Borboleta Negra
55 Capítulo Vinte e Três - Parte II
Notas iniciais
O colchão desconhecido e o movimento perpendicular levaram Isabella a recordar onde estava um segundo após despertar. Antes que abrisse os olhos, soube também, pelo calor sentido, que o barão estava ainda ao seu lado, sob as mesmas cobertas. Mais uma vez dormiram juntos. A despeito de toda tensão que os envolvia, o contentamento inundou o coração da jovem que, preparando-se para o eterno choque ao vê-lo, ergueu as pálpebras lentamente. Mirou primeiro o queixo limpo, coberto apenas por pelos mínimos; depois a boca rígida, o nariz imponente e, para o bem de seus pecados, um par de olhos azuis escurecidos que a encaravam.
– Bom dia – ele a cumprimentou roucamente, lamentando ser obrigado a deixar de admirá-la. – Pensei que seria preciso acordá-la.
– Bom... Bom dia! – balbuciou, embaraçada; pensou que seria ela a vê-lo despertar.
– Acredito que em poucos minutos estaremos na estação. Melhor levantarmos...
As palavras do barão soaram com pesar, mas a moça não poderia ter certeza. Bem, ela lamentava ter de deixar o cerco daqueles braços, especialmente depois de acreditar que tão cedo não os teria ao redor de si.
– Isabella... – Edward a chamou brandamente. – Prefiro que seja você a levantar primeiro.
– Ah, sim... – ela exclamou, escorregando para fora da cama.
Correndo os dedos pelos cabelos em desalinho, olhou brevemente para a visão que era o barão em meios às cobertas da empresa ferroviária e então seguiu até o reservado. Voltou à cabine poucos minutos depois. Encontrou o barão já de pé, vestido em sua calça a abotoar a camisa; lindo!
Sem nada dizer, ela foi até suas roupas e, depois de despir a camisola, vestiu o chemise e seu espartilho; precisaria de ajuda para fechá-lo corretamente.
– Poderia... – a voz morreu em sua garganta ao se voltar e descobrir que esteve sendo observada por olhos intensos.
O barão agradeceu que ela o tivesse descoberto a olhá-la, pois esteve muito perto de abraçá-la como na noite anterior após o jantar. A verdade é que ainda não se habituara a estar com ela ao seu lado, vendo-a verdadeiramente presente ao acordar durante a noite ou pela manhã. E ali, assistindo-a se vestir, como tantas vezes aconteceu em seu quarto, considerando-a tão bonita. Não importava quais sentimentos nutrisse por ela, sentia-se tão somente impulsionado a tocá-la.
– Edward... – ela o chamou, começando a temer o olhar estranho, voltando-lhe as costas. – Poderia me ajudar com o espartilho?
– Sim, claro! – disse o barão, após um pigarro.
Colocando-se às costas da moça, tratou de executar a tarefa pedida sem se deixar levar por suas vontades. Com os dedos a formigar, segurou as duas pontas da fita e a ajustou, não a apertando, como fez em sua casa, tantos meses atrás.
– Após embargarmos iremos há uma confeitaria que eu costumava frequentar – externou seus planos não somente para avisá-la, mas também distrair-se. – Quero que coma corretamente, pois ontem passou praticamente o dia inteiro sem fazê-lo.
– Como queira Edward... – ela murmurou; insegura quanto ao tom.
O barão parecia novamente muito sério naquela manhã.
– Pronto! – ele anunciou ao terminar, afastando-se sem tocar os cabelos de noite, como por um instante desejou. – Com licença.
– Tem toda... – Isabella novamente murmurou, antes de se voltar e vê-lo se afastar até se fechar no reservado. Com um suspiro profundo, Isabella se dedicou a sua arrumação. Terminou de se vestir e calçar. Depois, usando o que trouxe em sua bolsa, escovou os cabelos antes de disfarçar as marcas deixadas em sua pele com pó de arroz.
Espalhava uma leve camada de carmim nos lábios quando Edward voltou à cabine. O barão estacou um instante ao flagrá-la a pintar a boca, então, desviando o olhar foi até suas roupas. Deveria se acostumar com aquela versão vaidosa da moça; sem dúvida que maquiada ficava linda, mas a preferia como nos dias em sua casa, de rosto limpo. Sua Isabella, muito mais próxima a Cora do que de Amber.
Enquanto abotoava o colete, reconheceu ser essa última quem o enlouquecia. Pela história que lhe trouxe à vida, pelas coisas que levou a moça a fazer. E vergonhosamente também a amava.
– Edward... – Isabella o chamou; cautelosa.
– Sim... – encarou-a enquanto vestia seu casaco.
– Estamos bem? – perguntou, desistindo do olhar intenso para mirar a ponta dos dedos que torcia. – Parece... bravo.
– Estamos juntos – ele enfatizou seriamente, abotoando o casaco. Então, amenizando a voz, acrescentou: – Pedi tempo, Lembra-se?
– Sim, eu me lembro... – ela respondeu ao anel que estava de volta ao seu dedo; estarem juntos era o que de fato importava.
Erguendo a cabeça, Isabella esboçou um amistoso sorriso e tratou de recolher seus pertences e acessórios para acomodá-los de volta em sua bolsa. Acompanhando-lhe no silêncio, o barão terminou de se vestir e calçar, antes de guardar a camisa usada em sua mala.
Uma vez prontos, ocuparam as poltronas e esperaram pela hora da chegada. Não tinham como saber, mas, coincidentemente, ambos resolveram deixar a conturbada relação de lado para se ocupar com o que viria a seguir; o encontro com o pequeno Embry. Isabella ansiosa pelo reencontro antes do esperado, Edward a temer sua reação ante ao fruto ilegítimo de seu pai, confirmando a si mesmo que a criança era uma vítima dos fatos. E assim, com cada um cismando em seu silêncio, chegaram a Estação de Paddington pontualmente às sete horas da manhã daquela segunda-feira fria e nublada.
