Borboletas do Arco-Íris
33 Rarity - Flores de Cerejeira
Notas iniciais
Eu estava em choque. O pânico me tomava conta junto com a mais pura culpa que revirava dentro de mim como uma cobra dançando conga. Eu estava sentada com as meninas nas arquibancadas, embora Fluttershy tenha sumido.
– Ok Rarity, explica desde o começo — diz Apple pacientemente.
...FLASHBACK...
Era o meio do jogo e eu estava com uma vontade horrorosa de ir ao banheiro. Sendo assim, levanto-me e aviso que vou ao banheiro, sendo prontamente ignorada por Fluttershy, que encarava avidamente Rainbow na quadra. Apple assente com a cabeça e eu caminho apressadamente em direção ao banheiro.
Empurro a porta com força causando um baque forte e estrondoso. Entro desesperada no boxe e finalmente me alivio. Saio do boxe para lavar as mãos e decido retocar a maquiagem. Distraída procurando meu batom na bolsa, apenas sinto quando alguém pega em minha cintura e a aperta firme, fazendo-me levantar a cabeça assustada e encarar Apple no espelho.
– Oh, que susto Apple... Não te vi entrando.
Ela sorri maliciosa e afunda o rosto no meu pescoço, depositando beijinhos ali.
– Apple eu sei que está desesperada para foder comigo, mas você poderia esperar o jogo acabar... — digo já ofegante.
– Na verdade eu vim lhe pedir uma coisa.
Giro meu corpo e fico de frente para ela, olhando-a nos olhos.
– Tudo o que você quiser minha delícia — digo maliciosa.
– Eu só... Queria seu colar emprestado.
– Pra quê? — pergunto confusa levando a mão automaticamente ao colar.
– É uma surpresa docinho. Você confia em mim?
– Claro que confio meu amor — digo tirando o colar — Cuida bem dele — o entrego a ela.
...FIM DO FLASHBACK...
– Mas eu nem saí das arquibancadas o jogo todo! — exclama Apple.
– Estranho porque a Twi também veio me pedir meu colar para polir ou algo assim — diz Pinkie.
– E você acreditou nisso?! — pergunta Twilight indignada.
Pinkie sorri culpada.
– Bem... Quando eu fui parabenizar a Rainbow depois do jogo alguém puxou o meu colar com força e o arrebentou — diz Apple — E eu jurava que a pessoa tinha cabelos roxos.
– Isso é muito estranho — comenta Sunset.
– Pelo menos não roubaram o meu — diz Rainbow — Já que eu o guardo em casa.
– Ei! — exclama Pinkie alarmada — Cadê a Flutter?
– Vai ver ela ficou chateada com você ter beijado a Rainbow, Pinkie — digo a encarando.
– Aliás, porque você fez isso, Pinkie? — pergunta Apple.
– Eu... Eu pensei que... Como a Rainbow e a Flutter estavam brigadas eu... Achei que podia dar um empurrãozinho... — explica infeliz.
– Você não fez por mal — digo para tranquiliza-la, acariciando suas costas. Ela dá um sorriso agradecido.
– Eu não sei, a Flutter não quer me atender, então eu acho que é isso mesmo. — diz Rainbow infeliz.
– Então porque não foi até ela? — pergunto irritada.
– Ah, vocês estavam arrumando a maior confusão e eu achei que era algo importante por isso vim ver, mas era só sobre o colar.
– “Só sobre o colar”?! — pergunto em indignação.
– Eu acho que você devia ir então, Dash — diz Apple — Seu colar não foi roubado mesmo.
– Valeu, AJ. — diz Rainbow se retirando.
...SEMANAS DEPOIS...
Toda aquela confusão com os colares foi esquecida imediatamente, com o anúncio da Festa das Nações que aconteceria em breve. Não se falava em outra coisa e eu, é claro, entrei na onda. Acontecera uma briga entte Rainbow e Scootaloo mas não procurei mais detalhes, eu tinha o festival para me preocupar.
Sortearam um país para cada sala e teríamos que fazer apresentações e comidas típicas do mesmo. A minha sala acabou ficando com o Japão, e eu fiquei animadíssima para me apresentar. Mas não importava o quanto eu implorasse para a diretora Celestia, ela não me deixava apresentar com Apple. Acabei tendo que pensar em algo sozinha.
Acabei optando por cantar, já que ultimamente a nossa banda, as Rainbooms estavam fazendo um mínimo sucesso e até agora ninguém reclamou da minha voz. Claro que eu costuraria um kimono lindíssimo para mim que combinaria totalmente com meu repertório. Logo eu estava treinando meu japonês e minha voz por toda Canterlot — mas sem revelar minha música, é claro.
– Assim você fica rouca antes de chegar o festival — comenta Apple depois de me ouvir cantar “PONPONPON”, da Kyary Pamyu Pamyu umas 10 vezes.
Pego minha bandeja de comida e a sigo.
– Eu não tenho culpa se essa música fica na cabeça, Apple-chan — tento me defender.
– Chan? Que isso menina? — pergunta se sentando em uma mesa vazia.
