Borboleta Negra
10 Capítulo Nove
Notas iniciais
Já haviam circulado todo o palácio sempre com Nero a lhes fazer companhia. Isabella sentia-se mais a vontade. Naquele novo passeio fora do palácio havia cruzado com alguns criados de sua época, mas estes mal ergueram os olhos em sua direção ou demonstraram reconhecê-la. Os poucos que a encararam em indisfarçada curiosidade confirmaram suas suspeitas de que não a encaixariam no perfil da adolescente esquálida que havia sido expulsa daquele lugar.
Atualmente era uma mulher formada e bem tratada. Os cabelos antes opacos e quebrados pelas constantes lavagens com sabão para roupas estavam crescidos e lustrosos. A pele outrora marcada pelo sol, agora reluzia clara e macia. E onde antes havia apenas um monte de ossos sob a capa de pele, havia carne bem nutrida que enaltecia suas formas. Decididamente temia a toa. Apenas uma talvez fosse capaz de reconhecê-la; mas desta trataria de manter distância nunca chegando perto da cozinha.
Novamente se esquecendo de quem não merecia um segundo de seu pensamento, Isabella sorriu para Nero que corria a frente deles e então voltava em disparada; parecia muito feliz em revê-la naqueles jardins. Como se lesse seus pensamentos, Edward comentou.
– Nunca vi Nero tão contente com um passeio... Aliás, ele nunca vem às caminhadas quando estou acompanhado.
– Nos tornamos bons amigos. – ela comentou. Mais uma vez não era de sua conta, mas perguntou em seguida. – Acontece com frequência? Esses passeios estando acompanhado.
– Não muito! – Edward então quis morder sua língua. Estava em missão importantíssima e insinuava a existência de outras mulheres. Na tentativa de consertar o malfeito, emendou. – Poucas pessoas vêm até aqui. Geralmente venho com Jacob, não só a esse como a todos os pomares antes da colheita.
– Entendo... – e com Tanya Cullen àquele, ela supunha, mas de fato não era de sua conta.
– Veja! – o barão apontou aliviado por mudar de assunto. – Ali está o pomar.
Isabella bem o sabia. Havia crescido nos anos em que ficou longe. As árvores conhecidas estavam um pouco mais altas. Alguns galhos da velha macieira, antes de tão fácil acesso para ela, agora estavam acima de sua mão estendida. Como um bom cavalheiro Edward alcançou uma das poucas maçãs não retiradas e entregou para ela.
– Obrigada! – sorriu e circulou a fruta entre os dedos.
Com a chegada do outono a casca vermelha e amarela havia perdido o viço, mas para a moça saudosa aquela fruta era perfeita. Acreditava até que ainda teria o mesmo sabor de outrora, mas não a mordeu. Estava emocionada por pisar onde considerava ter sido feliz vivendo no mundo de faz de conta que Rosalie lhe apresentou.
Em meio àquelas árvores foi filha, fada encantada, borboleta e caçadora em expedição. Foi também princesa justamente no dia em que Edward – o jovem baronete – resolveu aparecer para ver por que tanto a irmã e a “amiguinha” gritavam.
Rosalie correu para encontrá-lo e explicou ser a bruxa má que tentava envenenar a princesa. Isabella por sua vez não saiu do lugar; em sua mente infantil o rapaz de dezesseis anos era a personificação do seu príncipe salvador. Em comparação aos seus cinco anos ele lhe pareceu muito grande e imponente. E também afetuoso ao erguer a irmã de sete anos para beijá-la na bochecha antes de depositá-la ao chão para que continuasse a brincadeira.
Dias depois Edward fora mandado para Londres, mas sua imagem idealizada permaneceu na cabeça de Isabella por anos a fio. Contudo seu príncipe não estava lá quando o barão a corrompeu, nem a salvou das ruas quando foi lançada a própria sorte. Não lhe atribuía qualquer culpa, pois de fato o jovem barão não a tinha. Mesmo que estivesse na cidade nada poderia fazer, afinal provavelmente nunca soube qual espécie de porco era seu pai.
Todavia logo na primeira vez que fora violada, soube que príncipes salvadores não existiam; os nobres eram maus. Com o passar do tempo descobriu que praticamente todos os homens eram insensíveis, interesseiros, egoístas aproveitadores.
