Borboleta Negra
16 Capítulo Quinze
Notas iniciais
Isabella foi a primeira a acordar. Demorou alguns segundos até que se situasse e lembrasse o que fazia deitada sobre o peito do barão. Imediatamente sorriu, apertando-se contra ele, ciente de que deveria deixá-lo e voltar à própria cama. Já havia amanhecido e logo Marie iria bater à porta do quarto de Rosalie; melhor seria não criar polêmicas. Antes que se afastasse, porém, um braço muito decidido a manteve no lugar.
– Aonde pensa que vai? – Edward perguntou sem abrir os olhos.
– Voltar ao outro quarto – respondeu, intimamente lamentando ter que deixar aquele calor bom. – Já é dia e a cama ainda está arrumada. Logo Marie...
– Marie, Marie – ele começou finalmente olhando-a com o cenho franzido. Os olhos vermelhos pelo despertar não encobriam o leve aborrecimento. – Preocupa-se tanto com Marie. Acaso, de verdade, ela é sua tutora ou algo que o valha?
– Não me preocupo com ela – Isabella explicou calmamente. – E sim com você. E também com os outros criados. O que dirão quando souberem que passamos a noite juntos?
– Minha vida pessoal não é da conta deles – retrucou sem ser grosseiro. – Nem você tampouco precisa se preocupar. É inútil, pois não ditamos os pensamentos alheios. Principalmente se estiverem empenhados em alguma difamação. Então... Caso não esteja preocupada com a própria reputação, sugiro que fique bem aí onde está.
– Nossa! – Isabella exclamou em gracejo. – Você é tão mandão my lord!
– Muito – ele lhe sorriu manso. – De toda forma ainda é cedo para que ela venha bater a nossa porta. E já que reconhece minha soberania, obedeça!
O tom indicava que ela fizera bem em brincar. Edward não estava aborrecido de fato, apenas tentava mantê-la perto. No mais, tudo o que dissera era a verdade. Ainda assim, por ele, até quando fosse possível gostaria que alguma aparência fosse mantida, mas não quis contrariá-lo. Então aquiesceu e entrou no clima definitivamente.
– Como desejar vossa alteza... Devo voltar a dormir?
– Não deveria nem ter me acordado. Eu sonhava com você.
– Sonhava comigo?! – Isabella exultou e se aboletou sobre o peito largo. – Gosto quando sonham comigo! Agora terá que contar.
Na verdade, apenas Embry sonhava com ela e sempre fizera questão de narrar o que sua mente criou durante seu sono. Apreciava lhe ouvir contar ou ler a respeito, então fazia uma ideia de como seria prazeroso ter Edward a fazer o mesmo.
– Conte... – ela o encorajou.
Edward se arrependeu da revelação impensada ao recordar o sonho sobre a linda borboleta que voava alto até que fosse pousar na mão do rival ao primeiro chamado. Como competir com algo tão lúdico? Seu sonho era pessoal, onde uma mente sugestionada lhe mostrou o desejo realizado; um que começou como um gracejo inconsequente, de fato precoce, que a levou ao desmaio. Não queria voltar ao tema contando que os viu casados. Principalmente por se sentir tão meloso quanto o do ex-amante açucarado, contudo nada encantador.
– Edward? – Isabella o chamou; ansiosa. – Não vai contar?
– Pensei que considerasse sonhos algo sem importância – comentou.
– Não os levo a sério, mas sonhos bons são agradáveis de ouvir. Então me conte...
– Prefiro demonstrar – falou o barão, rolando-a sobre a cama.
Ao fazer amor com ela não faltaria com a verdade, pois se não tivesse sido acordado aquele seria o desfecho da cena ilusória. Com o pensamento eliminou seu ciúme, pois tê-la na realidade sempre seria melhor que em sonhos. Todavia nem chegou a beijá-la.
– Milord? – Marie chamou do corredor, batendo freneticamente à porta. –Milord? Já despertou?... Preciso lhe falar.
– O que quer Marie? – Edward indagou a plenos pulmões; aborrecido.
– É sobre Isabella Lord Masen... Ela não está no quarto. Nero estava preso e a cama ainda arrumada. Já procurei, mas não a encontro em parte alguma.
Em resposta Edward revirou os olhos e então sussurrou à moça abaixo de si.
– Tremei inocente donzela, pois fomos descobertos.
– E agora? – Isabella sussurrou tentando não demonstrar sua consternação. – Agora ela sabe que não dormi no quarto de Rosalie.
– Começo a acreditar que ela é mesmo pior do que Nero. – Edward igualmente sussurrou. – O que fui fazer ao colocá-la sob os cuidados de alguém tão competente?
– Acho que quis o melhor para mim. – Isabella respondeu no mesmo tom; melhor seria relaxar, afinal era a amante do barão.
– Milord atenda-me. – Marie insistiu. – Não a encontrei mesmo em nenhum lugar.
Caso resolvesse, por Isabella, o nobre poderia denunciar a passagem secreta, mas na atual situação seria expor seu trunfo inutilmente, então respondeu sem se mover.
– E continuará a não encontrá-la se insistir em procurar fora deste quarto.
Silêncio foi tudo o que ouviram por alguns instantes até que a mulher se desculpasse.
