Borboleta Negra
51 Capítulo Dezenove - Parte II
Notas iniciais
Capítulo novo, assim iguala com o face!
Mari Ana, obrigada pela linda indicação!... *-*
E meninas, obrigada pelos comentários... Por responderem à minha pergunta e assim, compreenderem nosso barão. ;)
Não tinha como ele acreditar na palavra da Bella e ir contra um pai que conheceu a vida inteira. O importante é que ele está disposto a ficar com ela e com isso, a verdade ficará mais fácil de aparecer...
Agora, bora ver o que vem pela frente...
BOA LEITURA!
À saída do barão, Isabella prendeu a respiração e fechou os olhos com força, abraçada aos joelhos. E, então, tinha quatorze anos e era tarde da noite, estava sozinha na cozinha onde fora buscar um copo com água. Antes que saísse Edward I apareceu, como era sua função servi-lo, ofereceu ajuda. Seu senhor pediu que se aproximasse, disse que queria lhe segredar algo importante sobre Rosalie. Em tempo algum ela teve razões para temê-lo, com isso o atendeu, indo até ele. Ao se aproximar, foi presa por um braço forte e restritivo, sua boca foi tapada.
Ela tentou lutar, porém o medo a enfraquecia, e sendo maior e muito mais forte do que ela, o primeiro barão facilmente a subjugou. Com seus urros sufocados, ela sentiu a boca asquerosa em seu pescoço enquanto era apalpada. Ainda inocente, descobriu da pior forma o que se passava entre um homem e uma mulher, tanto que até estar com Edward II, considerou o ato algo sujo e vil.
– Como ele pode acreditar nos absurdos que diz? – perguntou a si mesma, ainda de olhos fechados, sentindo lágrimas quentes correrem por sua face. – Não foi consensual, não foi...
Assim como aquela violação não foi a única, pensou, sendo mais uma vez remetida no tempo, vendo-se já com quinze anos, prensada contra a parede da dispensa; a frente de seu vestido aberta, as saias erguidas e o barão nojento movendo-se nela. O grito de sua avó o fez recuar, deixando-a livre para correr até aquela que acreditou tê-la salvado. Contudo, antes mesmo que o nobre balbuciasse alguma defesa, a mulher que a criou, desde a morte de seus pais, atirou-a ao chão.
– O que estava fazendo? – vociferou para ela, não para seu senhor.
– Foi ele... – sua voz engrolada não lhe permitiu dizer mais do que isso.
– Mentira! – O barão bradou, recompondo-se. – Sou homem... E essa menina vive a me tentar pelos corredores.
– Por Deus, não se justifique Lord Bradley! – Sua avó pediu reverente. – Lamento pelo o que foi obrigado a fazer. Um homem em vossa posição jamais trairia uma esposa jovem e bondosa, nem macularia o lar onde abriga duas flores do campo se não fossem os artifícios de uma cobrinha.
– Não vovó... – ela ainda murmurou. – Foi ele...
– Cale-se! – sua avó ordenou empurrando-a para longe quando tentou tocar-lhe a saia. – Com você me entendo depois.
– Posso contar com sua descrição Sra. Wood? – Edward I pediu inabalável, seguindo para a porta.
– Vossa senhoria vá sossegado. Asseguro-lhe que nunca mais será obrigado a passar por tal situação.
E bastou ficarem a sós para que a avó se lançasse sobre ela, ora desferindo tapas em seu rosto, ora puxando-lhe os cabelos.
– Rameira! – ofendeu-a. – Não sabe que não temos para onde ir? Como atenta um homem tão bom?
– Não o fiz... – ainda tentou se defender.
– Homens não agem como animais com moças decentes – bradou a avó, batendo em seus braços. – Provocou-o, sim... Sempre correndo pela casa com milady Rosalie, rindo como se fosse igual a ela. Você é uma cobra ladina pronta para corromper um lar harmonioso, mas acabo com sua farra pequena meretriz.
Àquela altura, ela desistiu de procurar defesa. A atitude da avó a deixou prostrada. Descobriu que gritava quando algumas criadas apareceram à porta; nenhuma delas lhe defendeu. A única voz que se sobrepôs aos gritos fora a de Rosalie.
– O que está acontecendo aqui?
– Perdoe-me milady, mas não a defenda. – a velha sibilou. – Esse é um assunto de família.
– O que ela pode ter feito? – Sua única amiga indagou.
– Algo tão grave que hoje mesmo ela deixará esta casa.
– Não pode ser! – Rosalie exclamou alarmada. – Falarei com meu pai, ele...
– Vosso pai estará de acordo. É inútil rogar por ela.
