Borboleta Negra

59 Capítulo Vinte e Sete - Parte II


Notas iniciais
Oie... Mil perdões pela demora. Final e começo de ano para mim é uma correria só. Espero que até março tudo esteja normalizado assim volto com nossas postagens semanais. Acreditem, morro de saudade de postar para vcs... Bom obrigada pelos comentários meninas... Vcs são sem explicação de tão lindas comigo. Irene Moreira, muito obrigada pela recomendação, eu adorei!... :D Enfim, não vou prendê-las... Simbora logo para mais um capítulo... BOA LEITURA!

Por se tratar de sua mãe, Edward não ousou desfazer laços, nem abrir colchetes do espartilho, apenas deitou Elizabeth gentilmente sobre a cama e tocou a sineta para que Marie enviasse Amy o quanto antes. Ao vê-la deitada, com o negrume do vestido evidenciando a palidez, tornando-a quase cadavérica contra os travesseiros e lençóis muito brancos, a culpa do barão potencializava sua aflição. Era sua obrigação tê-la preparado para o menino. Deliberadamente deixou que a mãe especulasse sobre hipóteses equivocadas. Evidente que a semelhança entre ele e Embry a chocaria.

Ele foi também cruel, como tantas vezes acusou sua noiva e nem mesmo cabia a desculpa de que desconhecia como tudo se daria em Londres, pois em seu plano não havia falhas. Mesmo que Isabella se recusasse a aceitar – sua paternidade ou o casamento – não voltaria atrás. Embry viria com ele de qualquer maneira.

Sim, fora cruel. Então no momento, minutos depois de ver entrar a criada, e assisti-la reanimar sua mãe, não havia muito que pudesse fazer, além de permanecer sentado no sofá próximo à janela, olhando para Elizabeth fixamente, esperando que por vontade própria ela calasse o pranto e quebrasse o silêncio no qual se mantinha desde que acordou e tomou o chá trazido por uma das criadas.

Edward gostaria de saber como sua noiva e “seu filho” haviam sido acomodados, porém não poderia sair sem parecer negligente, ou dar a falsa impressão de que não se importava com a mãe.

– Como é possível?

A pergunta embargada assemelhava-se a um gemido, tanto que Edward respondeu incerto.

– Estou preparado para explicar. Têm suas próprias perguntas ou prefere que eu apenas conte como é possível?

A baronesa não respondeu, levando o barão a acreditar ter se enganado quanto à pergunta murmurada, porém, torcendo o lenço que mantinha entre os dedos, ela o encarou e falou duramente:

– Por certo que irá contar, mas tenho algumas questões. Por que não revelou desde o início que mantinha uma família clandestina com aquela mulher? Foi por isso que a recebeu aqui, não? A chuva foi apenas um bom pretexto.

Edward se calou por um instante. A partir daquele momento começaria a mentir e cada detalhe citado, deveria ser para sempre recordado.

– Não mamãe – negou seguramente. – Não usei a chuva como pretexto, muito menos mantinha uma família com Isabella.

– Não tente me iludir Edward. Eu vi o menino – ela falou ofendida, então, subitamente soluçou e voltou a chorar, apertando o lenço contra os olhos, porém não se calou. – “Você” tem um filho... Um filho!... Sem nem ser casado... trouxe uma criança ao mundo e... O que é pior... a escondeu de mim!... De mim!... Que o amo mais do que a mim mesma! Agora quer me fazer de tola!

– Por favor, mamãe, acalme-se... – ele pediu, deixando o sofá para sentar na borda do colchão. – Olhe para mim!

– Como pôde?! – ela questionou, sem a tendê-lo. – Tem um filho... E o escondeu de mim...

– Não o fiz! – Edward negou veemente. – Jamais lhe esconderia. Acaso não sei o quanto ama os filhos de Rosalie? Ou como espera ansiosa pelos que virão de Alice? Nunca me passaria pela mente que um dia preterisse um filho meu, não importando a forma como fora concebido.

– Sim, eu o teria ajudado a criá-lo – a baronesa falou, olhando o próprio colo, como se ali houvesse uma criança muito pequena. – Porém fui excluída completamente.

– Já disse que não o fiz! – o barão alterou a voz. – Não admitirei que duvide de minha palavra quanto a isso. Eu não sabia da existência do menino. Descobri há poucos dias e, quando soube tratei de buscá-lo.

– Mas então...? – a mãe murmurou, secando as lágrimas. – O que aconteceu? Explique-me. Como conhecia aquela mulher, relacionava-se com ela sem saber que possuíam um filho em comum.

– Irei explicar, mas antes... Gostaria de chamar uma pessoa para participar de nossa conversa.

