Borboleta Negra

76 Capítulo Quarenta e Quatro


Notas iniciais
Oie... Atrasei, mas aqui está, capítulo novo. Obrigada pelos comentários... :D Ah, acho o máxomo o amor que vcs sentem pela Irina... rs Podem deixar que ao seu tempo ela recebe o que é dela... ;) Agora, simbora ler... BOA LEITURA!

Isabella seguia rumo ao pomar, distraída, agora tentando entender a nova personalidade de Alice. Antes que chegasse ao seu destino, desistiu de elucidar tal mistério e aspirou o ar frio daquela manhã ensolarada. Graças aos céus, mesmo com as fortes emoções vividas desde que despertou, sentia-se bem e disposta.

A súbita satisfação pessoal era tudo o que deveria contar, contudo, ao final do caminho, Isabella estacou e passou a analisar a outra irmã de Edward. Uma que, por estar magoada, em nada se assemelhava a amiga que conhecia e se lembrava.

Rosalie estava recostava no tronco da macieira mais velha, assistindo a algazarra feita por seus filhos e o sobrinho, juntamente com Nero, que corria e saltava entre os meninos. Tal cena teve o poder de comovê-la, pois, quando compartilhavam seus sonhos com o futuro, especulavam se seus filhos brincariam ali, como elas... E lá estavam!

Infelizmente elas não apreciariam; juntas.

– Mamãe! – Embry revelou sua posição tão logo a viu. Sendo seguido pelos primos e pelo galgo, ele correu até ela. Arfante, com as bochechas coradas disse o óbvio: – Tia Rosalie nos trouxe ao pomar. Disse que o chão estaria fofo, mas que não teria problemas.

Ver o menino livre da comoção demonstrada no quarto tranquilizou-a e a enterneceu.

– E é maravilhoso, não é? – ela indagou com animação.

– É perfeito! – Embry exclamou a sorrir. E, depois de pedir que ela se abaixasse movendo uma das mãos, disse-lhe ao ouvido: – Até penso em esconder aqui o meu tesouro.

– E ninguém há de encontrá-lo – encorajou-o no mesmo tom antes de erguer o dorso.

– O que ele lhe disse, senhorita? – perguntou Lionel. John assentiu, indicando ter a mesma curiosidade.

– Não posso revelar um segredo – ela gracejou, tocando a ponta do nariz de cada um com o polegar. – Perguntem para Embry. Se ele quiser dizer, dirá. Agora, por que não voltam a brincar. Daqui a pouco é bem capaz de alguém vir nos chamar.

Embry sorriu enquanto os primos resmungaram num muxoxo, porém os três logo saíram em disparada para perseguirem-se em meio às árvores, com Nero por companhia.

Rosalie afastou-se da macieira e, de longe, fitava a recém-chegada. Isabella não soube decifrar a expressão da duquesa que, como na tarde anterior, encarava-a de forma avaliativa. Era perturbador e, por um instante, Isabella se arrependeu de ter ido até ali.

Se antes o gracejo da condessa a surpreendeu, no momento a expressão livre de rancor de Rosalie a confundiu. Isabella não sabia o que se passava, sentia-se incomodada, mas não gostaria de ir embora. Com isso, bem-vinda ou não, caminhou até a duquesa.

– Bom dia – cumprimentou-a, sustentando-lhe o olhar.

– Bom dia – Rosalie retribuiu, sempre a olhá-la.

Incomodada com a aberta análise, Isabella deu um passo a frente para que pudesse ver os meninos sem ter a amiga no seu campo de visão, contudo sem lhe faltar ao respeito por não lhe dar às costas. Cuidado meramente visual, pois podia sentir os olhos azuis em si.

Com a coragem a ruir, Isabella deu outro passo à frente e cruzou os braços, como se abraçasse a si mesma, tentando se distrair com a correria das crianças. Imaginando o que a baronesa diria se os visse a correr como selvagens. Talvez a recente condescendência se esvaísse. Sorria intimista da cena que criou, quando ouviu Rosalie murmurar:

– Ontem fiz uma coisa horrível.

