Borderline
1 Take on me
Notas iniciais
Era a segunda semana de aula, penúltimo ano do ensino médio, eu esperava que aquele ano fosse melhor que os anteriores agora que minha irmã havia voltado para a cidade.
Saí do treino de vôlei, e fui para o banho, no vestiário, esperei as meninas saírem para finalmente me despir e entrar no chuveiro. Estava terminando de lavar o cabelo quando ouvi alguém abrir a porta. Não gostava que as pessoas me vissem nua, eu era extremamente insegura com meu corpo. Sou intersexual, tenho todo o aparelho reprodutor masculino e feminino totalmente desenvolvido, o que mais surpreendeu os médicos é que sou fértil, o que não é comum em casos de intersexualidade, quando nasci meus pais descobriram o que eu era, se mudaram para o exterior deixando a minha guarda com minha avó, ela não aceitava e me batia, como Lima não tinha a cirurgia e era muito caro em outros estados eu tive que aguentar ela me chamando de anormal, aberração, entre outras coisas que não vale a pena falar em voz alta, eu preferia morar com meus tios Hiram e Leroy ou minha meia irmã Rachel sete anos mais velha que eu,por algum motivo ela fora adotada pelo irmão da minha mãe quando nasceu, nunca entendi essa história direito, acho que ela era filha bastarda da minha mãe com o cunhado dela, o tio Hiran que é bissexual e casado com tio Leroy, irmão da minha mãe,contudo,minha avó materna Alma,se recusava a me dar esse presente era óbvio que queria que eu sofresse. Ela me batia diariamente, e me fazia pedir perdão a Deus por ser isso.
Saí do Box enrolada em uma toalha já com a minha cueca para evitar constrangimento meu com quem quer que estivesse lá.
–Sany? Você ainda tá aí? – Rachel perguntou entrando no vestiário, me deu um alívio muito grande ao saber que era ela, Rachel mesmo maior de idade me acompanhava em alguns clubes da escola, era co-treinadora do Glee, e responsável por mim na escola este ano, pois havia se mudado por dois anos após terminar uma das faculdades e fazia a residência de dois anos em psiquiatria aqui em Lima em uma clínica. Rach sempre foi minha melhor amiga, ela quem cuidava de mim e depois que ela mudou pra NY tinha somente o Hummel e a Fabray. Eles se tornaram as meus únicos amigos, contudo a Quinn vinha de família conservadora e eles não aprovavam nossa amizade, raramente nos encontrávamos fora da escola então eu só podia contar com a Rach e o Kurt, não confiava nem no pessoal do glee eles diziam que aceitavam mas não gostavam de mim, eu sempre fui uma vadia com todos menos com os dois. As outras pessoas eram só conhecidas, eu não sou a melhor pessoa do mundo com os outros, mas faço isso só pra me proteger, a Rach me protegia desde sempre, assim como a Quinn me defende na escola e eu defendo o Kurt
–Oi Rach, como sabia que eu estava aqui? – Me aproximei dela.
–Meio óbvio né? Você sempre é a última a sair do banho e não havia chegado ao coral, então eu me preocupei com a demora. – Falava enquanto eu secava o cabelo e colocava uma roupa confortável.
–Ah, desculpa eu ter me atrasado fiquei divagando no banho e não me liguei no horário. Estou pronta, vamos? – Coloquei minha mão na boca e comecei a sugar, Rachel diz que é uma fixação causado por impacto emocional, gredos por minha insegurança e uma lista de traumas, outras pessoas dizem que é necessidade de atenção, outros ainda, dizem que eu sou imbecil, retardada ou coisa pior.
–Claro. – Sorriu e segurou a minha mão livre.
Nos dirigimos ao glee club ela foi para a frente da sala falar alguma coisa que não prestei atenção, não estava com cabeça para o coral na verdade, estava pensando em outras coisas no momento.
Depois do fim da aula seguimos para o estacionamento.
–Você está distante Sany, demorou no banho, não prestou atenção no coral, o que está acontecendo mi amor?
–Eu quero ir morar com você Rach, não aguento mais morar com mi abuela.
–Sany, o processo leva tempo, cariño, e a preocupação do juiz é válida.
