Borboleta Negra

38 Capítulo Seis - Parte II


Notas iniciais
Oie... mais um capítulo na tentativa de atualizar como no face...

Obrigada pelos reviews meninas... Desculpem a correria.

BOA LEITURA...

Isabella mantinha os olhos fixos na paisagem que passava pela janela do coche, inquieta. Encolhida em seu grosso casaco, dizia a si mesma que a agitação de Londres sempre a surpreenderia. Provavelmente fosse impressão, mas parecia que a cada seis meses a cidade crescia ainda mais. Nem o frio cortante daquele rigoroso inverno parecia inspirar as pessoas a se manterem em suas casas, a se aquecerem diante de lareiras com fogo bem alimentado. Na verdade as compreendia, faltavam quatro dias para o Natal; o que deixava a todos naturalmente ativos.

Se acaso ela se habituasse à agitação londrina, talvez pudesse programar uma mudança de ares. Seria uma forma de esquecer seu passado, deixando o Jardim definitivamente, sem ser preciso esperar como Carlisle a fez entender ser necessário, dois meses atrás. Segundo o banqueiro, ela não poderia simplesmente pedir que uma das propriedades fosse desocupada da noite para o dia.

– E também não pretende desalojar uma família às vésperas do inverno – ele acrescentou na ocasião, antes de combinarem a viagem na qual se encontravam.

Não, ela não queria desalojar uma família, então tal impedimento burocrático, e sentimental de sua parte, minou a vontade em deixar o bordel o quanto antes. Angela não se mostrou satisfeita com o entrave, porém também não exultou, manteve-se firme na posição em ajudar a jovem cafetina, aceitando reduzir o número de clientes para supervisionar a casa nos momentos em que Isabella ficasse reclusa em seu quarto. Ficou acertado entre as duas que a dona do Jardim aproveitaria o tempo de espera até a partida para se afastar aos poucos, sem alardes.

Então, naqueles dois meses Isabella desceu ao salão todos os dias durante uma hora e então se manteve no escritório ou em seu quarto, pronta para quando sua presença se fizesse necessária. Foi com satisfação que viu não fazer tanta falta. Com isso se afastava mais e conseguia certa tranquilidade; livre dos toques fortuitos que sempre a exasperariam. Na mesma medida que crescia sua tranquilidade o medo de ser descoberta por Edward se extinguia. Ao que parecia seu amigo banqueiro não a denunciou ao futuro genro, tornando as chances do barão vê-la em trajes sumários em meio aos clientes do bordel, praticamente nulas.

Com o pensamento Isabella suspirou profundamente. Se acaso se acostumasse com o vai e vem de Londres, também se manteria longe do promissor casal. Se antes não lhe chegavam informações dos Masen Bradley, ao se espalhar a notícia da provável ligação entre o nobre e a linda filha do banqueiro, praticamente todas as moradoras do Jardim, inclusive Angela, pareciam fazer questão de mantê-la informada sobre cada passo dado por Edward e Tanya.

Já não saia de casa nem mesmo para ir à missa, temendo ser abordada por Laurent, entretanto, mesmo reclusa, Isabella sabia quando os pombinhos iam à igreja, à única confeitaria renomada da cidade ou às festas oferecidas pelas famílias decentes de Wisbury. Destas tinha as informações diretamente de seus clientes que ao cumprimentá-la pareciam ler em sua face que esperava ansiosa para saber que o barão de Westking lhes deu a honra de sua presença ao acompanhar a família da bela senhorita Tanya; argh.

– Isabella, o que há? – Carlisle perguntou, preocupado. – Parece nervosa.

– Estou ansiosa. – disse rapidamente. De certa forma não mentia, pois sempre ficava inquieta antes de seus encontros com Embry.

– Parece ser algo mais, mas... Se não quer me dizer, entenderei.

– São cismas minhas. – Isabella minimizou ao sentir o ressentimento nas poucas palavras. – Estava pensando em como seria bom vir morar em Londres.

– Como uma fuga de Wisbury? – indagou sugestivo.

– Como uma forma de recomeço – ela retrucou. – Onde não me conhecessem e eu pudesse viver em paz, com Embry.

– Sim, seria o final perfeito para essa história que cria em sua mente.

– Exatamente.

Não havia razão de replicar à provocação velada uma vez que não chegaria a um consenso, como sempre. Não desejava discutir tanto quanto não queria dar ao amigo a chance de também lhe informar dos futuros compromissos do barão.

– Bem... – Carlisle recomeçou, rolando sua bengala com seus dedos enluvados, despretensiosamente. – Já que planeja se mudar para tão longe, eu gostaria de aproveitar a oportunidade e convidá-la para a comemoração de meu aniversário.