– É japonês, Apple, japonês. — digo sem paciência, sentando-me ao seu lado.
– Não sei pra que essa frescura toda.
– Eu tenho que treinar bem meu japonês e estudar a cultura do Japão se quiser passar todo o espírito japonês que eu conseguir.
– Se você diz...
– Você vai entender hoje a noite, quando fizermos uma maratona de Kaichou wa Maid-sama.
– Quê isso?
– É um animê, Apple — digo impaciente. — Animação japonesa.
– Ah! Aqueles desenhos tipo Dragon Ball, Naruto? — pergunta mais animada
– Animação japonesa — friso a palavra novamente — Mas é tipo isso.
– Oi meninas! — cumprimenta Pinkie se sentando à nossa frente. — Qual o papo?
– A Rarity deu de ver desenho agora — diz Apple.
Bufo irritada.
– Como assim? — pergunta Pinkie.
– É animê, não desenho.
– Ah, eu não sabia que você era otaku — diz Pinkie — Eu também sou.
– Eu não sou exatamente otaku... Mas gosto muito dos animês shoujos.
– Ah, eu vejo um pouco de tudo — comenta Pinkie — Meu favorito é Corpse Party — ela sorri maléfica.
Estremesso. Eu, hein.
– Nunca vi...
– Mas enfim, ouvi que você vai se apresentar no festival...
– Sim! Meu país é Japão! — digo animada — Você vai se apresentar?
– Vou também, o meu é Alemanha. Acho que vou me vestir de Hitler e fingir matar alguém — ela ri divertida.
– Só porque é Alemanha não quer dizer que tenha que ter Hitler — fico levemente indignada — Você podia estudar a cultura do país...
– Que bobagem — diz Apple de boca cheia.
– Fecha a boquinha pra comer, amor — digo segurando seu queixo.
Ela me ignora e continua comendo.
– Mas todos conhecem Hitler. Hitler nunca é demais.
– Eu sei, mas...
– Você vai comer essa maçã? — interrompe Apple, ainda de boca cheia.
Reviro os olhos e coloco a maçã em sua bandeja.
...DIAS DEPOIS...
Era o dia do Festival e eu estava uma pilha de nervos no camarim. Faltavam apenas alguns minutos para minha apresentação e até agora Apple não viera me desejar boa sorte. Confesso que fiquei chateada, mas ela devia ter algum motivo para não faze-lo.
Eu havia feito um lindo furisode de um azul quase preto, cheio de pedras brancas e azuis enfeitando a estampa de flores roxas, parecidas com a flor de cerejeira, o haneri e o obi de cor lilás. Eu havia prendido meu cabelo em um penteado parecido de geisha, deixado meu rosto mais branco que o normal para uma maquiagem também digna de geisha e vestia um geta nos pés.
Eu estava linda e arrasando, andando para lá e para cá cantarolando baixinho minha música, tentando não entrar em pânico. Eu precisava do beijo de Apple para me acalmar, mas ao invés disso optei por um chá gelado de limão que eu comprara antes de entrar no camarim.
Alguém bate na porta e eu quase que imediatamente abro. Mas era só a Pinkie, vestida de Hitler, toda animada. Ela entra mesmo sem ser chamada.
– Você está linda, Rarity — comenta ela — Olhe isso.
Ela me mostra o vídeo que gravaram de sua apresentação, cantando uma música em alemão com uma cara muito séria em companhia de outras garotas — que imagino ser de sua sala — cantando no coral e fazendo o papel de judeus. Era engraçado de se assitir, e eu ria junto de Pinkie.
– Não foi o máximo? — pergunta ela quando o vídeo acaba.
– Foi — digo ainda rindo.
Acabo me acalmando um pouco com a presença de Pinkie, que me tranquiliza quanto a Apple.
– Você vai ver, tenho certeza que ela não fez de propósito — ela diz.
– Eu espero.
Batidas na porta novamente, mas a pessoa não me espera abrir e a abre de supetão. Era Celestia.
– Rarity? Você será a próxima, querida.
– Ah... E-eu?
– Sim, você. Você tem 2 minutos para estar preparada. — ela diz e sai fechando a porta.
Começo a tremer.
– E-e agora? A Apple não tá aqui pra me ver e... Eu queria que ela visse... E se não gostarem de mim? Será que meu kimono está exagerado? Acho que vou encurtar essa barra e... — começo a soltar tudo de uma vez andando pra lá e pra cá e por fim parando diante da penteadeira, abrindo minha caixa de costura.
Pinkie pega minha mão antes que eu faça qualquer besteira com o kimono.
– Você está linda assim, Rarity. — diz ela gentilmente — E tenho certeza que Apple estará lá te vendo.
Sorrio de lado.
– Espero que sim...
– Venha, eu te acompanho até a cochia.
Sorrio agradecida e ela me dá um copo d’água antes de sairmos do camarim. A água me ajuda a acalmar minha respiração e pensar melhor. Paramos na cochia. Trixie fazia sua apresentação mexicana, terminando em breve sua canção e as cortinas se fecham. Era minha vez.
Celestia passa por mim e vai até o palco, sorrindo para a plateia.
