Borderline
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Conheci Yohan pouco tempo depois do Nicholas. Todos os anos sou dividido entre duas pessoas, e é a primeira vez que tenho só um inquilino, por isso fiquei muito feliz quando o Yohan começou a nos visitar cada vez mais. Às vezes até esqueço que ele não mora aqui e fico triste quando ele precisa ir embora. Mas ele sempre volta. Ou melhor, eu espero que ainda volte.
Assim que ele bateu na minha porta pela primeira vez, senti que ele era muito diferente do Nicholas. Reformulando, o Nicholas é muito diferente de qualquer inquilino que eu já tenha tido. Não consigo lê-lo com tanta facilidade e torna-se muito difícil entendê-lo.
Foi só quando Yohan sentou e se apoiou na minha parede, ainda um pouco desconfortável por eu ser um ambiente tão novo para ele, que eu soube a história de como eles se conheceram.
Acho que o Yohan já gostava muito do Nicholas, apesar de, naquela época, eles ainda se conhecerem há pouco tempo, porque sempre que se apoiava em mim, estava pensando nele.
Vi Nicholas confuso com seu trabalho de Estatística e Yohan prontamente ofereceu-se a ajudar.
Na primeira visita, realmente, me senti como uma sala de aulas. Fazendo parte de um dormitório, isso é muito comum, e fico sempre contente em poder ajudar. Sinto-me aconchegante a acolhedor.
Yohan estava bastante nervoso, e achei aquilo adorável. Nicholas é um rapaz muito atraente, um dos mais bonitos que já tive. Mas não acho que o físico importe para ele. Costumo ter rapazes atléticos e um tanto quanto convencidos, alguns nerds que estão sempre aqui estudando ou que estão o tempo todo jogando e me deixam imundo. Cheiro mal, sinto meu chão e minhas paredes pegajosas, e não sou muito fã desse tipo de inquilino. Prefiro sempre aqueles que cuidam minimamente de mim. Digo minimamente, pois sei que na faculdade é difícil ter um inquilino asseado. Eles estão sempre ocupados, seja com as aulas, trabalho ou com seus lazeres.
Mas, quando Nicholas chegou, não soube como classificá-lo. Agora já aprendi muito sobre ele, e sei que nunca encontrarei ninguém igual.
Yohan olha para Nicholas muitas vezes e, ao ser encarado de volta, fica adoravelmente corado. Mas nunca desvia o olhar, o que acho ainda mais adorável.
Não é a primeira vez que eu presencio uma relação entre dois homens, mas é a primeira vez que acompanho a sua evolução. Costumo servir apenas como quarto de motel. Os rapazes trazem aqui parceiros que tratam como segredos e eu sou o único que sabe. Mas não desta vez. Desta vez são só eles dois. Eles dois e eu, que os abrigo e observo.
Costumo entreter-me ao tentar adivinhar se as amizades que os garotos cultivam aqui durarão após a faculdade, e esta é uma que eu sei que permanecerá para sempre. Eles completam-se e dependem um do outro.
Yohan estava preocupado com Nicholas. Pude perceber que ele queria dizer algo, mas guardava para si. Quando Nicholas fez uma pausa nos estudos para fumar na minha janela (o que é contra as regras, mas eu não me incomodo, desde que não me sujem ou queimem), Yohan parecia estudar uma forma de expressar o que pensava. Assim que Nicholas voltou, arriscou:
— Por que você não vai nas aulas?
Realmente, Nicholas apenas saía daqui nas primeiras duas semanas, e mesmo assim não era todos os dias. As aulas já haviam começado há quase um mês, e eu só o via sair por alguns minutos e voltar sempre com uma lata de Coca-Cola. Imagino que fosse comer. Espero que fosse comer alguma coisa de jeito, porque sei que ele não dá atenção a isso.
— Porque não faz sentido ir.