– Acho que não entendi – ela o encarou com as sobrancelhas unidas. – Talvez as noites mal dormidas ou o chacoalhar do trem tenham danificado minha audição.

– A convivência com o barão aprimorou seu humor, minha cara. – Carlisle exalou afetado, rindo brevemente antes de voltar à seriedade. – Sei que o balanço do trem não afetou seus sentidos. Ouviu muito bem e entendeu melhor ainda. Quero que vá à minha festa de aniversário e não aceitarei recusas.

– Carlisle, isso é impossível! – Isabella maximizou os olhos, ignorando a provocação indevida; o amigo enlouquecera. – Não posso ir à sua casa!

– Evidente que pode! Estou convidando... Não, na verdade, estou exigindo que vá. – Isabella abriu a boca para protestar, porém, ele não permitiu que falasse. – Será meu aniversário de sessenta anos. Quero todos os amigos e as pessoas que amo junto a mim... E depois de tudo o que tenho feito por você, não pode me negar essa alegria.

A moça poderia se magoar pela citação da ajuda recebida por anos, porém sabia que o amigo não o fizera por mal, e, sim, movido pelo espírito mimado que demonstrava às vezes. Argumentar seria inútil, ainda assim ela tentou persuadi-lo.

– Como eu iria até sua casa? Como me apresentaria a todos?

– Simples! – Carlisle deu de ombros. – Poderemos usar a mesma desculpa usada no internado, porém, além de dizermos que é viúva, acrescentaremos que é uma de minhas correntistas vinda de Wiltshire. Ninguém desconfiará.

Isabella suspirou e ajeitou uma fita na saia do vestido preto que usava. Para todos os efeitos o reitor e as freiras acreditavam piamente que ela era uma viúva desvalida, a quem o ilibado banqueiro, compadecido da precária situação, empregara em uma de suas casas bancárias e assumira os cuidados do pequeno filho sem pai. A mentira valia para o internato Saint Joseph, mas Isabella não queria propagá-la.

Também não se sentia animada a estar diante de Tanya, muito menos ver Edward depois de meses. Somente pela expectativa seu corpo tremia. E ainda havia o pior de todos os impedimentos.

– Tenho certeza de que Laurent estará lá... Não! Lamento... É impossível!

– Sim, Sir Hunt foi convidado, assim como o barão também estará em minha festa – ele se mostrava irredutível – , mas precisa parar de se esconder. Laurent é um mal menor e basta levar Sam em sua companhia para mantê-lo longe.

– Levar Sam?! Quando o virem todos os senhores que frequentam o Jardim saberão que eu sou Amber!

– Acalme-se. Será um Bal Masqué. Invenções de Tanya... – acrescentou condescendente. – Então, evite máscaras pretas e entre sozinha. Fique próximo a Sam, mas não lhe dirija a palavra com isso Sir Hunt não a perturbará. E lembre-se de que estarão na minha casa. Tenho feito vistas grossas à espreita que Laurent lhe faz, mas sempre estarei bem disposto a encomendar-lhe outro corretivo caso passe dos limites mais uma vez, então, ele não seria louco de interpelá-la.

– Mas... – ela não se sentia segura com aquele plano.

– Já lhe disse, não aceitarei uma negativa como resposta. Quanto ao barão, se está convicta em sua decisão não deve temer um encontro. De toda forma ele talvez nem a reconheça, pois estará mascarada. E se acontecer, dirija-lhe meia dúzia de palavras educadas que tudo ficará bem.

– Não sei se será assim tão fácil... – contradisse um sussurro; lembrava do último encontro.

– Sim, será. Eu já lhe disse o quanto o compromisso entre ele e minha filha progrediu. Sinto-me um tolo por meu alarde inicial que me levou a insistir que você lhe desse outra chance. Fique sossegada querida, pois Lord Masen já a esqueceu. E se quer mais um motivo para tranquilizar seu coração, segredo-lhe que estou com um forte pressentimento de que ele pedirá Tanya em casamento na noite de Natal. Não é maravilhoso?

Pela mente de Isabella passavam muitas palavras, porém nenhuma que se assemelhasse à palavra empregada. Suas mãos suaram sob as luvas e as pernas enregelaram com o segredo dividido. Edward e Tanya, noivos dali a quatro dias!

– Sendo assim... – foi tudo o que ela conseguiu externar.

Ver sua determinação se concretizando trazia um sabor amargo à boca, e nem lhe animava a discrepância entre aquele e seu breve noivado. Edward ter esperado dois meses, não duas semanas para pedir a mão de Tanya, não a envaidecia.

– Veja! – Carlisle exclamou animado. – Chegamos!