– E agora Rarity, representando o Japão.
Todos aplaudem e ela volta à cochia, me entregando o microfone e me desejando boa sorte. Pinkie me dá um leve empurrão e me deseja sorte, fazendo sinal positivo para mim. Entro no palco olhando a todos que me aplaudem, sorrindo nervosa.
O toque inicial de minha música começa, anunciando o começo de “Sakura, Chiru”, do Gackt e YOHIO.
Kimi to ita kono basho de
Mata kisetsu wa toorisugite
Miageta yozora ni wa kawaranai
Ano hi no kimi ga warau
Começo tímida, mas me solto lentamente, cantando com mais emoção. Olho para a plateia mas não encontro Apple. Eu me sentia só, olhando nervosamente para ver se encontrava meu amor. Porque ela me deixara sozinha? Será que ela não me amava mais?
Kesenakute hakanasugite
Kimi no na wo sakebi tsuzuketa
Itoshikute mata aitakute
Boku no koe kikoemasu ka
Era como na música. Eu a amava demais para esquecer que sua presença era importante ali. Será que ela ouvia minha voz? Porque ela não está na primeira fileira para me ver? Ou ela estaria nas últimas porque chegou atrasada? Olho aos fundos, mas também não a encontro. Onde ela estaria?
Sakura chiru hanabira tsukamaete
Kimi no kakera dakishimeta
Namida doredake kazoete mitemo
Ano hi wa modoranai
Minhas lágrimas já estavam quase descendo. Será que ela se cansou de me ouvir falar no Japão e não quis me ver hoje a noite? Ou será que aconteceu algo na fazenda que seria urgente? Onde estaria Apple a essa hora. Me preparo para o próximo verso, mas não é minha voz que sai:
Miagereba samishisouna
Maichiru hoshizora dakishime
Nidoto futari hanarenai you ni
Kimi no ashimoto terashi wo
Olho para o lado, e lá estava ela. Vestia um hakama da cor branca, com a parte de baixo e o haneri vermelhos, o destacando. Pedras vermelhas e uma estampa de boldo no outono, com suas folhas avermelhadas o decoravam. Ela usava os cabelos em um rabo-de-cavalo, zori nos pés e uma katana de madeira na cintura. Usava uma maquiagem bem simples e estava muito, muito linda.
Todokisoude todokanakute
Doredake te wo nobashitemo
Toosugite kowaresou de
Boku no namida miemasu ka
Sua voz potente e sexy se fez presente, cantando para mim aquela música linda, olhando em meus olhos. A aplaudiram, e como que em reflexo de ciúmes eu peguei em sua mão, a fazendo cantar totalmente ligada a mim.
Ah
Sakura chiru hanabira tsukamaete
Kimi no kakera dakishimeta
Namida doredake kazoete mitemo
Ano hi wa modoranai
A breve pausa na música me deu a oportunidade de dar-lhe um selinho rápido, não ligando para o que pensariam de nós. Foda-se se tiverem preconceito. Foda-se se não gostarem. Foda-se, foda-se tudo. Mas para a minha surpresa, ouço várias exclamações típicas de quem shippa. Vários “awwn” ecoando pelo recinto. Então canto junto com minha musa:
Itsuka aeru kara
Sono hi made wasurenai de ne
Sakura chiru hanabira tsukamaete
Kimi no kakera dakishimeta
Namida dore dake kazoete mite mo
Ano hi wa modoranai
Mal finalizamos a música e Apple me puxa pela cintura para um beijo apaixonado. Como eu amo essa garota, vocês não tem ideia. O beijo é delicado, doce, e com gosto de quero mais. Ouvimos os aplausos e gritaria, nos soltando e agradecendo ao público, que pedia por bis. As cortinas se fecham e nos retiramos do palco às risadas.
Passamos direto por uma Pinkie eufórica e uma Celestia preocupada indo direto para o camarim, onde nos trancamos. Mal fechamos as portas e Apple me prensa contra a mesma, atacando meus lábios.
– Ei — digo entre um beijo e outro, tentando encontrar forças para para-la.
Ela para e me olha intensamente, seu rosto muito perto do meu.
– Eu estou brava com você. — digo fazendo bico.
– Porque? — pergunta Apple confusa.
– Porque você não me desejou boa sorte — lhe dou um selinho — E me deixou sozinha.
– Era parte do plano pra que tudo desse certo — ela diz sorrindo — Você não gostou?
– Eu amei — digo a abraçando — Você é a melhor namorada do mundo. Eu te amo.
– Eu também te amo — diz ela me beijando voraz.
As cerejeiras desabrochavam, cresciam, e caíam em inúmeras pétalas cor-de rosa, enchendo regiões com sua graça e beleza. Como nosso amor, que desabrochou, cresceu e então explodiu no palco, fazendo com que as pessoas de Canterlot não ligassem de ver um amor lésbico, pois era verdadeiro. Ou talvez os alunos de Canterlot apenas sejam mais mente aberta do que as outras pessoas. Mas o que importa mesmo é que eu tenho Apple, e não o que pensam da gente.
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