Borboleta Negra
6 Capítulo Cinco
Notas iniciais
O barão levou o garfo com o naco de ave à boca pela terceira vez antes de finalmente largá-lo sobre o prato. Após limpar o canto dos lábios com o guardanapo de linho, tomou um gole de água e então outro de vinho branco. A partir dali a bebida seca foi tudo o que ingeriu até que uma das criadas visse retirar toda a comida que restou em seu prato e nas travessas.
Com os olhos fixos no lugar posto ao seu lado que era retirado sem ter sido tocado, rendeu-se a imagem da moça de cabelos negros. Era algo singular a forma com que mudava de humor. Edward chegou a crer que ela tivesse se desarmado por completo depois de chegada de Nero, no entanto, o deixou novamente distante; novamente altiva como se fosse preciso demonstrar a ele certa superioridade. Era seu desejo quebrar-lhe as defesas, assim como era imperioso descobrir-lhe os mistérios. Contudo Isabella logo partiria e então perderia sua chance.
– Lord Masen... – ele moveu os olhos para o criado que estava a entrada da sala de jantar.
Era um dos trabalhadores de fora; tinha os ombros curvados, intimidado por estar em sua presença em trajes simplórios e molhados. Rolava seu chapéu nervosamente e como para provar que estava certo, ele falou.
– Vossa graça me perdoe por me apresentar de forma inadequada, mas considerei urgente avisá-lo de que a ponte caiu.
Edward então o ouviu interessado. Sabia que o primordial era se preocupar com a falta de ligação com a cidade vizinha – e outras tantas – que deixaria os moradores, comerciantes, mascates e verdureiros da região ilhados. Contudo somente vislumbrou o tempo que sua hóspede ficaria impossibilitada de deixar seu teto.
Com a perda da ponte imediatamente determinou que ele fosse seu responsável. Agradecido pela providência divina que veio rápida em seu auxílio indagou.
– Como foi isso?
– O nível do rio subiu e a força da água acabou por derrubar aquele grande carvalho da margem oposta. Um de seus galhos quebrou a ponte e acreditamos que a enxurrada fez o restante. Quase nada restou. O que faremos Milord?
– Por agora nada se pode fazer. Ainda chove e já é noite. Amanhã pela manhã, caso o tempo se firme iremos ver os estragos. – determinou muito satisfeito antes de dispensar o mensageiro de novidades tão auspiciosas. – Vá e descanse.
Com uma reverência o homem se foi. Edward deixou a mesa disposto a se recolher para que nas primeiras horas da manhã estivesse de pé em tempo de colocar sua hóspede a par do acontecido. Deixava a sala de jantar quando avistou Marie deixando a escadaria que ligava diretamente o andar superior à cozinha carregando a bandeja com o que sobrou do lanche de Isabella.
– A senhorita Swan ainda está composta? – perguntou sem pensar.
– Sim, ela está. – a criada respondeu ao se voltar para olhá-lo. – Estava a brincar com Nero quando fui recolher a bandeja. Deseja que a chame? Quer que lhe envie algum recado?
– Não preciso que faça nada. Falarei diretamente com ela, obrigado!
Como sua hóspede se dispensou do jantar demonstrando a mesma postura anterior, ele sentiu o anseio de revidar a provocação. Conformado de que a família dela teria que esperar por sua volta, seguiu em longos passos rumo à escadaria. Ao passar ao lado da criada estática, esta lhe perguntou.
– Vai ao quarto da jovem? Não é adequado Milord!
– Não se preocupe com isso Marie. – retrucou já a subir. – Vá cuidar de seus afazeres e tenha uma boa noite.
Sob o olhar incrédulo da criada o barão fez como anunciado e subiu. Edward sabia que sua mãe ficaria igualmente horrorizada, mas não se importava. Tinha pressa. Com suas largas passadas logo batia de leve contra a porta do quarto de Rosalie; obteve silêncio como resposta, contudo não se deixaria abater.
– Sei que está acordada senhorita. Acabo de ser informado por Marie. Serei breve... – como da outra vez, ela nada disse até que escancarasse a porta.