Contrariada Rosalie se foi, deixando-a a própria sorte. Sentindo-se abandonada por todos, sequer reagiu ao novamente ser agredida. Quando sua avó se cansou, puxou-a pelos cabelos até a cozinha onde os cortou a faca.
– Duvido que possa tentar outro homem de bem, feia como está. – ciciou. – Agora suma daqui! E esqueça o caminho de volta.
E foi o que fez, Isabella recordou, deixando a foto de Embry para segurar fortemente seus cabelos, agora crescidos e bem tratados. Na ocasião que recordava, sem titubear, sob os olhares das criadas, atou a frente aberta do vestido e saiu. Alcançava a entrada do bosque quando Rosalie a alcançou.
– Pelo bom Deus, o que sua avó fez com você? – indagou horrorizada.
Isabella poderia imaginar o quanto estava machucada e horrível com os cabelos curtos e desiguais, mas não se importou; nada mais importou na ocasião. Estava reduzida a nada, sem forças sequer para falar.
– Tentei interceder junto ao meu pai, mas ele me confirmou que iria embora. O que você fez de tão grave?
Fora incapaz de responder à amiga, nem chorar conseguia. Foi naquele momento que Rosalie lhe empurrou a trouxa com uma muda de roupa e algum dinheiro. Logo em seguida a abraçou fortemente, porém não lhe correspondeu. A moça então a libertou e ficou a chorar, vendo-a partir.
Ao lembrar sua amiga, a única que tentou confortá-la, Isabella abraçou-se mais e chorou. Infelizmente nem mesmo ela poderia depor em seu favor, pois era evidente que não sabia a verdade; ninguém sabia. O que se deu foi visto por sua avó que sempre estaria disposta a contar o quanto ela atentava o pobre barão; ela não tinha provas ou defesa para expô-las a Edward. Como faria para mostrar a verdade?
Era inacreditável que o porco nojento ainda tivesse o poder de destruir seus sonhos mesmo estando morto. E insólito imaginar que pudesse ter se declarado apaixonado em seus últimos momentos de vida. Carlisle sempre lhe lembrava a mudança ocorrida após sua partida, atribuía-a ao remorso. Em arrependimento a moça poderia acreditar, mesmo que jamais o perdoasse caso fosse vivo e tentasse se redimir, porém amor?!... Por certo fora um delírio, como Edward bem nomeou, contudo ditado pela insanidade não por um nobre sentimento.
Não havia alternativas para eles, Edward dissera. O que pretendia explicar com aquelas palavras? Que ficariam juntos apesar de tudo? Como, se ele acreditava nas sandices ditas pelo pai? E havia a dúvida que mais a assombrava, como seria aquele encontro entre meio-irmãos dali a dois dias? O que diria a Embry? Em meio ao caos vindo com os últimos acontecimentos aquela expectativa aqueceu seu coração e a fez secar o pranto. Veria seu pequeno antes do previsto!
Isabella sorria quando a porta foi aberta e Angela entrou, alarmada.
– Amber... – começou correndo para abraçá-la. – O que ele lhe fez? Contorci-me no salão por não poder chamar o Sam.
– Você somente agravaria o problema – falou mansamente, soltando-se do abraço para segurar as mãos da amiga. – Eu lhe disse que não estávamos brigando, nem o barão me fez mal algum.
– Como não? – A mulher insistiu; descrente. – Chorava antes, e ainda chora...
– Muitas coisas foram ditas aqui – Isabella explicou, correndo as mãos por seus cabelos, respirando profundamente antes de completar –, e nenhuma que fosse fácil de ser dita ou ouvida.
– Você revelou a verdade ao barão?! – Angela arregalou os olhos. Teve a confirmação com um manear de cabeça, afligindo-se ainda mais. – Ai meu Deus! E como foi isso?
– Acho que tem uma ideia pela forma que ele deixou este quarto e depois voltou. – a moça encolheu os ombros ao recordar. – Lamento que ele a tenha expulsado.
– Não se desculpe pelo barão – ela pediu tranquilizando-a. – Não gostei de ser tratada daquela maneira, contudo agora posso entendê-lo.
– Obrigada! – Isabella disse apenas.
– E como ele reagiu?
– Da pior forma... Edward acredita que permiti os avanços de seu pai.
– O quê?! – a meretriz deixou a cama, contrariada. – Como pode?
– Depois lhe explicarei como pode – a moça prometeu, tentando ser prática, secando o rosto com as mãos. – Agora preciso lhe pedir que tome conta de tudo por alguns dias. Amanhã pela manhã tenho que ir até Londres.
– Você vai para Londres? Vai pessoalmente à procura de uma casa? Não há chance de voltarem a conversar? – Angela indagou continuamente, confusa; entristecida.