– Por Deus, que não seja “ela”! – rogou a baronesa, acomodando-se melhor contra os travesseiros, torcendo o rosto em reprovação.

– Não... – Edward deixou a cama para novamente tocar a sineta. – Espere e verá.

Permaneceram em silêncio até que Marie viesse bater à porta. O barão a atendeu discretamente, sua mãe não deveria ouvir de quem era solicitada a presença para não atordoá-lo com a enxurrada de perguntas que provavelmente faria. Edward precisava manter o foco, pois na versão apresentada não poderia haver falhas.

– O que disse a Marie? – Elizabeth perguntou ao ver o filho fechar a porta.

– Logo saberá...

Edward então retirou seu casaco ao ser acometido por um súbito calor; sim, estava nervoso.

– Quer me matar com tanto suspense – acusou a baronesa, encarando-o.

– Logo saberá de tudo, apenas espere.

Andando de um lado ao outro, o barão esperou que novamente viessem bater à porta. Em largas passadas foi abri-la para deixar entrar quem deveria ouvir o que seria dito.

– Soube que deseja ver-me milord – Sue deu um passo à frente.

Tinha o rosto ossudo tão lívido quanto o da baronesa. Evidente que já sabia a novidade e talvez temesse o que estava por vir. Acreditando ser aquele o motivo da palidez, Edward decidiu se valer daquele temor.

– Sim senhora Wood – disse duramente. – Entre!

– A cozinheira?! – Elizabeth sentou com as costas eretas, incrédula. – Como nossa cozinheira poderia estar relacionada com um assunto de família? Que tipo de disparate é este?

– A senhora permaneça onde está – Edward se dirigiu à mãe. – Não quero que se machuque caso desmaie mais uma vez, e a senhora... – disse a Sue. – Quero que preste muita atenção ao que ouvirá aqui. Sua permanência nessa casa dependerá única e exclusivamente daquilo que negar, ou admitir. Fui claro?

– Acredito que sim, milord – a senhora disse segura.

– Edward, qual a razão de ameaçar a criada? – a baronesa se mostrava impaciente.

– A senhora já irá saber – falou o barão, erguendo os ombros para finalmente revelar sua versão manipulada dos fatos. Olhava diretamente para a cozinheira, apesar de se dirigir à mãe. – Não menti quando disse que não sabia da criança. Quanto à mãe dela, sim, eu a conhecia, porém muitos anos haviam se passado desde nosso último encontro, ela mudou fisicamente então não a reconheci de imediato.

– Como isso foi possível? – Elizabeth se moveu sobre a cama. – Edward?

O barão foi obrigado a olhar para a mãe, mas sabia que seu recado já havia sido entendido e rogava que a cozinheira continuasse a temer o que viria como percebia no brilho aflito dos olhos escuros.

– Ela era muito nova da última vez que a vi – explicou – e agora... É uma mulher, mais bem cuidada. Simplesmente não a reconheci. A senhora também a conhece mamãe... Provavelmente melhor do que eu.

– Por Deus Edward! O que está tentando me dizer? Como eu conheceria essa mulher que virou a sua cabeça?

– A senhora deve se lembrar de uma amiguinha de Rosalie... – o barão disse por fim, ignorando o comentário; era verdadeiro. – Uma que vivia a correr pela casa.

– Cora? Cora Hupert? – Elizabeth uniu as sobrancelhas sobre os olhos vermelhos. – O que...? – A questão morreu nos lábios entreabertos antes que ela praticamente gritasse, apontando para a janela. – Impossível! Aquela mulher que vi há pouco não pode ser a filha de Jon e Doris Hupert, neta de Sue! Você a chama de Isabella... Não faz sentido!

– Ela trocou de nome depois que deixou essa casa – Edward revelou com uma tranquilidade que não sentia.

– Qual a razão de mudar o nome? Afinal, por que ela foi embora? E como, pelo amor de Deus, vocês dois têm um filho?

– Meu Deus! – foi Sue quem exclamou, levando as mãos à boca, alarmada. – Então é verdade!

– Tem algo a dizer senhora Wood? – Edward a desafiou com o queixo erguido.

– Absolutamente milord... – negou muito trêmula.

– Então não se manifeste até ser questionada – ele ordenou. Voltando-se para a mãe, começou por responder à sua última pergunta. – Sei que ficará decepcionada, mas... Em uma de minhas férias de verão, iniciei um romance clandestino com Cora...

– Edward! – Elizabeth arregalou os olhos. – Como pôde? Sei o que se passa em muitas casas entre os filhos dos senhores e as criadas, mas Cora era nova demais! Quando deixou esta casa tinha em torno de quê?... Quatorze anos!

