprego fixo no McKinley. – vibrei com essa informação. – Willian desistiu da classe de espanhol e vai ficar apenas com o coral.
–Melhor assim, sério. – Rimos, ela sabia que o Shuester era péssimo, assim como todos os alunos. – Não estou reclamando, mas como você soube?
–Bom, na sexta feira recebi uma ligação do diretor me oferecendo um emprego, a principio não aceitei, mas quando a Sue arrancou o telefone da mão dele e explicou a situação, não pensei duas vezes, então aqui estou.
–Que bom. – Falei aliviada.
–Santana, eu sei que você está indo bem e tudo o mais, tem seus amigos por perto, mas me pergunto se para encerrar de vez com o bullying não seria uma boa ideia você contar o que passa com você, talvez as pessoas sejam um pouco mais compreensivas.
–Não sei Holly, eu tenho medo de serem mais abusivos do que já são. – Falei sincera, já começando a coçar o braço, Holly segurou minha mão me impedindo de continuar o movimento.
–Não queremos uma crise, certo? – perguntou, eu assenti. – Apenas pense, pode ser a coisa mais certa a fazer, nós estaremos lá e faremos de tudo para que se sinta segura.
–Como? – Perguntei insegura e um tanto cética. – vocês não podem simplesmente segurar os alunos ou amordaçá-los. – Avisei.
–Não, porém podemos explicar e conscientizar, o que fará com que eles se tornem mais compreensivos e menos abusivos.
–Eu vou pensar e falar com a Rachel, ver o que ela acha.
–Certo, queremos apenas ajudá-la.
–Eu sei. – Abracei minha professora. – Obrigada Holly, de verdade.
Holly saiu do meu quarto avisando que precisava trocar algumas palavras com Rachel.
Rachel
Estava na cozinha, minha casa estava tomada de adolescentes, a droga é que eu não poderia expulsar ninguém, sabia que Santana não se sentiria bem com tantas pessoas em volta.
–Rachel, eu sei que é uma péssima hora, mas podemos conversar? – Holly perguntou.
–Claro! – Avisei imaginando que seria um bom momento para escapar daquela bagunça.
–Muita gente.
–Nem me fala, e aqui está muita gente que nem gosta da Santana. – Falei quando tranquei a porta do meu escritório. – Só querem ver com os próprios olhos. – Bufei sentando no sofá. – Sente.
–Então, eu vim por isso.
–Você acha que é hora de contar para as pessoas, certo? – Ela assentiu. – Eu venho pensando nisso, mas antes não podia porque a avó dela que tomava as decisões, e dizia que não queria que seu sobrenome tivesse a ligação com uma doente. – Bufei. – Palavras dela.
–Pois é, enfim, eu sugeri isto a Santana, então ela ficou de falar com você.
–Que bom. – Sorri. – Você veio para ajudar a concertar as coisas. – Sorri. – Estou realmente satisfeita que tenha voltado Holly, sentimos a sua falta.
–Eu deveria ter voltado antes. – Suspirou pesado.
–Não, você voltou na hora certa e eu te entendo perfeitamente.
–Problemas parecidos, certo?
–Sim, mas a diferença, é que ela mora na minha cidade e se tornou minha melhor amiga.
–É, eu me tornei uma nômade, por causa dele. – Holly riu triste.
–Mais ou menos isso, enfim, está fadado, você sabe.
–É, ele gosta de outra, e eu não posso fazer nada.
–Exato.
Holly foi embora minutos depois, e eu voltei para a sala.
Santana.
Fiquei duas semanas em casa, eu sentia falta de sair, ate da escola eu sentia falta, não que eu gostasse, mas por não ter que ficar em casa e ver outras pessoas, também não gostava disso, contudo estava entediada.
Meus amigos, alguns colegas e meus tios também apareceram. O Finn, ex da Rachel que ainda não aceitara o final do namoro deles vivia lá em casa reclamando que era amigo dela e não recebia atenção, Rachel o xingava dizendo que eu estava doente e precisava da atenção dela, a briga era feia todos os dias.
–Bela casa Lopes – Mercedes comentou. Fiquei surpresa, logo ela apareceu,era a pessoa com quem eu menos me dava bem.
–Obrigada Aretha. – A negra revirou os olhos.
–Se sente melhor?
–Um pouco, a Rach não me deixa sair da cama enquanto não me recuperar. Sinto falta da escola, sabe?
–Eu sei, deve ser chato ficar o dia todo sem fazer nada.