– Não é isso, Angela... Edward deseja conhecer Embry.
– Contou-lhe também sobre nosso pequeno, evidente. – Angela voltou a sentar, sempre encarando a jovem. – E agora o barão quer conhecê-lo.
– O quanto antes, e eu não sei o que fazer. Estou preocupada com Embry. O que lhe direi Angela? Como explicarei seu parentesco com Edward?
Sim, aquele também era um dos temas que mais a arreliavam no momento. Eram adultos, Edward e ela, e de alguma forma, cedo ou tarde, entender-se-iam, mas, e quanto a uma criança órfã de pai, que de repente se veria diante de um irmão tão mais velho?
– Não pense nessas coisas agora. – Angela aconselhou como se ouvisse suas dúvidas. – Acho que você deveria conversar com Sir Cullen sobre essa ida até Londres. E também, que o barão sabe o que se passou, para que esteja preparado caso seja procurado. Quem sabe ele possa esclarecer a verdade?
– Concordo que devo alertá-lo, mas é pouco provável que possa me ajudar. Carlisle acredita na minha palavra, não é testemunha de nada.
– Por certo... – murmurou a senhora num lamento. Depois de encarar a moça, ergueu os ombros e lhe sorriu encorajadora. – Dará tudo certo minha querida! E pode viajar sossegada. Cuidarei de tudo.
– Obrigada. – Isabella agradeceu mais uma vez, ainda receosa, mas um tanto animada quanto ao seu futuro junto ao barão; não havia alternativas, ele dissera. – Agora, poderia pedir a Sam que venha até aqui? Vou lhe pedir que leve um recado até Carlisle.
– Farei o que me pede – Angela falou já a deixar a cama, antes de sair se voltou para avisar. – Esteja pronta para as muitas perguntas. Como se não bastasse o barão ter dormido aqui, e vocês permanecerem toda a manhã trancados nesse quarto, ele por três vezes passou pelo salão cuspindo abelhas... Pode imaginar como cada uma das meninas está.
Antes, Isabella consideraria que não lhes dever nenhuma satisfação – talvez estivesse certa –, porém após o reconhecimento do quanto lhes eram caras, decidiu contar-lhes o que pudesse. Quando tivesse algo de concreto a revelar, evidentemente.
– Estarei preparada. – disse para a amiga.
Ao ficar sozinha Isabella finalmente deixou sua cama, levando a foto de Embry para recolocá-la no lugar; uma caixinha com seus bens mais preciosos: outras fotos do menino, suas cartas, o bilhete de Edward e sua mecha de cabelo. Depois de pegar esse último item, levou-o ao nariz e se voltou para correr os olhos pelo quarto. O cômodo era o mesmo da noite anterior, porém agora continha a presença de Edward em cada canto. Brigaram, amaram-se, desentenderam-se, no entanto, havia uma esperança.
Isabella não sabia o que esperar, mas sentia-se pronta e forte para enfrentar o que viesse. Naquele instante deu total razão ao banqueiro, e a Edward, por mais dolorosa que fosse a verdade seria sempre a melhor opção. Revelá-la trouxe a Isabella alívio imediato, como se um fardo muito pesado tivesse sido removido de seus ombros. Não havia nada mais a esconder, nem cabia a ela decidir sobre o futuro. A despeito de como fora deixada, Isabella sorriu, beijando a mecha de cabelo repetidas vezes. Confiava que com o tempo Edward acreditasse em sua palavra e quando acontecesse, estava livre para aceitá-lo. O barão pai não iria amedrontá-la mais!
•. ¸¸.-:¦:-✿⊱ ღ ⊱✿-:¦.¸¸.•
Sim, a intenção do barão era voltar o quanto antes para Apple White ao deixar o Jardim das Borboletas, entretanto se viu instigando Draco a seguir até a mansão dos Cullen. Apeou diante da grande porta, agradecido por haver dois dos criados a cuidar dos jardins frontais. Ambos se colocaram de pé ao reconhecê-lo para cumprimentá-lo reverentemente.
– Você – Edward apontou um deles, decidido. – Avise ao seu patrão que desejo vê-lo.
Ao ser atendido, ignorou o segundo criado e seguiu para a lateral da casa que conhecia tão bem para prender seu cavalo a um dos arbustos, deixando seu chapéu apoiado ao pito da sela. De volta à porta principal, foi recepcionado por Tanya, que se juntou a ele depois de descer os poucos degraus numa ansiosa corrida que fazia saltar seus cachos loiros.
– Não acreditei quando o criado repassou vosso recado ao Sr. Pierce, mas é mesmo vossa senhoria! – exclamou ao parar diante do barão, os olhos castanhos a brilhar. – Eu sabia que viria... Tinha que vir pedir desculpas por seu péssimo comportamento da última vez que nos vimos.