Imediatamente o coração de Isabella se agitou e sua dor foi esquecida; estava prestes a abraçar seu pequeno Embry para encerrar a falta sentia durante os últimos seis meses. Enquanto Carlisle descia para vestir sua cartola e lhe estender a mão, ela tomou o presente que escolhera para o menino e se preparou para segui-lo; estava ansiosa.

Como sempre, nos dias de visita, o portão se encontrava aberto, então apenas cumprimentaram o porteiro e seguiram pelo caminho de cascalhos, cruzando por aqueles que levavam suas crianças para passarem as festas em casa; infelizmente aquele não era o caso de Embry, Isabella lamentou. Porém não se abateu; ele estava seguro ali.

Caminhando apressadamente, evitaram os degraus frontais e rumaram para os jardins que ficavam ao fundo da instituição. Logo estavam entre todos, cumprimentando freiras conhecidas e outros visitantes. Saudosa, Isabella perscrutou o gramado e os bancos até encontrá-lo. Provando que a ligação entre eles era muito forte, independendo da nomeação que davam um ao outro, Embry a avistou quase que simultaneamente, liberando-a de chamá-lo.

Como previu, bastou ver o sorriso genuíno iluminar o rosto infantil para que suas esperanças se renovassem e confiasse que o que fazia era certo. Para mantê-lo seguro, livre da vergonha e dos males da vida, todo o sacrifício sempre seria válido. E o que faria por ele, faria igual por seu irmão. Com a convicção misturando-se com o contentamento em ver o pequeno correr em sua direção, bastou a Isabella ignorar a grama úmida e se ajoelhar sobre as muitas saias para recebê-lo em seus braços.

– Minha senhora! – exclamou antes de chocar-se a ela e mutuamente se abraçar. – Finalmente veio!

– Sempre meu querido. – prometeu embargada; não gostava de chorar perante o menino, porém fatores aquém de sua vontade impediam-na de conter as lágrimas que antes, nunca derramou. – Senti tanto a sua falta!

– E eu a sua – ele disse ainda a apertá-la entre os braços. Afastando-se, olhou-a demoradamente, então, torcendo os lábios como se fizesse alguma força, passou as mãos pequenas pelas bochechas molhadas e pediu com voz trêmula. – Não chore minha senhora, por favor... Senão fico triste e se eu chorar, todos os meninos zombarão de mim como fizeram com o Peter. Homens não choram, a senhora sabe.

– Perdoe-me – ela lhe sorriu, tentando conter o pranto. – Não queremos que isso aconteça a você.

Ao se calar viu o lenço que Carlisle silenciosamente lhe estendia. Ao pegá-lo Embry se afastou e se pôs de pé, muito ereto e formal para olhar o homem que acompanhava a mãe. Estendendo-lhe a mão, cumprimentou:

– Bom dia Sir Cullen, obrigada por trazer minha senhora dessa vez.

– Eu disse que traria, não? – O banqueiro indagou muito sério, porém quebrou a austeridade da expressão ao piscar para o menino.

– Deveria trazer sempre Sir Cullen.

– Infelizmente não pode ser assim, mas logo chegará o dia em que ficarão juntos para sempre. – Carlisle falou docemente, recebendo de Isabella um olhar repreensivo. – Bem... Vou deixá-los a sós. Caso precise de mim Isabella, estarei na sala do reitor Hastings.

– Fique a vontade – ela o dispensou sem encobrir o mau humor; Carlisle não deveria alimentar esperanças sobre algo que não aconteceria.

Com um toque na aba de sua cartola, Carlisle se foi, deixando mãe e filho a vê-lo se afastar. Isabella ainda o seguia com o olhar, cismando com suas últimas palavras quando sentiu dedos pequeninos tocarem sua bochecha. Ao olhar para o menino viu o olhar consternado.

– E agora a senhora está brava – comentou confuso.

Imediatamente a moça desanuviou a expressão e esboçou um sorriso.

– Não estou! – garantiu, recuperando a caixa que depositou ao lado para entregá-la ao menino. – Veja! Trouxe-lhe um presente. Espero que goste.

– Vou gostar – ele igualmente garantiu ao receber seu presente. – Obrigado senhora.

Isabella apenas sorriu, enlevada ao considerá-lo tão bonito e educado; um rapazinho com os cabelos um tanto crescidos e vestido no uniforme listrado do internato. Enquanto o menino corria os dedos pela fita azul sem desfazer o laço, a mãe o analisava atentamente. Os traços que julgava serem de Rosalie e Alice passaram a ser unicamente de Edward. Antes era fácil não relacionar os olhos de um azul profundo no rosto infantil aos límpidos que existiam em sua lembrança antiga. Agora, para o bem de seus pecados, pouco importava a tonalidade; seu Embry tinha olhos de céu, como os de seu meio-irmão.