Estava satisfeita por ver que havia mais exceções entre suas crenças. Sir Cullen era um homem bom para ela; assim como Edward o era com todos à sua volta não carregando a maldade do pai em seu sangue nobre. O mundo não era um lugar tão feio afinal. Tinha que acreditar, ainda mais estando naquele pequeno pedaço de paraíso. Antes que percebesse murmurou.
– Tudo é tão lindo aqui!
– Concordo. – Edward não se referia ao pomar, mas a ela que novamente oscilava entre a alegria e a tristeza. Daquela vez não se furtou em perguntar.
– O que a entristece?
– Não estou triste. – assegurou apresentando um pálido sorriso. – Nem tenho esse direito entre árvores tão bonitas.
– A tristeza nos acomete em qualquer lugar. Em você ela aparece com frequência. Gostaria de saber o motivo... – como ela nada dissesse, arriscou. – Está com saudades de casa? Se for o caso essa tarde nós poderemos enviar uma mensagem aos seus pais... Em que parte de Wisbury eles moram?
– Não se preocupe com isso. – ela falou sem corrigi-lo. – Aqueles que eu tenho do outro lado já devem ter deduzido que estou presa em Westking.
– Se não é isso então o que há? – insistiu, não desistiria facilmente. – Está com saudades daquele que disse amar?
Para consternação de Edward, ela sorriu fácil antes de admitir.
– Sinto saudades dele todos os dias de minha vida.
– Se é assim por que não estão juntos? – perguntou irritado; sabia que ela não era casada ou noiva, pois não carregava nenhum anel. Para alguém que amava tanto deveria haver algum compromisso. Lembrando-se da carta, acrescentou. – Estão brigados?
– É complicado ficarmos juntos. – ela explicou vagamente; preocupada com o rumo da conversa. Parecia que Edward tinha vocação para interpretar de forma errônea tudo o que dizia; até mesmo seu silêncio parecia sofrer alguma análise. – Podemos mudar de assunto?
– Não! – o barão negou veemente. – Preciso conhecê-la... Já percebi que é basicamente uma jovem triste e defensiva. Seu rosto se ilumina e se desarma em raros momentos como ao conhecer Nero e ontem com Draco... E aqui, agora, ao falar desse a quem ama, mas é só. Se essa pessoa a faz feliz porque ficar longe?
– Já disse que é complicado.
– Por que é complicado? Quando duas pessoas se amam não devem ficar juntas?
– Não tenho que responder a isso. – Isabella se exasperou com a insistência; não devia, nem poderia dar satisfações de sua vida ao barão que claramente abusava da concessão que lhe fazia. – Não quero falar a respeito. De toda forma, não é de sua conta. É melhor encerrarmos o passeio...
Dito isso Isabella deu as costas ao barão sem prévio aviso. O sangue do nobre se agitou ao vê-la se afastar com passos largos; decididos. Não soube o que o moveu, somente tinha a certeza de que não deveria deixar que ela fosse embora após a nova discussão. Principalmente depois de estarem tão próximos. Para Edward pareceu que a frágil trégua não resistira caso não reagisse então, antes de traçar um plano coerente, correu atrás dela e a segurou pelo braço.
Isabella sentiu o aperto em sua carne antes de ser girada e prensada contra um corpo forte. A surpresa a fez soltar a maçã. Nem se recuperou do susto, teve sua cabeça contida e os lábios cobertos pela boca ávida do barão. Aquela impetuosidade livre de consentimento a lembrou de outra ação similar e muito antiga, dando-lhe força para se libertar e instintivamente estalar uma sonora bofetada no rosto surpreso de seu atacante.
– Nunca mais se atreva... – ela sibilou num fio de voz.
Passado o choque inicial que a fez reagir, restou a moleza em suas pernas e a fraqueja no tom. Aquele contato em sua boca fora completamente diferente ao do outro barão, assim como as reações inéditas que desencadeou em seu corpo. Contudo nem ante a novidade deveria encorajá-lo. Respirando com dificuldade, procurou por sua voz e ameaçou com o dedo em riste.
– Se encostar suas mãos em mim novamente eu...