–Rach me ajuda a me distrair, mas sei lá cansativo. – Assentiu e levantou da minha cama. – Bom preciso ir, meu pai ficou de me levar na casa de um tio, ou algo assim – Revirou os olhos. – Acredite, eu preferia ficar aqui. – Beijou a minha testa. – Melhore logo, você faz falta. – Saiu os olhos dela estavam marejados.
Ouvi Mercedes se despedir de Rach, coloquei a minha mão na boca e fiquei sugando, estava cansada, o dia fora agitado, um entra e sai de gente, eu não aguentava mais, só queria ficar quieta. Depois de dois dias eu concordei com a sugestão de Holly, Rachel também achava que era a coisa certa a fazer. Então eles fizeram uma reunião com os alunos explicando o que acontecia comigo.
–Sany – Minha irmã chamou. Fiquei tensa.
–Não me diz que é outra visita.
–Não. Eu vim perguntar se quer comer alguma coisa.
–Gracias a dios! – Falei aliviada. – Senta aqui? Não estou com fome.
–Claro mi amor pensei que iria querer ficar sozinha depois de tanta gente que apareceu.
–A única companhia que eu quis o dia todo foi a sua. – Comentei, minha irmã me puxou para o colo e ficou me ninando.
–Eu sei mi amor, mas não tinha como expulsar todo mundo.
–Eu sei Rae, mana quero assistir desenho. – Pedi, ela tinha posto a televisão em meu quarto ate eu me recuperar, Rachel não gosta de televisão no quarto, segundo ela, é uma distração desnecessária, quarto é lugar para dormir e estudar, não para assistir televisão.
–Claro Cariño. – Ligou a televisão no canal de desenho, deitamos em baixo das cobertas, deitei a cabeça em seu peito sugando minha mão enquanto ela acariciava meus cabelos.
Finalmente pude voltar para a escola, sentia falta do vôlei e do coral, principalmente do coral. Quando cheguei na segunda feira o pessoal do New Directions me recebeu com festa, eu quase não acreditei.
–Eu pensava que vocês me odiavam. – Falei com os olhos marejados.
–No começo sim. – Ryder falou. – Mas agora entendemos porque você nos tratava mal.
–Me desculpem por isso, eu não queria agir assim. Era uma proteção. – Falei com a voz embargada e todos, exceto Brittany que ficou mais afastada assistindo, me abraçaram contra a minha vontade, diga-se de passagem.
Quando me soltaram pude ter uma visão da loira. Ela tinha a cabeça baixa dos olhos escorriam algumas lágrimas mas ela não se movia.
Me aproximei, mesmo com medo de ser afastada e sentei ao lado dela.
–Você quer conversar? – Perguntei.
–Eu gostaria de te pedir desculpas.
–Como?
–Não foram meus pais que disseram para não me aproximar, eles na verdade... – Fungou. – Eles falavam que você parecia uma boa pessoa e que ficavam tristes de saber que era mal tratada principalmente por mim.
–Eles disseram? – Perguntei confusa, o que estava acontecendo afinal?
–Sim, eu não me aproximava porque vo...você, rum... você é uma...
–Perdedora. – Ajudei.
–Eu não te acho uma perdedora. Mas toda a escola achava e o problema é que o uniforme das Cheerios me protege.
–Eu sei. – Baixei a cabeça.
–Eu acho que você é incrível Santana, você é uma vencedora, depois de tudo o que passou, eu não sei se aguentaria.
–Bom, se não fosse pela Rach, eu não aguentaria.
–Não concordo – Falou firme me encarando pela primeira vez e elevando o meu rosto com a mão. – Acho que você consegue se superar sozinha, a Rachel é só um incentivo, assim como o Kurt, a Quinn e a partir de hoje eu também! – falou e eu a encarei surpresa. – Então, você me desculpa?
–Claro que sim, eu entendo. Obrigada Brittany.
–Me chame de Britt. – Sorriu e me deu um beijo no rosto.
O que realmente me surpreendeu foi uma das meninas do vôlei na terça feira, eu estava sentada na arquibancada esperando o resto do time antes das aulas do dia começarem, alheia a qualquer coisa sugando a minha mão esquerda quando senti um toque delicado na mão direita me fazendo voltar a realidade
–Oi Santana, tudo bem?
–Oi – Falei meio assustada e me afastei um pouco.
–Não se assuste, está tudo bem, te vi sozinha e quis conversar.
–Ah, tudo bem – Falei, sabia que precisava continuar a conversa, ela não me olhava estranho. – Tudo bem Marley?