– Não vai abrir o presente? – Isabella indagou, tentando sorrir antes que novamente se comovesse.

– Vou... – Embry garantiu de olhos baixos. – Mas talvez fosse melhor se saíssemos daqui.

– Por quê?

– É que... – ele ergueu os olhos brevemente para um ponto além das costas da mãe, antes de novamente baixá-los e explicar. – A irmã Nelly está nos olhando daquele jeito, sabe? Acho que ela não gostou que eu “corri” para a senhora... Ela sempre diz que devemos ser co... come... co...

– Comedidos. – Isabella o ajudou, relembrando da antipatia sentida pela citada freira; o menino sempre tinha uma ou duas queixas sempre que se encontravam.

– Isso. Ela diz que quando corremos fora da hora de lazer, parecemos pequenos selvagens.

Isabella prendeu a respiração, obrigando-se a calar sua indignação. O que diria quando não podia ser ela a educá-lo? Jamais apreciaria as normas severas aplicadas às crianças do Saint Joseph, mas não poderia contrariar as regras do internato. Com um suspiro profundo, no qual tentou expelir sua frustração por não poder ajudá-lo, Isabella novamente esboçou um sorriso e determinou:

– Então eu acho que é hora de irmos para nosso banco preferido, o que me diz?

– Eu digo que sim! – Embry concordou de pronto, porém ao olhar para a freira, disfarçou o sorriso que nascia. – Vamos!

– Vamos...

Rapidamente Isabella retirou as luvas e as enfiou em sua bolsinha para sentir o toque delicado dos dedos de seu pequeno. Ansiosa, aceitou a mão de seu pequeno cavalheiro e se pôs de pé, somente então reparou o quanto ele havia crescido. O menino não lhe soltou os dedos e, sem mais palavras a conduziu até um dos últimos bancos do jardim que, por serem os mais afastados raramente eram escolhidos pelos parentes que iam visitar as poucas crianças que não deixariam o internato para as férias. Tão logo mãe e filho se sentaram, Embry pousou os braços sobre o presente e indagou seriamente:

– Vamos ficar aqui até que seja hora de sairmos, não é? Sir Cullen foi pedir que me deixassem ir embora?

Isabella sabia que as perguntas viriam, só não imaginou que fosse tão cedo. De toda forma não importava; até que ele completasse 13 anos a resposta sempre seria a mesma.

– Ainda não.

– Por que não? – Embry mordeu o lábio, incerto. – Ainda estou de castigo?

– O que já conversamos sobre isso? – Isabella cobriu as mãos que o menino tinha sobre o presente, agradecendo aos céus por ele não chorar. – Sabe que não está de castigo. Já lhe disse antes e até mesmo em minha resposta à carta que enviou meses atrás. Você está aqui para estudar. Não quer ser você a me escrever em vez de pedir ao Sir Cullen?

– Preferia não ter que escrever – ele retrucou num muxoxo sentido. – Poderia dizer o que sinto para a senhora, em nossa casa.

– E eu adoraria isso, Embry. Juro! – assegurou para alegrá-lo; porém não seria tão fácil.

– Então me leve com a senhora.

– Não posso Embry. – Isabella lamentou. – E você sabe disso. Só poderei levá-lo quando estiver crescido.

– Quando eu fizer treze anos, não é? – indagou num suspiro. Quando Isabella assentiu com a cabeça ele liberou uma das mãos e a mostrando com os cinco dedos afastados, lamuriou-se. – Falta tudo isso! É muito...

Isabella sentiu seu coração afundar no peito. Ainda faltavam quase quatro meses até a contagem de cinco anos passasse a valer.

– Não é tanto assim – ela disse em voz alta, apaziguadora. – E eu sempre venho vê-lo.

Sir Cullen vem mais que a senhora.

Ao que parecia daquela vez o menino estava disposto a contestá-la em todas as repostas; o traço do sangue paterno se evidenciava, ela deduziu. E mais uma vez ficou sem resposta. Como explicaria a uma criança a necessidade de se manter afastada? Antes que encontrasse o que dizer, Embry prosseguiu:

– Se não pode vir mais, me leve para as festas então... Eu ficaria feliz.

– Também já conversamos sobre isso – ela o lembrou, repetindo o mesmo do ano anterior, com exagero. – Nossa casa está muito, muito longe daqui. Quando chegássemos, já seria dia de voltar.

– Mas eu queria ficar com a senhora e ver a tia Angela... E suas amigas. E o Sam.