Nicholas estava deitado em sua cama e, quando ele faz isso, perco completamente a noção do que se passa em sua cabeça (apesar de ela continuar uma incógnita mesmo quando estamos em contato). Ele olhava diretamente para o meu teto, e eu tentava, sem sucesso, decifrá-lo. Yohan estava sentado na cadeira da secretária, que virara de frente para a cama, e eu sentia-me como a sala de atendimento de um psicólogo. Sinto que, de certa forma, foi disso que servi, já que Yohan estava sempre tentando compreender os problemas psicológicos de Nicholas e ajudá-lo.
— Porque não tiro nenhum proveito.
Nessa hora, lembro-me de Yohan ter ficado muito chocado. Imagino que ele se dedique muito às aulas, o que o torna no oposto completo de Nicholas. Na verdade, com o passar do tempo, percebi que Nicholas tinha fases. Por vezes, ia a todas as aulas e dedicava-se de corpo e alma; de repente, largava tudo e preocupava-se com outras coisas.
— Não tira proveito porque não vai.
— Não tiro proveito porque nada daquilo me interessa.
— Então, se não interessa, por que você escolheu esse curso?
— Porque na época me interessava.
Depois disso, ficaram em silêncio.
Yohan levou algum tempo a se acostumar com as mudanças de humor repentinas de Nicholas, mas nunca demonstrou isso. Procurava sempre alguma forma de se adaptar.
As seções de estudo prolongaram-se por semanas e, com o aproximar do final do semestre, tornavam-se mais frequentes. Nicholas estava numa fase de se dedicar às aulas de corpo e alma, e Yohan também; a sua fase de sempre.
Houve um dia em que os dois entraram desesperados. Nicholas sangrava e Yohan chorava. Conforme Nicholas socava minhas paredes e seu sangue sujava-me, fui entendendo o que havia acontecido. Yohan, encolhido contra a porta, fornecia-me outros lados da história. Se eu tivesse braços, naquela hora teria empurrado Yohan em direção a Nicholas, que parecia implorar por um abraço que o acalmasse.
Nicholas havia entrado em uma briga e Yohan explicou-me, inconscientemente, o que viu. De Nicholas, eu sentia raiva, impulsividade. Uma agressividade explosiva. Yohan, apesar de emotivo, fornecia-me a razão. Ou melhor, a ação, porque a razão não esteve presente. Yohan saíra da sala de aula antes de Nicholas, para ir ao café antes da fila estar muito grande. Sentindo a falta de Nicholas depois de fazer a compra, voltou à sala para encontrá-lo em uma briga.
Nenhum dos dois parecia saber o porquê de aquilo ter acontecido, mas Nicholas pulara para cima de um colega, lançado o punho diretamente em seu rosto e apanhando-o desprevenido. Deve ter atingido algum brigão da turma, já que vários amigos logo o rodearam e Nicholas, apesar de apanhar muito mais, socava cada um deles, gritando do fundo de seus pulmões. Sem nenhum responsável presente, a cena prolongou-se até Yohan chegar. No momento em que o fez, Nicholas deixou a sala apressado, e os outros garotos pareceram não se importar; apenas agradeceram o entretenimento.
Yohan foi logo atrás de Nicholas, que corria, e apenas o alcançou quando chegaram aqui.
— Nick, fala comigo... — Yohan parecia ter medo de se aproximar, como se Nicholas pudesse explodir a qualquer momento. Ao mesmo tempo, seus passos receosos pareciam querer alcançá-lo. À medida em que Yohan caminhava sobre meu chão, eu tentava me comunicar com ele. "Vá sem medo, Yohan. Ele não vai te fazer mal. Ele precisa de você". Não sei se por isso ou por conta própria, Yohan avançou cada vez mais, até estar mesmo atrás de Nicholas. — O que aconteceu?
Nicholas deu um último soco em minha parece, marcando-me mais uma vez com seu sangue, e manteve ali o punho, fitando o meu chão. Suas lágrimas caíam sobre mim mas, diferentes das de Yohan, eram lágrimas cheias de raiva, medo e solidão.