– O que deseja Lord Masen? – perguntou simplesmente; o rosto corado talvez por brincar com Nero.
Desprendendo-se da imagem leve que a deixava mais bonita, voltou ao seu intento e explicou rapidamente.
– Vim avisá-la que houve um lamentável imprevisto.
– O que aconteceu? – Isabella olhou rapidamente em volta; tudo e nada correndo por sua mente, assustando-a na mesma medida. Havia sido reconhecida?
– Vim informar-lhe que a ponte foi arruinada pela água. – sim, ele sentiu prazer em contar.
– Arruinada? – ela uniu as sobrancelhas. – Como? Não tem como aguentar um veículo? Pedestres passam?
– Vejo que não me fiz entender. Ela foi destruída completamente. Ninguém vem; ninguém vai...
E novamente as palavras saíram doce por sua boca. Aquela figura multifacetada ficaria presa em sua casa e o barão esperava que por tempo suficiente para desvendar os sentimentos que a compunham.
– Não posso ficar aqui! – ela exclamou como que em resposta aos seus pensamentos.
Dando-lhe as costas e seguindo para o meio do grande cômodo, Isabella passou a andar de um lado ao outro. Nero deitado sobre um dos tapetes a seguia com o olhar, assim como seu dono que tomou a liberdade de entrar mesmo sem ser convidado.
– Simplesmente não posso! – a moça falou como que para si mesma. – Deve haver outra maneira de atravessar para Wisbury... Eu não posso ficar aqui!
– Acalme-se. – o nobre pediu apaziguador, levemente arrependido pelo prazer com que a consternou. – Não há porque se alarmar... Será bem vinda aqui pelo tempo que for preciso e...
– Não tenho esse tempo. – ela o cortou, exasperada.
Decididamente fora um erro entrar no palacete, ela pensou dando as costas ao barão. Mil vezes enfrentar os raios do que agora se ver presa entre aquelas paredes. Melhor lidar com os saqueadores do que ter que ficar mais um dia aonde as lembranças não a deixaria em paz. E na companhia daquele homem que embaralhava tudo e enchia o quarto com sua presença. Que menos de uma hora antes teve o poder de deixá-la abobalhada somente por ampará-la. Também não poderia correr o risco de mais alguém reconhecê-la; bastava Nero.
– Eu preciso sair daqui...
– Entendo que esteja preocupada com sua família. – o nobre comentou, sem ter certeza de que o último comentário sussurrado tivesse sido direcionado para ele. – Não se aflija. Eles ficarão preocupados essa noite, mas tentarei dar um jeito de avisá-los que está aqui. Acredito que não se oporão que fique sob a minha tutela... Dar-lhes-ei minha palavra de honra que a respeitarei.
Não era o caso, a moça pensou evitando olhá-lo. Havia naquelas palavras uma sucessão de erros. Não havia família e sim amigos; funcionários. Também não acreditava muito que ele cumprisse a promessa de não tocá-la sendo que por duas vezes esteve bem pronta a estapeá-lo após um iminente beijo que por muito pouco não ocorreu. E o mais importante para ela...
– Se há como enviar recados, há como atravessar o rio. – Isabella deu voz ao pensamento.
– Não se iluda senhorita. – Edward retrucou duro; contrariado com a veemência com que ela insistia em recusar sua hospitalidade e prontamente tentava pegá-lo em contradição. – Nem me tome por mentiroso. Sempre há formas de passar, mas estas estão reservadas aos homens experientes sobre cavalos fortes e bons nadadores. Uma jovenzinha como a senhorita somente conseguia morrer afogada se tentasse.
– Perdoe-me... – Isabella pediu sincera; já estava claro que bastaria manter a distância daquele Bradley, não hostilizá-lo. – Fui grosseira deliberadamente, mas é porque não posso mesmo ficar muito tempo longe...
Edward esteve muito perto de acusá-la por julgá-lo sem conhecê-lo, contudo a declaração legítima o venceu.