Por um instante Isabella acreditou ter imaginado tais palavras, tanto que se voltou lenta e despretensiosamente para olhar Rosalie por sobre o ombro. Quando seus olhares se cruzaram, a moça notou que o rancor não mais existia. Cada vez mais confusa, voltou-se e indagou:

– Perdão... Disse alguma coisa?

– Disse que fiz algo horrível – confirmou em novo murmúrio. Parecia que falar lhe custava. Antes que Isabella decidisse se especularia ou não qual fora o ato vil, Rosalie revelou-o: – À tarde, quando fui chamar por Edward... Depois que os deixei, fiquei ouvindo junto à porta.

Isabella uniu as sobrancelhas, não como reflexo a alguma condenação. Não. Não poderia julgar Rosalie quando cometera a mesma indiscrição ao ouvir a conversa da baronesa e sua criada. O que fez foi tentar lembrar o que conversou com o barão na ocasião. Recordou apenas que intercedeu por Senior Zimmer.

Bem, estava claro que Rosalie e Alice – por algum motivo que Isabella desconhecia –, sabiam do interesse mútuo e tentaram ajudar o casal a avançar uma etapa. Com sua atitude teria agradado Sua Graça? Talvez. No entanto, Isabella considerava pouco para a mudança drástica.

– Bem... Se Vossa Graça considera horrível – disse Isabella ao não ter mais o que pensar. – Por que o fez?

– Não sei... Intuição, talvez.

– Intuição? – A cada palavra Isabella sentia-se mais confusa.

– Sim – Rosalie confirmou, depois de correr o olhar rapidamente para os meninos que brincavam ali perto. Após um suspiro prosseguiu: – Nosso reencontro não foi nada parecido com os que eu imaginei, caso este um dia acontecesse.

Isabella não se atreveu a falar, apenas assentiu. Realmente não lembrava o que Edward ou ela disseram, mas de súbito sentiu seus pelos eriçarem, num estranho calafrio.

– Fiquei extremamente decepcionada ao saber de seu romance com Edward, de seu filho... De seu silêncio – disse Rosalie sempre a murmurar roucamente.

Por fim Isabella entendeu que a voz da duquesa estava entrecortada pela comoção e sem nem saber o motivo, igualmente se comoveu. Porém não chorou. Respirando profundamente, tentando não permitir que seus olhos marejassem, esperou pelo o que pudesse vir.

– Para mim, você ter estado perto, sem nunca me procurar, foi um maldoso descaso. Eu odiei você aquela tarde. Fiquei porque Edward me pediu, mas considerei-a falsa, cruel, interesseira.

– Não... – Isabella negou sem nem notar.

– Era o que parecia – retrucou a duquesa –, mas depois... mesmo magoada, eu sentia que algo estava errado. Nós crescemos juntas. Quando foi embora seu caráter já estava moldado. E mesmo que mudasse nos anos que se passaram, enquanto morava aqui você era minha amiga. Não tinha a mínima possibilidade de ter se relacionado com Edward sem que eu soubesse.

– Rosalie... – Isabella se desesperou. De súbito recordou exatamente o que dissera ao noivo para pedir em favor da baronesa. – Por favor, não...

– É inútil insistir – assegurou Rosalie, olhando os meninos que corriam. – O que disse a Edward, sobre o que meu pai fazia a você, somado às minhas lembranças, me mostrou a verdade. Embry só pode ser...

– Filho de Edward – disse Isabella com toda convicção da qual foi capaz. – De Edward!

Ao voltar a encará-la, assentindo, a duquesa não lutava contra suas lágrimas.

– Sim, ele só pode ser filho de um Edward.

– Rosalie, por favor... – Isabella gostaria de negar veementemente. Prometera ao seu Edward, mas não tinha forças para ludibriar quem a conhecia tão bem. E Rosalie ouvira!

– Seu plano – disse Rosalie –, ou de Edward, seria perfeito se eu não estivesse em casa aquela tarde. Pensando a respeito, a contrariedade de meu pai na ocasião poderia ter sido por descobrir sobre você e meu irmão, mas há os detalhes que desmentem o que agora alegam. Meu pai estava descomposto... Você estava descomposta... Na ocasião não me ocorreu reparar nesse detalhe, mas hoje sou adulta, casada... Sei como um homem desarranja uma mulher ao tomar liberdades.