– Quinze – ele corrigiu, olhando enviesado para Sue, atentando às suas feições. – Eu disse que se decepcionaria. Porém não quero ser julgado. Ela era uma moça bonita, eu não pude deixar de reparar...

– Bonita?! Cora?! Bom senhor! Nem que fosse! Só por que “você” a considerava bonita teve que seduzi-la? – Ao se calar a baronesa maximizou os olhos castanhos para horrorizada acrescentar: – Ou você a forçou?! Por Deus! Diga que não a forçou...

– Não, ele não a forçou – Sue respondeu com voz esganiçada, muito vermelha. – Envergonho-me de dizer que minha neta sempre foi uma desfrutável. Provavelmente foi ela quem o provocou, como...

– Cale-se! – Edward gritou indignado; pouco o importava se com a rebeldia a cozinheira indiretamente o tivesse ajudado. – Se ouvir sua voz mais uma vez sem ter pedido que se pronunciasse eu mesmo a colocarei para fora de minha casa.

– Por favor, parem e me expliquem... – rogou a baronesa. – Se não a forçou, por que ao menos não tomou as devidas precauções. É evidente que estou profundamente decepcionada, mas eu poderia entendê-lo caso tivesse tomado cuidado. Envolver-se com a filha dos criados ao ponto de engravidá-la foi de uma irresponsabilidade inominável.

– Por certo que foi... – ele aceitou o comentário. – Mas não se pode voltar atrás.

– Evidente que não pode... Agora, me explique. Se vocês mantinham esse caso secreto, por que ela foi embora? – a baronesa se mostrara confusa.

– Ao que fui informado, a Sra. Wood descobriu sobre nós e a expulsou, enquanto eu estava em Londres. Durante todos esses anos eu a questionei sobre o paradeiro da neta, porém ela sempre se recusou a dizer o que havia de fato acontecido. Na verdade, ela disse a alguns criados que Cora havia morrido.

– Isso é verdade? – Elizabeth perguntou diretamente para a cozinheira.

– Preste atenção ao que vai responder – o barão sibilou. – Desminta-me.

– Jamais o faria milord... – Sue falou após um instante, agora muito corada. – Eu de fato a expulsei quando... – ela se calou e ergueu os olhos para o patrão que a encarava com uma das sobrancelhas arqueada. Com um pigarro, prosseguiu: – Quando ela me confessou que se deitava com Vossa Senhoria.

– Senhor Misericordioso! – a baronesa levou as mãos ao coração. – E a senhora sabia que sua neta estava grávida quando a expulsou?

– Não milady. Caso soubesse teria eu mesma tratado de resolver esse problema. Não deixaria que nada manchasse o bom nome dessa família que não fez mais do que nos acolher dignamente. Parte meu coração ver o quanto sofre.

Elizabeth imediatamente travou os lábios e apertou os olhos que faiscavam a mirar o rosto da criada. Depois de escorregar para fora da cama lentamente, como uma sombra assustadora, aproximou-se de uma cozinheira assustada e ciciou:

– E acaso acha que eu, algum dia, ser-lhe-ia grata caso dissesse ter tirado a vida de um inocente e me poupasse do sofrimento?

Milady, eu...

– Evidente que não aprovo a conduta de meu filho – ela prosseguiu como se a outra nada tivesse dito –, preferiria que ele nunca tivesse posto os olhos naquela sua neta esquálida ou que no mínimo evitasse emprenhá-la uma vez que não manteve as calças abotoadas, mas em tempo algum eu compactuaria com abortos. Principalmente de uma criança que carregasse o sangue de Edward.

– Senhora, eu... Eu... – Sue correu os olhos alarmados para o patrão, que mirava a mãe, tão surpreso quanto a cozinheira. Olhando de volta para a patroa, gaguejou: – Eu, eu só... Sempre quis o bem desta família... Tudo o que fiz foi com a intenção de ajudar.

– Por que então nunca me contou sobre esse envolvimento? – a baronesa insistiu. – Tenho certeza que sabia se tratar de sua neta quando me mandou avisar o que se passava na minha ausência. Por que ocultou este pequeno detalhe?

– Então foi a senhora?! – Edward se voltou contra a cozinheira aos brados. – Como ousou?! Saia de minha casa imediatamente! Saia!

– Não! – Sue implorou em evidente desespero. Ao cair de joelhos agarrou as saias da baronesa, aos prantos. – Tudo o que fiz foi para ajudar. Não tinha razão para aborrecê-la mais. Eu sabia que vosso filho não tinha reconhecido minha neta. Achei que se ela partisse tudo voltaria a ser como antes. Eu não sabia da criança, eu não sabia...

– Se soubesse por certo a mataria para nos livrar do problema, não é mesmo? – indagou o barão, contendo-se para não arrastar a senhora, porta afora.