–Tudo bem sim, fiquei feliz que você voltou para a escola, fez falta no time sabe? – Sorriu. – Seus saques são realmente muito bons, eu adoraria que você me ajudasse se não se importar. – A encarei surpresa, não sabia que ela prestava atenção em mim, ela ficava me olhando, mas pensava que era por que eu sou estranha.
–Claro, eu acho que posso ajudar sim, sua técnica é boa, mas precisa firmar um pouco mais a mão na hora de bater na bola.
–Por isso eu nunca acerto. Eu já te vi cantando, a sua voz é linda, ela é bem potente. Eu penso em participar do Glee mas tenho medo de não ser boa o suficiente. Me falaram que a sua irmã é super exigente e ela me assusta um pouco.
–É a Rach é bem assustadora nos ensaios, mas em casa ela é outra pessoa, mais relaxada, mais carinhosa também, não só comigo, ela trata os meus amigos como se fossem da família.
–Isso é bom. Ter amigos,quero dizer, eu sou um pouco tímida, demoro pra me aproximar das pessoas.
–Eu não me aproximo, eu tenho medo que me rejeitem, sabe?
–Eu te entendo, deve ser difícil estar no seu lugar, mas não vamos falar disso, sei que fica ansiosa. – Sorri para ela. – Bom, o pessoal tá chegando, é melhor irmos nos alongar.
Depois dessa conversa eu sempre falava com a Marley, ela não me olhava com pena e achava fofo me ver sugando a mão, ela faz igual a Rach, a Quinn, e a Holly.
Uma semana passou desde que voltei a escola, alguns colegas simplesmente passaram a me ignorar, poucos se aproximaram e alguns ainda tiravam brincadeiras, não tão pesadas quanto as anteriores, mas ainda faziam piadas a meu respeito. Todos os professores me ajudavam, mas a maioria era bastante impaciente.
Eu estava pensativa, dali um ano teria que começar a pensar em universidades, eu tinha ate medo de perguntar a Rachel e receber uma resposta negativa. Um dia tomei coragem, bati na porta do escritório, ela estava lendo no sofá e pediu que eu entrasse.O escritório da Rachel era bonito, tinha uma estante de madeira clara, abarrotada de livros tanto de psiquiatria quanto de artes cênicas, divididos por categorias e assuntos, uma escrivaninha, uma luminária e um computador de mesa. Sentei ao lado dela e perguntei:
–Rach?
–Si cariño.
–Esta época ano que vem eu precisarei procurar por universidade.
–Sim, eu sei.
–Rach? Você acha que eu tenho condições de entrar para uma universidade?
Ela puxou o ar, me analisou, ela sempre fazia isso antes de uma conversa séria, como se estivesse me lendo.
–Sany...
–Vai direto ao ponto, por favor. – Estava me desesperando. Voltei a sugar a mão, estava angustiada.
–Calma, você já tem alguma ideia do que quer para o futuro?
–Meu sonho sempre foi ser una abogada, lembra?
–Si mi amor, eu lembro. Você ainda tem este sonho?
–Creo que si, pero no lo sé más.
–¿Por qué pequeña?
–Porque yo soy una enferma, una loca – Rachel negou, como sempre a ignorei – y en la universidad es todo muy diferente, los maestros… ellos exigen más, cobran más, y…
–Tiene las clases especiales mi amor. Usted se va a la universidad podrás estudiar con personas como tu.
–Yo no sabía. Pero como yo seré una boa abogada se tengo las crises y...
–Você precisará se superar cada vez mais, não é porque você tem algumas condições psiquiátricas que não poderá ser uma boa profissional, mas...
–Eu vou ser sempre dependente de ti, mesmo que eu tenha uma profissão eu nunca poderei andar com minhas próprias pernas, não é mesmo?
–Sim, isso é verdade, mas nem por isso...
–Eu sei mas... Eu tenho medo de não conseguir, eu tenho medo de tentar e desistir mas me da ainda mais medo de não poder sequer tentar.
–Faremos o seguinte, você faz a aplicação o resto vai vir com o tempo.
–Você confia em mim para isso?
–Claro que sim Sany, a questão é, você confia em si para isso?
–Não sei. Mas eu posso tentar. Certo?
–Sim você deve tentar. Seja lá o que acontecer depois, estarei ao seu lado sempre, sabe disso, certo?
–Não é como se você tivesse outra escolha... – Falei e me arrependi na mesma hora.
–Santana, eu não sou tua tutora por obrigación. Tu es mi hermanita, pequeña.
–Desculpa, falei demais!Eu sei, só que às vezes me bate aquela insegurança que você simplesmente vai cansar e desistir de mim.
–Nunca Sany, isso jamais vai acontecer. Eu te amo, sabe disso.