— Você me deixou lá — ele falou tão baixo que só ouvi porque o rodeava. Yohan não ouviu e pediu que ele repetisse. Desta segunda vez, imagino que eu e Yohan não tenhamos sido os únicos a ouvir, porque aquele grito foi tão alto que deve ter percorrido alguns metros. — Você me deixou lá! — Virou-se repentinamente para Yohan, com lágrimas ácidas que lhe cobriam os olhos e alteravam-lhe a visão. — Você tinha que ter me esperado e você me deixou lá!
Naquele momento, senti Yohan muito confuso. Já havíamos experienciado alguns surtos de Nicholas, mas Yohan ainda não o conhecia tão bem quanto eu. Ainda não sabia que Nicholas tinha o corpo cheio de cicatrizes. Descobriu naquele mesmo dia, mais tarde, quando o ajudou a tomar banho. Achou que era a água quente que o acalmava, mas era o próprio Yohan, a sua presença, o seu toque, a sua voz, o seu cheiro. Yohan é o remédio de que Nicholas precisa para manter-se são.
— Eu disse que ia comprar um lanche... — Yohan falava para dentro, e começou a recuar. Deu alguns passos para trás e agarrou-se à maçaneta.
Desejei que Nicholas não visse aquilo, pois, se soubesse que Yohan pensava em sair daqui, sentir-se-ia ainda mais traído. Desejei absorver o seu medo, o seu receio, e transmitir-lhe a segurança que eu tinha em que Nicholas jamais o machucaria. Mas, se Yohan saísse, machucaria a si mesmo.
A mão de Yohan escorregou na minha maçaneta, e Nicholas ouviu o barulho e virou-se. A expressão em seu rosto tornou-se tão triste que eu próprio desejei ser mais pequeno para conseguir abraçá-lo com minhas quatro paredes.
Nicholas deixou seu corpo cair, com as costas encostadas à minha parede, e inclinou sua cabeça para trás com tanta força, chocando-a contra mim, que eu tremi. Repetiu o ato e Yohan gritou para que parasse. Mais uma vez e Yohan correu em sua direção, ajoelhou-se a sua frente e o abraçou. Eles ainda não sabiam, mas eu ali soube o quanto se amavam.
— Não me deixa sozinho... — Nicholas já não chorava. Fitou Yohan com os olhos vermelhos e inchados, com o rosto machucado e sangrando, e pediu, mais uma vez. — Não me deixa sozinho.
Senti a confusão de Yohan; assustado, emocionado, surpreso, triste e feliz. Não sabia o que fazer, por isso fez o que achou melhor.
Soube que iam para o chuveiro, porque Yohan vasculhou as coisas de Nicholas a procura de uma toalha e roupas limpas. Encontrou mais do que isso – uma coleção de facas, quase todas manchadas de sangue e inúmeras latas de Coca-Cola em todos os cantos possíveis. Foi nesse momento que Yohan escolheu amá-lo. Escolheu não, pois já o amava. Mas aceitou. Foi confrontado com problemas para além da sua imaginação e soube que uma dura batalha o aguardava, mas aceitou enfrentá-la. Admiro-o muito por isso e sou eternamente grato.
Voltaram alguns minutos depois e Nicholas, mais calmo, sentou-se na cama com uma toalha enrolada em sua cintura. Yohan, que tinha deixado as roupas separadas, ajudava-o a vestir-se. Olhava para as cicatrizes em seu corpo – cortes, queimaduras, arranhões, marcas roxas, pretas e sangue pisado – e passava as mão por elas delicadamente, como como se desejasse ter o poder da cura. Ele não sabe, mas eu sei que, na verdade, ele tem.
— Você não devia beber tanta Coca-Cola.
Fiquei aliviado por Yohan não mencionar os machucados. Eu presenciei muitos deles serem feitos – acho que Nicholas sentiu-se muito sozinho quando veio para cá – e sei que é um momento pessoal, que ele não quer partilhar com ninguém. Apenas comigo porque, naquela época, eu ainda era o seu refúgio. Sinto que sempre serei, mas ele já não está aqui.