Isabella mantinha os olhos fechados para que as lágrimas não viessem, sentia-se uma traidora.

– Agora faz sentido o modo como passou a se comportar sempre que estávamos perto do meu pai. O modo como por vezes ele a olhava – prosseguiu Rosalie. – Enfim, mesmo que o tempo tenha passado, vou considerar que ainda a conheço. E farei isso baseada na adoração com que olha para meu irmão. Agora, quer mais bem a ele do que antes.

– Eu o amo – garantiu, ainda de olhos fechados, como se não olhar em volta fizesse toda a cena desaparecer.

– Cora, olhe para mim – pediu Rosalie.

Isabella não tolerava tal nome, mas ali, era Cora, então sem hesitar, obedeceu a Rosalie que concluiu:

– Como eu dizia... Baseada nas atitudes que reconheço em você, e no que acabo de dizer sobre meu pai, eu sei que... o que ele fazia a você, foi contra sua vontade. Imaginar o quanto era nova, choca-me profundamente...

Rosalie levou as mãos ao estômago, fechou os olhos e respirou fundo por um instante.

– Sim, é repugnante – disse ao encará-la –, mas não devemos enveredar por esse caminho. A quem condenaríamos? Quanto a Sue, expulsá-la pelo mínimo motivo foi nada menos do que esperado. Sendo assim, eu entendo que não tenha me procurado. No seu lugar, eu não teria tido voz para acusar alguém poderoso e influente, em especial sendo o pai de duas pessoas a quem eu quisesse tão bem, esperando uma criança que facilmente lhe seria tirada.

Isabella não poderia nem conseguiria confirmar em palavras, então assentiu e esperou que com isso Rosalie a compreendesse.

– Então minha intuição estava certa – Rosalie deu um passo à frente. – E mesmo sendo horrível, fiz bem em escutar a conversa de vocês dois.

Isabella novamente assentiu. Era uma traidora, mas jamais escondera seu desejo de que a amiga soubesse a verdade. Temia o que aconteceria a partir dali, mas no fundo de seu coração, por Rosalie, sentia certo alívio.

– De quem foi a ideia de dizer que Embry é filho do atual barão?

– De Edward – revelou a moça, num murmúrio embargado.

Rosalie assentiu.

– Muito bem! E algum dia eu saberei o que aconteceu com você e como veio parar aqui, com um filho do meu irmão?

– Se Edward permitir, sim.

– Eu poderia me zangar, mas agora entendo que sua lealdade seja dada primeiramente a ele.

– Obrigada. – Isabella não sabia o que esperar.

– Entender é o que as amigas fazem, não?

Com a declaração Isabella perdeu a voz. Eram amigas? Como em resposta à sua muda indagação, Rosalie sorriu em meio às lágrimas e então pigarreou.

– Oh, que horror! – exclamou ao retirar um lenço da faixa em sua cintura para secar os olhos. – Odeio chorar! Meu nariz fica parecendo uma maçã. E não uma maçã bonita.

Isabella piscou e, ainda sem palavras, passou a secar o rosto com suas luvas, dando breves palmadas nas bochechas e nos cantos dos olhos.

– Veja quanto fôlego! – Rosalie indicou os meninos que, alheios à conversa entre as adultas, ainda corriam e gritavam sempre que o perseguidor da vez estava perto de capturar um dos dois fugitivos.

Isabella seguiu o olhar, mas voltou a encarar a duquesa. Eram amigas e a conversa acabaria ali? Ela tinha de saber o que Rosalie faria com a descoberta. Antes que a interrogasse, esta a encarou e disse:

– Devo parabenizá-la, e ao meu irmão, por gerarem um filho tão forte.

E então Isabella sentiu novas lágrimas a caminho. Rosalie não os denunciaria. Que manhã!

– Não – Rosalie maneou a cabeça ao vê-la chorar, claramente a domar sua própria comoção. – Não se emocione com meu elogio. Tenho certeza de que tanto fôlego foi herdado do meu irmão. Bem me lembro que você era fraquinha. Não fugia de mim por mais de dois minutos.