– Por tudo o que é mais sagrado, perdoe-me Milord! – ela rogou com voz incerta. – Não era minha intenção intrometer-me ou... Enfim. Eu não...
– Perdoarei se mantiver sua discrição. Agora vá cuidar de suas coisas Marie.
– Como queira Milord.
– Marie, espere! – pediu sentando-se sobre a cama; tivera uma ideia auspiciosa.
– Pois não Lord Masen! – disse eficiente.
– Tão logo esteja tudo pronto quero que você traga o café da manhã aqui.
– Aqui?! – a criada pareceu engasgar. – Em seu quarto? Para os dois?
– Com capricho e discrição – ele salientou. – Agora pode ir.
– Como queira Milord – ela repetiu.
– Pobre Marie! Você vai matá-la, sabia? – Isabella comentou um tanto pesarosa. – Imagino que ela, sim, deva estar tão vermelha quanto uma maçã.
– É bom que ela se acostume, pois a partir de hoje dormirá comigo todas as noites – o barão determinou.
– Edward... – ela o encarou; indecisa. – Não sei se devemos.
– Asseguro-lhe que sim – Edward retrucou. Queria-a por perto e quanto mais, melhor. Precisava fazer com que se acostumasse com ele; que o amasse. – Ou não gostou de passar a noite comigo?
Não gostar? Simplesmente adorou despertar contra um corpo quente e forte que a fazia se sentir protegida. Contudo temia se acostumar. Caso acontecesse como poderia voltar a dormir sozinha?
– Não me respondeu – ele não gostava daquele silencioso confabular. – Não gostou de dormir comigo?
– Gostei e muito – ela disse sincera, então se pegou a uma desculpa. – Mas não quero abusar de sua companhia... Nem tirar sua liberdade.
Com o alívio veio também uma leve consternação que o incitou a indagar sem nem ponderar:
– Ou teme perder a sua?
A pergunta repentina, feita por aquele homem decidido, revelou a verdade. Correndo os olhos pelo barão que lhe exibia o dorso nu, os cabelos em desalinho e tinha nos olhos o questionamento ansioso que tornava sua expressão sombria, Isabella soube que seu temor era tardio. Estava de fato, novamente, perdida de amores por ele e não existia liberdade para quem ama. Assim como a pergunta do barão, sua resposta veio clara e pronta; assustando-a.
– Acho que não tem como perder o que não mais possuo.
– Não sei se entendi. – Edward foi sincero; pareceu que seus ouvidos lhe pregaram uma peça. – Poderia explicar, por favor.
– Eu disse... – ela sentia seu rosto corar – que não tem como perder o que não tenho mais. Acho que perdi minha liberdade desde que aceitei sua ajuda durante aquele temporal.
Então ele havia entendido corretamente. Aquela era uma declaração; não tão direta quanto gostaria de ouvir, mas importante na mesma proporção. Com o coração a inflar em seu peito, Edward teve a certeza de que conseguira seu intento. Logo Isabella esqueceria de vez quem deixou para trás e ficaria ao seu lado. Movido por essa certeza, declarou-se nos mesmos padrões.
– O mesmo se deu comigo Bella... – disse correndo dois dedos pela curva do queixo macio. – Contudo foi antes... Quando vi o rosto que o tule de seu chapéu escondia. Quando tão acintosamente me colocou de volta ao lugar indicando ser como eu, pois não considero um título nobiliárquico ou um nome pomposo maior do que uma pessoa. Ali eu soube que era diferente das outras e me prendi. Tanto que nem consegui vir embora.
Exatamente como a dona da casa de doces previu, Isabella pensou comovida. Não era para aquilo estar acontecendo. Para ela sempre seria tarde, pois havia sido uma presa fácil para um amor apenas esmaecido pelo tempo e a decepção. Contudo Edward poderia ainda estar a salvo e preso somente à paixão; intensa, porém passageira.
Sim, era o que o barão deveria fazer, pois não estava certo em seu julgamento. Para ela todas as pessoas eram iguais perante Deus, mas entre os homens, uns eram mais importantes que outros. Colocou-o em seu lugar na tarde citada não por desmerecê-lo, mas por naquele momento lhe transferir o ódio nutrido pelo pai. Talvez Edward se equiparasse a todos, contudo não o era. Seu título, mesmo herdado, lhe conferia a devida relevância.
Isabella não tinha dúvidas de que aquele homem generoso não merecia a sina de se interessar por uma cortesã. Um espaço em sua cama era tudo que deveria oferecer para ela, pois, apesar de desprezar a opinião alheia, Edward não poderia jamais assumi-la publicamente. Não sem ser apontado nas ruas caso seu passado viesse à tona. Era fato que apenas dois homens seriam capaz de reconhecê-la prontamente, pois Angela sempre prezou pelo anonimato de suas meninas. Ela própria, por Embry, tratou de preservar ainda mais sua identidade, mas nunca estaria segura.
Carlisle jamais a delataria, porém o outro não lhe daria tréguas. Talvez tolerasse caso a visse passar despercebida, à margem da sociedade ao lado de um desconhecido. Porém, vê-la desfilar pelos salões, acompanhada de um barão, seria imperdoável. Sua recusa a proposta feita pelo abjeto cavalheiro nunca fora aceita. Caso ele a visse com Edward fatalmente envolveria o bom nome do nobre num escândalo.