— Eu preciso.
Depois de vestir as calças de Nicholas, Yohan cobriu a cabeça dele com a toalha, secando seu cabelo de forma tão delicada que parecia pouco eficaz.
Foi quando eles se beijaram pela primeira vez.
Pareceu natural que assim fosse, e eles não falaram sobre aquilo. Não aqui, pelo menos, e posso imaginar que não tenham falado pois nunca uma conversa com esse tema esteve em suas cabeças enquanto estiveram aqui. Não posso confiar muito nas memórias de Nicholas, por elas serem sempre um pouco distorcidas, mas Yohan nunca falha em me atualizar.
O beijo pareceu funcionar como um calmante já que, após fechar os olhos com o contato dos lábios de Yohan contra os seus, Nicholas não voltou a abri-los enquanto deitava-se na cama, encolhido.
Yohan arrumou a toalha na cabeça de Nicholas, de forma a impedir que o cabelo molhado entrasse em contato com a colcha. Cobriu-o com uma manta e sentou-se ao seu lado, observando-o. Os seus pés sobre meu chão fizeram-me perceber que Yohan não se arrependia da decisão que havia tomado uns minutos mais cedo. Depois de acariciar o rosto de Nicholas durante um tempo, beijou sua testa tão delicadamente que só sei que o contato existiu pela lógica. Não faria sentido aproximar-se tanto e não o tocar, mas sabia que Yohan temia acordar Nicholas.
Aproveitando a luz do Sol, que ainda entrava pela minha janela, Yohan levantou-se e arrumou as coisas de Nicholas espalhadas pelo meu chão. Tudo em Nicholas vem em fases, e o mesmo vale para a arrumação que faz ou deixa de fazer em mim. Nas últimas semanas antes daquele dia, ele esteve muito pouco preocupado em manter as coisas em ordem. Não me incomodei, já que a bagunça não incluía restos de comida que me deixassem cheirando mal. Confesso que agora, que estou tão impecavelmente arrumado, sinto-me vazio. Sem vida.
Yohan recolheu as roupas e juntou-as em um monte. Enquanto descobria meu chão, via manchas de sangue seco, esquecidas, e debruçava-se sobre cada uma delas, acariciando-as, absorto em seus pensamentos, enquanto me acariciava também. Senti a agonia que lhe apertava o coração; o desespero por querer agir e não saber como. A cada faca, tesoura, lâmina ou gillette que encontrava, não sabia se as devia guardar, mandar fora ou ignorar. Optou por juntar tudo em uma gaveta na cômoda ao pé da cama. Daquela forma, Nicholas saberia que ele sabia, mesmo com o seu silêncio e, de certa forma, Yohan esperava estar presente nos pensamentos de Nicholas sempre que ele abrisse a gaveta. O que aconteceu, de fato. Mas não foi o suficiente para que parasse. Havia fases em que sim, parava. Havia outras em que, pelo contrário, pensar em Yohan deixava-o ainda mais frustrado e depressivo, e as mutilações intensificavam-se.
Sentia as gotas de sangue que caíam sobre minha alcatifa como lágrimas de um choro mudo, gravadas em mim, implorando-me que as ouvisse.
Por vezes acho que sou o único que conhece Nicholas verdadeiramente bem. Por outras penso que é Yohan. Outras ainda, penso que somos os dois. Mas, no fundo, sei que nenhum de nós o conhece. Nicholas é muito instável. Não tem nada que o defina, nada fixo. Tem fases. Conviver com ele é adaptar-se. Adaptar-se à fase da vez e aceita-la. Ama-la. Aceitar ama-la. E às outras também, da mesma maneira, por mais que algumas sejam mais difíceis e exijam mais esforço, pois é amar aquelas fases tão complicadas – agressivas, irritadas, explosivas, destrutivas – que mantém as outras vivas. Yohan percebeu isso cedo. Por isso, amou Nicholas inteiramente desde o princípio. Amou e ama. Ama como sempre amará, já que essa forma de amor é uma infinita corrida de obstáculos. Por mais cansativa e exigente que seja, não há possibilidade de desistência. Também não há possibilidade de vitória. Mas Yohan não perde o ritmo; está sempre correndo.