Edward não tinha ânimo para aturar a negação alienada da moça. Recriminava-se por seus últimos atos, contudo, desculpo-se na ocasião então não se repetiria. Bastaria tomar o devido cuidado para não ser grosseiro.
– Bom dia senhorita Tanya – cumprimentou educadamente, abstendo-se de comentar suas palavras. – Se de fato ouviu o recado dado ao seu mordomo sabe que estou aqui para conversar com seu pai.
– Sobre mim, espero – ela insistiu, num muxoxo cênico. – Sabe que adoeci depois do que me fez? Acaso seu coração é de pedra? Não se compadece?
– Lamento que tenha lhe afetado ao ponto de adoecê-la senhorita, e, sim, compadece-me sabê-lo – foi sincero, porém ao vê-la sorrir, acrescentou. – Todavia nada mudou. Preocupo-me com sua saúde na qualidade de amigo, para isso, não importa de que seja feito meu coração.
– Lord Masen?! – a voz de Carlisle, vinda da porta, calou a resposta que a moça se preparava para externar, chamando-lhes a atenção. – É mesmo vossa senhoria!
– Preciso falar-lhe, Sir Cullen. – Edward anunciou já esquecido da moça contrafeita ao seu lado.
– Pois então entre! – pediu o banqueiro, dirigindo um olhar repreensivo à filha. – Não deveria estar com sua mãe?
– Já vou papai... – ela respondeu apressadamente, acelerando os pequenos passos para acompanhar o barão que já se encaminhava para a entrada da casa. Enquanto ambos subiam a escadaria frontal, pediu num sussurro. – Por favor, milord, reconsidere.
Encarando-a ao seu lado, indiferente ao olhar suplicante, Edward igualmente murmurou:
– A partir de hoje será impossível, senhorita, mesmo se assim eu o quisesse.
A curiosidade iluminou os olhos da moça que, por estar diante do pai, não ousou questioná-lo.
– Bom dia milord! – Carlisle cumprimentou ao ter o barão diante de si. – A que devo a honra de vossa visita?
– Como disse, preciso falar-lhe... Em particular – acrescentou, olhando diretamente para Tanya.
– Vamos ao meu escritório... – Carlisle sugeriu, indicando a porta para que o barão entrasse.
– Caso não se importe – o barão recuou um passo, indicando o jardim lateral, ignorando a presença da moça que não arredava o pé de seu lado. – Gostaria que conversássemos onde não houvesse a mínima possibilidade de sermos ouvidos.
Ao se calar Edward soube pelo lampejo de entendimento nos olhos azuis do banqueiro, que este reconheceu a própria fala de meses atrás. Sir Cullen conhecia o tema que o levou até sua casa.
– Tanya, vá fazer companhia à sua mãe. Diga que Lord Masen está aqui, mas que não queremos ser incomodados.
Tanya olhou de um ao outro antes de girar os cachos e suas saias para entrar pisando duro. Nenhum dos homens deu-lhe maior importância, encaravam-se quando o dono da casa indicou o jardim lateral.
– Podemos ir milord.
Ansioso, o barão voltou ao ponto onde havia deixado Draco, passou por seu cavalo avançando no jardim, porém não tão distante que não visse as portas do salão que dias antes serviu de cenário ao baile infernal.
– Aqui está bem – determinou ao parar e voltar a encarar o homem que até aquela manhã considerava seu rival; no momento ele era apenas alguém que condenou Isabella a uma vida abjeta.
– Concordo que aqui é o lugar mais seguro para falarmos dela – comentou o banqueiro, indicando ao barão estar certo na impressão anterior. Sem rodeios pediu – Diga a que veio milord.
– Acabo de deixar o Jardim – revelou, sustentando-lhe o olhar.
– Ah, sim?... – Carlisle indagou cautelosamente, passando a perscrutar o rosto do barão com maior atenção. – Então, enfim, encontrou-a?
– Enfim? – Edward repetiu; confuso. – Acaso queria que eu soubesse onde encontrá-la?
– Evidente que sim – confessou o banqueiro, num suspiro profundo. – Desde que percebi que havia interesse de vossa parte.
– Perdoe-me por não acreditar – retrucou o nobre secamente. – Se este era seu desejo bastaria dizer onde encontrá-la, não aceitar que eu aqui viesse. Que quase desposasse vossa filha.
– Este enlace jamais aconteceria milord – Carlisle tomou a liberdade de cortá-lo. – Não depois de vosso envolvimento com Isabella. Já lhe disse, apenas permiti que nos acompanhasse a algumas festas e que levasse Tanya para uns poucos passeios, pois ela simplesmente me infernizaria caso recusasse sua “corte”, e sempre contando com vosso respeito. Contudo não deixaria que avançasse. Depois do episódio lamentável em meu aniversário, vi o quanto errei.