Isabella seria incapaz de impingir a Edward tamanha desonra. O que ele sentia por ela cedo o tarde passaria quando deixasse sua vida. Com o pensamento, considerou sábio preparar-lhe o espírito, mostrando ao barão que não lhe servia.
– Estou lisonjeada que tenha me visto dessa forma, mas a verdade é que não sou assim diferente. Naquele dia estava com péssimo humor, mas lhe reconheci a importância. E hoje sei o quanto é um homem especial. Justamente por isso lhe peço que não se prenda a mim... Não deseje mais do que temos, pois não sou a mulher certa para você. Jamais seria aceita em seu meio.
– Eu lhe disse ontem e repito agora... Eu a aceito! – Edward retrucou não gostando do tom daquele inesperado discurso. – O que mais importa?
– Seus amigos, suas irmãs... A baronesa. – Isabella enumerou subindo seu corpo até apoiar-se contra os travesseiros, encarando-o na mesma altura. – Sejamos sinceros Edward. Sou a hóspede que se tornou sua amante e nós dois sabemos que a corte que me propôs não nos levará a lugar algum.
– Todas essas palavras são para dizer que vai embora?
Edward sustentava-lhe o olhar com os orbes escurecidos, roubando dela toda a convicção. Sem aguentar tamanha intensidade, ela baixou os olhos antes de confirmar.
– Quando a ponte estiver pronta, sim... O que vivermos até lá será uma linda recordação.
– Olhe para mim quando me dirigir à palavra! – Edward ordenou enraivecido. Ao ser atendido, sibilou. – Ao inferno as lindas recordações. Acaso é alguma adivinha para prever o futuro? Como pode afirmar que minhas intenções não progridam?
– Já lhe disse que não sou a mulher certa para você! – Isabella repetiu mirando os duros olhos azuis. – Não importa o quanto desabone seu título, sempre se esperará de alguém como você, que se case com uma moça correta. Vinda de uma boa família... Como Tanya Cullen, por exemplo.
– Nem precisa dizer como soube de Tanya ou qual atribuição deram a ela na minha vida... – falou sentindo sua raiva crescer. – Mas decore bem para não esquecer. Eu decido com quem ficar e a senhorita Cullen não é uma opção. Também não me interessa saber o que esperam que eu faça... Meus amigos, minhas irmãs e até mesmo minha mãe, terão que aceitar aquela que eu escolher... Venha de qual família vier.
– E se ela, além de não ter pai ou mãe, tivesse sido renegada pelo único parente que possui?
– Considerá-la-ia somente órfã – disse seguro. Isabella estava mesmo lhe contando detalhes de sua vida indiretamente? Crer que sim dizimou sua ira e reacendeu nele o desejo de protegê-la. – Se essa pessoa não a reconhece, não existe para mim.
– E se não soubesse nada sobre quem escolheu?
– Não sei como entramos em conjecturas, mas vamos esquecê-las e sejamos objetivos. – Edward pediu segurando-lhe as mãos sobre a coberta. – Fala tão pouco de você, mas pode me contar mais... Sei que toca piano pessimamente... Ainda quero saber se cozinha ou borda... Se você quebrou algum osso quando era criança por ser traquina...
Como não sorrir com ele novamente a lhe falar com ternura enquanto rolava os dedos nos seus? Como deixar de amá-lo? Como deixá-lo?
– Contou-me que sua primeira vez não foi agradável e que se envolveu com outros homens que não a trataram de melhor forma – ele comentou livre do humor, roubando-lhe de vez um sorriso que já morria. Após um pigarro, ele prosseguiu cauteloso. – Não quero ofendê-la, mas... Da forma que descreveu muitos poderiam pensar é uma... mulher de vida fácil, mas eu sei que não o é.
– Não me ofende – ela murmurou enregelada; tensa –, mas estou curiosa. Por que a certeza?
– Eu apenas sei – disse incisivo; ela não era.
– Obrigada... – foi o que ocorreu a Isabella dizer.
Citar sua impressão e o que acontecera a ela fazia com que Edward sentisse finas pontadas em seu coração. Principalmente ao se lembrar do rival, mas por ela foi além.
– Talvez Embry a tenha acolhido e tratado um pouco melhor e por isso confunda gratidão com amor. Contudo quero que saiba que não sou como os outros, Isabella. Tenho minha mente aberta para as adversidades que possa ter enfrentado para viver com dignidade.
– Sei que é diferente – murmurou dividida entre o lamento e a gratidão pela eterna capacidade de interpretá-la de forma errada. – Já disse que o considero perfeito.
– Fico grato que pense assim, mas não sou. Tenho também meus defeitos. O que me diferencia é considerá-la igual a mim. Não em força, mas em direitos.
Quanto àquilo não duvidava, Isabella comentou com as dobras da coberta. Se existia um homem que talvez a aceitasse independente do que fez esse seria Edward. Por um segundo cogitou corrigi-lo, mas lhe faltou coragem, então disse apenas.
– Nada pode ser considerado simples assim... De toda forma sou uma mulher perdida.