Ainda sem trocarem uma palavra, cruzaram entre os muitos passageiros – que chegavam e partiam – até alcançarem à calçada. Livre da agitação, o barão ofereceu seu braço para que a moça e acompanhasse de perto enquanto procurasse por um coche de aluguel. Como dito anteriormente, Edward indicou ao cocheiro o endereço da confeitaria onde tomariam o desjejum, antes de ajudar sua noiva – novamente sua noiva – a entrar na boleia.
Sentaram-se um diante do outro, olhavam-se vez ou outra, porém nada diziam. Edward quebrou o silêncio enquanto seguiam pelo Hyde Park e cruzavam a ponte sobre o lago Sinuoso, falando sem desviar os olhos da janela.
– Este lago foi criado a mando de Carolina Ansbach, esposa do rei Jorge I há mais de 150 anos. Bonito, não?
– Sim, muito bonito – Isabella concordou, seguindo seu olhar; Carlisle nunca lhe disse a curiosidade. – Conte mais – pediu, animada pela neutralidade do assunto.
O barão encarou-a brevemente antes de indicar os postes ao longo do caminho com seu dedo enluvado.
– Esta é nossa primeira estrada iluminada artificialmente. As lâmpadas são a óleo. Trezentos daquele foram instalados em 1690 a pedido do rei Guilherme III, por considerar essa via perigosa. Com isso hoje a chamamos de “Route de Roi”, Caminho do Rei.
Isabella agradeceu que o nome em francês tivesse vindo ao final da explicação, pois reconhecia que nada mais ouviria depois de ter aquele som provocante e fluído vindo dos lábios do barão.
– Interessante – murmurou vacilante, mortificada por sentir seu rosto corar.
Edward a observou com estranheza, sem entender o tom incerto e o inexplicável ruborizar. Então, de súbito, considerou ter sua resposta. Franzindo o cenho, apertou o punho da bengala e externou sua conclusão.
– Já sabia disto, por certo... Sir Carlisle deve ter-lhe dito numa das tantas viagens que fizeram juntos.
– Não! – Isabella negou veemente. – Juro que não sabia!
– Muito bem... – retrucou o barão, avaliando-a, tentando adivinhar-lhe o pensamento.Acreditava nela, porém a lembrança da companhia usual azedou seu humor. Antes de voltar os olhos para a janela e ao seu silêncio, murmurou: – Então, agora sabe.
Isabella abriu a boca para reafirmar sua palavra, porém a fechou sem emitir qualquer som. Tempo... Melhor seria dar ao barão o que pediu. Voltando também os olhos para a janela da porta oposta, ficou a contar o que restava das trezentas lâmpadas a óleo do rei Guilherme III, até que deixassem o parque.
Minutos depois pararam diante da confeitaria, um estabelecimento pequeno, acolhedor, situado nos arredores do parque, na Kensington Gore. Após saltar Edward estendeu a mão para que Isabella descesse. Não a segurou como no trem, nem ofereceu o braço como ao caminharem pela calçada da estação. Ao entrarem, Isabella tentou não demonstrar que aquele, sim, era um local que já estivera inúmeras vezes com o banqueiro, pois temia trair-se e aborrecer seu atual acompanhante ainda mais.
Educadamente, Edward puxou a cadeira para que ela se sentasse, porém as únicas palavras trocadas foram no momento da escolha dos pedidos. A moça comeu pouco, não tinha fome e se sentia intimidada pela reserva do barão. Este igualmente demonstrou não estar com apetite, então logo deixavam a confeitaria. A Isabella pareceu que à medida que o tempo avançava a tensão entre eles crescia.
– Agora vamos concluir de uma vez o que viemos fazer aqui. – Edward anunciou, caminhando rumo ao coche.
Depois de explicar o novo trajeto, ajudou a moça a se acomodar na boleia e se sentou diante dela. Sim, Isabella determinou em pensamento, queria encerrar de vez com tudo o que estivesse relacionado ao banqueiro, para que este não mais o afetasse. Subitamente a moça sentiu as mãos frias. O barão parecia tão soturno que temeu pelo encontro entre os irmãos; ou pai e filho. Ao pensamento o ar lhe faltou, porém ela demandou a si mesma que se compusesse.
Tudo o que não precisava era demonstrar sua fraqueza quando deveria ser forte; por Edward, por Embry. Fechando os olhos, tentou antever o que aconteceria... Evidente que Edward não seria menos do que um cavalheiro com o pequeno. Este por sua vez, exultaria ao descobrir que, não somente deixaria seu “castigo” como conseguira um pai. A expectativa de estar certa trouxe o ar de volta aos pulmões da moça. A despeito do que o futuro reservava para ela e o barão, ver o menino feliz era tudo o que mais desejava em sua vida.
– Como faremos ao chegar? – perguntou.
– Gostaria de falar com o reitor a sós... – Edward respondeu, encarando-a. – Quando tudo estiver acertado, deixarei que você receba o menino e lhe explique a nova situação. Depois nos apresente.
Emocionada, apenas assentiu com a cabeça; estavam tão perto. Sim, estavam. Tanto que em minutos pararam diante dos portões de Saint Joseph.
– Chegamos! – A voz do barão a estremeceu.
– Chegamos... – ela repetiu ansiosa.
– Deixe a bolsa, pois o cocheiro nos esperará – instruiu-a antes de saltar.
Como sempre, depois de vestir a cartola, o barão estendeu a mão para ajudá-la. Isabella apenas pegou suas luvas e o seguiu. Suas pernas estavam incertas, porém caminhou dignamente ao lado de Edward, até que ele tocasse o pequeno sino fixado no muro, ao lado do portão. Logo uma freira, já idosa, veio recebê-los. Aproximou-se correndo os olhos curiosos de um a outro enquanto Edward retirava a cartola respeitosamente.