–Eu sei, desculpa! – Rachel me abraçou forte e me pôs em seu colo, sempre que eu fico insegura ela faz isso, me aninha e me aperta forte, para eu saber que não tenho motivos.
–O que quer fazer hoje?
–A Britt me chamou para ver os patos num parque aqui perto, posso?
–Claro que pode. Quer que eu prepare uma cesta para um piquenique?
–Pode ser.
–Você vai precisar que eu vá junto?
–Acho que não, acho que não to perto de uma crise.
–Tudo bem, mas se acontecer alguma coisa, me liga ou pede para Britt me ligar, combinado?
–Certo. – Concordei, afinal eu sabia que sair na rua era assustador, muitas pessoas e mais ainda pessoas preconceituosas, todos em Lima sabiam o que eu era, o que fazia eles me tratarem mal. Respirei fundo, não queria surtar aqui, não quando eu sairia com a garota de quem gostava.
Eram 4h00 quando a campainha tocou, eu saí da cozinha com a cesta pronta em mãos e fui atender.
–Oi Britt.
–Oi San, tudo bem?
–Tudo bem sim. Entre, a Rachel quer conversar com você antes de sairmos.
–Certo. – Fomos para a sala onde Rachel nos esperava. Sentamos no sofá em frente a ela.
–Tudo bem Britt?
–Tudo bem Rach. – Britt era uma das poucas pessoas que chamava minha irmã pelo apelido, ela não a chamava de senhorita Berry, ou qualquer coisa parecida.
–Britt, é o seguinte, como você sabe a Santana tem alguns problemas de convivência, certo?
–Sim, eu sei, sei também que as pessoas costumam importuná-la na rua e serem más com ela. O que faz com que ela fique triste e brigue com elas. – Britt resumiu minha loucura de um jeito muito fofo.
–Isso. Eu só quero te pedir, que quando alguém falar alguma coisa que magoe a Sany, você a tire de perto da pessoa e a leve para outro lugar, tudo bem?
–Certo! Se ela brigar ou ficar triste eu te ligo, não te preocupa Rach, eu vou saber cuidar dela. – Sorriu, um sorriso lindo e inocente.
–Obrigada Brittany, isso é muito importante!
–Eu sei, não quero que a San vá para um hospital ou fique triste. – Sorrimos para a loirinha, ela era muito fofa.
Saímos de casa em direção ao parque, ficamos dando voltas e conversando, Britt tem uma imaginação muito fértil, fala sobre tudo diz que eu sou como os unicórnios, que sou mágica. – Eu só sabia sorrir com o que ela falava.
–Vamos sentar para comer? A Rach preparou uma cesta com um monte de coisas gostosas.
–Claro! – Ela falou animada, fomos para um lugar mais deserto no parque, e sentamos na sombra de uma grande árvore. Abri a toalha e coloquei as comidas em cima.
Estávamos comendo quando alguém se aproximou, olhei para ver quem era e paralisei, era um dos Neandertais da escola.
–Olha só quem eu vejo aqui, se não é a estúpida e a aberração louca fazendo piquenique.
–Saia Karofski nos deixe em paz.
–Não, aqui está ótimo, vejo que trouxeram coisas boas.
–Não toque nisso, você não foi convidado. – Britt falou autoritária. Eu estava tensa, quase sem ar, tentando me controlar ao máximo para não ir para cima dele.
–Vai fazer o que? Me impedir? – Zombou de Britt, meus braços começaram a coçar. Caiu na gargalhada já pegando um bolinho que Rachel preparara.
–Acho, que isso não lhe pertence. – Puck apareceu por trás do idiota e segurou a mão dele fazendo-o soltar o doce. – Deixe as meninas em paz, vai procurar o que fazer.
–Sabe, eu vou mesmo, aqui perdeu a graça. – O garoto saiu de perto, quase abracei o Puck.
–Obrigada por ter aparecido Puck, ele não iria me ouvir. – Britt fez um beicinho.
–Tudo bem. – Quando ele finalmente me encarou se assustou. – Santana, você está bem? – Eu estava a ponto de surtar, coçava meus braços com raiva e lágrimas escorriam dos meus olhos.
–Acho melhor ligar pra Rachel. – Britt avisou.
–Não, eu levo a Santana, você se importa de recolher estas coisas?
–Tudo bem. – Ela parecia um pouco assustada embora tentasse não demonstrar.
Puck com muito cuidado se aproximou de mim, me pegou no colo e me levou correndo ate em casa, ele já vira Rachel fazendo isso várias vezes, eram amigos.
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