– Não, mil vezes não! – Sue gritou para que sua voz saísse pela garganta obstruída. – Interromper uma gravidez ilegítima é uma coisa, tirar a vida de uma criança já crescida é algo que eu jamais seria capaz de fazer. Sou temente a Deus e é por ele que peço. Não me expulsem, sou velha, não tenho para onde ir...

– Há um asilo em Westking que acolhe os desvalidos – Edward retrucou.

– Não, não o asilo! Perdão, perdão! – ela então se atirou ao chão, segurando a barra da calça do barão. – Seja misericordioso com essa velha de pouca instrução, milord!

– Por favor – a baronesa pediu ao filho, voltando às costas para a cozinheira – encerre com esta cena deplorável.

– Venha – Edward se abaixou e segurou a velha pelo braço, para erguê-la. – Levante-se.

– Por favor, milord, não me expulse. Eu morreria longe de vossa casa. Minha vida é para servi-los.

Ao colocá-la de pé, Edward a soltou como se pudesse ser contaminado. Olhando de uma a outra, disse à mãe que ainda se mantinha de costas.

– A senhora é quem decide, uma vez que a acobertou ao ser chamada de volta.

A baronesa nada disse por alguns minutos, aumentando a tensão entre eles. Então se voltou e encarou aos dois, antes de determinar.

– Deixe que fique...

– Obrigada milady! – Sue se lançou sobre a patroa para beijar-lhe as mãos repetidas vezes.

– Tem certeza dessa decisão? – Edward indagou com cenho franzido.

– Ela é uma boa cozinheira – disse Elizabeth, livrando as mãos do ataque da criada. – E posso entender as razões que a moveram. Na vida, principalmente quanto ao que será visto por todos, muitas vezes somos obrigados a agir contra nossas crenças em nome do que se julga certo. Quero acreditar que somente por isso essa infeliz tenha dito que provocaria um aborto. Isso é o que me choca, não o fato de ela ter expulsado a neta e se negado a lhe dizer onde encontrá-la. Então... Se não a julgar por vossas questões pessoais, deixe que volte ao trabalho imediatamente. Não quero atrasos no jantar.

Sue Wood então se voltou para o patrão, sem encará-lo, fungando ao tentar calar seu choro.

– Tenha clemência milord... – pediu num fio de voz. – Por piedade.

Ele não se apiedaria. Por sua vontade faria como dito e, não somente a colocaria para fora, como seria ele mesmo a levá-la até um asilo. Não um em Westking, mas em Wiltshire ou ainda mais distante, nos asilos do condado de Yorkshire. Contudo ela sabia demais, bastaria transformar seu temor em realidade para que ela delatasse toda a verdade; melhor valer-se de sua subserviência à família Masen Bradley e adoração pela função em Apple White, conseguindo ainda sua gratidão.

– Ouviu sua patroa – disse apenas. – Volte para suas panelas.

– Oh milord...

– E não se atreva a tocar-me! – Edward demandou, recolhendo a mão que ela ameaçou segurar. – Ande, volte para a cozinha. E não repita uma única palavra do que foi dito aqui.

– Evidente Lord Edward – ela inclinou a cabeça, novamente embargada, recuando rumo à porta.

Antes que a senhora saísse, Edward fez nova recomendação.

– Não quero ser informado que se aproximou de Isabella ou de meu filho.

Sue apenas maneou a cabeça e saiu, deixando mãe e filho novamente a sós.

– Com que então se deitava com a criadinha? – Elizabeth murmurou sem se voltar, falava como se visse uma cena. – Cora... A criaturinha que vivia agarrada à Rosalie como um carrapato, levando minha doce menina a agir como um menino selvagem a correr pelos pomares.

– Bem sabe que não era assim – Edward a defendeu, tentando acalmar-se, pois uma batalha fora vencida; a próxima era esperar que a mãe assimilasse a novidade. – Rosalie era mais velha e já corria pelos pomares antes que os pais de Isabella viessem trabalhar para nós.

– Que seja! – retrucou a baronesa. – Culpada ou não pelo comportamento inadequado de minha filha, essa que hoje chama de Isabella nunca passou de nossa criada. Ou ao menos eu tentei fazer dela uma que se aproveitasse alguma coisa. Ela era magricela, os cabelos assemelhavam-se a um ninho... O que, em nome de Deus você poderia ter visto nela?

Então Elizabeth se voltou para encará-lo. Edward se manteve calado, sendo ele o necessitado de assimilar o que ouvia. As palavras da mãe casavam às de Isabella ao afirmar que não era bonita. O que, em nome de Deus “seu pai” poderia ter visto nela, repetiu a pergunta para si.