– Pois teria evitado estes aborrecimentos caso tivesse exposto sua intenção – Edward replicou ainda descrente.
– Eu não poderia. Isabella confia em mim e pediu minha palavra de nunca delatá-la a vossa senhoria. Tentei como pude fazer seus caminhos se cruzarem... Até mesmo os atrai para meu banco na esperança de que conversassem... Tentei avisar-lhe que ela estaria na igreja e, contrariando todas as convenções, praticamente a obriguei a estar presente em meu aniversário... Tudo em vão.
– E eu poderia saber a razão de tamanho esforço?
Edward reconhecia haver coerência em tudo o que ouviu, ainda assim não conseguia compreender as atitudes do banqueiro. Isabella, sim, agia de acordo com sua lógica deturpada, no entanto, Carlisle, não fazia sentido algum.
– Terei imenso prazer em esclarecer quando souber exatamente o que o traz aqui milord. – Carlisle falou inabalável, levando as mãos às costas. – Por certo não foi para me dizer que a encontrou... O que exatamente deseja saber senhor barão?
– Quero saber de vossa senhoria, como a encontrou? Qual espécie de relacionamento mantém uma vez que alegou amá-la? E, o mais importante – nesse ponto o barão reduziu o tom e endureceu a voz –, por que a deixou naquele lugar?
Carlisle inspirou e expirou longamente, antes de lembrá-lo com evidente lamento.
– Como lhe disse, Isabella deposita em mim grande confiança. Seja claro quanto ao que sabe sobre ela que também o serei.
Mirando os olhos do banqueiro, Edward soube que não teria suas respostas caso não o atendesse. Uma vez que não havia razão para reservas, ergueu o peito revoltado para responder-lhe.
– Sei quem ela é... Que viveu em minha casa até os quinze anos que se vossa senhoria a resgatou da rua. Sei também sobre Embry, que ela alega ser fruto de uma violência. É isso que sei sobre ela. O que não sei é como pôde levá-la para aquele lugar... Como conseguiu iludi-la até hoje para que acredite em vossa amizade...
– Milord... – Carlisle ergueu uma das mãos para que o barão parasse. – Antes que prossiga, devo lembrá-lo que eu jamais tive qualquer obrigação para com ela e mesmo assim fiz o que estava ao meu alcance fazer.
– Levando-a para um bordel – corrigiu-o, acusador.
– Levando-a para onde foi aceita. Quando a encontrei num dos becos desta cidade e a reconheci, ela não passava de uma menina que eu, por acaso conhecia. Precisava de ajuda e eu a dei. Minha participação se encerraria ali, caso ela não me contasse o porquê de estar naquela situação. Confesso que a princípio voltava ao bordel não por estar preocupado com ela, mas com a reputação de vosso pai, caso ela mudasse de ideia quanto a esquecer todos de Apple White e delatasse o... “deslize” de um amigo.
– Vossa senhoria acreditou em tal absurdo?! – Edward exasperou-se.
– De início dei a Isabella o beneficio da dúvida – ele respondeu impassível. – Ela era uma menina bonita e homens não costumam ser cegos. Quantas histórias nós conhecemos de senhores que abusam de suas criadas?
– Inúmeras – Edward foi obrigado a reconhecer –, mas meu pai não o faria. Ele era um homem honrado.
– E Isabella uma menina bonita – ele insistiu. – Contudo, nenhum de nós pode afirmar o que houve. Fosse como fosse, eu quis me certificar que ela não exporia o nome de vosso pai, com isso ia sempre visitá-la com a desculpa de observar sua saúde, afinal estava fraca, doente.
Grávida, Edward pensou agitado em seu âmago; de um irmão seu.
– Os dias se passaram – Carlisle prosseguia – e ela se manteve firme em negar procurar qualquer forma de reparação. Quando considerei que vosso pai estaria em segurança, soube que ela estava grávida... Achei que ela fosse mudar de ideia quanto a delatá-lo, porém nem mesmo assim. E então Isabella novamente me surpreendeu ao se recusar a praticar um aborto. Apesar de todo ódio que dirigia a vosso pai, ela desde o início amou aquela criança e foi isso que me fez acreditar em sua palavra e admirá-la... Depois disso, passei a ir até o bordel especialmente para vê-la, e depois ver nosso pequeno Embry...
– Em tempo algum cogitou contar sobre ele ao meu pai? – Edward questionou roucamente, enfático. – Ao seu amigo?