– Não é como vejo – ele insistiu. – Não sei em qual situação perdeu sua virgindade, mas o fracasso de um primeiro relacionamento ou dos demais não faz de você uma meretriz, caso se sinta dessa forma. Se não nota a diferença eu consigo enxergar... Então não a considero menos digna de estar comigo do que qualquer outra mulher.
Pois meretriz era exatamente o que ela era, pensou ao saber que estava errada; nem mesmo Edward aceitaria. Sem que pudesse evitar chorou pela inviabilidade de seu relacionamento.
Tomando sua reação como confirmação de suas palavras, Edward a puxou para o colo, apenas a coberta separava-os. Com o corpo trêmulo aninhado junto ao seu, o barão considerou-a muito nova. Com o pensamento, determinou.
– Alguém tão jovem não pode ter feito coisas horríveis. Reafirmo que a considero muito digna.
– Edward... – estava claro que ele jamais a entenderia.
– Shhh... – o barão a calou delicadamente. – Não desejo ouvi-la dizer bobagens. Não me importa saber quem a feriu ou o que viveu até aqui... Deste ponto eu assumo. Prometo protegê-la e nunca magoá-la. O resto nós veremos com o tempo. Combinado assim?
– Combinado!
O que poderia responder quando ele se recusava a ouvir? Talvez no fundo até soubesse a verdade e simplesmente se recusasse a aceitar. Temendo uma possível rejeição caso um dia ele admitisse o óbvio, Isabella se aproveitou por estar no colo do barão, segurou-lhe o rosto e o beijou. Ainda era muito cedo para perdê-lo, então fez como foi ensinada correndo a língua pelos lábios que logo cederam. Não havia tempo a desperdiçar.
Ansiosa em seu âmago, a jovem afastou a coberta e girou as pernas para que ficasse de frente, muito perto daquela parte do barão que a guiava ao céu. Após um gemido Isabella sentiu mãos exploradoras vagarem por seu dorso até abraçá-la.
– Minha pequena Bella... – o nobre murmurou contra a boca macia, salgada pelo pranto breve. – Como pode desejar virar as costas para o que começamos a sentir um pelo outro?
– Não desejo my lord... – disse a verdade também em seus lábios, movendo-se sobre ele, apreciando o despertar de seu corpo. – Não desejo...
Animado com a confirmação de que Isabella ficaria o barão a rolou e se deitou sobre ela para fazê-la sua mulher mais uma vez. O primeiro ato daquela manhã dominical não trouxe surpresas, apenas a mesma satisfação poderosa que confirmava o quanto eles se completavam. Satisfeito, Edward retirou o preservativo e o reservou para depois lavá-lo e puxou sua amante para si fazendo com que novamente se deitasse em seu ombro.
– Posso contar que não a ouvirei dizer que vai embora quando a ponte estiver concluída?
Com o coração incerto e o corpo ainda instável, Isabella decidiu ser melhor evitar o assunto que o arreliava, então apenas brincou com a verdade.
– Isso eu não posso prometer – quando Edward ameaçou protestar ela se adiantou. – Tenho uma vida barão... E preciso voltar para ela. Não posso ficar aqui indefinidamente.
– Evidente que pode! – Edward exclamou seguro. – A casa é grande e minha cama espaçosa.
– Mas não vive sozinho – ela o lembrou correndo os dedos ao longo dos pelos levemente suados de seu peito. – Deve preservar a sua casa. Alega não se importar com a opinião dos criados, mas como pretende explicar à baronesa a presença de uma amante?
Edward não gostava daquela palavra, mas não poderia corrigi-la. A baronesa teria uma síncope ao descobrir uma mulher na cama de seu filho. O bom partido no qual depositava fantasiosas esperanças de um casamento vantajoso. Naquele ponto em especial ela tinha razão. Tinha que dar um jeito na situação dos dois, mas não naquela manhã; a primeira que amanhecia com ela em seus braços.
Valendo-se do clima bom trazido com a entrega mútua, ele segurou a mão que assanhava seus pelos e falou.
– Vamos esquecer a baronesa por enquanto. Aceito que tenha uma vida e queira voltar para ela, mas faço questão que não me mantenha de fora. Irei vê-la onde estiver.
– Milord... – o chamado de Marie veio em sincronia com sua batida, salvando-a. – Trouxe o café, como recomendado.
– Aguarde um instante Marie – ele pediu, deixando os lençóis para receber o que a criada havia trazido. Cobria sua nudez com seu robe quando percebeu que Isabella também havia se levantado e circulava a cama. – Aonde vai?
– Existem coisas que não se perguntam a uma dama nobre senhor – respondeu simplesmente, já a descer a camisola pelos ombros e a recolher a pantalona para vesti-la.
Edward nada acrescentou apenas a deixou se recompor para então abrir a porta. Marie equilibrava uma bandeja imensa, aparentemente muito pesada. Edward a socorreu, deixando-a livre para com indisfarçada curiosidade seguir Isabella. Esta a cumprimentou naturalmente antes de ir ao quarto de banho onde também havia o reservado para os dejetos humanos.
– Bastaria uma bandeja como as que normalmente nos traz – o barão comentou ao depositar a grande bandeja de prata sobre a escrivaninha.
– Desculpe-me Lord Masen – ela pediu servil retirando uma xícara do bolso e estendendo para ele. – Achei melhor trazer escondida, então não tem pires.