– Acaso olha-se no espelho com frequência? – Elizabeth indagou, aproximando-se para tocar o rosto do filho, alheia ao que se passava em seu íntimo. – Você se tornou um homem tão bonito! É dedicado ao que faz, é culto, educado... O genro desejado por todos os pais. Com exceção ao Sir Carlisle, não houve um nobre ou cavalheiro que não tenha se mostrado entusiasmado em unir suas filhas a você. A própria rainha Vitória o admira e tenho certeza de que faria muito gosto caso se associasse a filha de um Duque, de um Conde, aumentando assim o seu prestígio. E o que fez? Colocou esse futuro promissor a perder, por uma criadinha insossa. Para atender suas necessidades masculinas com quem estava a mão. Há casas aqui perto onde se pode fazer o mesmo sem assumir riscos.

– Avise-me quando encerrar essa sucessão de asneiras – Edward pediu duramente; estava claro que a mãe já havia se recuperado do susto.

– Respeite-me Edward! – ela ralhou, recuando um passo, aviltada.

– Retribua respeitando também a mim – ele retorquiu. – Acaso escuta o que diz? Nunca aceitei os casamentos que a senhora e... meu pai insistiam em arranjar justamente por essa razão. Não quero “arranjos”, “associações”. Quero uma união que me satisfaça plenamente além do que devo apresentar nos salões. Quero estar com alguém que amo.

– E por certo ama a criadinha – não foi uma pergunta. – Eu vi o estado lastimável que ela o deixou. A insensível! Acredita ser correspondido? Ela esteve aqui o enganando todo o tempo, pois se apresentou com nome falso. Deitou-se novamente com você ocultando que possuíam um filho. Sinceridade e lealdade não contam nessa sua visão de união perfeita?

– Isabella apresentou seus motivos e eu os aceitei – ele não precisava dizer tudo.

– Razões para enganá-lo? – Elizabeth escarneceu. – Razões para manter uma criança em segredo? O que a fez mudar de ideia e voltar? Ela resolveu tirar alguma vantagem? Cobrar com juros o que não teve durante todos esses anos?

– Acredite senhora, por ela eu jamais saberia de meu filho – a palavra saia tão mais fácil, Edward reparou. – Se está aqui hoje é por que eu praticamente a forcei.

– E mais essa agora! – a baronesa exclamou aborrecida. – Quem a criadinha pensa que é para desprezar o barão de Westking? Você é o melhor homem que poderia aparecer na vida de uma mãe solteira, sem dote, sem família, provavelmente sem instrução. Se foi preciso forçá-la eis a prova de que não o corresponde. Deus, como eu a desprezo!

– Por favor, não repita isso – Edward pediu, segurando-a pelos ombros, arrependido de sua colocação. – Acredito nos sentimentos que ela me declara e não vou deixar que ela se vá, então preciso que convivam em paz. Lamento que não aprove, mas vou fazer o que “eu” considero certo. Vou me casar com a mãe de meu filho, e gostaria que pudessem ser amigas.

– Não me peça o impossível – a mãe se desvencilhou das mãos do filho e se afastou. – Acho que a cor de minha roupa representa bem o que sinto. Quando decidi guardar luto pelo futuro que você estava enterrando, não poderia imaginar o quanto estava certa.

– Então manterá o luto? – Edward resolveu usar as palavras ditas pela mãe em seu favor. – Enterro meu futuro ao desejar conviver com meu filho, agora que o descobri?

Os olhos da baronesa brilharam perceptivelmente, encorajando o barão a ir além.

– Um menino tão bonito e educado. Provavelmente parecido comigo mesmo quando tinha a mesma idade... Talvez eu devesse mandá-lo de volta ao internato onde vivia em Londres. Talvez eu devesse providenciar para que a senhora nem mesmo o veja uma segunda vez.

– Não – Elizabeth o calou, entendendo a mão como se o filho fosse fazer todas aquelas coisas naquele instante. – O menino não tem culpa de nada, muito menos de ser filho de quem é. Ao menos ela teve a decência de enviá-lo para onde pudessem educá-lo corretamente, não o criando ela mesma para não transformá-lo num selvagem.

– Sendo assim, o que devo fazer? – Edward repassou a responsabilidade da decisão para a mãe; mesmo que teoricamente. – O menino a adora e jamais ficaria aqui sem a mãe.

– Assim como você não ficaria. Sei disso sem que fosse preciso salientar – replicou a mãe, olhando-o de viés. – Pelo pouco que vi, entendo o que o atrai. Não há um único traço, além da cor dos cabelos que a ligue à minha antiga criada. Tremo ao imaginar como ela se manteve por esses anos, mas é inegável que se tornou uma linda mulher. Banhada e arrumada deve ser uma visão deslumbrante.