Depois de organizar todas as coisas de Nicholas, Yohan aconchegou-se na cama, por baixo da manta. O dia escurecera. A luz do luar iluminava os dois com um tom azulado e melancólico mas, sobretudo, pacífico. Fico muito sozinho quando meus inquilinos dormem, ainda mais sozinho do que quando estou vazio porque, apesar de saber que eles estão aqui, não os consigo sentir. Animo-me sempre quando, depois de acordar, pousam os pés sobre mim e contam-me seus sonhos, suas mais novas memórias.
Um movimento nas cobertas indicou-me que Yohan abraçava Nicholas e esforcei-me, em vão, por descobrir o que pensava.
Passado um mês, Nicholas teve uma de suas crises. Estávamos sozinhos e, de repente, ele atirou o celular contra minha parede, despedaçando-o. Provocou em mim uma cicatriz que ainda possuo. Assustei-me com a brusquidão daquilo e não soube o que o atiçou. Apenas mais tarde, calculei que ele tivesse visto as horas no celular. Socou minhas paredes com tanta força que, no dia seguinte, tinha os punhos engessados. Quando parou, já não conseguia mexer as mãos. Passou a bater com a testa sobre as marcas já feitas em minha parede e senti, junto com seu sangue, lágrimas caírem sobre mim.
Deu voz à sua agonia com um grito desesperado. Seguiu-se um segundo, rouco, raivoso, e logo um terceiro, que falhou a meio e transformou-se em um choro baixo. Deixou seu corpo cair, arrastando-se da minha parede ao meu chão, deitando-se ali. Abraçou seu corpo e chorou. Tentando lê-lo para entender o que gerara aquela reação, apenas encontrei dor. Dor física e emocional, o que resultava em um choro intenso, que prolongou-se por muito tempo, até Yohan abrir a minha porta. Vi-o aproximar-se e fiquei logo ansioso mas, acima de tudo, aliviado por ele não ter entrado na fase da raiva. Yohan nunca soube lidar bem com ela. Tem medo. E com razão, aprendemos os dois mais tarde.
Assim que entrou, ainda ficou parado à entrada, em choque. Ouvia o choro de Nicholas sem se mexer e via as marcas frescas de sangue em mim. Um soluço mais alto, implorando por ar, pareceu fazê-lo despertar de seu transe.
Correu na direção de Nicholas e, ajoelhado em meu chão, abraçou-o pelos ombros, levantando seu tronco e apoiando-o contra si. Ouvia o choro de Nicholas em silêncio e eu sabia que ele sabia que precisava de ajuda. Que não podia salvá-lo sozinho.
Yohan manteve o abraço durante pelo menos uma hora. Nesse meio tempo, descobrimos o que descarrilou toda aquela crise, da qual Yohan ainda não tinha noção das consequências.
— Você não me merece. Não merece que eu me preocupe quando você me esquece e me deixa sozinho— falava entre soluços e suas pernas, que tremiam sobre mim, diziam-me que era na verdade o contrário. Enquanto culpava Yohan pelo seu atraso de poucos minutos sem aviso prévio, na verdade odiava a si mesmo. Achava-se indigno. Eu pude perceber essa diferença em sua mente antes de ele a demonstrar por palavras, mas Yohan não. Foi pego de surpresa. — Eu ocupo o seu tempo quando você tem mais o que fazer. Vai embora.
Yohan limitou-se a abraçar Nicholas com mais força, torcendo para que aquilo fosse suficiente e sabendo que não seria. Refletia ainda sobre se deveria ou não procurar ajuda profissional quando o choro acabou.