– Bom dia! – cumprimentou-os. Após ser também cumprimentada, indagou: – Em que posso ajudá-los?
– Por favor – Edward começou educadamente, porém com sua firmeza característica –, diga ao reitor Hastings que o barão de Westking, Edward Edrick Masen Bradley II, deseja falar-lhe.
A senhora piscou brevemente e inclinou a cabeça antes de destrancar o portão.
– Assim farei... Entre milord! – convidou, mantendo os olhos sobre Isabella. – Milady – acrescentou, inclinando também a cabeça.
A moça não se lembrava dela, então não temeu ser reconhecida. Antes disso, o novo tremor de suas pernas se deu pelo tratamento formal e errôneo. Evidente que não a corrigiria, nem Edward tampouco, porém foi inevitável não olhar para o barão, esperando ver sua reação. Se houve alguma, Isabella considerou tê-la perdido, pois ele se manteve impassível, caminhando rigidamente atrás da freira.
– Espere aqui – ordenou, indicando os jardins que havia ao lado do prédio. – Como combinamos.
– Espero que seja breve – desejou, esboçando um sorriso.
– Eu também... – disse a ela, sem sorrir.
Não conseguiria, mesmo que tenha desejado fazê-lo para tranquilizá-la. Estava nervoso, raivoso... Ansioso com o que viria mesmo satisfeito por Isabella não ter corrigido a senhora pelo engano no tratamento, como fizera em Apple White. Seria melhor para todos que a moça se acostumasse o quanto antes, pois ela seria sua milady; oficialmente.
Ordenando a si mesmo que se acalmasse, retirou seu sobretudo e o dobrou no braço enquanto esperava ser anunciado ao reitor quando a freira o deixou no corredor, diante da porta escura. Após alguns minutos, que o barão considerou demorados demais, a senhora voltou e com um sorriso acolhedor pediu que entrasse:
– O reitor irá recebê-lo milord. Devo voltar aos meus afazeres agora.
– Obrigado pela recepção – agradeceu o barão.
– Não por isso milord – dispensou-o. – Fique com Deus!
– Amém! – Edward respondeu significativo antes de entrar na sala do reitor; não era devoto fervoroso, mas a ajuda divina seria propicia por dali em diante.
– Senhor barão! – exclamou o padre, um senhor talvez no auge de seus setenta anos, caminhando até ele estendendo-lhe a mão. – Como devo tratá-lo?
– Por Lord Masen estará bem... – Edward tomou a mão do padre e simulou beijar-lhe o anel. – Prazer em conhecê-lo.
– O prazer é todo meu – devolveu o padre, indicando-lhe a cadeira diante de sua mesa. – Sente-se, por favor...
– Obrigado! – Edward aceitou o convite, abrindo os últimos botões de seu casaco para que pudesse sentar.
– A irmã Dolores disse que é o barão de Westking... – comentou olhando o brasão que Edward tinha ao peito – Seria o fabricante da sidra que a nossa estimada rainha Vitoria tanto aprecia?
– O próprio! – confirmou orgulhoso pelo reconhecimento.
– Bom... – começou o senhor, sorrindo-lhe amigavelmente – A que devo a honra de vossa visita.
Edward estufou o peito, respirou fundo, então capturou o certificado em seu bolso para entregá-lo enquanto expunha a situação que ensaiou.
– Vim reparar um engano... Descobri recentemente que tenho um... filho – engasgou por um segundo. Recuperado acrescentou – que hoje está entre os seus internos.
– Um baronete?!... Aqui?!... – o velho padre maximizou os olhos, antes de desdobrar o papel e levá-lo diante do rosto para analisá-lo. – Perdão milord, mas não me recordo de nenhum Embry Edrick.
– Isso porque o conhece como sendo Embry Swan – Edward esclareceu.
– Embry Swan, Embry Swan... – o reitor experimentou o nome. Logo, mais uma vez demonstrava seu espanto ao indagar, incrédulo. – O menino de Sir Cullen?
– Não! – Edward corrigiu enfático. – O meu menino... Foi esse o engano ao qual me referi.
– Deixe-me ver se entendi Lord Masen... – pediu o reitor ao depositar a certidão sobre sua mesa de carvalho lustrado. – De acordo com vossa palavra e este documento, é o pai de um de nossos internos. Embry Swan, filho da senhora Isabella Swan, a... “protegida” de Sir Cullen.
– Exatamente Sr. Hastings. – Edward confirmou; impassível, apesar de detestar as colocações ambíguas.
– Ao recebermos o menino em nossa instituição, somos informados de que a Sra. Swan era viúva, funcionária de Sir Cullen que por não ter condições quis deixá-lo sob nossos cuidados – explicou o senhor, um tanto descrente. – Não que esteja duvidando de vossa palavra, mas... Como agora temos um pai vivo? Eu poderia saber como se deu esse milagre? Ou devo entender que fomos ludibriados?
Edward sustentou o olhar subitamente endurecido do velho reitor com certo enfado. Não era ele quem devia dar explicações, nem tampouco se sentia inclinado a tanto, então disse apenas.
– Não houve milagre, nem tive qualquer participação com o que lhe foi dito para que a internação fosse aceita. Apenas responsabilizo-me pelo o que acontecer a partir de agora. – Indicando a certidão, acrescentou: – Minha palavra vale mais do que está escrito. Asseguro-lhe que sou o pai e hoje mesmo quero levar Embry comigo.
– Não veio apenas conhecê-lo?! – alarmou-se velho padre, abandonando a indisfarçada irritação. – Deseja tirá-lo de St. Joseph em fevereiro? Imagino que queira recuperar o tempo perdido milord, mas seu anseio não deve prejudicar os estudos da criança, nem mudar sua rotina drasticamente... Vou deixar que se encontrem, mas...