– Ela é... – Edward admitiu intimista, sentindo intensificar a vontade de vê-la; queria agora resolver suas questões pendentes.

– Pois bem... – a baronesa por fim aquiesceu. – Essa sua união será um escândalo, mas não serei eu a condená-lo uma vez que se mostra tão decidido e satisfeito em ter aquela mulher sob seu teto. Você a ama, está claro. Tenho minhas dúvidas quanto aos sentimentos “dela” e na verdade não me importam. Odiarei vê-lo sofrer caso não seja correspondido, mas é senhor de seus atos.

– Obrigado por compreender. – Edward disse apenas; estava exausto.

– Não me agradeça por assistir inerte o espetáculo que está prestes a começar e não me peça uma segunda vez para ser amiga daquela criatura. Serei apenas educada, pois não é menos do que de fato sou. Agora...

– Sim? – o barão indagou ao vê-la se calar abruptamente, receosa.

– Eu gostaria de ser apresentada ao meu neto... – seus olhos brilharam vividamente. – Poderia trazê-lo até aqui?

– Não seria o caso de deixar esse encontro para amanhã? – Edward sugeriu. – Não sofreu emoções demais por esse dia?

– Já desmaiei uma vez, não se repetirá – ela retrucou agora ansiosa. – Quero vê-lo de perto, escutá-lo.

– Está bem... – ele anuiu. – Irei ver como ele está; se já se banhou e descansou, então o tratei, mas quero um favor em troca.

– O quê? – ela indagou aflita. – Não acha que irei destratá-lo, não é?

– Não... Bem vi como o defendeu da sanha assassina da bisavó – ele observou orgulhoso. Antes que a mãe se pronunciasse, pediu. – Quero que encere esse luto despropositado. Sempre é tão bonita em suas roupas normais. Não quer que seu neto tenha uma melhor impressão além daquela de vê-la desmaiada. Pelo pouco que o conheço, ele deve estar preocupado.

– Preocupado? – Elizabeth se comoveu. – Comigo? Ele seria assim amável?

– A senhora verá que ele pode ser muito mais do que amável? – Edward sorriu; era mesmo inevitável.

– Trocarei de roupa! – ela exclamou subitamente ativa, tratando de tocar ela a sineta também a gritar. – Amy! Venha depressa sua molenga! – Para o filho pediu, empurrando-o para fora do quarto. – Dê-me meia hora e o traga. Estarei esperando.

Ao ser expulso do quarto o barão não pôde evitar novamente sorrir, daquela vez em alívio. Outra batalha fora vencida. Infelizmente não poderia esmorecer, pois as piores ainda estavam por vir, mas ao menos o menino já era aceito. Quando a baronesa se rendesse definitivamente, todas as outras barreiras seriam mais fáceis de transpor.

Erguendo os ombros, Edward seguiu rumo ao quarto que daquele dia em diante seria de sua noiva, em tempo de ver Marie e Amy vir apressadas pelo corredor.

– A baronesa deseja apenas a ajuda de Amy – informou o nobre, detendo a governanta. Ao ficar somente com ela, indagou. – Onde Isabella está?

– Ainda com o vosso filho milord, no quarto que mandou reservar para ele. Os dois estão lá desde que chegaram – informou sem encará-lo. Antes que o patrão se fosse, pediu: – Gostaria de renovar meu pedido de desculpa milord... Jamais poderia imaginar que ela... que esse menino...

O gaguejar vacilante recordou algo importante ao barão, que estacou. Marie sabia da verdade; havia lido a carta onde Isabella se apresentava. Mais até, escondeu-a para protegê-lo de algo que fazia parecer horrível. E ainda ocultava um segredo. Seria possível, que...

– Sabe que ele não é meu filho – disse num murmúrio contido, segurando-a pelo braço para afastá-la do quarto da baronesa. Ao chegar a um canto onde veria qualquer aproximação, ciciou: – Acaso era esse o segredo que alega não poder revelar? A senhora foi a única que me ajudou nos últimos momentos de meu pai. O que ele lhe disse?

– Por favor, milord...

– Sabe sobre eles dois, não é mesmo? – Edward a cortou, sem medo de estar expondo sua noiva, agitando o braço que ainda segurava. – Acaso ele lhe disse alguma coisa referente à Isabella? O barão lhe contou se mantinham um caso ou se... Ele a forçou?

Como não pensou antes em obter aquela resposta com a criada? Era evidente que ela sabia a verdade. Maldita fosse sua ira que o cegava completamente ao voltar do Jardim.

– Responda! – ele ciciou, novamente chacoalhando-a. – Meu pai lhe fez alguma confissão?