Edward não a deixou terminar. Valendo-se da mão erguida, puxou-a pelo pulso de volta para si e a prendeu com maior força visto que a dama de indefesa não tinha nenhum traço. Tanto que lhe provou estar certo quanto a uma reação negativa ao seu ataque, mas já havia tido sua cota de tabefes. Não teve como conter os punhos delicados que passaram a desferir socos em seu peito, contudo segurou a cabeça da moça arisca e novamente a beijou. Precisava mais daquele eletrizar que percorreu seu corpo ao unir sua boca à dela.
Isabella urrou e lutou por liberdade, porém Edward não se abateu; nem a moça se rendeu, pois não separou os lábios para sua língua insistente demonstrando determinação. O barão sabia que não era quisto da mesma forma, mas simplesmente não poderia deixar que se fosse. A um novo soco em seu ombro cogitou desistir. Para ele estava provado que a desejava ardentemente sem ser correspondido. Foi então que o urro pareceu um gemido. Animado com a provável rendição o barão imprimiu maior força na língua que procurava passagem pelos lábios obstinados. E eles cederam.
Com um gemido vitorioso Edward explorou a boca macia antes de capturar-lhe a língua para rolá-la na sua. Houve algum desencontro – como se a jovem nunca tivesse sido beijada – até que finalmente se provassem sem reservas. Sentir as mãos que lhe esmurraram correr por seus ombros para se unirem em sua nuca fora outra vitória. Prontamente excitado como nunca antes, ele a comprimiu contra si até que se emoldurassem.
Ter aquele corpo grande, forte e rígido prensado contra o dela, fez Isabella exalar um gemido de puro deleite; o primeiro em toda sua vida. Nunca antes pôde imaginar que a ligação de duas bocas pudesse ser tão prazerosa. Como os primeiros contatos com seus lábios nunca contaram, aquele era seu primeiro beijo.
Ela também nunca sentira aquele calor estranho e bom na base de seu ventre ao tê-lo comprimido por uma evidente excitação masculina. Acreditou que este não seria agravado até ter sua boca liberada para sentir os lábios do barão roçando seu pescoço e o cavanhaque lhe arranhando a pele. Para lhe provar que ainda havia mais, a boca que a torturava desceu os beijos para seu colo onde passeou a língua pela barra do decote, como se desejasse ir além.
– Céus... – Isabella gemeu ao sentir uma forte fisgada em seu ponto mais íntimo.
Não mais sentia suas pernas. Permanecia de pé tão somente por estar amparada. Respirar havia se tornado um problema, pois o ar parecia rarefeito. E mesmo que sufocasse, apreciou que o beijo fosse retomado. Sabendo bem o que ele esperava dela, separou os lábios sem reservas. Rendia-se ao novo beijo quando foi largada ao chão e ouviu um impropério seguido de um sibilar.
– Filho de uma cadela sarnenta!
De onde estava Isabella viu aquele que a deixou afogueada brigando com um cachorro que latia enfurecido para ele. Quando viu o barão esfregar a lateral de uma das nádegas, ela acreditou ter entendido o que havia acontecido. Antes que pudesse evitar sorriu e logo gargalhou.
– Você está rindo? – o nobre a encarou com o cenho franzido, afastando os cabelos em desalinho do rosto enfezado. – Esse cão suicida me mordeu e você achou engraçado?
– Admita! – ela pediu ainda rindo. Finalmente era defendida mesmo que não quisesse ser salva. – Foi engraçado...
Não, não havia graça alguma sentir a dor da mordida. Todavia como alimentar seu orgulho ferido ao ter seu melhor beijo interrompido por um cão quando pela primeira vez ouvia a risada livre e contente de sua hóspede? E ela ainda estava ali; largada sobre as folhas rindo da situação e não correndo apavorada de volta a casa depois de ser liberta de seus braços. Se aquele não fosse um bom sinal, não saberia de mais nada.
Com o pensamento até os latidos de Nero desapareceram; assim como os sons que vinham dela. Seria precoce e talvez temerário nomear o que sentia afinal nunca se apaixonou por ninguém, mas Edward acreditava que o sentimento existisse e fosse poderoso como aquilo que fazia seu estômago retorcer e seu coração acelerar somente por estar com ela. Vendo Isabella a sorrir – com os lábios vermelhos após seus beijos exacerbados – soube que não a desejava longe.
Ela ralhava com o cachorro quando ele se abaixou ao seu lado.
– Já fui castigado por Nero. – disse para chamar sua atenção. Ao ter os olhos de noite nos seus, indagou. – Tenho então seu perdão por desobedecê-la? Não quero que cisme de ir embora.