– Perdoe-me – a voz de Edward se sobrepôs a do reitor; soou baixa e educada, porém incisiva para calá-lo. – Acredito que não me fiz entender... Agora que tomei conhecimento de meu filho, não é de meu interesse deixá-lo aqui. Estou disposto a quitar quaisquer pendências e então, o senhor não somente promoverá nosso encontro, como providenciará também sua partida para hoje ainda... O trem que nos levará para casa parte após o meio dia.
– Não há pendências Lord Masen... – disse o reitor. – Sir Cullen mantém todas as despesas quitadas antecipadamente.
– Então não há razão para nos estendermos. Ao dar o encontro por encerrado, o barão se pôs de pé, obrigando o reitor a fazer o mesmo.
– Está mesmo decidido milord? – insistiu o senhor, sem se mover.
– E apressado – retrucou o barão, abotoando o botão de seu casaco antes de recuperar a certidão e guardá-la. – Poderia me atender agora ou serei obrigado a me reportar a algum superior?
– Não será necessário Lord Masen. Vosso filho logo estará convosco. – Hastings deixou a mesa, apressadamente. – Todavia penso no menino... Ele não o conhece. Por certo será um choque. Acaso vossa... A mãe veio com vossa senhoria?
– Sim, pedi a ela que esperasse no jardim enquanto acertávamos os assuntos práticos. Podemos ir? – chamou-o, já pegando sua bengala e cartola.
– Sim, cuidarei pessoalmente do que for preciso – assegurou o reitor, indicando a porta. – Gostaria de me acompanhar, ou prefere esperar aqui?
Naquele instante a força do iminente encontro atingiu o peito do barão. Estava ansioso demais para seguir o velho padre pelos corredores e salas. De toda forma, deveriam manter o plano.
– Esperarei no corredor – anunciou.
– No corredor? – estranhou o reitor. – Fique aqui. Poderia mandar que lhe servissem...
– Não quero nada, obrigado! – cortou impaciente. – Apenas... Apenas traga o menino, sim?
– Sim, milord... – ele aquiesceu. – Como queira...
Sem mais palavras, deixaram a sala. Separaram-se no corredor tão logo Edward encontrou um banco no qual se sentou. Deixando cartola, bengala e o sobretudo ao seu lado, correu as mãos pelos cabelos, nervosamente e voltou a se por de pé; passando a nadar de lado ao outro. O momento se aproximava, pensou. Em breve estaria com a prova viva de que Isabella e seu pai estiveram juntos; como homem e mulher. Novamente não sabia o que sentir; o que pensar. Ele era seu único lorde, ela disse... Seu único senhor.
– Edward? – minutos depois a voz da moça veio resgatá-lo de sentimentos inoportunos; havia erguido o tule de seu chapéu para vê-lo sem barreiras. – Resolvi vir ver se já haviam terminado. Como foi com o...?
Isabella calou sua questão, intimidada pelo olhar intenso que pousou em si ao novamente perceber acusação nos olhos azuis. O que poderia ter acontecido?
– O Sr. Hastings trará Embry até nós – Edward anunciou duramente. – Está preparada?
– Você está? – rebateu, preocupada. – O passo que pretende dar é muito grande.
– Sei disso – retrucou o barão, novamente correndo as mãos pelo cabelo. – O passo já foi dado e não voltarei atrás.
Isabella não cogitava aquela possibilidade, afinal o barão poderia ser considerado tão obstinado quanto ela. Talvez ambos estivessem apenas ansiosos com o que viria, afinal, a mudança na vida de todos seria drástica e repentina.
– Sei que não – contemporizou. – Apenas não...
Edward a encarava esperando pelo o que diria, quando ela se interrompeu após desviar o olhar. A mudança em seu semblante foi imediata, era como se ele não mais existisse. Toda a preocupação se foi e os olhos negros brilharam intensamente enquanto os lábios se abriram num sorriso inteiro; um que ele nunca recebera. Sem concluir o que diria ou pedir por sua licença, Isabella cruzou ao seu lado para se encontrar com quem via; Embry, o barão bem sabia.
Paralisado pela reação da moça, Edward sequer se voltou para finalmente conhecer seu irmão. Ao ver o reitor se aproximar com seu pequeno, Isabella simplesmente esqueceu o que diria. Como sempre, todo o temor se foi ao ver o rosto pequeno, que igualmente se iluminou ao vê-la. Esquecida de todas as questões, ela se adiantou para encontrar Embry a meio caminho. Também como das outras vezes, enfraquecida pela falta que sentia, sem se importar com o religioso que o levava pela mão, deixou-se cair de joelhos no corredor e abriu os braços para recebê-lo.
Apertando os lábios, talvez para não demonstrar sua alegria perante o reitor, Embry caminhou calmante ao lado do senhor até que este o liberasse já há um passo da mãe. Bastou seguir adiante para que ela o envolvesse em seus braços.
– A senhora veio me ver! – ele exclamou junto ao seu ouvido, abraçando-a.
– Sim, eu vim, meu querido – respondeu, apertando-o mais.
– Bem, aqui está o menino... – Isabella ouviu o reitor comunicar a ninguém em especial. – Chamarei uma das freiras responsáveis por ele para me ajudar com seus pertences. Caso queiram esperar na minha sala... Não considero o corredor o local mais adequando para esse encontro.
Isabella entendeu a reprimenda, porém não se importou. Edward por sua vez foi obrigado a se voltar. Encontrar a moça ajoelhada, tendo o menino curvado sobre ela, ambos presos num abraço férreo, roubou-lhe a voz. Forçando-se a encarar o reitor, apenas maneou a cabeça em concordância, indicando com a mão para que se fosse. Ao ficarem a sós novamente desceu os olhos para mãe e filho.
Como o menino se mantinha debruçado sobre Isabella, Edward não pôde ver mais do que seus cabelos castanhos, escuros como os seus e os braços cobertos pelo uniforme listrado do internato. Pareceu que se passou uma eternidade até que a moça o afastasse e o barão o pudesse ver nitidamente; fazendo parar seu coração.