Isabella voltou a secar o rosto e sorriu. Por ter sua resposta, e por confiar na discrição da futura cunhada, retrucou a provocação:

– O tempo deve ter afetado sua memória, pois raramente me pegava.

– Tem certeza? – indagou a duquesa enquanto guardava o lenço. – Se eu quiser ainda pego você num piscar de olhos.

Isabella recuou um passo, entre incrédula e séria. O comentário era real?

– Está esperando que lhe dê alguma vantagem?

Ouvir a pergunta recorrente, usada nas perseguições até mesmo quando eram adolescentes, associada ao erguer de uma sobrancelha e o sorriso zombeteiro, indicou a Isabella que sim, era real. Reagir foi inevitável. Ao dar por si, vertia lágrimas de alegria, ria e corria, segurando a saia de seu vestido para ter maior mobilidade.

As folhas caídas, sendo esmagadas sobre o solo lamacento denunciavam a distância da duquesa, ajudando a moça a desviar no momento oportuno para que não fosse alcançada. Quando sua rota de fuga coincidiu com o espaço onde os meninos corriam, Isabella os descobriu estáticos, olhando suas mães que corriam em meios as árvores.

A paralisia, porém, durou até que Isabella passasse por eles.

– Corram! – demandou em falso alarme, a secar o rosto disfarçadamente. – Ela enlouqueceu!

Alheios ao resquício de comoção, todos gritaram e correram em direções diferentes. Nero passou a pular ao redor da antiga dona, enquanto esta perseguia quem estivesse mais perto, não apenas sua amiga de infância. Em uma das aproximações, Rosalie tocou em Embry.

– Está com você!

Então o menino era quem perseguia. Isabella foi traída pela emoção ao ver a cena. Ao parar foi facilmente tocada.

– Eu não disse? – Rosalie a provocou. – Ele é rápido como meu irmão!

Mesmo emocionada com a mudança e a aceitação, Isabella voltou à brincadeira, correndo atrás de um e outro. Sua vítima foi John, que gritou e tentou tocá-la.

– Meu Deus! O que está acontecendo aqui?!

Todos pararam ao ouvir a questão assombrada de Alice. Exceto John que aproveitou para tocar a futura tia. Somente então, sorrindo feliz, parou para olhar quem vinha atrapalhar a brincadeira.

Arfante, Isabella olhou para Rosalie. Ao vê-la também cansada, corada, suada, com a barra do vestido suja e os cachos do penteado a despencarem ao redor do rosto, teve uma visão de si mesma. E a cena se tornou engraçada. Tanto que riu. Logo todos riam.

– As duas enlouqueceram? – indagou Alice com as mãos na redonda cintura. Apesar do tom, não havia repreensão, apenas espanto. – Não vão se explicar? Isabella? Rosalie?

Pelo o que conversaram, ou talvez por aceitar em definitivo que Alice estava mudada, ou apenas por se sentir leve e feliz, Isabella correu até ela e a puxou pela mão.

– Não enlouquecemos, milady. Estávamos fugindo daquele gnomo – disse ao apontar para John –, mas ele me pegou. É tarde para mim, mas os outros ainda têm uma chance se conseguirem se esconder atrás de uma árvore cor-de-rosa. Não é mesmo Rosalie?

Isabella achou por bem incluir a amiga em sua ousadia ao notar a súbita seriedade depois que tomou a condessa pela mão. Talvez a amiga de fato se enciumasse.

– Sim – a duquesa disse por fim, voltando a sorrir. – É uma árvore encantada e porque está num estado delicado não poderá se mover.

– Eu sou a árvore?! – Alice indagou com estranheza, mirando seu vestido rosa chá.

Não teve uma resposta, pois todos voltaram a correr. Como a perseguidora da vez se lembrara de que também estava em estado delicado, não demonstrou muito empenho. Mais ameaçava do que corria, em especial quando seu alvo estava perto de Alice para que este fosse se esconder às suas costas.

E, passada a hesitação inicial, logo Alice ria das provocações dos meninos sempre que se escondiam atrás da árvore, gritavam e corriam. Quando foi abraçada por trás pela duquesa – que claramente se valia do apoio para tomar fôlego –, a condessa lhe cobriu os braços, como se retribuísse o abraço. Rosalie procurou Isabella com o olhar e, como no passado, assentiu de modo discreto para indicar uma novidade auspiciosa.