– Não se preocupe. Irei quando tiver que de ir... – o sorriso arrefeceu ao se lembrar de sua realidade.
– Não! Não fique triste novamente. – Edward pediu segurando-lhe o rosto entre as mãos. – Prefiro que sorria... Você foi feita para sorrir e... – interrompeu-se ao ouvir o rosnado baixo, então vociferou. – Se acaso se atrever a me mordeu novamente encomendo uma nova leva de sabão. Vá para casa Nero! JÁ!
Ao seu firme comando o galgo se foi, obediente.
– Pobrezinho. – ela lamentou sua saída; compadecida.
– Isabella...
O barão chamou a atenção para si. Imediatamente ela voltou os olhos para os de Edward então, mesmo sabendo ser errado apreciar o contato das mãos mornas em seu rosto, assegurou ao ver a ansiedade presente nos orbes azuis.
– Não estou triste, pode acreditar. Nem há o que perdoar Edward... Mas como lhe disse tudo é muito complicado. Não deveria ter me beijado.
– Acaso é comprometida com alguém? – não temeu a resposta, pois estava disposto a lutar por ela.
– Não da forma que imagina, mas...
– Se não há outro, não há complicação. – o nobre determinou resoluto.
– Esse é o problema! – Isabella se sentiu sufocar. – Há outro e ele me tem por inteiro. Não há espaço para mais ninguém.
A declaração feita pela boca marcada por seus beijos o enciumou e incutiu nele o espírito de competição. Sem se importar que daquela vez ela se aborrecesse, ou com o parco capim e as folhas ainda úmidas pela chuva de dois dias atrás, o barão atirou-se contra sua hóspede fazendo com que se deitasse.
– O que está fazendo? – Isabella o encarou, alarmada. O coração novamente a palpitar no peito por ter o corpo contido pelo dele.
– Estou abrindo espaço para mim...
E novamente era beijada. Assustada com a volúpia que mais uma vez lhe lembrava a ação de outro barão, Isabella tentou protestar empurrando-o pelos ombros, porém ao ser apresentada às maravilhas de um contato que por anos repudiou, tornou-se fraca e se rendeu. Aquele Edward era o oposto e despertava nela algo muito diferente de repulsa. Logo corria os dedos pelos cabelos que haviam se soltado da fita ainda durante o primeiro beijo.
Estimulado pelo carinho, Edward correu uma das mãos pela cintura delicada e, sem temer ser agredido com o avanço inadequado, apertou um dos seios da moça. Isabella se agitou sob o barão, nunca antes aquele tipo de ousadia a inflamou como naquele momento. Sim, era errado. Muito errado o que faziam, pois não era a mulher para estar com ele, porém queria descobrir novas sensações.
Como que para satisfazer-lhe a curiosidade, dedos ágeis desprenderam o lacinho da fita que mantinha o decote no lugar para que a mão masculina o invadisse e tocasse sua pele sensível. Pela primeira vez o corpo de Isabella reagia positivamente a um homem. Com vida própria seus mamilos enrijeciam sob o tecido e a mão indecorosa.
– Edward... – gemeu ao ter a boca libertada e sentir os lábios ladeados de pelos acariciar e arranhar seu pescoço.
A ambiguidade era estimulante e se tornou uma deliciosa tortura quando a boca encontrou o cume de seu peito e o sugou faminta. A moça nem percebeu o momento em que este fora exposto. Tão contraditoriamente inexperiente na arte do amor, ela sentiu o mundo girar ao sentir o rolar da língua áspera em seu mamilo.
– Por favor, Edward...
Isabella nem sabia pelo o que implorava. Tinha plena consciência de que aquilo era inadequado, mas inadvertidamente queria mais. E fora atendida ao sentir uma mão indecente descer por seu corpo e tocá-la intimamente mesmo sobre as saias. Deveria afastá-la, contudo instintivamente afastou os joelhos para que ela se afundasse mais. Então a mágica aconteceu. Quando acreditou que não havia como ficar melhor, dedos certeiros descobriram um ponto nela que ao menor movimento a fizeram urrar.