– Não milord... – Marie respondeu por fim, assustada. – Vossa Senhoria não confessou coisa alguma para mim, eu apenas ouvi o que não devia, mas fiz um juramento, em nome de Deus de nunca revelar, então, por Ele, não me obrigue a quebrar esse voto sagrado. E, por favor... Meu braço...

Edward então a soltou. Exasperado correu as mãos livres pelos cabelos, desgrenhando-os mais. Queria segurar aquela mulher pelos ombros e chacoalhá-la de verdade até que arrancasse toda a verdade, mas não era de sua natureza ser tão rude e decididamente não iria contra “Ele”, justamente quando tudo por si só se encaixava.

– Está bem... – o barão deu um passo atrás. – Guarde seu precioso segredo para si. Aliás, todos os segredos, principalmente este que agora me envolve. Já que é tão temente, jure por Deus que nunca dirá uma palavra sobre o menino.

– Partindo de mim, ninguém jamais saberá de nada milord – Marie assegurou apressadamente. – O menino é vosso filho. Até se parecem. A semelhança nunca deixará que se nasçam dúvidas.

– Assim espero. Agora vá!

Dispensando-a, Edward novamente correu os dedos pelos cabelos. Sem sair do lugar, respirou pausadamente até acalmar-se, somente então retomou seu caminho, indo até o quarto de Embry. Entrou após duas batidas contra a porta, sem esperar resposta.

– Olá... – disse escrutinando o cômodo.

O nobre avistou seu “filho” e sua noiva sentados junto à escrivaninha, diante de uma bandeja guarnecida de bolo, pães, xícaras, bule e leiteira; além de mel e do pote com os torrões de açúcar.

– Entre – Isabella o liberou tardiamente, reparando que, assim como ela, ele não havia se trocado.

– Senhor... – Embry o olhava avaliativo; livre de rancor. – Como está minha avó?

– Está bem – Edward sorriu levemente. – Acordou do mal súbito e agora deseja vê-lo.

– Edward?! – Isabella se pôs de pé de imediato, segurando o filho pelos ombros; defensiva. – Não creio ser boa ideia.

– Não se preocupe – ele manteve o sorriso para tranquilizá-la. – Já expliquei toda a situação. Minha mãe se mostrou afável quanto a ele.

– Afável? – ela ergueu uma sobrancelha; incrédula.

– Quanto a “ele” – Edward pontuou. – Meu filho.

– Ah... Entendo.

A moça retirou as mãos do ombro do menino. Um neto seria tolerado, o mesmo não se daria com uma futura nora. Aceitável, Isabella determinou.

– Sua avó deseja vê-lo – Edward falou para Embry –, mas, por hoje, faremos o que você determinar. Se estiver cansado da viagem, poderemos deixar esse encontro para amanhã.

– Também quero vê-la – Embry anunciou. – Nunca tive uma avó. Somente Sir Carlisle, mas ele não é nosso parente. E tia Angela, que também não é...

Edward e Isabella se entreolharam alarmados. Coube ao barão interrompê-lo.

– Escute – pediu, tocando o chão com um joelho e apoiando os braços sobre o outro ao lado da cadeira do menino para que ambos ficassem na mesma altura. – Quero lhe pedir um favor... Não! Na verdade, quero propor um jogo. Até que eu ou sua mãe o liberemos, não poderá citar Sir Carlisle novamente. Se o fizer você perderá.

– Eu não quero perder – Embry falou num muxoxo. – O que eu ganho se vencer esse jogo?

Edward pensou rapidamente, então prometeu:

– Se vencer esse jogo, eu o levarei até Westking para conhecer a loja onde sua mãe lhe comprava aqueles caramelos que ganhou e que até hoje guarda as embalagens.

– E eu poderei ter mais caramelos? – Os olhos infantis brilharam.

– Mais caramelos, bombons. Quantos desejar... Mas para tanto, não poderá citar Sir Carlisle sem nossa permissão. E também... – acrescentou rapidamente – não deve comentar nada a respeito de sua tia Angela, as amigas de sua mãe ou Sam.

– Nenhum deles?

– Nenhum deles – Edward reforçou.

– Quando começaremos o jogo? – Embry indagou, focado em vencer.

– Agora. – Edward respondeu se pondo de pé. – Termine seu chá antes que eu o leve até sua avó.

Isabella apenas manteve os olhos alarmados em Edward. Seria inevitável delatar o envolvimento do seu amigo, porém a certeza não mitigava a aflição, somente a aumentava. Ela reconhecia que também a arreliava não saber até onde foi dito a baronesa. Gostaria de interpelar o barão a respeito, no entanto, apenas assistiu o menino terminar a refeição e se erguer, animado como ele só, para conhecer a avó que nunca teve.