– Não tem problema – ele a pegou e depositou ao lado da que veio na bandeja; o cuidado fora exagerado.
– Quanto à bandeja... – a criada começou entrelaçando as mãos às costas e mantendo os olhos baixos, evitando olhar para a cama. – Essa situação é nova para mim... Não sabia o que trazer ou... O quanto trazer...
– Bastaria o suficiente para duas pessoas consumirem – ele retrucou, analisando-a.
– Perdoe meu exagero Milord... – Marie fez menção de sair, contudo Edward a deteve.
– Espere – pediu. Sentia-se um tolo, afinal iniciou o dia repreendendo a moça pelo mesmo motivo o qual a detinha. – Escute Marie... Desde a chegada de Isabella eu a coloquei aos seus cuidados. Tem feito seu serviço com esmero até mesmo assumindo alguma responsabilidade para si. Já até lhe chamei a atenção por isso.
– Bem me lembro Lord Masen! – Marie murmurou baixando os olhos.
– Pois bem! Entendo sua preocupação, assim como aprecio sua devoção e é somente por esse motivo que reafirmo; não pretendo magoá-la. A despeito do que viu aqui, as minhas intenções são as melhores.
– Grata pela deferência Milord... – ela ameaçou lhe sorrir, mesmo sem olhá-lo.
– Gratidão é o mínimo que espero – acrescentou incisivo. – Quero também sua discrição e que continue a tratá-la da mesma forma. Também confiarei que não alimentará julgamentos nem permitirá que dirijam a ela comentários depreciativos.
– É o que já tenho feito Lord Masen, porém serei mais vigilante.
Não era novidade para o barão que a maledicência já corria pelos corredores de sua casa, então apenas quis conhecer seu teor ao ordenar:
– Conte-me o que falam.
A mulher o olhou brevemente; incerta, antes de revelar, mirando um ponto qualquer no chão.
– Veja bem... Isabella chegou desacompanhada... Foi colocada num quarto ao lado do seu... Todos da casa sabem da passagem secreta, então... Bem... Para os funcionários internos ela sempre foi sua amante, Milord.
– Agora todos estão certos – escarneceu aborrecido antes de pedir sucinto. – Por favor, não diga isso a ela.
– Jamais o faria Milord. – Marie assegurou. – Gosto de menina e não quero entristecê-la. Pode contar com minha total discrição.
– Sou-lhe grato, Marie. – o barão achou por bem encerrar aquele assunto antes de Isabella voltasse. – Pode ir agora. Caso precise de algo a chamarei.
Com o costumeiro inclinar de cabeça, a criada se foi, deixando-o só com seus pensamentos. Por fim descobria que a cautela pedida por Isabella sempre fora vã. Acreditava não dar importância por jamais ter vivido nada familiar em sua casa. Agora que conhecia o que corria a boca miúda entre os criados, via não gostar.
No cômodo próximo, Isabella finalizava a limpeza de suas axilas e partes íntimas com a água sempre a disposição de uma ânfora deixada sobre a bancada. Distraída na ação, tentava administrar a descoberta. Considerava-se imprudente por sua recaída. Se antes a partida lhe parecia ruim, no momento estava muito pior. A sensação se assemelhava a sentida nos dias que antecederam a partida de Embry.
O tipo de amor que nutria pelos dois poderia ser diferente, mas pela similaridade da opressão em seu coração, sabia que sofreria da mesma forma. Ambos eram inocentes, cada qual na devida proporção de suas idades, então era seu dever zelar pelos dois. Almejava para eles a mesma sorte, assim sendo, pior ou não, agiria corretamente.
Todavia, determinou de cabeça erguida ao se vestir, não deixaria transparecer a sua tristeza. Viveria com Edward um dia de cada vez até que a ponte estivesse recuperada. Até lá, seria para o barão o que ele precisasse que fosse. Imbuída de sua resolução, a moça deixou o quarto de banho e praticamente trombou com Marie que vinha pelo corredor.
– Oh, desculpe-me – pediu já a segurar a criada para que não caísse.
– Não se desculpe – ela pediu recuperada. – Eu é que deveria olhar por onde ando.
– Estava distraída. – Isabella lhe sorriu ao comentar.
– Estava pensando em você... E no barão...
– Marie... – a moça começou mesmo sem saber o que lhe diria, porém logo a criada a cortou.
– Não tem que me dizer nada. Sabe que não me deve satisfações.
– Sei, mas tem sido tão atenciosa... – Isabella observou.
– Escute. – Marie novamente a interrompeu. – Não sei explicar a razão, mas gostei de você desde que a conheci. É diferente das outras moças. Olha em meus olhos ao falar comigo, é educada e agradecida com aquilo que lhe faço... Trata-me como se eu fosse uma pessoa.
– Como se fosse?! – Isabella indagou contrafeita com a colocação. – Você é!
– Não para a maioria dos patrões – a criada retrucou entristecida. – Para muitos, criados são como parte da mobília, funcionais... Peças indispensáveis pela prestação de serviços e nada mais.
– Não para mim! – Isabella novamente se exaltou, indignada por saber que ela dizia a verdade. Contudo dentre as regras havia as exceções. – Não para Edward.