– Pedir perdão parece que é nossa marca mais evidente, não? – salientou com voz branda. – O que acha de tentarmos sermos mais amáveis um com o outro. Não quero que julgue minhas palavras nem minhas ações, afinal não me conhece. Também não quero ter que decifrar o que deseja ou o motivo de estar na defensiva. Não há mesmo o que fazer a não ser rezar para que chuva passe e que a reconstrução seja breve. Até lá gostaria de propor uma trégua... Aceite ser minha hóspede por esses dias; sinto-me responsável uma vez que não consegui deixá-la em segurança na casa de seus pais.
Isabella se viu entre a cruz e a caldeirinha. Não poderia ficar, mas bem conhecia os homens – ainda mais os obstinados – para saber que firmar o pé e insistir em deixar o palácio somente chamaria mais a atenção do nobre sobre si. No momento lhe restava aceitar a oferta e encerrar a conversa que cada vez mais seguia por caminhos perigosos. Não gostava quando eles estavam muito próximos, com o barão todo gentil infiltrando-se nas barreiras que tentava preservar a sua volta.
– Está bem! – anuiu por fim. – Fico grata pela atenção. E novamente me perdoe se fui rude. É que a notícia me pegou de surpresa.
– Eu a entendo. – ela parecia tão frágil ao se mostrar vencida; despertava nele o desejo de protegê-la. – Talvez nunca tenha ficado tanto tempo longe de casa. Arrisco em dizer que jamais dormiu em outra cama que não fosse a sua, acertei?
A jovem gostaria de corresponder ser anjo aureolado e inocente que ele criava na própria mente. Contudo graças a alguém daquela casa, há muito tempo não tinha família e não somente dormia em outras camas como fazia muitas coisas sobre elas.
E lá estava o olhar distante e frio, Edward notou ao observá-la suspirar. A mudança era veloz. Parecia que um pensamento recorrente ou lembrança amarga a fazia ciente de algum mal que a alterava por completo. A não eram somente seus olhos que a denunciavam; seus ombros delicados se erguiam e os lábios rosados se uniam duramente. Quando ela falou o barão não estranhou o tom.
– Importa-se de me deixar dormir? – indagou sem responder a ele. – Estou exausta.
– Absolutamente. – o barão marchou para a porta; parecia que melhor do que provocá-la, era deixá-la sozinha com seus fantasmas. – Porém iria mais tranquilo de nossa trégua se me chamasse pelo nome, pois a partir de agora somente a chamarei por Isabella.
Ela não estava em condições nem havia razões para negar. Queria ficar sozinha o quanto antes e se o preço para voltar à solidão reconfortante do quarto fosse agradá-lo com algo tão simples, pagaria.
– Pois então tranquilize-se Edward... Tenha uma boa noite!
– Boa noite Isabella!
Ao ficar sozinha ela foi até a porta para trancá-la. Via nele diferenças drásticas, mas não ao ponto de confiar plenamente que não invadiria o quarto durante a noite então considerou mais seguro precaver-se.
Ao sentar-se sobre a cama Isabella relegou tudo o que vivera naquele dia a um canto isolado de seu cérebro e deixou o pensamento vagar até o movimento de sua casa. Uma vez a cada seis meses passava algumas noites fora, mas aquela seria a primeira que sumia sem prévio aviso. Sua esperança era a de que talvez quando soubessem da ponte, acreditassem que ela estava bem em Westking. Angela estava apta a cuidar de tudo, afinal a mulher já havia sido a proprietária. Sua preocupação maior era quanto a Sam; ele teria que ser paciente.
Quando a moça se deitou, Nero foi lhe fazer companhia. Isabella afagou sua cabeça até que ele rolasse de barriga para cima e respirasse feliz com sua língua rosada pendurada na lateral da boca aberta.
– E você hein? – perguntou ao animal, também guardando as lembranças de sua casa. – Como foi se lembrar de mim? Posso confiar que não vai contar a ninguém?
O cachorro rolou na cama e se apoiou sobre suas pernas cobertas para encará-la. Os olhos castanhos antes tão brilhantes, já um pouco opacos pela idade.