Ouviu um riso satisfeito que foi abafado por sua pele antes que o barão movesse a mão insistentemente enquanto provava-lhe o outro seio. E então o mundo parou para logo girar vertiginosamente enquanto algo muito forte corria suas veias e a fazia estremecer violentamente. Com medo de ser dragada para o abismo que parecia haver abaixo de si, Isabella se prendeu a Edward, segurando seu colete com força.
Com ele muito próximo sentiu como estava excitado e, ainda com as copas das árvores a terminar seu giro, entendeu que o barão havia lhe dado prazer. Um que ouvira a respeito, mas que considerava lenda visto que todos os homens procuravam apenas o seu próprio, não o contrário. Exausta pela sucessão de emoções, Isabella o soltou e se deixou ficar largada sobre as folhas, sem se importar com os perscrutadores olhos azuis que vagavam por seu rosto e colo exposto.
A escolhida de sua paixão era linda, Edward pensou enquanto mirava os seios que provou. Gostaria de ter um pouco mais, mas ali não era o local adequado. Temendo que alguém os flagrasse, tomou a iniciativa de cobri-la para recompor o decote no lugar.
Com Isabella devidamente coberta, acariciou-lhe o pescoço, o queixo e então os lábios. A pele alva e delicada estava rosada pelo roçar de seu cavanhaque. Talvez notassem e o barão esperava que não se atrevessem a comentar. Ainda reparando no detalhe, percebeu como os beijos trocados com Tanya eram superficiais; jamais a marcara. Tal descuido somente ocorreu com aquela que há dias virava sua cabeça.
– Não é capaz de ter a mínima ideia do quanto está bonita. – falou manso, correndo os dedos pela linha do queixo arredondado. Isabella apenas o encarava e isso começava a preocupá-lo. – Está aborrecida com o que fiz? Não queria afrontá-la, eu...
– Como poderia estar aborrecida depois do que fez por mim? – ela perguntou.
– Agi com devassidão. – não se arrependia, mas era a verdade. Com ela deitada a encará-lo, entendeu que poderia muito bem ter interpretado o conteúdo da carta de forma errada. Talvez ela e Embry se amassem, mas não tivessem a intimidade sugerida. Com a constatação, disse sincero. – Quis lutar por sua atenção e nem parei para pensar que poderia chocá-la... Não sei nada sobre você, se ainda é pura ou...
– Sei que serei eu a chocá-lo, mas não quero mal-entendidos... Então saiba que não sou nenhuma donzela imaculada se é o que está pensando.
– Não é? – Edward indagou sem pensar; imaginar era bem diferente de saber a verdade.
Ao ver o olhar cerúleo exprimir a surpresa do barão mais do que sua pergunta incrédula, Isabella teve consciência de que não deveria ir além, contudo estava farta de interpretações e não se passaria pelo o que não era. Justamente por isso confirmou.
– Não sou. Há muito tempo roubaram minha virgindade... Conheci outros homens desde então, mas nunca senti nada sequer próximo ao que me deu. Se acaso era minha que desejava, saiba que agora tem toda ela.
Edward não era nenhum conservador, mas não gostou do que ouviu. Parecia providencial que a jovem não fosse virgem, mas saber que ela conheceu “outros” tornava o incômodo sentido por Embry quase nada. Ao descobrir-se apaixonado, queria-a somente sua. A força do ciúme o assustou; como nunca se interessou por ninguém não se sabia tão possessivo, contudo descobria naquele instante o amargor mais intenso do sentimento. Que se tornava pior ao saber que, além de ter se relacionado com outros, não tinha direitos sobre ela.
Torturava-o imaginar que algum outro os teria, todavia tentou não pensar a respeito. Engolindo seu ciúme e o surto de puritanismo, tentou não se importar com a verdade. Assim como tentou não perguntar onde se encaixava uma família naquele arranjo. A moça seria sozinha no mundo? Decerto que sim, pois um pai não admitiria tamanha libertinagem.
Com a dedução o problema do barão passou a ser outro. Se não havia família, talvez a moça não firmasse raízes em lugar algum. Decididamente não precisava de mais detalhes para perturbá-lo então preferiu se pegar ao que tinha no momento. Isabella estava onde queria, era livre e havia lhe dado um pedaço de esperança na mesma declaração que o consternou; agora ele tinha toda sua atenção. A pergunta era, seria suficiente?