– Sim, e talvez tenha sido exatamente isso – a mulher lhe sorriu. – Admiro a forma digna com que o barão nos trata e você agiu como ele. Então...
– Então... – Isabella a encorajou ao se calar; indecisa.
– Então não quero que nada de ruim aconteça aos dois – disse por fim. – Sei que não devo me intrometer e agora seria inútil, mas sabe minha opinião... E estaria mentindo se lhe dissesse que toda essa situação não me choca, pois em meus 44 anos de idade nunca presenciei nada parecido sem ser entre marido e esposa. E isso depois das benções de um padre. Por gostar de vocês dois que estou tentando assimilar essa... Esse...
– Envolvimento. – Isabella a ajudou, sabendo que a palavra escolhida em muito atenuava a realidade de sua ligação ilegítima com o barão.
– Isso... Envolvimento – ela repetiu com o rosto vermelho. Então prosseguiu. – Não vejo como esse envolvimento possa terminar bem e não queria ver nenhum dos dois machucados.
– Marie. – Isabella se aproximou e lhe segurou ambas as mãos. Quando a criada a encarou, prosseguiu. – Não se preocupe tanto. Tudo termina como deve terminar e em seu devido tempo. Ninguém sairá machucado, está bem?
Ao se calar presenteou a criada com um sorriso. Ela não sairia ilesa, mas a criada não precisava saber.
– Sendo assim... – Marie lhe retribuiu o sorriso e encerrando o assunto que lhe envergonhava a apressou. – Não deve vagar pelo corredor em trajes de dormir. Volte para o quarto que o barão a espera para tomarem o café da manhã.
– Assim o farei – disse e, talvez ainda comovida pela admiração de um tratamento que deveria ser comum entre todas as pessoas, beijou-a na bochecha. – Tenha um lindo domingo Marie!
Sem nada mais dizer praticamente correu de volta ao quarto. Não por estar de camisola, o que a movia era a saudade já sentida pelo barão. Encontrou-o sentado na cama com o olhar distante, vestindo a ceroula, livre do chambre, tendo uma bandeja a sua frente. Erguendo os olhos azuis para ela, franziu o cenho e reclamou:
– Você demorou.
– Tive um pequeno encontro com Marie – disse apreciando-lhe o porte ereto enquanto se acomodava sobre o colchão macio, deixando a bandeja entre eles. Contente por estarem novamente juntos, deixou a muda admiração pelo peito proeminente e especulou o que a criada havia trazido já a escolher o que comeria primeiro; para variar estava faminta.
– Eu não acredito nisso!... O que ela foi lhe dizer?
A rispidez da pergunta fez a moça parar a ação e encará-lo; desconfiada.
– Nada importante... Acaso tinha algo a me falar?
Traído pela exasperação e pego pela perspicácia da moça, Edward sustentou o olhar de açafrão.
– Evidente que não – negou veemente. – Mas em se tratando de você, às vezes Marie é tão abusada quanto Jake, então me ocorreu que a questionasse sobre essa noite que passou aqui.
– Então ela é abusada em relação a mim? – Isabella sorriu para provocá-lo, aceitando a resposta apesar da expressão taciturna. – Ela lhe cobrou satisfações? Cobrou-lhe alguma reparação senhor barão?
– Apague esse sorriso convencido. – Edward recomendou, tentando aceitar a brincadeira, porém dizendo a verdade. – Marie não se atreveria a tanto.
– O quê?... Então não haverá reparação?! – Isabella maximizou os olhos em falso assombro antes de fechá-los e dizer com simulado pesar. – Ai, ai... Pobre donzela inocente!
– É o que deseja Isabella? – Edward indagou com seriedade. – Reparação?
A questão a confundiu. Voltando a olhá-lo, descobriu-se encarada intensamente e percebia a espera por sua resposta sem saber se a pergunta havia sido sincera ou não. Na dúvida esclareceu.
– Estávamos brincando, não? Sabe muito bem que não há nada a ser reparado por você.
– Bem o sei! – Edward retrucou lacônico; completamente livre dos indícios de bom humor, levando-a a se arrepender pela troça inadequada.
Com um bufar exasperado, Edward se serviu de um brioche que passou a comer em pequenos nacos cortados mesmo com os longos dedos, enquanto maldizia a brincadeira infeliz. Sabia que não deveria desejar estar ligado a ela, pois mal a conhecia. Contudo queria ter algo a reparar, assim a prenderia definitivamente em sua vida. Com isso também acabaria com a maledicência ao eliminar sua condição de amante. Ela possuía um passado obscuro e inadequado? Sim, mas a amava.
Por sua vez, Isabella temia que o barão novamente tivesse interpretado erroneamente suas palavras. Parecia inacreditável, visto que conhecia parcialmente sua história. Ainda assim a moça sabia que não estava livre de avaliação. Bastaria uma palavra mal colocada para que ele lhe atribuísse algum interesse, afinal, ele era o abastado barão de Westking.
– Edward... – era melhor tentar evitar pensamentos equivocados, porém ele não deixou que prosseguisse.
– Não me dê atenção, Bella – pediu sem conseguir ocultar seu aborrecimento.