– Sei que posso confiar em você. – continuou falando como se ele a entendesse. – E talvez possa confiar em seu dono. Mas você também sabe que isso não muda nada. Será uma tortura ficar presa aqui e acabar fazendo uma amizade que não poderei alimentar.
Talvez por seu tom o galgo tenha ganido entristecido. Sorrindo para ele, Isabella falou.
– Tem razão. Vamos esquecer assuntos tristes quando temos muitos para colocar em dia... Sabe? Tenho alguém especial na minha vida. Quer ouvir suas últimas palavras para mim?
Ao fazer a pergunta alcançou sua bolsa e dela retirou a carta. E ainda como se o cachorro pudesse entender, leu cada palavra pela quinta vez naquele dia com saudade e prazer redobrado.
Deitado em sua cama espaçosa Edward tentava ouvir os sons vindos do quarto anexo. Nada escutou além de um leve murmúrio até que o silêncio o envolvesse. Não temeu dormir nem precisou lutar contra o sono para se manter acordado. Este nem ao menos se acercou do barão que apoiando a cabeça em suas mãos, repassou todas as situações vividas com Isabella revivendo também as mesmas sensações a cada lembrança.
As mais perturbadoras eram as que antecederam e precederam um beijo não dado. Realmente não era um amante ávido por muitas conquistas, mas se orgulhava de ter tido as melhores damas quando as quis. Estar com elas sempre fora satisfatório, mas com nenhuma sentira algo tão súbito e forte quanto nos instantes de contato que tivera com sua inesperada tutelada.
Nem mesmo com Lady Tanya – a quem a baronesa já tomava por nora – que possuía muitas liberdades durante os beijos dados em algum recanto da varanda ou dos jardins, não sentira nada poderoso que não fosse simples desejo carnal.
Parecia que com Isabella esse instinto ia além. O curioso era que não a conhecia. Era evidente que seu interesse ao vê-la na rua principal de Westking fora por seu corpo bem formado; já admitira que o rosto coberto ajudou a atraí-lo, porém àquela altura – depois de todo o ocorrido – já deveria ter colocado suas intenções de lado. E não estar a mirar o teto, tentando entender o que acontecia enquanto esperava à hora de agir.
Minutos depois, quando acreditou que já era tempo de deixar sua cama, as respostas ainda não haviam se revelado. Paciência, o nobre pensou. Estava prestes a descobrir o que havia na carta que salvou e no momento era tudo o que importava. Descalço, seguiu cautelosamente até a porta de ligação entre os quartos. Apenas os moradores e criados internos sabiam sobre ela. Para um convidado, como era o caso de Isabella, as paredes eram todas iguais, revestidas com o delicado tecido floral.
Seu pai acreditava que interligar os quartos e possuir passagens secretas pelo palacete ajudaria a nobre família em caso de ataque; fosse de inimigos abastados, fosse de reles ladrões. Rosalie se valia daquela porta em noites de tormenta quando se refugiava em sua cama. Edward sorriu com a lembrança enquanto girava o ornamento que lhe servia de maçaneta. Muito devagar, moveu a porta temendo que a moça ainda estivesse acordada.
Para seu alívio, não estava e providencialmente havia mantido uma das lamparinas acesas, deixando o quarto numa agradável penumbra. O barão abriu a porta o suficiente para passar seu corpo e entrou. Contudo não deu mais um passo além ao ouvir o rosnado baixo do galgo que deitado sobre as pernas de Isabella o encarava com as orelhas erguidas.
– Nero! – sussurrou aborrecido.
Traído por seu próprio cão?! Parecia que as curiosidades não teriam fim.
– Sou eu seu cachorro senil. Não ouse me delatar.
Imediatamente o cachorro silenciou, mas continuou a encará-lo atentamente como se ao menor deslize de seu dono fosse atacá-lo. Ignorando o cavalheirismo canino, Edward avançou alguns passos até estar ao lado da cama.