Depois de sorrir para as futuras cunhadas, Isabella igualmente assentiu e se voltou para Embry. Iria persegui-lo quando o chamado de Beni a deteve.

– Vossa Graça?... Lady Whitlock?... Srta. Swan?... Lorde Edward me mandou vir procu... – o criado se calou ao avistá-las. Depois de analisar cada uma delas, pigarreou e repassou o recado, fingindo não notar o desmazelo coletivo. – Lorde Edward mandou vir procurá-las. Temos visitas.

– Ai meu Deus! – Alice exclamou e olhou para si mesma.

Sem dúvida a condessa seria a única que se apresentaria em melhor estado, mas a barra de seu vestido estava suja de lama pelos constantes esbarrões dos sapatos de seus sobrinhos. O resto deles causaria uma síncope em quem os visse. Bem, também, apenas para Alice – ou ainda para Lionel e John – fosse novidade.

Rosalie estendeu a mão para Isabella. Quando esta segurou a palma oferecida, compartilharam um sorriso brando, cúmplice, então chamaram seus respectivos filhos.

– Vão me dizer agora o que aconteceu? – indagou Alice, olhando de uma a outra.

Isabella olhou para Rosalie e esperou que ela dissesse algo. A mudança se dera nela, afinal. A amiga suspirou e simplificou:

– Não tinha como ficar aborrecida com ela aqui, no pomar. Percebi a discrepância entre meu comportamento e a afeição que sempre lhe tive. Enfim, reencontrei uma amiga em Isabella.

A moça voltou a se comover, porém não mais chorou. Sua alegria levou-a apenas a sorrir.

– Fico feliz por vocês – disse Alice. Ao ver que os meninos as obedeceram, chamou: – Agora podemos ir?

– Sim, vamos... – anuiu a duquesa, sem liberar a mão da amiga para seguir os meninos que passaram à frente e acompanhavam o desconcertado criado que já ganhava distância.

– Esperem! – pediu Alice quando estavam a poucos passos de chegarem ao jardim frontal, segurando Isabella pelo braço, arfante. – Não estou acostumada com toda essa atividade matinal. Vocês andam rápido demais para meu estado delicado – parafraseou a irmã.

– Desculpe – Isabella pediu e, com naturalidade, ofereceu o braço. – Deixe-me ajudá-la.

– Que falha a nossa! – exclamou Rosalie antes de soltar a mão de Isabella e oferecer também seu braço à irmã.

Assim, sem se importarem com as saias que lhe atrapalhavam os movimentos seguiram em frente. As irmãs não viram o discreto sorriso de Isabella, satisfeita em seu âmago com o rumo dos acontecimentos. Talvez fosse tolice, mas a cena parecia a correção de alguma falha na comunicação passada.

O riso de Alice recuperou-a de suas considerações.

– Agora, portaram-se como Jasper – ela comentou a sorrir. – Ele sempre me oferece o braço.

– Como um verdadeiro cavalheiro – salientou Isabella.

– Sim, essencialmente Jasper é um cavalheiro – disse divertida.

– Essencialmente? Estranho comentário...

– Ah, esqueça! É complicado explicar. – Alice maneou a cabeça, então, com o queixo indicou a frente. – Ali estão todos.

Isabella e Rosalie imediatamente lhe acompanharam o olhar. E realmente lá estavam eles dividindo a mesma cena. Um Frísio – magnífico com sua pelagem negra e calcanhares peludos –, tinha suas rédeas entendidas para Mike por um cavalheiro cuja roupa estava oculta sob uma capa. Edward se dirigia a outro cavalheiro, ambos ao lado de uma carruagem negra, ornada com um brasão na porta e pequenas flâmulas azuis, vermelhas e douradas, fixadas em suas extremidades superiores, agitadas delicadamente pela brisa. Entre eles estavam criados ocupados com a recepção.