– Está machucada senhora. – Edward ouviu a copia de si mesmo observar preocupada enquanto corria os dedos pequenos no queixo de Isabella e então em seu pescoço, sem nunca erguer os olhos em sua direção; era como ele, de fato, não estivesse ali.
– Quem a machucou?
– Ninguém meu querido – a moça assegurou, revirando os olhos, sorrindo despreocupada para desanuviar o semblante infantil.
– Caí em meu quarto de atrapalhada que sou!
– Tenha cuidado – recomendou o menino. Então sorriu novamente lhe tocando o rosto, na bochecha. – Está tão bonita! Gostei da nova cor de seu vestido e estou feliz que a senhora tenha vindo!
– Tive que vir meu querido – ela disse, arrumando o casaco que moveu durante o abraço antes de retirar um cisco imaginário do peito pequeno; carinhosa ao extremo observou o barão.
– Já é meu aniversário? – Embry indagou unindo as sobrancelhas sobre os olhos azuis, mais escuros do que os seus, Edward reparou. O preto dos de Isabella interferindo no azul dos de seu pai, concluiu, sem ar.
– Não, meu amor... – a moça negou docemente, correndo os dedos pelos cabelos do menino. – Sabe que não, pois ainda não estamos em março. Vim por outra razão...
Como? A mente aflita de Edward gritou. Seu coração aos saltos, o corpo trêmulo; como ela queria que acreditasse em estupro quando, agora, não somente sabia, mas “via” a grandiosidade do amor que nutria por aquela criança? Alheia ao turbilhão que devastava o barão, Isabella respirou profundamente, preparando-se para cumprir seu papel na farsa criada por Edward. Ainda procurava por palavras para introduzir o tema quando seu pequeno moveu os olhos e, como se notasse naquele instante que não estavam sós, comentou incerto, num sussurro sigiloso:
– Senhora... Tem um senhor ali que não para de nos olhar.
– Sim, meu amor, eu sei que tem... – ela falou no mesmo tom, sorrindo-lhe para tranquilizá-lo. – Na verdade... Ele veio para ver você.
– Para me ver? – perguntou com estranheza, unindo mais as sobrancelhas, medindo Edward de alto a baixo. – Por que ele e não Sir Cullen?
Isabella imediatamente olhou para trás, procurando os olhos do barão por sobre os ombros. Considerou-o vermelho demais. Preocupada, se pôs de pé e, depois de apertar a mão que Embry atou a sua, indagou:
– Você está bem?
– Estou – ele mentiu; gutural. Indicando o menino, ordenou: – Responda e nos apresente.
Isabella se sentiu enregelar com a frieza que sentiu vir do barão. Jamais duvidou de que aquele encontro não fosse tenso, porém não imaginou que Edward reagisse tão negativamente. Naquele instante ela temeu pelo o que viria, mas como ele bem salientou, não havia como recuarem. Por Embry ela procurou sua força e se voltou para o pequeno.
Aproveitando a mão na sua, ela o levou até o banco ao lado do barão e se sentou, mantendo o menino de pé diante de si. Este manteve a cabeça erguida completamente, sem desviar o olhar do rosto sério do meio irmão. Edward sustentou o olhar inquiridor do menino abaixo de si, tentando decifrar o que sentia por ele. Lamentou que naquele primeiro instante, não fossem sentimentos puramente bons.
– Embry... – Isabella o chamou, fazendo com que ambos quebrassem o contato visual. Quando o menino a encarou, ela lhe segurou os ombros para finalmente responder. – Sir Cullen não pôde vir hoje por que esta é uma visita de família.
– De família? – ele repetiu com nova estranheza, erguendo os olhos mais uma vez para o homem alto ao seu lado com desconfiança. Voltando a encarar a mãe, observou: – A senhora sempre disse que nós dois formamos nossa família. Temos Sir Cullen, tia Angela e o Sam, mas somente “nós” somos parentes.
– Sei disso meu querido... – ela murmurou antes de imitá-lo, olhando para o barão.
Edward mantinha os lábios numa linha fina e apenas moveu a cabeça, indicando que prosseguisse. Com um pigarro cuidou de atendê-lo.
– Embry... Antes que qualquer coisa seja dita, gostaria de pedir desculpas por mentir para você.
– A senhora mentiu? – o menino maximizou os olhos azuis. – Mas isso é errado!
– Sei que sim, mas não tive escolha... – As mãos de Isabella suavam enquanto ela dava sequência a real mentira. – Tive que mentir sobre seu pai.
– O que mentiu? – Embry quis saber. – O nome? Não é Edward?
Ao ouvir uma exclamação ininteligível vinda do barão ela o encarou. Ao notar a questão implícita no olhar cerúleo, respondeu:
– Não tinha que mentir quanto a isso... Ele me perguntou, tive que dizer...
– Fez bem! – Edward retrucou roucamente. Abalado por ela ter dito ao filho o nome do homem que alegava detestar, demandou:– Termine logo com isso.
– Senhora...? – O menino a chamou, visivelmente confuso, receoso. – O que ele quer que termine?
– Já vai saber – disse também rouca; repentinamente comovida. – Como lhe disse, menti sobre seu pai. Não o nome, meu querido, mas quando disse que ele havia morrido. – Ah! – exclamou, piscando algumas vezes antes de perguntar, expectante.
– Então ele não está no céu? Eu ainda tenho pai?
– Tem sim, meu amor... – ela confirmou num sussurro embargado, comovida com o olhar subitamente brilhante de seu pequeno.
Antes que pudesse oficialmente apresentá-los, Embry ergueu a cabeça mais uma vez e indagou, direta e seriamente, ao barão.
– O senhor é Edward?