Descobriu que por sorte não precisaria procurar pela carta; ela estava sobre o criado-mudo, dobrada, fora de seu envelope. Bastaria pegá-la e finalmente ler, mas a avistou com sua visão periférica não como foco de sua atenção. Esta estava voltada para aquela que repousava entre os ricos lençóis de sua irmã.
O rosto ainda corado, talvez pelo calor que o galgo lhe passava, demonstrava serenidade. A boca ligeiramente entreaberta parecia um convite para que a beijasse assim como os fartos cabelos de alcatrão que lhe emolduravam o rosto o desafiava a tocá-los. Edward bem que tentou, porém antes que seus dedos experimentassem a textura dos fios o galgo traidor voltou a rosnar. O barão dirigiu a ele um furioso olhar e recolheu a mão.
– Entendo-me com você depois... – prometeu aborrecido.
De toda forma tinha uma missão a cumprir naquele quarto e não deveria se atrasar preso em agradáveis distrações. Lançando mais um olhar para a moça adormecida, pegou a carta e foi para perto da fonte de luz, junto à penteadeira. Ao desdobrar as muitas folhas de papel, cinco sendo exato, seu coração parou brevemente com as primeiras palavras para então acelerar enregelado.
Minha senhora
Hoje acordei com muita saudade. Sabe que a sinto todos os dias, mas essa noite eu sonhei com uma borboleta. Ela era muito bonita assim como a senhora, mas não estava triste. Tentei pegá-la, mas ela ia sempre para longe de mim até que a chamei e ela veio para a minha mão. Queria que o sonho fosse verdade e estivesse aqui comigo.
Ainda sente minha falta? Eu sinto a sua. As horas passam e não chega o dia de vê-la. Quando virá? Ou quando me deixará voltar? Sinto falta do seu colo e de deitá-la no meu para fazer carinho em seus cabelos de Yasmim. Preciso estar contigo como sei que quer estar comigo afinal é o que sempre me diz quando estamos juntos. Deixe-me voltar para cobri-la de beijos. Quero fazê-la sorrir e cuidá-la.
Quando estiver ao seu lado prometo que serei o cavaleiro que a protege. Serei o homem da casa e ninguém lhe fará mal. Então me deixe voltar. Prometo também nunca mais magoá-la para que não seja preciso me mandar embora.
É tão ruim estar longe. Se eu errei peço desculpas, se estive de castigo já aprendi a lição. Espero ansioso pelo dia de nosso encontro. Até ele lembre que eu a amo. Na dúvida vou repetir mil vezes.
Eu a amo
Eu a amo
Eu a amo...
Edward baixou a carta, exasperado. Não duvidava que nas quatro páginas seguintes estivessem escritos as malditas mil declarações de amor. Como que para conferir selecionou a última e ao final da página encontrou as derradeiras declarações e o nome do amante meloso.
Para sempre seu Embry.
E o biltre ainda carregava o nome de seu avô materno. Que piada zombeteira e acintosa. Por uma força estranha que agitava o fundo de seu estômago, Edward sentiu ganas de amassar a carta e atirá-la ao fogo para então acordar a jovem e lhe cobrar uma explicação por tê-lo feito quase quebrar um braço ou uma perna para salvar recados açucarados de outro homem. Contudo não o faria. Mesmo que Nero o deixasse se aproximar não tinha quaisquer direitos sobre aquela mulher que dormia inocente de sua presença.
Para despertá-lo do transe enraivecido, Isabella se mexeu em seu leito. Edward temeu ser descoberto, mas logo notou que ela ainda dormia. Estava agitada, contudo era em seu sono. Dobrando a carta voltou até a cama para deixá-la como a encontrou. Dirigia um último olhar àquela que pertencia a outro homem quando ela murmurou.
– Por favor, barão...
Ela sonhava com ele? Sem explicação seu coração se aqueceu e um sorriso se desenhou em seus lábios. Porém as palavras seguintes fizeram o sorriso morrer com a mesma rapidez que surgiu.