Isabella novamente suspirou. Contava que os anos de afastamento livrassem a mente infantil de lembranças indevidas, mas estava claro que, se não aconteceu até ali, jamais aconteceria. O que significava saber que Embry sempre teria uma das piores recordações do tempo vivido no bordel, misturada aos rostos amigos. Apagando a mesma de sua mente, sorriu encorajadora e assegurou, tentando melhorar o humor do menino.

– Tia Angela e Sam também gostariam de vê-lo, e minhas amigas lhe mandaram muitos beijos, posso entregá-los?

Embry prendeu os lábios imediatamente para conter um riso encabulado e, com as bochechas coradas, negou com a cabeça. Tranquilizando-se com a reação esperada, Isabella ergueu as sobrancelhas e indagou com falso assombro.

– Não posso beijá-lo?

– Não... – ele murmurou muito vermelho. – A senhora sabe por que...

– E você sabe que isso não vai me deter...

Sim, o constrangimento do menino jamais a impediria, principalmente quando os livrava da tensão, então, sem que ele esperasse, Isabella lhe segurou o rosto e depositou um beijo por cada uma de suas “amigas” nas bochechas rubras. Embry, mesmo desconcertado, ria sem tentar escapar do ataque materno.

– Está fazendo cócegas, senhora... Pare!

– Falta um... – disse ao último beijo. – Esse é da tia Angela.

– A senhora não esqueceu ninguém! – admirou-se a criança, ainda rindo sem jeito.

– Se eu esquecesse todas elas ficariam bravas comigo – ela brincou, sabendo que seria capaz de inventar novos nomes apenas para beijá-lo mais. Com outro suspiro, este de resignação, aproveitou que o tema anterior parecia ter sido esquecido e indagou: – E então, não vai abrir seu presente?

– Vou!

E como se recordasse naquele instante que havia um embrulho em seu colo, Embry sorriu e, animado, passou a desfazer o laço. Logo destampava a caixa e dela retirava o casaco de lã marrom escolhido mais cedo.

– Ele é lindo, senhora, obrigado! – disse sincero; talvez conformado que ali, brinquedos não eram aceitos.

Isabella não lhe acompanhou no contentamento. Com Embry a segurar a peça via o quanto havia se enganado na medida. Por certo o menino usaria o presente recebido, porém pouquíssimas vezes antes de este estar completamente perdido. Naquele instante, percebia o quanto perdia por não estar com ele ao seu lado; os anos passavam e ela não via as etapas; perderia todas até que Embry finalmente abaixasse todos os dedos de sua mão.

– Está triste novamente? – ele indagou, pousando o casaco sobre o colo.

– Não... – Isabella tomou o cuidado de sorrir prontamente. – Como poderia quando estamos juntos?

– É verdade! – a criança concordou enquanto dobrava o casaco com cuidado e o depositava de volta à caixa.

– Sei que não gosta de estar aqui, mas fora isso, você é feliz Embry? – Isabella se ouviu indagar, descobrindo que as palavras de Angela não lhe saiam da cabeça.

Depois de tampar a caixa, o menino encarou a moça ao seu lado e pensou por um instante. Isabella temia pela resposta que viria quando Embry falou:

– Estou feliz agora que a senhora está aqui... Estou feliz com meu presente... – depois de tocar o indicador no lábio inferior, ponderou e acrescentou. – Também fui feliz no domingo. Michael escondeu o pedaço de bolo que todos nós ganhamos depois do almoço e deu para mim.

– Eu gosto desse menino, Michael! – Isabella exclamou após um pigarro, sem saber se agradecia ou lamentava por seu pequeno, desde cedo, entender que a felicidade não durasse mais do que breves momentos.

– Ele é meu amigo. – Embry informou orgulhoso, então, uniu as sobrancelhas como se lembrasse algo que o consternava e completou. – Mas tem vezes que não.

– Como assim?

– Meu pai está no céu?

Isabella não esperava aquela pergunta em resposta a sua indagação feita meramente com o intuito de ser condescendente com as constantes e esperadas desavenças infantis.

– Sabe que sim... – para Embry ela sempre confirmaria, mesmo que almejasse ser o contrário. Contudo, naquele instante não lhe importava onde o barão pai estivesse, queria era entender a questão. – Por que essa pergunta? Michael o afronta por não ter pai?

– Às vezes – admitiu olhando em frente. – E da última vez eu pensei que... Se meu pai não estivesse no céu eu não ficaria aqui e a senhora não seria machucada. Ele era um homem bom e cuidaria de nós, não é?