– Não cabia a mim... E se Edward tomasse a criança, Isabella ficaria sozinha no mundo. Sem contar que mulher alguma seria a mais amorosa das madrastas com uma criança ilegítima. Já imaginou como vossa mãe o receberia?
Não, em tempo algum Edward havia pensado na mãe e fazê-lo naquele instante trouxe luz a algumas de suas questões. Talvez Elizabeth soubesse o que acontecia sob seu teto e se ressentisse ao ponto de abandonar, sem qualquer remorso, um marido que não a respeitava; tudo se encaixaria se assim fosse.
– Muito bem... O que está feito, está feito. – resignou-se, voltando ao assunto anterior, ainda havia muito a ser dito. – Antes não se importava onde ela estivesse, pois agia em lealdade a meu pai, mas... E depois? Como a deixou naquele lugar se passou a... “afeiçoar-se” dela?
– Quando percebi que meu sentimento havia mudado já era tarde... – Carlisle revelou com evidente pesar. – Isabella já era uma das meretrizes, obstinada como ela só. A primeira vez que lhe ofereci ajuda ela agradeceu, porém recusou, pois não desejava dever favores a homem algum, nem mesmo se este fosse eu.
Apesar de odiar aquela obstinação, Edward reconheceu a personalidade da moça naquela atitude. Em sua casa ela exasperou-se com presentes simples, desejando ressarci-lo por eles. Aquela era a postura de uma mulher ferida pela vida; pelos homens... Pela primeira vez o barão aventou a possibilidade de seu pai não ser tão inocente quanto, por uma vida, acreditou.
– Prossiga... – pediu roucamente.
– Bem, eu insisti oferecendo ajuda, porém ela sempre a recusou até o dia que comentou o desejo de se tornar dona do jardim. Isabella disse ter pouco mais da metade do valor pedido por Angela, então arrisquei mais uma vez. Ela quis aceitar na qualidade de empréstimo. Deu trabalho, jurei que jamais lhe cobraria qualquer espécie de favor e por fim a convenci a simplesmente receber meu dinheiro, como um presente. Quando ela efetuou a compra e me disse que nunca mais receberia homem algum eu consegui sentir alguma paz.
Até ali as versões se casavam, Edward pensou com certo alívio em meio ao caos que permeava seus pensamentos. Contudo, ainda custava a crer que um banqueiro fosse assim tão altruísta.
– E nunca lhe cobrou? – Edward indagou num murmúrio. – Amando-a como bem revelou e sendo ela uma menina bonita?
– Estaria mentindo se dissesse que nunca a desejei.
– E eu não acreditaria se dissesse o contrário – retorquiu o barão, cerrando os punhos instintivamente.
– Desarme-se Lord Masen – Carlisle rogou apaziguador. – Nada aconteceu entre nós e hoje amo aquela menina como amo Tanya. Foi a esse tipo de amor que me referi. Quero que ela seja feliz, pois não é nada menos do que merece. Acha que pode fazer isso?... Deixá-la feliz?
– No momento não sei nada sobre felicidade Sir Cullen – Edward retrucou seriamente. – Que Isabella é uma moça sofrida não resta dúvida, mas as coisas não se resolvem assim tão facilmente. E agora há uma criança envolvida, filho de meu pai... Quero conhecê-lo antes de saber que rumo eu darei às nossas vidas.
– Ah, deseja conhecer o menino! – o senhor exalou enlevado. – Asseguro-lhe que irá amá-lo. Embry é um primor.
Conversar com Carlisle Cullen se mostrou ser tão natural quanto providencial, pensou o barão, reconhecendo que acreditar na maior parte de seu relato arrefeceu o ressentimento que lhe dirigia. Com a raiva mitigada, o barão se sentiu a vontade para especular.
– Fale-me dele – pediu. – Concordei com o motivo que a fez enviá-lo para Londres, entretanto, considerei precoce.
– Isabella não aceitou as outras opções. Quis que eu o levasse para o mais longe possível daqui para que ele nunca mais a visse ferida, ou Sir Hunt pudesse cumprir sua ameaça, então...
– Hunt?! – o nome saiu em meio a um urro vociferado, interrompendo o banqueiro que piscou confuso, encarando o barão interrogativamente. – Qual a relação daquele homem com o ocorrido?
– Pensei ter ouvido que sabia o motivo de levarmos Embry para Londres, Lord Masen – o senhor salientou ainda perdido.
– Sabia que um bordel não é ambiente para se criar um filho – o barão esclareceu, unindo as sobrancelhas –, não que aquele homem estivesse relacionado ao fato.
– Oh... – Carlisle murmurou ao saber de sua gafe.