A pergunta inesperada, revelando a perspicácia do menino, surpreendeu o barão. Contava que fosse Isabella a fazer as devidas apresentações, sendo assim poupado de externar palavras que mal atravessavam sua garganta obstruída, contudo Embry se adiantou aos fatos expostos pela mãe. Ciente de que não poderia protelar a resposta, Edward pigarreou e revelou solene, estendendo a mão enluvada.
– Sim, eu sou... Prazer em finalmente conhecê-lo Embry!
Antes de aceitar a mão estendida, o menino olhou para a mãe que, lutando contra as lágrimas, confirmou silenciosamente.Somente então Embry ergueu a mão pequena e apertou a do barão. – Prazer em conhecer o senhor! Poderei chamá-lo de pai? Naquele instante, não confiando no tremor de seu corpo vindo com sentimentos que ainda não sabia identificar, Edward se deixou cair sentado ao lado da moça, ficando à mesma altura de seu irmão que continuava a apertar seus dedos, olhando-o com curiosidade. O nobre compartilhava da mesma e, sem responder ou sequer notar, tocou o rosto tão semelhante ao seu com a mão livre, contornando os olhos azuis que ambos herdaram do pai.
– O senhor está bem? – Embry perguntou, franzindo o cenho.
– Eu... – Edward começou, porém reconhecendo a umidade embaraçosa em seus olhos e a dificuldade em falar, interrompeu-se para pedir apenas. – Com licença um instante.
Desprendendo sua mão, Edward deixou o banco e se afastou dos dois, caminhando em largas passadas rumo ao jardim que antes a moça esperou. Chorar sempre seria inaceitável para um homem, então jamais o faria perante um menino, dando-lhe um péssimo exemplo, sobretudo por emoções daninhas. Não, não odiava aquela criança, sangue de seu sangue. Odiava a relação que o trouxe à vida, odiava o carinho desmedido que a mãe tinha por ele e que fazia ruir o beneficio que lhe concedeu durante a noite. E, sim, mil vezes sim, odiava o pai deles dois por ter seduzido aquela que agora amava incondicionalmente mesmo a considerando uma mentirosa.
– O que há com ele senhora? – perguntou o menino tão logo Edward deixou o corredor.
– Ele está emocionado por conhecê-lo – Isabella respondeu com o que ela julgava ser a verdade.
– Será que ele não gostou de mim?
Para alívio de Isabella, que se recuperava de sua própria emoção e lidava com aquela saída intempestiva, não havia lamento na questão, somente especulação. Esboçando um sorriso tranquilizador, assegurou novamente com o que para ela era a verdade.
– É impossível alguém não gostar de você! Logo ele voltará você verá...
– Se a senhora diz... – ele deixou a frase morrer no vazio, antes de perguntar. – Por que disse que meu pai havia morrido se ele ainda está vivo?
Determinaram o que diriam aos adultos, mas o que diria a uma criança? Isabella se alarmou. Escrutinando os olhos expectantes, ela tentou formular uma versão que se assemelhasse com a que ele ouviria a partir dali.
– Eu tive que fazê-lo, meu querido... Como você verá, eu e seu pai não somos casados. Ainda não formamos uma família de verdade. Quando você foi colocado nos meus braços pela primeira vez ele estava longe e eu não sabia se voltaria, então considerei melhor dizer que havia partido em definitivo. Porém Edward voltou. E morava muito perto de nossa casa. Quando o reencontrei e falei sobre você, ele quis conhecê-lo imediatamente. E cá estamos! – arrematou com um sorriso encorajador; rogando que a resumida explicação o contentasse.
A criança permaneceu muda, encarando a mãe por um tempo infinito antes de suspirar e revelar:
– Fico feliz, mas... Acho que tenho medo dele...
– Não tenha – Isabella pediu, tomando-lhe as mãos. – Deve apenas respeitá-lo e obedecê-lo e tudo ficará bem.
Sem retrucar-lhe, Embry olhou para o final do corredor por onde Edward saiu e então para o lado oposto, por onde o reitor os deixou. Ao encarar a mãe de volta tinha os olhos arregalados e refreava um sorriso. Demonstrando ter feito a associação de tudo o que ouviu, falou:
– O reitor disse que iria pedir ajuda para com meus pertences. Eu sei o que é isso, aprendemos essa palavra na aula da irmã Lucy. E a senhora está aqui, com meu pai... Vieram me tirar do castigo?
Como não se render diante de tamanha alegria? Impossível, então Isabella apenas confirmou com a cabeça, já a liberar as lágrimas que bravamente reteve até ali. Talvez contagiado por ela, ou tão contente ao ponto de igualmente chorar, Embry se lançou ao pescoço da mãe, fechando os olhos úmidos. – Vai mesmo me levar para casa senhora? – perguntou embargado.
– Sim, querido...
– Hoje?! – Ele se afastou da mãe e segurou-lhe as mãos enquanto pulava no lugar, ansioso, as poucas lágrimas deixando seus olhinhos brilhantes. – Diga que sim, diga que sim...
– Sim, Embry, ainda hoje – ela o atendeu, sorrindo em meio às lágrimas com a alegria esfuziante do menino.
– Então venha senhora... – chamou puxando-a pela mão, tentando fazê-la levantar. – Temos que ser rápidos!
– Rápidos com o quê? – ela indagou confusa, deixando-se levar pelo corredor que os levaria ao jardim, secando os olhos como podia.
– Preciso recuperar meu tesouro! – Embry revelou muito sério.
Isabella conteve um sorriso; nunca soube que o menino tivesse um tesouro, porém era o tipo de fantasia que o pequeno criaria.
– E onde está esse tesouro? – perguntou, deixando-se contagiar pela leveza inocente do menino.
– A senhora verá... – disse, sempre a puxá-la pela mão.
