Borboleta de Ouro
5 Five Minutes
Notas iniciais
—5 minutos — e de repente a voz masculina -da qual entrara em minha mente do jeito mais marcante possível- se esvaiu pela porta com passos apressados enquanto eu tentava processar as informações que tinha recebido naquele meio tempo.
Sentei-me no chão de resina acinzentado tonta e imersa em pensamentos. Aquilo definitivamente não iria dar certo como minhas expectativas no momento em que peguei da mão de meu parceiro aquela faixa vermelha. Se a parte de concentração por si só já era difícil, me assustava o fato de que eu teria que tê-la sem enxergar absolutamente nada além de feixes vermelhos.
A exaustão em que meu corpo se encontrava não me permitia mover sequer um músculo. O suor escorria por minha nuca em evidência ao meu esforço e nervosismo. O Sol exibia seus últimos raios no céu colorido de rosa e laranja, e eu podia sentir a brisa fria do fim da tarde invadindo a sala empoeirada e silenciosa.
Distraída demais e cansada demais para prestar atenção em alguma coisa, só fui perceber o retorno de meu mais novo colega quando o mesmo se abaixou em minha frente me estendendo uma maçã verde, na qual peguei e lhe agradeci com um meio sorriso.
—Você deveria tomar mais cuidado nos treinos. Se não fizer pausas regulares vai acabar ficando doente antes mesmo de fazer o teste- disse ele se jogando contra a parede, ao meu lado.
O teste. Nunca em toda a minha experiência como dançarina encontrei um evento tão avassalador. O fato de parecer uma simples avaliação descartava todo e qualquer momento de tranquilidade que eu desejava ter. Por esse motivo, não comi nada entre os intervalos que Jeon saía da sala. Eu me forçava a permanecer virada para o espelho, me movendo conforme o tempo da música. Muitas vezes recebia olhares curiosos vindos da vidraça no meio da porta de correr da sala, mas ignorava completamente por estar tão desesperada. Aliás, eu ignorei tudo o que não fosse aquilo que eu estava fazendo.
Ele, do contrário, parecia tranquilo com todo o movimento que seguíamos e parecia se manter numa neutralidade admirável. No meio daquele silêncio, ouvia-se apenas o barulho de minha respiração ofegante e os estalos que a maçã produzia ao encontrar-se com meus dentes.
—Você está ansiosa, mas eu lhe asseguro que o mínimo que pode acontecer é alguém tropeçar no palco. O tecido da venda nem é tão grosso. Poderemos enxergar um ao outro.
—Você fala como se fosse a tarefa mais simples a se fazer, porém, eu vou jogar todo o meu esforço de anos fora se algo de errado acontecer. E posso também me responsabilizar pela sua eliminação, caso eles não tenham piedade de nenhum de nós. A mais pura verdade é que eu estou com medo.
Confesso, sou alguém sensível. Posso, graças a um pequeno detalhe, me quebrar inteira por antecipação e ansiedade. Mas eu também tenho meu lado impenetrável, e era para ele estar sendo usado neste grande momento. Só que, essa carta na minha manga caiu em algum lugar e eu não consigo encontrá-la.
Jeon encarava-me enquanto meu olhar se perdia pelos cantos da sala. Suspirei e abaixei a cabeça deixando meu cabelo se apossar da minha face cansada
—Essa é a chance que eu tenho para mudar a minha vida. Se eu perder a oportunidade, vou ter que voltar para o lugar de onde vim e céus, se isso acontecer, a honra de minha família estará arruinada. Meus pais se esforçaram muito para me colocar nessa academia. Pode parecer um exagero, eu sei, só que tudo pode se acabar com apenas uma diferença de pontuação.
Minha garganta queimava e tudo o que eu queria era sair correndo e me trancar no dormitório. Mas, desistir a essa altura do jogo só iria me fazer uma perdedora. E meu espírito competitivo gritava NÃO para minha consciência.