– Exijo saber o que se passou! – ciciou. – E não fale em lealdade para com Isabella, pois, teve-a também a mim. E ao meu pai que sempre o considerou um bom amigo. Agora que conheço essa história quero saber o que de fato aconteceu? Por que o menino viu-a ferida?
Carlisle suspirou, então revelou cautelosamente:
– Sir Hunt ofereceu sustentar Isabella, tirando-a do bordel para que morasse numa casa que ele compraria para ela... No entanto, ela não somente recusou como anunciou que não mais o queria como cliente... Ele não recebeu a recusa muito bem e...
– E...? – encorajou-o; trêmulo, prevendo o que ouviria.
– E terminou por espancá-la. – Carlisle revelou a um só fôlego.
– O quê?! – Edward bradou.
Naquele instante não importava qual o teor do relacionamento entre Isabella e seu pai, que a considerasse mentirosa ou inocente, apenas tinha a imagem daquele animal que o socou com força, desferindo os mesmos golpes em alguém que não saberia como, nem teria forças para se defender.
– Vou matá-lo! – anunciou deixando o banqueiro.
– Não milord! – rogou o senhor, tentando segurá-lo pelo braço.
Edward se libertou num movimento brusco, caminhando decidido até o andaluz; não via nada a sua frente.
– Pense em Embry! – Carlisle implorou. – E em Isabella! Está sozinho e desarmado milord!
– É nela que estou pensando – Edward retrucou, ao se libertar uma segunda vez. – Não tenho medo daquele pulha. Sou capaz de matá-lo com minhas próprias mãos, mas ele nunca mais vai machucá-la.
– Evidente que não vai machucá-la milord, mas para isso não precisa se tornar um assassino – argumentou o banqueiro. – Qual alegação usaria se a agressão foi há quase quatro anos? E de um cavalheiro contra uma meretriz? Pense em vossa nova família Lord Masen, e em vossa mãe!
Nova família. A colocação o fez estacar a alguns passos de Draco. Era naquilo que consistia seu plano, e havia sua mãe. Então, ainda que o ódio o estremecesse violentamente, o barão recuou um passo até novamente encarar o banqueiro.
– Tem razão... – admitiu a bufar raivoso. – Atacá-lo agora seria estupidez de minha parte.
– Por certo milord... – Carlisle parecia também tentar se acalmar. – Eu tomei providências na época, sem me envolver diretamente, evidente. E ela tem ao Sam que não o deixa se aproximar. Em todo esse tempo tivemos apenas dois incidentes onde ele contou com a sorte para alcançá-la, porém nunca mais a feriu.
– Quando foi isso? – inquiriu encarando o senhor duramente, mesmo que sua raiva não fosse dirigida a ele.
– No Natal e... Aqui, durante minha festa.
Edward soube do Natal, contudo...
– Durante vossa festa?
– Sim. Parece que Sir Hunt encontrou-a sozinha no jardim... Graças ao bom Deus Sam logo os achou.
Por sua culpa, o barão pensou aflito. Sim, naquela noite, odiou-a, ainda assim foi pouco atencioso de sua parte deixá-la perdida, onde Hunt pudesse ameaçá-la. E naquele instante os socos trocados adquiriram novo sabor; não sabia, mas o cretino os mereceu mais do que poderia imaginar.
– Muito bem... – disse como que para si mesmo. – Então foram essas vezes. E não mais se repetirão. Agora, além de Sam, ela e Embry têm a mim.
– Parece que sim... – Carlisle mal ocultava seu contentamento; os olhos brilhando em genuína admiração ao prosseguir. – Eles o têm, milord.
– De fato se alegra? – Edward ainda considerava insólito crer em tão declarada alegria.
– Evidente que sim! – reafirmou seguro. – Como já lhe disse, considero Isabella como a uma filha. E ter vossa senhoria a assumir sua responsabilidade muito me agrada. Talvez agora tudo volte ao seu devido lugar. O destino sempre encontra uma maneira de ser cumprido Lord Masen.
– Que assim seja então... – retrucou o barão, sisudo; simplesmente não conseguia desarmar-se completamente.
– Eu... – Carlisle começou receoso, talvez percebendo os resquícios de irritação do barão. – Poderia perguntar o que pretende fazer, agora que sabe de tudo?
– Nem eu mesmo sei – comentou; não se sentia inclinado a falar de seus planos ao banqueiro. Apenas repetiu: – O primordial agora é conhecer Embry.
– Será perfeito! Quando irão? – Carlisle indagou satisfeito, antes de repentinamente apagar o sorriso e se lamuriar. – Eu gostaria de ver esse encontro, mas não posso me ausentar da cidade por esses dias, talvez se...