Isabella ergueu a mão para tocar-lhe o cavanhaque. Parecia tão compenetrada que novamente o alarmou. Não gostava quando ela se fechava em si mesma, pois era quando a perdia. Então Edward percebeu que ele mesmo esteve calado por tempo demais depois da revelação que de fato o chocou.
Não sabia o que seria suficiente vindo dela ou o quanto suportaria saber de seu passado, mas tinha plena consciência de que não queria perder o pouco que inesperadamente conseguia. Para tanto tinha que se manifestar positivamente e resgatá-la de suas ponderações.
– Fico lisonjeado por ter sido o primeiro em algo. – comentou livre de acusações.
Foi com alívio que o viu reagir após minutos angustiantes de silêncio. Não queria ser rechaçada por um fato aquém de sua vontade que jamais poderia mudar. Afinal não lhe mentia, Edward havia conseguido sua atenção ao lhe dar o que nunca teve.
– Também nunca havia beijado... – contou sem pensar.
– Nunca?! – que espécie de relacionamentos ela mantinha onde se envolvia com um homem sem beijá-lo?
– Não como você me beijou agora. – ela tentou consertar seu erro ao ver as sobrancelhas se unirem em desconfiança. – Foi diferente.
– Até mesmo desse que ocupa todo o seu coração? – inquiriu entre intrigado e enciumado.
– O beijo de Embry não é comparável. Cada um é especial a sua maneira.
– Então por ser especial devo entender que consegui meu intento? Tenho também um espaço em seu coração? – a que ponto chegou! O barão pensou admirado; mendigava por vagas no coração loteado de uma mulher.
– Sejamos francos Edward. – ela pediu, sustentando-lhe o olhar. – Sabemos que não quer um espaço em meu coração. Apenas procura por aventura. Por essa razão me abordou na loja de doces.
O barão pôde sentir sua face esquentar; sentia-se como alguém pego em grave mentira, mas o que mais o constrangia era a perspicácia vinda de alguém tão jovem.
– Por seu silêncio devo saber que estou certa. – Isabella observou sem acusações; uma vez que enveredavam por caminhos indevidos era melhor que fosse daquela maneira.
– Já que pediu por franqueza, admito que naquele encontro a ideia de uma possível aventura com uma moça tão bela não estava de todo descartada, contudo logo que tive a chance de conhecê-la mais, percebi que era diferente.
– E estava certo. – ela se apressou em dizer. – Mas não sou diferente de forma positiva. Acaba de saber.
– Não se desmereça. – o barão pediu voltando a tocar-lhe o rosto. – É diferente para mim e eu decido como encaro o que me disse. Então esqueça a impressão que lhe causei na loja de doces. Nada de aventuras entre nós, tem minha palavra. Então, por favor, responda-me... Tenho chances de conseguir uma vaga em seu coração?
Analisando o rosto do barão, notou que a ansiedade ainda se fazia presente. Por considerá-lo digno em não ocultar suas reações perante ela; Isabella decidiu ser igualmente sincera.
– Estaria mentindo se dissesse que não. – confessou ao se sentar para ficar próxima a ele. – Acredito no que me diz, pois você é diferente daqueles que conheci. Como não me render a isso? Errei ao julgá-lo insensível e esnobe, pois é um homem bom! Justamente por essa razão não deve querer estar comigo. Apesar de insistir que o chame pelo nome é um nobre... Eu sou ninguém sem nada a acrescentar ou oferecer. Se não procura por aventura, deveria dispensar sua atenção sincera a uma moça pura, de preferência de sua posição.
– Olhe para si mesma e para mim. – Edward pediu simplesmente. Quando ela o obedeceu, falou. – Não sei o que vê, mas eu vejo um homem e uma mulher. Seria o mesmo se alguém que não me conheça nos encontrasse agora, assim, com folhas em nossas roupas. Veriam duas pessoas iguais, livres de suas histórias; sem títulos nem posição social.
De fato estavam deploráveis, mas ao voltarem para o palácio e se trocassem, ele seria Edward Edrick Masen Bradley II, barão de Westking e ela Isabella Swan ou Amber, a meretriz mais desejada e dona de um caro bordel situado nos arredores de Wisbury. Não havia futuro para eles.
– Pare de pensar! – o nobre ordenou se levantando para puxá-la em seguida. Com ela diante de si, disse sério. – Não quero que pense, pois sempre fica estranha e distante. Apenas sinta...