Intimidade, Isabella cogitou sugerir que se esgueirassem e entrassem por alguma das portas laterais, contudo os meninos correram para seus pais, com Nero em seu encalço. Restou se calar e continuar caminhando com Rosalie e Alice à mansão. Enquanto se aproximavam viram os meninos cumprimentarem os homens.

As saudações se deram entre risos e tapinhas nos ombros até que um a um dos adultos se voltou para olhá-las. O barão franziu o cenho, de súbito soturno. Os cavalheiros maximizaram os olhos aos vê-las. Isabella soube quem era o duque graças aos cumprimentos de Lionel e John.

A surpresa abandonou o conde que, depois de entregar seu chapéu e a capa ao primeiro criado que avistou, adiantou-se para encontrá-las. De perto, Isabella reparou os traços de lorde Whitlock e não o considerou bonito, mas algo nele atraia; tanto que o tornava intimidante. Talvez fosse a rigidez dos lábios e intensidade dos olhos castanhos, ou as grossas sobrancelhas em discordância – uma erguida e outra franzida.

Isabella considerou que Alice talvez sentisse o mesmo, pois percebeu-a estremecer quando tiveram seu caminho barrado pelo conde. Escrutinando a esposa como se ali estivessem apenas os dois, Jasper indagou duramente:

– O que, diabos, aconteceu a você? – Ao se calar fixou o duro olhar nos braços unidos, então para Rosalie e, sem esperar pela primeira resposta especulou: – A condessa caiu?

– Não, ela não caiu, milorde – disse Rosalie no momento exato em que se afastaram uma da outra como um entendimento conjunto para que indicassem que estavam bem. – E, bom dia, lorde Jasper.

Com o cumprimento Jasper piscou como se despertasse. Então olhou para todas e, ao chegar à conclusão de que os rostos em nada denunciavam um acidente de qualquer espécie, recuou um passo e sorriu.

– Bom dia a todas! E perdoe-me, milady – pediu já a tomar a mão de Rosalie para beijar solene e fortuitamente. – Sabe o quanto me preocupo com a saúde da condessa.

Ao se calar Jasper puxou a esposa para seu lado e lhe beijou a mão antes de fazer com que se apoiasse em seu braço.

– Apenas por isso lhe perdoo, milorde – retrucou Rosalie com simulada seriedade. – Agora façamos corretamente. Está é Isabella Swan, a noiva de meu irmão.

Seu novo nome fluía fácil pelos lábios da duquesa, porém Isabella sequer notou. De fato o conde intimidava mesmo que agora lhe sorrisse ao tomar sua mão e se curvar para beijá-la. Com o humor melhorado, pequenas rugas se formavam ao redor dos olhos, denunciando outro detalhe que a moça reparara: o conde era muito mais velho do que a condessa, bons vinte anos, no mínimo!

Com seu sorriso igualmente fazia Isabella rever sua primeira impressão. Jasper Whitlock era, sim, bonito, ainda que fora dos padrões.

– Prazer em conhecer, Srta. Swan – cumprimentou-a ao soltar-lhe a mão e puxar sua esposa para si. – Devo salientar o quanto está encantadora?

Isabella percebeu a brincadeira, mas não sorriu.

– O prazer é meu, milorde – disse com os olhos postos no barão que se aproximava, com o duque.

– Mas que belo trio nós temos aqui! – exclamou Emmett, sorrindo para a esposa.

Emmett era o oposto de Jasper. Apesar da austeridade estampada em seu rosto irretocável, seu sorriso era cativante, sedutor. Tinha os olhos azuis como os de Rosalie, o cabelo castanho, mas escuro do que o de Edward e de Jasper, e era o mais alto dos três.

– Eu usaria preocupante ao me referir a esse trio – disse Edward, sem deixar de encarar a noiva. – O que aconteceu a vocês três?

– Estávamos brincando com os meninos. – Mais uma vez, Rosalie respondeu em nome de todas.

– Estavam...? – Edward não foi capaz de concluir, agora sendo ele a escrutinar sua mulher. Ao aceitar a explicação, indagou estupefato: – Corriam?

– Isabella e eu, um pouco, sim – disse sua irmã que seguia até o marido, sorrindo-lhe. Depois de oferecer o rosto para um beijo, acrescentou: – Como a boa educação parece ter sido esquecida, serei eu a apresentá-la mais uma vez... Querido, está é Isabella Swan, a...