De repente me vi no meio de um choro apreensivo. Jeon que observava se assustou com tal ato, mas não ficou parado olhando para mim. Ele se levantou e me deu a mão como apoio para depois contornar meu corpo e vendar meus olhos com a fita vermelha rendada, delicadamente. O mesmo me guiou até o meio da sala conforme os passos que consegui contar e percebi que ele soltou minha mão para amarrar sua venda. Por meio do controle da caixa de som, a música mais uma vez ecoou sobre as paredes, me causando um arrepio interno. Os primeiros versos eu dançava sozinha enquanto Jeon esperava de costas ao meu lado. E foi isso que fiz, porém de forma tímida e insegura.
— Apenas confie em você mesma ok? Não temos muito tempo.
Através da pouca visão que a faixa me conferia, me permiti realizar os movimentos com mais liberdade. A forma encorajadora como meu parceiro encarava meu pequeno surto me fez perceber que aquela rodada em que dançávamos era uma forma de me dizer que ficaria tudo bem. E como se nada do que eu tivesse pensado antes valesse a pena, eu decidi confiar.
E essa foi a melhor coisa que eu fiz.
Os ensaios se desenrolaram até o meio da noite quando eu e ele chegamos a um consenso de que deveríamos por fim parar. Juntamos nossas coisas e deixamos a sala de treino juntos, andando lado a lado calmamente. Por ser um pouco tarde, apenas algumas salas restavam iluminadas, com um fluxo minúsculo de alunos e professores pelos corredores.
Miss Elioth havia permitido que usássemos a sala até as 21h da noite e conseguimos aproveitar o meio tempo. Esperei Jeon guardar a caixa de som em nossa sala de aula para voltar ao meu dormitório, onde o mesmo me acompanhou, alegando-me que sair do campus desacompanhado era perigoso, por mais estranho que pudesse parecer, já que meu prédio possuía apenas meninas.
E, surpreendentemente, a impenetrabilidade que o garoto ao meu lado exalava enquanto se movia ou me encarava desapareceu com um simples pedido ao chegarmos na porta de meu dormitório.
— Pode me passar seu número?
Eu não quis perguntar o porquê, mas acho mesmo que estava incapaz de emitir qualquer som com tamanha surpresa. Sorri desajeitada e peguei seu aparelho com as mãos trêmulas.
“Contato salvo como Borboleta de Ouro”
—Aqui está- devolvi o celular e fiz de menção de me virar em direção a porta para entrar, mas fui impedida por uma mão segurando meu pulso. Voltei-me para ele e fui acertada em cheio por um olhar flamejante do mais alto que proferiu com a voz baixa e perceptivelmente mais grave:
—Por favor, não se faça de fraca. O seu discurso de hoje destruiu as possibilidades de você se demonstrar tímida diante da plateia. Sendo assim, não me decepcione amanhã.
Com os olhos arregalados e o coração dançando em descompassos no peito, meneei a cabeça para cima e para baixo numa afirmação. O que havia acontecido com o garoto tímido e silencioso que conheci como dupla?
A pouca luz no corredor em contraste com o azul quase preto do céu estrelado relevou as faíscas que saltavam de seus olhos puxados, tornando-o atraente. Me senti presa a um sentimento de incerteza mais fui pega por um erro precipitante ao ver que não era fúria o que ele exalava.
—Boa noite, Rebeca Will.
Era só, ele.
Entrei no quarto na ponta dos pés para não acordar uma outra garota que havia ocupado o andar de cima do beliche ao lado de minha cama e mergulhava num sono profundo e pesado. Tomei uma ducha e me deitei, conforme ouvia o som do estralo em minha coluna, ao ponto em que meus músculos doloridos relaxavam. Não era como se eu tivesse sido 100% tranquilizada pelo discurso silencioso de Jeon, mas ele me revelara um lado seu que eu seria incapaz de não me sentir atraída. Precisava conhecê-lo para cessar minha irritante curiosidade. Apaguei após ser invadida por diversas teorias de sua possível história de vida.
Tudo o que havia acontecido me levava a crer que eu e ele poderíamos ser grandes amigos.
E esse interesse repentino, ao mesmo tempo me assustava. Assim como o teste do dia seguinte.
O incêndio do curso de vida ao qual mencionei no começo dos treinos estava se expandindo e eu não duvido que mais cedo ou mais tarde, ele se torne uma grande explosão.
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