–Você trabalha ate tarde e não me daria total atenção. Rae, eu não sou uma imbecil.
–Eu sei que não é Sany, o problema é que você requer mais atenção e cuidados que outras pessoas, já conversamos sobre isso, eu só estou há duas semanas em Lima, conhecendo os pacientes, me adaptando à clínica, arrumando a casa, não é tão simples.Você sabe que eu também não vejo a hora de te levar para morar comigo bebê, mas eu preciso de tempo.
–Droga, Rach! – Chutei uma pedrinha na minha frente.
–Você precisa de mais um pouquinho de paciência, certo? – Me abraçou carinhosa.
–Tudo bem. – Suspirei pesado.
Rach me deixou em casa e foi para a clínica, entrei e fui direto para o meu quarto, abri a porta para arejar um pouco, abuela nunca entrava lá e eu não gostava de encontrar com ela, portanto quase nunca saia do quarto, só para as refeições quando já havia ido dormir ou não estava em casa. Deitei na cama coloquei a minha mão direita na boca e comecei a sugá-la pensativa, era uma mania chata que eu não conseguia me livrar, eu queria ir para longe da minha avó, dos maus tratos e daquele lugar, peguei um cigarro que tinha escondido em minha mochila, estava ficando nervosa, não podia surtar agora que Rachel estava no trabalho. Abri a janela para não infestar com o cheiro, assim abuela não precisaria ficar sabendo, mas quando eu me empoleirei na janela ela me viu e veio para dentro de casa numa rapidez muito grande para uma senhora da idade dela, fechei a minha porta com uma velocidade ainda maior, tranquei e me escondi no banheiro assustada, ela começou a esmurrar a porta, eu não sairia dali aquela noite, estava com muito medo,comecei a coçar meu braço, isso era um indício que eu estava começando a ter uma crise, eu não tinha para onde ir, Rachel estava na clínica, meus tios viajando, me condicionei a parar de me coçar por alguns minutos pelo menos.Coloquei roupas em uma mochila voltei ao banheiro, continuei me coçando, vi que os braços começaram a sangrar mas não dei atenção. Apenas esperei dar o horário que Rach iria para casa.
Enviei uma mensagem para a minha irmã:
“Rach, não da mais, por favor, vem me buscar, eu me tranquei no quarto para me esconder dela. Estou tendo uma crise.”
“ Estou indo”
Rachel chegou em vinte minutos, comecei a ouvir gritos vindo do andar de baixo quando a porta foi aberta.
–.... É claro que ela fuma, o que a senhora esperava? Santana morre de medo, passa o dia todo sendo torturada emocionalmente na escola e em casa é tortura física. A senhora é avó dela, por Dios.- Fico impressionada com a rapidez que Rachel muda de idioma.
–Eu preferia que ela não fosse, Ella és una vergüenza para mi família.
–Vergonha! Vergonha é a senhora que é tão preconceituosa que não consegue ver o sofrimento que trás para Santana, ella es apenas una niña.
–Solo me trae dolor.
–¿Dolor? – Perguntou cética. – Ella tiene dolor. Ella no merece esta vida. Santana dormirá en mi casa esta noche y yo voy a hablar con mi abogada para ella morar conmigo.
–¿Morar con usted? Usted no dará la vida que ella necesita.
–Puedo no dar aquí en Lima pero puedo dar la vida que ella merece, una vida feliz. La vida que usted no da à ella.
Ouvi passos na escada então uma batida delicada em minha porta, prensei ainda mais minhas costas na parede.
–Sany, bebê sou eu! – Rach avisou do outro lado da madeira. – Abra La puerta mi amor.
Abri a porta e logo senti os braços de Rachel enlaçando minha cintura, eu tremia.
–Vamos sair daqui pequeña. – Pegou minha mochila ao lado da porta e me levou junto a ela para a picape que nos esperava em frente a garagem. – Ficará tudo bem agora, cariño, tudo ficará bem. – Queria acreditar naquilo.
Eu estava completamente calada, estava assustada, não conseguia fazer nada, apenas olhava para o nada, coçando meus braços.