– A santa que operará o milagre e levará Westking ao altar – disse Emmett sem interromper a esposa, pois antes piscou para ela que se calou, deixando-o livre para troçar, num entendimento perfeito. – Encantado!

Isabella deixou que Emmett lhe beijasse os dedos e retribuiu o cumprimento, ainda sem sorrir, presa ao olhar do noivo. Este agora alternava a avaliação entre a noiva e a duquesa. Evidente que Edward estranharia a mudança.

– Já que todos conhecem a noiva – disse Alice –, podemos entrar? Estou cansada.

– Claro! – anuiu o conde e, sem se importar com os demais, sem que estes pudessem prever, tomou a esposa nos braços, pediu licença e se foi.

Essencialmente educado. Agora fazia sentido para Isabella, contudo ela não tinha humor para se divertir com a cena ou com os protestos da condessa.

– Vamos – demandou Edward, fazendo com que ela segurasse seu braço.

Sem mais palavras, Rosalie aceitou o braço do marido e os acompanhou. O clima entre os dois casais divergia perceptivelmente. Enquanto o duque e a duquesa iniciavam uma discreta, porém animada conversa sobre as particularidades entre a viagem de cada um, o barão e sua noiva se mantinham em silêncio.

Por olhar em frente Isabella viu quando o conde subiu os poucos degraus da entrada principal e cruzou o limiar, sendo seguido pelos sobrinhos e pelo galgo. Em segundos a baronesa surgiu à porta, consternada. Ao avistá-los maximizou os olhos e abriu a boca em muda exclamação.

Era hora da reprimenda, Isabella sabia. Tanto que se preparou; em vão. Olhando as moças ainda coradas, com os cachos caídos e os vestidos sujos, Elizabeth maneou a cabeça, suspirou e ergueu as mãos, rendida.

– Simplesmente não tenho saúde para isso – disse cansada. – Agora são adultas, em breve, todas casadas... Se vocês consideram isto adequado, voltem a agir como selvagens!

– Adoráveis selvagens, Lady Westking – disse Emmett, sorrindo ao falhar em fixar um dos cachos loiros da duquesa no lugar.

– Se pensa assim, milorde, tranquilizo-me – disse a baronesa. – E peço vossa licença para voltar à cozinha. Já estamos entretidas com os preparativos para o almoço após o casamento.

– Fique à vontade, senhora – liberou-a Emmett com um floreio.

Isabella reparou que o duque era um galanteador por natureza, contudo sua primeira atenção era para alguém nada bem-humorado ou cativante ao seu lado.

– McCarty, agora que está com Rosalie, e conhece a casa tão bem, peço-lhe licença para ter um particular com minha noiva.

Emmett riu divertido a manear a cabeça e voltou a troçar:

– Não vá arruinar o motivo de minha viagem. Nada de assustar a noiva a dois dias do casamento.

– Não há o risco – Edward garantiu, esboçando um sorriso que em nada suavizou sua expressão.

– Edward... – Rosalie se afastou do marido e tocou o braço do irmão, tentando detê-lo.

– Vá com seu marido – Edward ditou. – Tenho certeza de que Isabella saberá me dizer o mesmo, caso fosse você a fazê-lo.

Nesse ponto Emmett olhou de um ao outro e, livre do bom humor, indagou com estranheza:

– O que há? Se apenas brincavam por que a seriedade? Perdi alguma coisa?

– Nada que a duquesa não lhe coloque a par. Se ainda restarem dúvidas, depois terei prazer em saná-las, mas, até lá... Deem-nos licença.

Isabella não se atreveu a falar. Enquanto o barão a guiava pelo corredor lateral rumo à saleta, em seu íntimo rogou para que Rosalie não se estendesse as explicações ao marido. Não sabia até que ponto a amizade entre Edward e Emmett implicaria em uma pronta condescendência ante tão grave segredo.

Notas finais
Bem, espero que tenha gostado... Isabella subiu mais um degrau, reconquistando a amizade de Rosalie... Agora vamos ver o que virá... ;) Bom domingo, meus amores!