Antes que pudesse retrucar Isabella foi beijada apaixonadamente. Como se seus lábios e braços tivessem vida própria, correspondeu abraçando-se a Edward
– Isso não é bom? – ele perguntou com a boca sobre a dela.
– Muito bom... – Isabella respondeu novamente se sentindo amolecer.
– Então já que insiste em me lembrar, sou o barão e determino que esteja terminantemente proibida de rebaixar-se ou pensar em assuntos que a afaste. Também está intimada a aceitar minha corte.
O assunto era delicado, assim como o momento então Isabella achou por bem se deixar levar pelo lado leve do falso autoritarismo aplicado a ela. Em alguns dias iria embora e aquela paixonite que o beijo ousado revelou haver entre os dois passaria. Conformada com seu destino, ela brincou para dissipar uma ruga que vincava a testa dele.
– Não sei bem como é a corte entre os nobres, mas entre os plebeus o que fizemos aqui não se encaixa em nenhum comportamento adequado.
– Digamos que é uma corte em estágio avançado. – Edward retrucou e sorriu; por sua vontade avançaria muito mais.
– Gosto do avanço. – ela retribuiu seu sorriso.
Estava sendo sincera. Quando veemente sentenciou não ceder ao barão por conhecer suas reais intenções não sabia o que ele lhe reservava. Nunca esteve atrás de envolvimentos e não o faria justamente com um homem de Apple White. No entanto, Edward burlou seu cerco e a despertou como mulher lhe mostrando haver maravilhas a serem descobertas num ato que considerava sujo. Então, já que havia admitido não ser nenhuma donzela pudica, por que se resguardar durante o tempo que estivesse ali?
– Gosta? – ele indagou com os olhos a brilhar sugestivos antes de mais uma vez a beijar.
Tendo sua língua provada de forma faminta e seus lábios arranhados pelo instigante cavanhaque, Isabella sentenciou; eram adultos e livres, então não... Ela não se resguardaria. Estava prestes a abraçá-lo quando ouviu um pigarrear nada discreto vindo de ponto muito próximo. Imediatamente se soltaram e olharam na direção do som, para descobrirem um dos criados da casa a mirar o chão.
– O que há? – Edward indagou contrafeito com a interrupção.
– Mil perdões Lord Masen, mas Marie pediu que o procurasse, pois dois cavalheiros o esperam.
– Saberia dizer quem são? – o barão perguntou; muito tentado a instruir o criado a dizer que não o encontrou. Sua vontade ganhando força ao sentir que Isabella se afastava.
– Lamento. – o criado desculpou-se. – Marie nada mais falou.
– Muito bem! Pode voltar ao seu serviço, que já estou a caminho. – ordenou. Por reflexo, retirou o relógio do bolso do colete, somente para se lembrar que não funcionava.
Ao ver o criado se afastar, Isabella ainda não sabia se agradecia ou não a interrupção. Preferiu acreditar que fora melhor daquela maneira; não o evitaria futuramente, mas eles estavam indo rápido demais.
– Precisamos voltar. – Edward anunciou parado ao lado de Isabella; ainda a olhar o relógio, inconformado por ter que deixá-la e com a incapacidade de saber as horas.
– Eu ouvi. – ela lhe sorriu para indicar que não estava triste como ele acreditava que ela invariavelmente estivesse. Notando o olhar consternado para o relógio, indagou.
– Algum problema com a hora?
– Não tenho como saber, pois ele parou de funcionar depois que molhou naquela chuva que tomamos. – Edward falou, batendo levemente contra o vidro com o dedo indicador.
– Pelo visto gosta muito dele, pois o carrega mesmo assim.
– Era de meu pai. – o barão explicou. – É uma das poucas lembranças boas que tenho.
– Entendo. – ela recuou um passo, como se lembrar do barão pai roubasse um pouco mais do envolvimento trazido com o beijo. Logo, porém, recuperou-se. Edward não tinha culpa de ser filho de um porco. Quando recomendou foi por ele, não por se preocupar com que pertencera ao corruptor. – Coloque-o sobre a pedra da lareira. Ele teve estar com umidade em seu mecanismo, pois pelo que vejo o carregou todo esse tempo abafado em seu bolso.
– Acha que funcionaria? – o barão indagou esperançoso; uma alegria em meio à tristeza de separar-se dela.