– Como não? – Isabella insistiu. – Quando deixei esse quarto estávamos bem e agora... Não quero que pense, nem por um segundo, que eu lhe cobraria alguma coisa por tudo que temos feito; sabe que cedi de livre e espontânea vontade, não sabe?
– Já lhe disse que sim – ele ciciou atirando o pedaço restante do brioche de volta ao cesto. – Poderia parar de repetir?
Então Isabella entendeu a reação. Deveria ter previsto que Edward seria completamente diferente ao seu passado. Cedo ou tarde sua realidade o incomodaria; pena ter sido cedo demais.
– Evidente que posso – ela disse por fim, vergonhosamente embargada. – Mas não mudaria nada. Lamento que minha vida lhe incomode e nem poderia lhe tirar a razão... Se acaso considerar melhor que nós não...
– Isabella, por tudo o que lhe é sagrado, mantenha-se calada. – Edward rogou sentindo seu coração fundo no peito. – Beije-me, coma... Faça o que desejar, mas ocupe sua boca com algo que não seja dizer bobagens.
E novamente a perspicácia da moça o desvendava. De certo que após descobrir que a amava começava a se sentir incomodado com seu passado. Sentia ciúme e lamentava não ter um erro a reparar, então não gostava de ouvir.
Sentida, Isabella perscrutou o rosto taciturno do barão. Sabia que não estava dizendo bobagens, tanto que o descontentamento de Edward era claro. E não queria entristecê-lo então, como a comida deixou de atraí-la e beijá-lo parecia completamente fora do contexto, engoliu sua tristeza e escorregou para fora da cama. Jamais imporia sua presença caso esta não fosse para satisfazê-lo.
– É melhor deixá-lo comer sozinho.
Já havia calçado os chinelos de Rosalie sob o olhar incrédulo do barão, então seguiu rapidamente para a porta. Antes que tocasse a maçaneta, foi segura pelo braço e girada para ser recostada de encontro à porta.
– Enlouqueceu? – Edward perguntou num sibilar, mantendo a moça encurralada no cerco de seus braços apoiados na porta. Com a face muito corada, ele tinha os olhos azuis mergulhados num mar também vermelho e sombreados por duas sobrancelhas rigidamente unidas ao prosseguir. – Não basta ficar repetindo que de mim não deseja nada, ainda precisa se mostrar tão indiferente ao ponto de me deixar sozinho?
– Está aborrecido comigo por algo que não posso mudar – ela falou num fio de voz; não queria chorar. – Posso me calar para o resto de minha vida Edward, mas a verdade sempre estará entre nós... Começo a considerar que errei ao me...
– Não!
Após o agoniado vociferar, o barão mesmo tratou de calá-la com um beijo violento visto que ela se mostrava incapaz de fazê-lo. Ele nem sabia mais como haviam chegado àquele desentendimento, mas não suportaria ouvir que se arrependia logo depois de prontamente deixar sua cama. Com um gemido sentido, Edward apertou-a mais em seus braços e aprofundou um beijo já intenso, levando-a a igualmente gemer e finalmente abraçá-lo.
Com a reação, Edward mal lhe deu espaço para respirar, movendo a língua inquieta com sofreguidão; faminto, exigente. Somente deixou a boca livre ao sentir a moça esmorecer, contudo não a soltou, apenas deixou que tombasse a cabeça para apertar os lábios em seu pescoço.
– Roubou-me o ar... – ela o acusou arfante.
– Consegui calá-la. – Edward retrucou tomando-a nos braços. Sentindo-a enfraquecida, caminhou com sua amante até a poltrona disposta a um canto do quarto e se sentou com ela em seu colo. – Não quero ouvi-la dizer que lamenta.
– Pensei que você tivesse se arrependido – ela disse ainda a regular sua respiração, mantendo a cabeça pousada contra o ombro do barão. – E estava aborrecido.
– Estava – admitiu ao perceber ser ele o responsável pela rusga. Quando Isabella se agitou em seus braços, acrescentou, mantendo-a no lugar. – Mas não com você ou pelos motivos que imaginou.
– Mas então...? – ela tentou perguntar, pousando uma das mãos sobre o peito nu.
– Não está de todo errada – ele a interrompeu. – Seu passado começa a não me agradar, mas não ao ponto que me arrependa ou me leve a desistir de você. Ele só... Provoca meu ciúme.
– Ciúme?! – antes de se sentir envaidecida ela se preocupou.
Já o viu ressentido com as menções a Embry, mas considerou melindre masculino não um sentimento que considerava diretamente ligado ao... Isabella se negou a nomear o sentimento; Edward não poderia amá-la. Logo descartou a hipótese, desejando estar errada afinal a possessividade passional também deveria acometer os meramente apaixonados. Como ele nada dissesse, ela assegurou.
– Não há motivo para tanto. Estou aqui com você, não estou?
– Está – era o que deveria bastar, Edward pensou apertando-a contra si sem se importar que Isabella ainda necessitasse de ar.
E no momento bastava. O que os levou até aquele ponto fora seu descontentamento com toda a situação em si. Assustava-lhe não a querer somente como amante, assim como o precoce amor que descobriu sentir. Somado aos seus temores estava o aborrecimento com os mexericos e a maldita falta de algo a reparar que a obrigasse a ficar.