E mais uma vez ela ficava sem respostas. Em que delicada situação o porco lhe colocara; para um filho, que o adorava incondicionalmente, ela não poderia delatá-lo e para o outro, que fora privado de sua dissimulação, era obrigada enaltecê-lo.

– Sim, ele cuidaria de nós, Embry. – disse apenas. – Porém não tem como ser assim, então tente não se importar com o que Michael ou qualquer amiguinho lhe disser, promete?

– Prometo! – disse comprometido, porém não se convenceria facilmente. – Mas gostaria que a senhora contasse mais... Nunca fala sobre ele. Como era mesmo o nome dele?

– Saber mais só o deixará triste Embry.

– Prometo que não fico... – disse seriamente. – A senhora gostava dele? Ele teria gostado de me conhecer?

Para Embry o pai havia morrido antes que ele nascesse então era natural ter aquele tipo de curiosidade. Angela muitas vezes a alertou que as perguntas viriam, aconselhando-a a estar preparada. Acreditou que sim, porém não estava. O menino era seu, somente seu. A falta de um pai abjeto jamais deveria ser sentida.

– Diga senhora... – insistiu. – Ele gostaria de mim?

Com um suspiro profundo ela respondeu baseada no tratamento dispensado aos filhos legítimos.

– Sim, meu querido. Ele adoraria ter lhe conhecido.

Embry então estufou o peito, e abriu um luminoso sorriso, numa versão diminuída de dentes tão brancos e perfilados quanto os do irmão. Isabella soube naquele instante que ele era novamente feliz. Com isso aquietou seu coração. Talvez não mentisse, pois apesar de ser um falso dissimulado, Edward Edrick I, sempre se portou como um pai amoroso; especialmente com seu filho varão.

– E eu posso saber o nome dele agora?

– Podemos falar mais de seu pai da próxima vez que eu vier? – Era desleal, ela sabia, mas não queria prosseguir naquele assunto, então simulou uma queixa. – Eu estou aqui... Senti tanto a sua falta e agora você só quer saber de seu pai?

Embry riu, sabendo se tratar de brincadeira. E para trazer paz ao coração inquieto da moça, ele a imitou.

– É verdade. Não estou sendo um bom cavalheiro não é mesmo senhora?

– Você sempre será meu único cavalheiro. Não seja tão exigente – ela lhe bagunçou o cabelo, distraindo-o.

– Não faça isso! A irmã Nelly...

– Vamos esquecer a irmã Nelly por um instante? – Isabella o cortou gentilmente; ele era apenas uma criança, afinal. – Obedeça-a sempre, mas ela não está aqui agora. E temos pouco tempo, o que faremos então?

Subitamente os olhos do menino brilharam antes e anunciasse; agitado.

– Ontem, na hora do lazer, achei um ninho lá no velho carvalho. Quer ver?

Evidente que sim, ela sempre iria desejar ver o que alegrava seu menino. Com isso, sabendo que ninguém mexeria, deixaram a caixa, a bolsinha e o chapéu sobre o banco e seguiram até a árvore citada. Embry, durante todo o tempo de análise ao emaranhado de gravetos, algodão e penas fixado num dos ganhos claramente escolhido por ficar livre dos ventos gelados do inverno, em tempo algum liberou os dedos da mãe.

O menino se afastou apenas quando ela propôs que fossem selvagens e que brincassem um de perseguir o outro; tornando-se alvo quase que imediatamente. Por culpa das muitas saias era alcançada tão logo tentava escapar e perdia o ar ao caçar alguém tão novo e bem disposto, porém ela não se queixava. Recuperaria o fôlego quando estivesse de volta ao coche e então ao trem que os afastaria. Até lá, colecionaria novas lembranças de seu pequeno de rosto afogueado, para acalmar a falta que sentiria dele até que pudessem estar juntos mais uma vez.

Certo, ter mais forças era o que Isabella queria, porém depois de uma hora caçando-o, escondendo-se ou sendo seguida longe das vistas das freiras que vagavam na outra parte do jardim, ela simplesmente desabou sobre a grama que crescia aos pés de um carvalho, ofegante, com o rosto em chamas.

– Não acredito que a senhora desistiu! – Embry parou ao lado da mãe, olhando-a realmente admirado. – Era sua vez de me pegar...

– Não seja por isso – ela agiu rapidamente, segurando o calcanhar coberto pela grossa meia de lã e o segurando firmemente. – Peguei você!

– Isso não vale! – o menino exclamou erguendo as mãos. – Eu estava distraído.

– Para mim valeu, então venha... – Isabella tentou puxá-lo para seus braços, porém o menino resistiu, levando-a a questionar, preocupada. – O que foi?

– Se eu sujar minha roupa eu serei posto de castigo... – Embry explicou, olhando em volta.