– Experimente e me diga. – ela lhe sorriu tocando-lhe a curva acentuada do queixo. – Agora acho melhor encerrarmos o passeio... Suas visitas devem ser importantes.
– Antes quero que me dê sua palavra de que essa noite jantará comigo. – ele pediu abraçando-a pela cintura, depois de voltar o relógio ao bolso.
– Vossa senhoria tem minha palavra! – ela prometeu fechando os olhos e inclinando a cabeça, numa meia reverência.
– Assim sendo, deixe-me ajudá-la. – satisfeito ele a rolou entre os braços para retirar as folhas que se prenderam nos cabelos negros e nas roupas. Quando terminou, pediu. – Poderia fazer o mesmo?
Imbuída na tarefa, Isabella retirou as poucas folhas que se prenderam na roupa do barão, sob o olhar insistente do mesmo. Lembrar como elas foram parar no tecido a fez estremecer e erguer os olhos para a boca próxima.
– Se continuar me olhando assim, eu não poderei voltar para casa.
– Desculpe-me. – ela pediu sem de fato lamentar. Sempre seria errado, mas gostaria muito de ter aquela boca espinhenta na sua mais uma vez.
– Mais tarde. – Edward falou roucamente.
– Como disse? – Isabella uniu as sobrancelhas, confusa.
– Mais tarde, depois do dever... – ele esclareceu indicando desejar o mesmo que ela. – Poderia “visitá-la”, talvez na biblioteca... Para a corte.
– Talvez na biblioteca. – ela voltou a sorrir. – Agora vamos?
– Vamos. – Edward a tomou pela mão e a fez segui-lo pela trilha do pomar que os levaria de volta a sua casa.
Isabella não se opôs. Muito pelo contrário, caminhava com os olhos fixos nas mãos unidas indagando aos laços do vestido de Rosalie como fora se comprometer com quem não deveria e mesmo sabendo não ser o certo – sabendo que teria que partir – a cada minuto apreciar mais a novidade.
Durante o caminho de volta, por vezes Edward a olhava e lhe sorria. Nesses momentos ela notava um novo detalhe que a fazia considerá-lo mais bonito fisicamente, pois para ela, em seu interior ele era o mais belo dos homens. A boa mulher que pudesse se casar com ele teria muita sorte, pensou. Sem que esperasse sentiu uma dor fininha em seu peito que diminuiu significativamente o contentamento dos beijos trocados e o prazer vindo das mãos unidas.
Como obra do destino a lhe lembrar que jamais seria a mulher ideal, antes que eles deixassem a proteção das árvores Isabella reconheceu um dos cavalheiros que esperavam por Edward no alto da escadaria, diante da porta principal. Imediatamente a moça estacou e puxou a mão do aperto acolhedor.
– O que houve? – Edward se voltou para encará-la.
– Não é prudente chegarmos de mãos dadas. – lembrou-o.
– Não quero escondê-la. – o barão disse seguro.
– Por favor, Edward... – como não sabia o que dizer, apelou para o conhecido cavalheirismo. – Por mim... Sou sua hóspede. Estou desacompanhada...
– Tem razão. – ele concordou, seguindo-lhe o raciocínio.
Indicar que estavam juntos deporia contra ela. Ainda mais com os dois a se apresentarem com as roupas sujas; ela mais do que ele. Não desejava falatórios.
– Se achar melhor nós podemos nos separar aqui. Você então entra pela ala oeste. Com certeza a porta do gabinete está aberta para arejá-lo.
– Posso? – indagou esperançosa.
– Dadas as circunstâncias e ao estado de nossas roupas, acho que deve. – Edward a encorajou. No momento era ele que não queria expô-la. – Acho que só poderemos nos encontrar para o jantar.
– Então até ele! – Isabella se despediu apressada.
– Não tão rápido. – o nobre a segurou pela mão e sem abraçá-la, beijou-a levemente. – Agora pode ir.
Isabella lhe dirigiu um último olhar antes de seguir na direção indicada; direção essa que conhecia tão bem. Ao cruzar paralelamente a entrada do palacete, relanceou um olhar para os homens que já haviam avistado Edward e lhes acenavam. Com o coração aos saltos, a moça acelerou o passo temendo ser igualmente vista e reconhecida por Carlisle Frederick Cullen.
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