Por sorte, não encontraram freira alguma pelo caminho, pois a moça sabia que seriam barrados e questionados. Assim, com a passagem livre, chegaram ao jardim. O coração de Isabella saltou um instante ao ver Edward no lado oposto, caminhando de um lado ao outro, mirando em frente, muito sério. Temia pelo o que poderia estar se passado em seu íntimo, contudo não havia como descobrir naquele momento.
Desviando o olhar, seguiu seu pequeno até as árvores no junto do jardim, logo Embry soltou sua mão e adiantou os passos para contornar uma delas e se agachar. A mãe o acompanhou para ver o que fazia. Chegou a tempo de vê-lo mover algumas pedras e então o buraco raso que elas encobriam. Dele o menino retirou algo embrulhado num lenço que há muito tempo fora branco. – Pronto! – exclamou ao se pôr de pé. – Podemos ir! – E eu não poderei ver esse tesouro? – Isabella questionou verdadeiramente curiosa.
– Não temos tempo – o menino comentou, novamente a tomando pela mão para puxá-la de volta ao prédio. – Mas pode levá-lo se quiser.
Isabella recebeu o embrulho e, mesmo com o tecido a cobri-la, descobriu se tratar de uma lata. O tesouro de Embry não era pesado, mas se movia o que aumentou sua curiosidade. Esta se esvaiu ao notar que Edward não estava onde antes o viu. Deduzindo que o reitor o tenha chamado, pediu ao menino.
– Vamos mais depressa, pois acho que deram por nossa falta.
– Eu ainda posso ser castigado pela irmã Nelly? – Embry estacou pálido feito papel.
A reação enfureceu a moça e a comoveu na mesma medida, recriminando-se por nunca ter tomado a iniciativa de retirá-lo daquele lugar, ela garantiu:
– Não Embry. A irmã Nelly nunca mais o castigará.
Ainda receoso o menino retomou os passos. Ao chegarem ao corredor, não viram o barão em parte alguma, apenas seus pertences sobre o banco que antes ocuparam. Sem saber para onde Edward poderia ter ido, Isabella instruiu o menino para que se sentasse e esperassem. Na sala ao lado, o barão se encontrava sentado diante do reitor que o fora chamar no jardim.
– Bem, já que está decidido, gostaria de lhe dizer que para nós do Saint Joseph foi uma honra ter vosso filho durante esses anos. Aqui fizemos o possível para bem educá-lo e instruí-lo. Caso mude de ideia e o queira trazer de volta, será muito bem vindo e novamente bem recebido.
– Obrigado! – agradeceu já recuperado do súbito destempero. Como sinceramente não sabia o que aconteceria a partir dali, assegurou: – Caso necessite, assim o farei.
– Reafirmo que nossas portas estarão sempre abertas. Só peço que, caso vossa adaptação com esse filho inesperado não ocorra como esperado, não demore em trazê-lo, assim não afetará sua instrução, iniciada este ano. Seria bom evitarmos atrasos...
– Não se preocupe senhor... Não deixarei que aconteça. De fato não deixaria. A despeito do que pudesse sentir pelo menino, estava disposto a fazer por ele tudo o que a mãe não permitiu que seu verdadeiro pai fizesse.
Em Westking Embry teria a melhor instrução, nem que fosse preciso ele, Edward, ensinar ao menino tudo o que sabia.
– Bom, sendo assim, vou pedir que assine este termo de responsabilidade pela retirada do menor – disse o senhor, emburrando na direção do barão o papel que tinha diante a si e lhe estendendo a caneta pena antes de prosseguir – para o caso de seu tutor anterior questionar nossa liberação.
– Não acontecerá – Edward disse após receber a caneta –, mas não me custa atendê-lo. É apenas isto?
– Sim, milord! Creio que a irmã Agnes já deva estar com tudo pronto, afinal, aqui as crianças não têm muito de seu.
– Imagino que não... – retrucou secamente; especulando consigo mesmo se mãe e filho já haviam regressado do jardim. Impaciente se pôs de pé.
– Podemos ir então?
Isabella ouviu a porta da reitoria ser aberta no momento exato em que uma das freiras se aproximou com uma pequena mala. Logo Edward, estóico, se colocava ao lado dela junto do reitor Hastings. – Eu não disse? – questionou o senhor. A moça não sabia ao que ele se referia apenas o barão, que retrucou:
– Finalmente!
– Bem... – começou a freira ao estar diante deles, estendendo a mala ao barão. – Aqui está senhor. Agora devo pedir licença para levar o menino.
Imediatamente Embry olhou alarmado de um ao outro. Antes que externasse o que o amedrontava a freira explicou:
– Ele deve se trocar... Já reservei o que usará. E também acredito que queira se despedir de todos, não?
– Vá, meu querido... – Isabella o encorajou.
– E não demorem, por favor. – Edward complementou, depositando a mala leve sobre o banco antes de recuperar seu sobretudo e vesti-lo; queria partir o quanto antes. Receoso, o menino novamente os encarou então se deixou levar pela freira, olhando por sobre o ombro de vez em quando, até que sumisse no corredor.
– Bem... Preciso voltar aos meus afazeres – anunciou o padre. – Quando o menino estiver de volta, gostaria que se despedissem também de mim. Estarei na minha sala.
Edward assentiu com a cabeça, liberando-o, porém os olhos estavam postos em Isabella que mantinha olhar vago no corredor por onde Embry fora levado.
Ele deveria ter previsto que seria daquela forma, repetiu um dos pensamentos que teve enquanto cismou no jardim após sufocar seu pranto: breve, silencioso e inadequado. Soube, desde sempre, que ela tinha por Embry um amor pleno, jamais negado. Também como pensou no jardim antes de vê-la ser guiada por seu irmão, deveria se contentar em ocupar parte do coração fracionado dela, ainda mais quando os sentimentos eram completamente diferentes; estava tentando.
– Não mentiu quando disse que o amava com todo o seu coração, não? – Edward perguntou minutos após ficarem sós; não queria parecer tão duro, mas não pôde evitar.