Era bem estranho terem que brincar em silêncio e o impedimento de tê-lo, ali, no chão ao seu lado tornava o divertimento entre eles ainda mais insólito. Que mal haveria em uma criança deitar na relva junto àquela que lhe deu a vida? Nenhum caso o mantivesse em sua casa, não no Saint Joseph. Rendendo-se à limitação, Isabella se sentou e então se pôs de pé. Tocando os cabelos do menino, lhe sorriu encorajadora e sugeriu:

– Então vamos ficar juntos em outro lugar de forma comportada.

– Eu preferia brincar mais um pouco. Está mesmo cansada senhora?

– Estou. – disse sincera. Não cansada demais para correr mais um pouco, mas depois de recordar onde estavam, considerou demasiadamente triste insistir no pega-pega sem gritos ou com risos abafados. – Vamos voltar ao nosso banco?

– Vamos sim – ele anuiu, tomando a mão da mãe imediatamente para conduzi-la até onde haviam deixado a caixa com o presente e a pequena bolsa. Tão logo ambos se sentaram, Embry tocou uma das mechas negras que se desprendeu do penteado. – Gosto tanto de seu cabelo senhora... O meu é mais claro.

– Era mais claro quando era pequeno – ela divagou até os primeiros anos de vida de seu menino, lembrando o tom aloirado dos cabelos delicados. Então a imagem do meio irmão lhe invadiu a mente, incitado-a a afirmar – E escurecerão um pouco mais com o tempo.

– Ficarão assim pretos como os seus? – Embry indagou animado.

– Acho que não... – ela negou vagamente, aproveitando aquela espécie de carinho, completamente sem forças de expulsar a imagem de Edward. – Ficarão castanhos como os de...

– Meu pai?

A criança completou quando ela se calou abruptamente, parecendo estar ainda mais animada. Isabella desceu os olhos até o rostinho ansioso e exalou um longo suspiro. Os cabelos do barão pai contavam com vários fios prateados, mesclados ao loiro estranho que, misturado aos castanhos da baronesa resultou no tom incrível dos de Edward. Ela acreditava que com seu pequeno aconteceria o mesmo, mas era muito para explicar, então disse apenas:

– Sim, ficarão castanhos como os cabelos de seu pai.

Em resposta Isabella recebeu um luminoso sorriso que fez seu coração afundar no peito. Estava clara a nova fixação pela ausente figura masculina e ela teria que aprender a lidar com a situação. Poderia se safar daquela vez, mas ao que parecia, teria que ter respostas mais substanciais reservadas e ensaiadas para a próxima visita.

– Não fique triste. – Embry a trouxe do devaneio, tocando-lhe o rosto. – Desculpe-me por falar dele quando é a senhora quem está aqui.

– Não estou triste.

Isabella lhe sorriu, retribuindo o carinho nos cabelos de um castanho ainda dourado. Embry fechou os olhos e torceu os lábios, indicando que teria mais a ser dito.

– O que foi Embry? – Isabella talvez se arrependesse da pergunta, mas simplesmente tinha que saber o que se passava na cabeça do menino.

– Bem... – ele começou, desviando os olhos para a ponta de seus sapatos. – Já que não está triste... e perguntou... eu queria mesmo saber o nome... Por favor.

Negava-lhe tantas coisas, Isabella ponderou ainda a lhe acariciar os cabelos. Havia tanto que precisaria explicar com o passar do tempo que, revelar um nome – comum se apartado de um título –, pareceu-lhe irrelevante.

– Edward – ela disse num murmúrio.

– Edward – ele repetiu saboreando a palavra, então novamente sorriu e voltou a encarar a mãe. – Gostei desse nome. Obrigada senhora!

Isabella não respondeu; embargada, lamentando o fato de não ser outro Edward o pai de seu pequeno. Subitamente, sentindo-se também pequena e carente, ela indagou:

– Posso ter um espaço em seu colo, como disse que me daria naquela carta? Quais as chances da irmã Nelly me castigar por quebrar as regras de conduta?

– Ela não brigaria com a senhora! – Embry empertigou o peito e se afastou mais no banco, já dando espaço para que a mãe fizesse como pediu. – Venha!

Sem esperar um segundo convite, Isabella deitou o dorso sobre o banco até que sua cabeça pousasse nas pequenas coxas do menino. Imediatamente ele passou a acariciar-lhe os cabelos, fazendo com que um bolo compacto se formasse na garganta da moça ao lamentar não ter aquele contato todos os dias. Naquele instante a ideia de se mudar para Londres lhe pareceu ainda melhor.