Nicholas descolou o rosto de peito de Yohan e encarou-o e foi aí que as dúvidas acabaram. Tinha o cabelo colado na testa devido ao sangue, o rosto encharcado de suor e lágrimas. Os seus olhos, desesperados, como se fossem a janela de uma alma aprisionada que implorava por socorro.
Quando, ao limpá-las, Yohan percebeu o estado em que se encontravam as mãos de Nicholas, soube que não tinha outra alternativa senão levá-lo à enfermaria. Mais tarde, decidiria o que fazer a longo prazo.
Lá, não sei o que aconteceu. Não sei que histórias contaram a quem os atendeu. Sei que voltaram, os dois. Nicholas parecia sedado. Deitou-se na cama e ali ficou. Yohan sentou-se no parapeito da janela, refletindo e dividindo suas reflexões comigo. Estava próximo demais para se afastar e o instinto protetor que possui o impede de deixar qualquer um que precise da sua ajuda, ainda mais alguém com quem se importa. Ao mesmo tempo, não sabia se Nicholas estava pronto para receber ajuda, se reconhecia que precisava de ajuda.
Não voltou a pensar muito naquilo por algum, já que Nicholas estava mais calmo. Não teve nenhuma crise séria nos meses que se passaram, tirando alguns episódios pouco importantes.
A relação dos dois avançara e já estavam muito próximos. Yohan já sabia o que poderia levar Nicholas ao limite e fazia o possível e o impossível para impedir que aquilo acontecesse. Nunca mais se atrasou. Por mais que ele implorasse, não o deixava sozinho, pois aqueles eram os momentos em que ele mais precisava de apoio. Se algo o stressasse, fosse as aulas, um colega ou qualquer outra coisa, aparecia logo com uma lata de Coca-cola na mão. Sabia que aquele vício era pouco saudável, mas não se compara aos machucados que passavam a ser feitos com menos intensidade.
O sexo era bastante agressivo. Yohan, nas primeiras vezes, não estava muito acostumado ao ritmo de Nicholas, mas aprendeu a gostar daquilo e os dois experimentavam sempre coisas novas. Não terminavam enquanto não tivessem algumas marcas; as de Yohan, sempre um pouco mais fortes. Nicholas incentivava Yohan a machucá-lo e, pouco a pouco, a agressividade tornava-se mais unânime.
Foi mais ou menos oito meses depois de se conhecerem. Numa tarde que Yohan passou aqui com Nicholas. Como se aproximavam do fim do semestre, estavam os dois um pouco aflitos com os prazos e já há uma semana que Yohan dormia aqui, de forma a incentivarem-se um ao outro no cumprimento dos prazos de entrega e testes. Yohan decidiu fazer um intervalo e deitou-se na cama. Nicholas, que também já estava cansado de estudar, juntou-se a ele e começou a roçar seu corpo no do, então, namorado e não demorou muito para que estivessem enrolados entre cobertores, mantas e lençóis e eu visse apenas parte do que faziam.
Houve um momento, no entanto, em que Nicholas ergueu o tronco nu e ordenou:
— Me enforca.
Yohan assim o fez. Com pouca força, como é lógico. As ordens masoquistas de Nicholas já eram habituais e Yohan as cumpria, já que aquilo também o excitava.
— Mais forte!
Mais uma vez, obedeceu.
— Me enforca, porra! — Dessa vez, Yohan sequer teve tempo de corresponder quando Nicholas pôs as mãos sobre as dele, forçando-o a apertar seu próprio pescoço com uma força que Yohan jamais exerceria de propósito.