– Não, não menti... – ela respondeu, encarando-o. – É esse o problema? Achou que eu estivesse mentindo quanto a isso?
– Na verdade – revelou sustentando-lhe o corajoso olhar –, nesse caso, eu gostaria que estivesse.
– Bem... Não estou – ela reafirmou. – Mesmo quando você não sabia quem era Embry nunca reneguei o que sinto. Imagino o que possa estar pensando, mas... Independente de como ele tenha vindo para mim, eu o amo. E, para que também não reste dúvida quanto a lhe contar o nome do pai, nunca foi minha intenção revelar a verdade ou fazer com que o odiasse. O que sinto por Lord Bradley é particular e não deve ser compartilhado por nenhum de seus filhos.
– Filho e neto – Edward a corrigiu, restaurando o benefício da dúvida após as palavras dela. – Filho e neto... Nunca se esqueça.
– Filho e neto... – ela repetiu, compadecendo-se com a consternação que notava sob a postura rígida.
Lembrando-se de como ele os deixou para ir aos jardins, bravamente lhe tomou uma das mãos para não deixá-lo se afastar.
– Então... O que achou dele?
Edward olhou para as mãos unidas e apertou os dedos dela fortemente; apreciando o contato inesperado. Lutando com suas questões, ergueu o olhar para o final do corredor e admitiu sua primeira impressão.
– Embry é um menino bonito... É educado, inteligente e... – baixando os olhos para ela concluiu – como não poderia deixar de ser, a ama em demasia.
Isabella não ocultou um sorriso orgulhoso; satisfeita com as palavras mansas vindas sem rancor. Aventurando-se ainda mais, tocou-lhe o rosto antes de indagar:
– Acha que um dia poderá amá-lo como eu?
– Isso, somente o tempo poderá dizer... Não queira respostas imediatas.
– Perdoe-me – ela pediu, recriminando-se por forçá-lo quando sabia que estava em seu limite, tentando acalmar-se.
– Aquiete seu coração – o barão pediu, como se adivinhasse sua comoção, sendo ele a tocar-lhe o rosto com a mão livre. Isabella apenas assentiu, optando por se calar. Estava ansiosa, atropelando etapas.
O importante era o encontro, bem sucedido por fim... Era ter uma mão do barão a segurar a sua e outra a lhe tocar o rosto enquanto tentava acalmá-la; como um bom marido faria. Não importavam os sentimentos ruins que existiam entre eles, já formavam uma família. Como se ainda tivesse muito a ser dito, permaneceram olhando-se por um instante, então, como nenhum dos dois nada falou, num acordo silencioso, afastaram-se um do outro e sentaram no banco vago para esperar por Embry.
Este reapareceu minutos depois, sendo guiado pela irmã Nelly, que vinha muito séria – como sempre – devolvê-lo ao casal. – Aqui está vosso filho milord – disse diretamente a Edward, com o rosto erguido, ignorando Isabella deliberadamente. – Fiz questão de vir vê-lo. Para todas nós foi uma surpresa saber que ele, órfão desde que chegou, subitamente tivesse um pai.
– Pois agora me conhece, e não deveria se surpreender – Edward retrucou, antipatizando com a senhora à primeira vista. Valendo-se das palavras do reitor, acrescentou: – Sua crença enaltece o incrível. O milagre de Embry aconteceu na forma de um pai vivo.
– Por favor, não caçoe de minha crença milord – pediu a freira, aborrecida.
– Então não me tome tempo – ele replicou impassível. – Por favor, se acaso tem observações a acrescentar, faça-as sem rodeios. Caso não as tenha, apenas deixe o menino para que possamos partir o quanto antes.
– Perdoe-me... – a senhora pediu, finalmente liberando o menino que olhava de um a outro. Correndo os olhos para Isabella a freira concluiu: – Não tenho nada a acrescentar milord.
Sim, Isabella sabia que a religiosa teria uma ou duas observações a fazer, provavelmente quanto à inadequação daquela situação, então agradeceu pela sinceridade do barão, por vezes grosseira, que a manteve calada. Sentindo-se representada nas respostas dadas a freira que costumava aplicar castigos em seu menino, a moça não se acanhou em também ignorá-la. Recuperando a lata envolta no lenço e tomando Embry pela mão, pediu diretamente ao barão.
– Podemos ir agora? – Por certo... – ele aquiesceu, pegando sua cartola e a bengala, antes de alcançar a mala do menino. – Passar bem irmã...
– Direi até breve – a freia respondeu, ainda a encarar Isabella com desagrado. – Não creio que relações avançadas funcionem.
– Assim como nem sempre os velhos moldes sejam os mais acertados – o barão retorquiu antes de sorrir mansamente. – Adeus irmã.
Dando-lhe as costas, dirigiu-se à sala do reitor. As despedidas foram breves, com o velho padre se mostrando um tanto mais condescendente com a nova família, ao ponto de estender a mão para Isabella antes que todos partissem.
– Sir Embry... – chamou o reitor, estendendo-lhe a mão. Quando o menino, receoso a segurou, o senhor recomendou. – Não esqueça nossos ensinamentos nem deixe de fazer vossas rezas todos os dias, e, obedeça vossos pais... Que Deus o abençoe!
Amém! Isabella rogou em pensamento, comovida com a iminente partida; por ela e mais por Embry que a encarava entre ansioso e temeroso; talvez ainda sem acreditar que o dia tão esperado houvesse chegado. Quando pôde, voltou a segurar-lhe a mão para levá-lo consigo e não mais a soltou. Logo seguiam pelo caminho frontal com uma das freiras que lhes abriria o portão. A cada passo dado Isabella sentia que o menino se adiantava; levando-a a refreá-lo, quando dividia com ele o desejo de correr. Cada um, a sua maneira, ansioso por ver o que viria.
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