– Por favor, pare... – ela exalou. A expressão antes serena se contorceu em agonia. – Tire as mãos de mim... Solte-me barão...
Não havia explicação, contudo Edward se sentiu sufocar; Isabella o rejeitava até mesmo em seu sonho. Ante a tristeza que o abatia, disse a si mesmo que aquele era o comportamento natural de jovens fiéis, visto que a dama era comprometida.
Como não poderia ter sua presença revelada e até mesmo o galgo se agitasse pelo desespero da moça, Edward deixou o quarto. Tão logo fechou a porta de interligação a ouviu gritar. Não fora apenas um sonho ruim; fora um pesadelo. A constatação afundou seu coração. Ainda assim era um cavalheiro e uma vez que a ouviu gritar, poderia averiguar o que acontecia. Em passos rápidos, logo a chamava pela porta usual.
– Isabella? – como resposta ouviu seu choro baixo.
Ela estava chorando porque ele a tocou em sonho? E novamente seu coração protestou. Não deveria se importar, afinal quem era ela para ele? Ninguém, mas ainda assim lhe incomodava. Não era nenhum leproso afinal. Quando novamente falou sua voz saiu muito rouca.
– Isabella eu posso ouvi-la, você está bem?
– Estou Lord Masen...
Isabella respondeu sem abrir a porta, novamente formal. Pesadelo maldito. Ou maldito fosse Embry que a tinha completamente.
– Tem certeza? Posso providenciar o que quiser...
– Não quero nada, obrigada! Desculpe-me se o acordei... Pode ir sossegado. Não se repetirá.
Edward ameaçou insistir, mas algo lhe disse que ela não abriria a porta àquela hora justamente para alguém cujo toque a exasperava mesmo em ilusão.
– Beba um pouco de água... – ainda recomendou. – E durma bem!
Era o que ela gostaria que acontecesse, Isabella pensou sentada tendo Nero a encará-la. Deixando a cama foi se servir de um copo com água como sugerido por Edward. Depois de bebê-la de fato se sentiu melhor. Secando as lágrimas que ainda insistiam em correr por seu rosto, voltou para a cama. Deveria ter imaginado que o barão pai porco velho não a deixaria em paz nem em sonho uma vez que estivesse sob seu teto.
A maldade estava impregnada em cada parede e nem a boa índole de Rosalie e também de Edward seria capaz de eliminá-la. A sordidez era tão palpável que ainda sentia em seus braços o toque abjeto do velho barão a ainda o asco por ter sua boca pegajosa sobre seus lábios, pescoço e seios. Com a lembrança sentiu a bile subir-lhe pela garganta. Antes que vomitasse o pouco que comeu, correu para tomar outro copo com água.
– Foi apenas um sonho ruim. – disse para si mesma. – O porco está morto e arde no inferno. Nunca mais fará mal a ninguém.
Exausta desabou sentada mesmo onde estava. Com ela no chão, o galgo desceu da cama e se juntou a ela para deitar a cabeça em seu colo.
– Você me entende, não é? – perguntou coçando-lhe a cabeça. – Também desde muito cedo foi apresentado à crueldade dos membros dessa família. Para sua sorte, sua carrasca também se foi e hoje você está bem com quem lhe ama e protege. Eu também tenho alguém que me ama e a sua maneira me protege. Por Embry tento ser feliz...
O cachorro apenas a olhava atentamente. Coçando-lhe a cabeça ela sugeriu.
– Acho que devemos voltar para a cama e descansar. Não devemos perder nosso sono por quem não merece.
Seguindo suas próprias palavras, sentindo-se parcialmente recuperada da sensação asquerosa, Isabella voltou para a cama sendo seguida de perto por Nero. Já acomodada entre os lençóis se recriminou por ter dado um passo atrás, voltando a chamar seu anfitrião pelo sobrenome, mas naquele momento foi tudo que conseguiu dizer.
Na manhã seguinte tentaria ser menos formal e fazer valer o acordo de paz. Tentaria ser como Nero que mesmo ferido por um Bradley, não descontava sua raiva em outro de melhor cepa.