–Shhh, calma bebê, está tudo bem, está tudo bem. – Falou, enquanto eu mastigava minha mão, abriu a porta.Sussurrou no meu ouvido me guiando ate o sofá onde me aconcheguei em seus braços chorando em seu peito. – Ela te bateu? – Neguei. – Você pode soltar a mãosinha agora bebê, está segura agora. – Não soltei, ela deixou, sabia o quão assustada estava.
–Sany, você dorme aqui hoje, eu vou pressionar o juiz para vir morar comigo, tudo bem? – Assenti. – Você comeu alguma coisa? – Neguei novamente.
–Mas tem que comer cariño,pra ficar forte. – Ela falou com aquele tom que só dirigia a mim, Rach ainda me tratava como um bebê, eu era o bebê dela.
Quando eu tinha cinco anos e Rach tinha doze tive a minha primeira crise de raiva, estávamos no jardim da casa da minha avó que tinha piscina, eu fui fazer xixi atrás de uma árvore e um primo mais velho nosso chegou perto de mim e começou a rir pois eu fazia xixi em pé então viu que eu tinha um pênis, disse que eu era anormal porque só meninos tinham um. Comecei a bater nele com raiva do que ele havia dito. Rach presenciou a cena me abraçou e eu logo me acalmei. A partir desse dia minha avó começou a me bater e Rach sempre cuidava de mim depois, se tornou meu anjo da guarda, me amava e me protegia então ela implorou para que eu fosse para a escola dela assim ela cuidaria de mim, meus tios, minha avó, a psicóloga da escola e a minha professora concordaram, minha família me transferiu para a escola que ela estudava.
Os anos passaram e quando eu fiz 15 anos foi quando eu me apaixonei pela primeira vez por uma garota da escola, Brittany, mas ela não falava comigo, dizia que seus pais não permitiam, foi minha primeira decepção amorosa, foi quando eu comecei a fumar e Rachel foi a pessoa que me consolou da dor que eu estava sentindo. minha avó jogou na minha cara “Quem gostaria de uma aberração como você?” Eu acreditei, sempre acreditava,por mais que ela odeie admitir, concorda que a única pessoa que me mantém “controlada” é a Rach então ela não se opõe a nossa amizade afinal de contas ela é minha irmã.
–Sany, Santana! – Me chamou mais forte e me sacudiu um pouco para que prestasse atenção nela. – Querida, o que quer comer? – Dei de ombros – Certo, você está em estado de mutismo, você pode pelo menos ir a cozinha e escolher um cardápio para eu chamar a comida? – Levantei fui ate a cozinha, encontrei um cardápio de comida chinesa, peguei ele, eu adoraria uma pizza mas Rachel acha pesado comer pizza a noite. Levei ate ela. – Chinesa? Certo, então chinesa será. – Sorriu – Agora sobe, tome um banho e eu vou chamar nosso jantar, certo? – Pediu, eu assenti e subi. – Não queria toques, não hoje. Sabia o quanto a Rach deveria estar triste com isso mas, enfim, ela entende.
Tomei um banho rápido vesti um pijama que a Rae havia me dado alguns meses atrás e desci correndo escada a baixo quando escutei o som da campainha.Não estava realmente com fome, apenas comeria pra Rae não ficar chateada.
– Sany, cuidado, não vai desabar escada a baixo.
Sentei no sofá sugando a minha mão, estava mais calma depois do banho e fiquei esperando ela terminar de pagar a entrega.
Após a janta fomos dormir já era muito tarde e como não estava falando não conversamos.
–Sany você quer dormir comigo hoje ou no seu quarto? – Apontei para mim. – Certo.
Entrei na porta do meu quarto e fui me deitar, meu quarto aqui na casa da Rae era bem diferente da casa de Abuela onde tinha apenas uma cama, um armário, uma prateleira para os livro escolares e uma escrivaninha. Ela não permitia que eu colocasse enfeites ou qualquer decoração que gostasse, todavia aqui na Rachel ela decorara bem, com pôsteres, paredes coloridas a cama era de casal e havia um armário de seis portas de correr uma estante com livros diversos e enfeites , além de uma escrivaninha com espaço para computador e teclado,como eu disse antes a Rach é a pessoa que melhor cuida de mim.
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