Por desejá-la tanto considerou que seria melhor para ele se Isabella fosse aquela moça chorosa que por vezes parecia ser; não a mulher altiva e decidida que de fato era. Para o bem dos pecados do barão, sua amada possuía um espírito livre que a levava aonde quisesse. Incontinenti Edward se repreendeu pelo desejo restritivo; estava claro que a amava justamente por ser quem era. Tinha então que encarar a realidade. Caso não conquistasse seu coração até a conclusão das obras, estaria perdido.
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SPOILER:
Isabella agradecia à deferência que lhe roubou a atenção nos instante de sua saída. Assim como na entrada, ela evitou olhar diretamente para quem se encontrava nos bancos, pois mesmo que se sentisse um pouco a vontade, não poderia abusar da sorte; o risco de ser reconhecida ainda era real. Intimamente agradecia ao fato da cozinheira não estar no salão, indicando que estava certa quanto a uma improvável mudança; talvez ela não tivesse mudado em nada. Seria típico de Sue Wood.
– Posso perguntar por que chorou?
Edward a tirou os pensamentos quando já seguiam lentamente pela extensa varanda, sem rumo certo. Sem olhá-lo, Isabella sorriu e comentou.
– Já perguntou – como ele nada retrucasse, ela ergueu os olhos para ele. Ao notar certa ansiedade, lembrou-se da mania em decifrá-la então respondeu com a verdade. – Apenas me comovi com uma boa lembrança.
Embry sempre seria a mais feliz, mesmo que às vezes lhe despertasse tristeza.
– Então não foi por eu tê-la feito perder a missa enquanto pecava de forma quase imperdoável? – Edward troçou; contente pela resposta não ter ido de encontro a nenhuma de suas cismas.
– Não senhor barão – ela riu de leve, sentindo seu rosto corar mais uma vez. Edward a havia estragado. – E lhe agradeceria se esperasse minhas preces esfriarem antes de comentar as obscenidades que faz comigo.
– Perdoe-me – pediu quase sincero; não lamentava tanto, ainda mais ao vê-la corar graciosamente. Para mudar o assunto ao qual não poderia ainda discorrer, indagou pela segunda vez naquela manhã.
– O que gostaria de fazer?
– Não faço ideia! – Isabella exclamou novamente feliz com a mudança de assunto.
– O que faria caso estivesse na sua casa? – Edward indagou rogando que soasse tão despretensiosamente quanto queria parecer.
– Eu teria ido à missa – ela respondeu prontamente.
Intimamente agradecia que a especulação viesse justamente sobre um dia da semana que invariavelmente nada faria de relevante. Como prova que o assunto iniciado tinha por objetivo descobrir mais sobre ela, Edward exalou um bufar e voltou ao tema demonstrando saber que ela já tinha descoberto sua intenção.
– Muito bem sabichona!... E depois da missa o que faria?
– Nada – mais uma vez disse de pronto sem mentir. – Talvez lesse algum romance. Talvez preparasse o almoço.
– Então sabe cozinhar! – Edward observou com um sorriso.
– Nada que chegue aos pés do que é preparado aqui em Apple White, mas tenho meus préstimos – disse com orgulho. Ao menos um dos ensinamentos feitos pela cozinheira daquela casa lhe era útil. E justamente por essa razão, por ser útil.
– Qualquer dia terá que provar – ele a provocou, animado com o fluir da conversa.
– Qualquer dia... – ela repetiu sabendo que este nunca chegaria. Para desconversar, perguntou. – Onde está Nero? Não o vi ainda essa manhã.
– Se não estiver no canil para os cuidados semanais, está correndo pelo bosque a perturbar algum pobre animal. – Edward lhe saciou a curiosidade nascida somente para distraí-lo; conhecia-a. Sem se abalar, retomou o assunto, demonstrando não ter mordido a isca. – Bom... Agora que conhece as possíveis atividades dominicais de seu protetor, falta me dizer se sabe bordar.
Não poderia culpá-lo por querer conhecê-la mais, pensou vencida, decidindo por lhe saciar a vontade.
– Meus préstimos se resumem a cozinhar e a tocar piano pessimamente. Caso não seja para pregar um botão ou fazer pequenos remendos não possuo nenhuma habilidade com tecidos, agulhas e linhas... – mais do que isso era considerado futilidade para que uma futura criada precisasse saber, ela lembrou livre de ressentimento; era passado. Com isso acrescentou. – Nunca houve quem em ensinasse a bordar.
O contentamento do barão por obter respostas arrefeceu ao perceber que novamente se aproximava de um campo perigoso. Ciente que a partir dali talvez outras não mais viessem, indagou.
– Quem lhe ensinou a cozinhar? – antes que ela se pronunciasse, acrescentou rapidamente. – Pergunto, pois ontem me contou que mal conheceu seus pais e hoje disse haver alguém que a renegou. Bom, se não quiser me dizer, entenderei.
Com isso Edward quis demonstrar que ela poderia ficar a vontade para contar apenas o que desejasse livre de obrigatoriedade. Isabella por sua vez, especulou que mal haveria dar algo que saciasse um pouco mais parte da curiosidade do barão. Decidindo não haver nenhum, respondeu:
– Foi minha avó materna. A única que conheci.
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