Isabella despertou com os toques contra a porta. Com olhos pesados viu a fraca luminosidade que indicava a falta de sol para aquele dia. Havia dormido direto depois de seu pesadelo. Como se ao determinar não destilar sua mágoa em todos os membros daquela família a libertasse de alguma maldição. Seria novo, mas ela estava mesmo disposta a tentar. Se um animal conseguia, ela também o faria.
Todavia não se sentia de todo otimista ao reconhecer focos doloridos de seu corpo; ao senti-lo quente. Dormira bem no fim das contas, mas se sentia péssima. Quando novamente ouviu as batidas contra a porta, Isabella imaginou se seria seu anfitrião. Deveria estar horrível e não queria que ele a visse daquela forma. Ainda deitada, perguntou com voz rouca.
– Pois não?...
– Senhorita Swan. – era Marie. – Lord Masen recomendou que eu trouxesse seu desjejum. Poderia abrir a porta, por favor?
– Poderia voltar depois? – indagou sem se mover. – Estou sem fome. Gostaria de dormir um pouco mais.
– Sua voz está estranha. – a criada atentou, ignorando sua pergunta. – Não está se sentindo bem?
– Não muito, mas algumas horas a mais de sono devem bastar para que me recupere.
– Não sei nada disso. – Marie a contradisse; séria. – Lord Masen me colocou a sua disposição então é meu dever zelar pela senhorita. Deveria ter aceitado o chá que lhe ofereci ontem afinal tomou toda aquela chuva...
Isabella sabia que a criada estava com a razão, mas na ocasião desejava ter o mínimo possível daquela casa.
– Deixe-me entrar para vê-la. – a mulher pediu. – Se não abrir a porta serei obrigada a mandar chamar o patrão.
– Espere! – Isabella pediu apressada como se a criada já estivesse de partida.
Ao se mover o galgo a imitou e correu para a porta. A jovem demorou a chegar até ela, pois suas pernas também doíam. Ao finalmente dar-lhe passagem, Nero saiu apressado, deixando-a sozinha com a criada que a encarava compadecida.
– Com sua licença senhorita. – disse já entrando para depositar a bandeja sobre a escrivaninha.
Isabella encostou a porta e foi se sentar sobre a cama. Logo a criada estava ao seu lado para tocar sua testa.
– Está com febre. – sua voz era repreensiva. – Deveria mesmo ter aceitado meu chá para se livrar da friagem.
– Não achei que fosse necessário. – ela disse encolhendo os ombros. Marie lhe falou como Angela, fazendo com que sentisse saudades de sua casa. Como comumente lhe respondia, falou. – Sou forte.
– Percebe-se. – a criada disse revirando os olhos. – Já lidei com outras mocinhas fortes que viveram nessa casa. Então volte para a cama que lhe trarei a bandeja com o café. – quando Isabella abriu a boca para protestar a criada a interrompeu. – E nada de dizer que não tem fome. Coma o que conseguir. Enquanto isso eu irei à cozinha preparar um chá para combater essa gripe e a febre.
Como argumentar com quem lhe cuidava? Sem nada dizer Isabella voltou para os lençóis e esperou que Marie equilibrasse a bandeja sobre suas coxas. Nela basicamente havia as mesmas coisas da noite anterior, com o acréscimo do leite e pães variados. Realmente não estava com fome, mas beliscou a beirada de um croissant sob o olhar vigilante da criada. Iria se servir de leite quando esta a deteve.
– Seria melhor a senhorita tomar apenas o suco. Leite provoca tosse... Bom, vou deixá-la à vontade e descer para preparar seu chá. Com sua licença.
Ao ficar sozinha Isabella retirou outro naco no croissant e comeu. Não sentia seu gosto, mas mastigá-lo pareceu animá-la. Tomou também o suco deixando que sua mente vagasse até sua casa. Gostaria de saber como havia sido a noite em que não esteve presente, nem pode avisar sua falta. Esperava que Angela e Sam tivessem deduzido o óbvio e não estivessem muito preocupados.