– Perdoe-me Sir Cullen – Edward o interrompeu resoluto –, mas quero que esse encontro se dê somente entre nós; Isabella, o menino e eu. De vossa senhoria quero somente saber qual participação tem nessa internação. Como o menino o vê... Quem é o senhor para ele?
Não conhecia seu irmão, não sabia se o amaria ou se consideraria um primor, mas já se ressentia com a proximidade do banqueiro. Isabella não tinha o direito de privá-lo da companhia do irmão, assim como jamais teve de afastar um pai de seu filho.
– Considero-me um padrinho de Embry. – Carlisle respondeu, seriamente, sentido pela pronta dispensa.
Não era aquele tipo de informação que procurava; não era um devoto fervoroso para se ocupar com ligações meramente religiosas.
– Perguntei como o menino o vê Sir Cullen – Edward pontuou. – Não o contrário. Quem ele pensa que é seu pai? Seria vossa senhoria?
E que Deus o defendesse caso perdesse o tino ao ter uma confirmação; tal traição jamais seria perdoada de sua parte.
– Absolutamente! – Carlisle negou veemente. – Não perfilharia um filho alheio, nem mesmo de Isabella.
– Então quem? – insistiu o barão; duvidava que a moça tivesse revelado a verdade ao filho.
– Ninguém... – esclareceu o banqueiro. – No registro de Embry consta apenas o nome de Isabella.
– Entendo... Um filho sem pai, de mãe solteira...
– Viúva – corrigiu o senhor. – Isabella sempre disse ao menino que o pai havia morrido antes que nascesse.
Edward emudeceu por um instante, absorvendo a informação. Antes que se ofendesse pelo pai, questionou se acaso ela faria o mesmo com um filho seu, matando-o ainda em vida. Decididamente Isabella não tinha o direito!
Aborrecido, iria prosseguir com sua especulação, quando um dos criados se aproximou e, após pedir licença aos dois cavalheiros, entregou algo para seu senhor. Ao descobrir seu remetente pelo papel enrolado, atado por uma fita vermelha, o barão voltou a ser visitado pelo conhecido ciúme; Isabella não tardou em procurar pelo bom amigo.
– Não espere para saber o que ela deseja – Edward falou tão logo o senhor levou o recado ao bolso.
Não havia sido um pedido. Desconcertado, o banqueiro resgatou o papel e desfez o laço. Leu brevemente e, antes que o barão perguntasse, saciou-lhe a curiosidade.
– Era somente um aviso de que vossa senhoria está ciente de toda a história e de que amanhã logo cedo partem para Londres.
Sim, incomodava-o confirmar o quão forte era o elo entre eles; tanto que Isabella prontamente lhe prestava satisfações. Como uma filha a um pai zeloso, tentou dizer a si mesmo, ainda duvidoso.
– Sim, iremos amanhã – Edward confirmou, aproveitando o ensejo para encerrar aquela visita. – Até lá tenho muito a providenciar. Agradecido por me fornecer respostas, finalmente.
– Rogo que tenha entendido meu impedimento milord – Carlisle comentou, seguindo os passos do barão que diminuía a pouca distância até o andaluz. – Sei de minha lealdade para vossa senhoria, porém Isabella sempre foi a menos favorecida. Eu simplesmente tinha que atendê-la.
Edward alcançou seu cavalo, vestiu seu chapéu e desatou o animal antes de encarar o banqueiro para replicar seriamente; altivo, apesar do cansaço que começava a abatê-lo.
– Eu poderia contestar, lembrando-o que menos favorecidos são aqueles deixados na ignorância, à margem dos acontecimentos, tento suas vidas decididas por outrem... Todavia não o farei, pois tenho certeza de que bem o sabe.
Ao se calar, não esperou por resposta e montou. Draco se agitou, marchando no lugar, ansioso em partir, assim como seu dono.
– Perdoe-me se decepcionei milord... – pediu Carlisle. – Fiz tão somente o que considerava ser o melhor para todos.
– Como bem disse não lhe cabia revelar coisa alguma. Esta sempre foi obrigação de Isabella, e com ela, entender-me-ei depois. De vossa senhoria, antes de partir, quero somente uma última informação.
– Qual milord?
– Onde Embry foi registrado?
– Em Westking, Lord Masen.
– Perfeito! – exalou enigmático, girando Draco para que pudesse partir. Antes de instigá-lo a correr, anunciou ainda, resoluto. – A partir de hoje, considere-se desobrigado de cuidar de Isabella ou Embry. Agora eles são minha responsabilidade. Passar bem Sir Cullen.
Notas finais
Barão decidido a ficar com a borboleta, a conhecer o irmão e com Hunt anotado em CAPS LOCK na lista negra. Depois me contem o que acharam... ;)
Bjus meninas... Tenham todas um ótimo final de semana!...
Fale com o autor