Yohan tentou largar o pescoço de Nicholas, mas a força sobre suas mãos era tanta que não conseguia. Estava desesperado. Suas mãos eram a causa pelo rosto de seu amor tornar-se arroxeado, implorar por liberdade, por ar. Nicholas engasgava-se e lacrimejava Yohan sentia-se desarmado, desesperado, procurava uma forma de terminar aquilo mas, sem forças suficientes, apenas deitava lágrimas de seus olhos, em fila, em silêncio, como se não acreditasse no que via. Como se só lhe restasse assistir, sem agir, à morte de tudo o que tinha. Quando lhe faltou oxigênio, no entanto, Nicholas diminuiu a intensidade do aperto, e Yohan largou-o, saindo da cama e transmitindo-me o terror que sentia ao pousar os pés sobre mim. Arfavam. Yohan pelo desespero e Nicholas pela falta de ar e pela dor em sua garganta.
— Volta aqui e me enforca! — Nicholas vociferou e saltou da cama também, indo na direção de Yohan. Sentia o contato da sua pele contra mim e percebi que seu corpo ardia. Estava furioso. Acho que nunca o vi assim e não entendo a repentinidade daquilo. Acho que nem ele entende.
— 'Tá maluco, Nick? Eu não vou fazer isso!
Nicholas agarrou as mãos de Yohan e, mais uma vez, fez com que elas o enforcassem. Mais uma vez, ficou sem forças e parou. Lacrimejava. Tossia. Yohan encarava-o, perplexo. Tentava descobrir que fase seria aquela. Como agir. Como acalmá-la. Nicholas não lhe deu chance. Pulou para cima dele e empurrou-o, forçando seu corpo de encontro à minha parede. Eu quis absorvê-lo. Absorver o corpo de Yohan e protegê-lo daquele novo Nicholas que ainda não conhecíamos. Não consegui, no entanto, e Nicholas aproximou-se e apertou o pescoço de Yohan. Assim que olhou nos olhos dele, no entanto, parou. Parou e afastou-se, arrastando-se por meu chão até dar com as costas contra a cama e ficar ali. Sua respiração estava descompassada.
Nicholas de um lado e Yohan do outro. Ambos encolhidos em meu chão, como se me pedissem ajuda. Encaravam-se à distância e eu os mantinha unidos. “Vamos, não desistam. Nunca desistam um do outro. Lutem” eu tentava dizer-lhes, mas nunca soube se me ouviam.
Yohan viu, assim como eu, a mudança no olhar de Nicholas. Depois da raiva, voltava a mostrar aquela alma presa que, através das janelas que são seus olhos, nos chamava. Gritava. Nicholas encolheu-se ainda mais, murmurando pedidos de desculpa enquanto cravava as unhas em seus joelhos nus, marcando-os com força. Assim que viu um filete de sangue escorrer, Yohan correu em sua direção. Abraçou-o com mais força do que nunca e chorou. Chorou porque, naquele momento, tomou a decisão que adiava por tanto tempo.
Yohan ainda veio me visitar uma vez. Encaixotou as coisas de Nicholas e deixou-as ali, com aquele ar de mudança. De despedida. Ainda deitou-se sobre a cama uma última vez, fitando meu teto, comunicando comigo. Depois, como se o contato através do olhar não fosse suficiente, levantou-se e sentou-se onde costumava ir para pensar: para o meu parapeito. Sempre gostava quando ele se sentava ali. Compartilhávamos imensas memórias. Foi ali que ele me disse, silenciosamente, que Nicholas está bem. Que eu não preciso me preocupar. Que eles vão superar aquilo. Que eu e ele não fomos suficientes para cuidar de Nicholas mas que, agora, ele está recebendo a atenção que precisa.
Não desistimos dele. Nunca desistiremos. Mas, mas importante, ele não pode desistir dele mesmo. E é Yohan quem tem que lembrá-lo disso o tempo todo.
Tenho saudades de Nicholas. Tenho saudades de Yohan. Imagino que eles tenham saudades minhas também, pois partilhamos memórias só nossas e vivemos momentos que estarão sempre guardados em nossas memórias. As marcas em mim desaparecerão. Serei restaurado. Mas nunca os esquecerei. Fico feliz por ter sido parte dessa história, e espero que ela continue não aqui, mas em outro quarto que os abrigue e aconchegue. Que lhes sirva de refúgio. Que os proteja.
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