Com um suspiro Isabella olhou na direção da janela. De onde estava não podia ver as condições do tempo, mas sabia que ainda chovia; podia ouvir seu som manso. Caso continuasse a chover sua estada naquele lugar se estenderia muito além do devido. Por mais que tenha decretado uma trégua paralela à oferecida pelo barão, não era animador se saber presa aonde fora corrompida.
Curiosamente pensar no assédio não a exasperou como antes. Era evidente que recordar o estupro sofrido pelo barão e também a vez seguinte que ele abusou dela quando acabara de completar quinze anos sempre a enojaria, contudo pareceu diferente. De toda forma talvez houvesse alguém naquela casa que pudesse direcionar todo seu rancor. Mais poderoso até do que o que nutria pelo barão morto, pois ele não carregava seu sangue nem tinha o compromisso de protegê-la.
– Definitivamente não posso ficar muito tempo aqui. – disse para si.
Sua raiva poderia estar atenuada, mas era real e retribuída por alguém daquela casa. Quanto a Edward, ele ser diferente, agradável e bonito, mas também era alguém de quem deveria manter distância. Afinal era o homem que ela conhecia muito bem as intenções desde que a abordou na casa de doces e mesmo que inacreditavelmente por um minuto insano tenha desejado comprimir seus lábios contra os dele, sabia que não o atenderia; na sua vida não cabiam flertes; muito menos com ele.
Com essa certeza em sua mente, ela voltou a atenção à bandeja. Tomou um gole de suco que desceu amargo por sua garganta fazendo com que perdesse completamente a vontade de beber ou comer qualquer outra coisa. Quando Marie retornou encontrou a bandeja depositada sobre a escrivaninha, praticamente intocada.
– Comeu quase nada. – ela observou aproximando-se da cama com uma pequena bandeja contendo apenas uma xícara fumarenta. – Tome isso. É chá de alecrim e citronela. Ajudará com a febre e espero que elimine a gripe.
O cheiro era bom; apenas por senti-lo Isabella já se sentia animada, pois não estava com as vias respiratórias comprometidas. Talvez o que tivesse fosse somente reflexo pelas emoções da noite passada e por ser obrigada a ficar presa. Enquanto bebia o chá cuidadosamente, novamente sob a vigília de Marie, Isabella recordou que o aquilo que a consternava trazia muito contentamento ao barão. A ela não passou despercebido o prazer quase palpável com que lhe anunciou os danos da ponte.
Ela não se ressentiria por acreditar que a alegria fosse por ter mais tempo para tentar seduzi-la, afinal já estava certo que ele não era um homem de sentimentos puramente maldosos como seu progenitor. Bastaria indicar que não estava disponível que todos ficariam bem até que fosse hora de partir. E o mais importante, manter-se longe da ala dos criados para não ter surpresas desagradáveis.
Olhando Marie sobre a borda da xícara, Isabella cogitou perguntar por uma criada em especial, mas achou melhor não fazê-lo. Não saberia como abordar o tema e não poderia perguntar diretamente por quem supostamente nem conhecia. Melhor se calar e preservar.
Ao término do chá estendeu a xícara vazia, sentindo-se aquecida e reconfortada.
– Obrigada Marie. Já me sinto bem melhor...
– Sei, sei... – a criada comentou condescendente. – Mas a senhorita forte ficará deitada em repouso. Com gripes não se brinca. Ontem a chuva estava forte e muito fria. Não queremos que fique tísica, não é mesmo?
– Não mesmo! – Isabella exclamou apavorada ajeitando-se sob as cobertas. Vira uma moça padecer e morrer daquele mal e jamais o desejaria para si.
– Pois então descanse. Na hora do almoço voltarei com um caldo forte que é minha especialidade. Bom descanso senhorita.
– Obrigada! – agradeceu sincera.
Ao ficar sozinha Isabella sorriu mansamente ao pensar que jamais poderia imaginar ser tão bem trata onde viveu seus piores dias; e agradecer o fato.
SEMANA QUE VEM TEM MAIS...
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