Ali, longe de todos que a conheciam, seria fácil aceitar sua ligação com o menino e ser ela a criá-lo, talvez até, como a viúva que Carlisle criou. Seria bom e tranquilo ter um mundo somente deles dois, onde ninguém pudesse encontrá-los, onde ela fosse livre para respirar em paz e o menino pudesse crescer como uma criança normal; ambos teriam uma nova vida.

– Acho que ainda temos tempo para que a senhora me conte uma história de Yasmin.

Isabella sorriu genuinamente. Quando o menino contava com três anos ela inventou de lhe narrar as aventuras de uma princesa árabe chamada Yasmin. Coincidentemente ou não, ela era órfã e vivia presa no palácio do vilão ao qual constantemente tentava escapar. Como não poderia deixar de ser, ela possuía dois bons amigos; um cavalo falante e um gênio encantado. Desde então, vez ou outra Embry pedia novas histórias e já havia feito a associação dos cabelos negros da heroína aos da mãe, sendo sempre um admirador incondicional.

Na verdade, sempre se tratou dela, então, naquela tarde Isabella tinha uma nova história. Yasmin estava separada do príncipe que conheceu em uma de suas fugas. De volta ao palácio ela entendeu que deveria escapar e fugir para muito longe. Os dedos delicados e pequenos corriam ora por seus cachos, ora por sua bochecha e Isabella aprimorava seu plano enquanto narrava a importância de mudar de cidade.

– Mas e o príncipe? – Embry interrompeu a certa altura. – Ele vai fugir também?

– Ele não pode. – Isabella explicou. – Tem suas obrigações.

– Hoje tem algo errado nessa história senhora. – ele comentou unindo as sobrancelhas. – Qual é o nome desse príncipe?

– Kalil – ela disse rapidamente, sem nem saber de onde surgiu aquele nome.

– Acho que Kalil vai ficar triste se Yasmin for embora... – o menino falou muito sério. – E assim eles não terão um final feliz.

Naquele instante Isabella se arrependeu por ter divagado tanto as aventuras de Yasmin. Parecia quem nem na fantasia daria certo se envolver com algum nobre, deixando-a sem palavras para continuar. Como dizer que a vida era complicada e nem sempre justa a um menino que tinha tempo limitado para correr e que brincava em silêncio? No fundo não era melhor do que a irmã Nelly.

– Tem razão. – ela anuiu. – Eu me perdi na história. Vou rever como tudo aconteceu e prometo ter uma versão melhor da próxima vez que vier.

– Ah, faça isso senhora! – Os olhos azuis se iluminaram. – Faça com que Kalil invada o palácio sombrio e resgate Yasmin.

Isabella estremeceu após as palavras inocentes. Na versão real dos fatos, o príncipe não ficaria muito animado com o que encontraria pela frente; melhor seria a princesa continuar a se defender sozinha. Sim, sempre seria, porém não diria isso ao imaginativo menino.

– Príncipes sempre resgatam as princesas, não é mesmo?

– Sempre! – Embry assegurou seriamente. – Mesmo elas sendo tão teimosas como Yasmin.

E novamente Isabella estremeceu. Frio, determinou. Ou talvez a consciência de que seu encontro semestral chegava ao fim. Sim, era apenas isso, pois o que um menino em vias de completar oito anos poderia saber da vida; real ou imaginária? Antes que ela chegasse a alguma conclusão Embry prosseguiu:

– Agora vou torcer para Kalil. Ele também tem um cavalo que fala?

– Draco não fala, mas é lindo... – ela suspirou saudosa.

– Draco? Que nome bonito! – Embry exclamou já esquecido do carinho que fazia nos cabelos da mãe, animado com as novas personagens que ela, inadvertidamente trouxera às aventuras que o entretinham. – Como é ele? Qual a raça?

Isabella endireitou o corpo, sentando corretamente para encarar os olhos brilhantes da criança. Por um instante considerou revelar que aprendera a montar, pois seria uma forma de desviar o foco, porém achou melhor se calar. Com a novidade máxima viriam novas perguntas as quais ela não poderia responder, então, rendendo-se ao erro cometido, decidiu narrar uma breve história baseada nos dias vividos em Apple White para que o menino mantivesse sua crença de que todos teriam um final feliz.

– Draco é um andaluz lindo e Kalil fica muito bonito ao montá-lo. Yasmin ficou encantada ao vê-lo e não teve chances de ser diferente. Simplesmente se apaixonou.

– Então um dia eles serão felizes para sempre.

Foi errado, porém Isabella desejou que tudo fosse diferente e que seu menino tivesse razão.

Notas finais
Bom... finalmente Embry entrou na história... Gostaram dele?

Me contem!...

Bjus suas lindas... tenham um maravilhoso final de semana!