– Não vem conosco senhora? – ele perguntou enquanto ela alisava o casaco de lã que lhe colocou após o banho e, realinhava o penteado.

– Não meu querido – ela o beijou na bochecha. – Vou aproveitar que estará com seu pai e sua avó para me refrescar. Ainda nem estive no quarto de... – ela se calou ao receber um olhar inquiridor do barão. – Ainda nem estive em meu quarto – corrigiu-se.

Embry então torceu o canto da boca; incerto. O barão lhe tocou o ombro encorajador.

– Eu estarei lá – disse, mesmo sem pretensões de ser comparável à mãe. – Deixe que sua senhora descanse da viagem.

– Nero pode ir conosco?

– Não creio que sua avó vá querer dividir sua atenção com Nero – o barão negou com diplomacia. – Agora vamos.

O menino ainda titubeou, porém se deixou levar. Isabella tratou de barrar o galgo que se animou a segui-los. Edward então guiou o menino pelos corredores, até o quarto de sua mãe. Estava de fato exausto, ansiando por um banho e por um instante a sós com Isabella para resolver a questão reservada ainda na boleia, mas não poderia deixá-los sozinhos.

– Entre! – Elizabeth pediu após as batidas do barão.

Edward fez Embry entrar a sua frente, e o acompanhou com a mão em seu ombro, transmitindo-lhe segurança enquanto se aproximavam da senhora sentada sobre o sofá, junto à janela.

Como dito, a baronesa havia trocado a toalete, apresentando-se em um de seus vestidos preferidos, azul escuro, enfeitados por discretas rendas. Ela estava bonita como o filho salientou, sendo o brilho nos olhos castanhos a contribuir para a harmonia da composição.

Embry avançava aos empurrões, talvez acanhado ou sentindo a ansiedade palpável vir daquela mulher que não conhecia. O fato é que o menino estava praticamente enterrado entre as pernas do barão quando ambos pararam diante da baronesa. Esta agia como Isabella ao ver o menino no internato, era como se seu próprio filho não estivesse presente.

A admirada avaliação era minuciosa e lenta, indo desde o cabelo castanho, o casaco azul, as calças curtas xadrez, as grossas e longas meias e os sapatos lustrados. E todo esse percurso foi refeito até que Elizabeth novamente escrutinasse o rosto do menino. Antes que dissesse qualquer palavra, seus olhos marejaram e ela travou os lábios, como se assim contivesse o pranto.

– A senhora está doente? – Embry perguntou preocupado, finalmente desencostando-se do “pai” para tocar o canto de um dos olhos da baronesa.

Ela somente maneou a cabeça, apertando os lábios ainda mais; falhando em reter duas lágrimas.

– Se não está doente – observou o menino – por que desmaiou e agora está chorando?

– Tolices de uma velha – ela conseguiu externar, tentando sorrir.

– Mas a senhora não é velha. – Embry negou também com a cabeça. – Seu cabelo nem é branco vovó.

Elizabeth arregalou os olhos, levando as mãos ao coração, tão vermelha que Edward se arrependeu de ter liberado o menino a nomeá-la daquela forma. Ele se Preparava para socorrê-la quando ela sorriu em meio às lágrimas que não mais represava e pediu ao menino, separando os braços.

– Eu poderia ter um abraço?

Como fez nos primeiros momentos em que não sabia como agir e pedia permissão com o olhar para sua mãe, Embry procurou pelos olhos de Edward, incerto. Somente quando o barão liberou com um aceno de cabeça o menino se aproximou mais, deixando que a baronesa o prendesse num abraço, passando então seus braços pequenos ao redor do pescoço da chorosa senhora.

– Este é você! – Elizabeth disse para o filho, ainda abraçada ao menino. – É você quando tinha o mesmo tamanho. É como se o tempo me pregasse uma peça e eu tivesse as duas versões de meu filho bem aqui comigo.

Edward não soube o que responder; a culpa anterior voltando com força por iludi-la. Não seria apenas degradante caso sua mãe descobrisse a verdade, como Isabella comentou, seria aniquilador. E ele, jamais seria perdoado. Ainda sem nada dizer, apenas assistiu sua mãe afastar o novo neto para tocar cada pedaço do rosto pequeno.

– Seus olhos são tão azuis... Mais escuros do que os de seu pai.

– Os seus são mais claros do que os de minha senhora – Embry imitou o comentário.

– Senhora dele...? – Elizabeth perguntou a Edward, confusa.

– É como ele chama a mãe... Um hábito – o barão banalizou a situação. – Com o tempo ele a perderá.

– Ah, sim... A mãe – a baronesa falou com desagrado. Este, porém, durou um segundo, logo ela novamente sorria para o neto, ainda o tocando, agora nos cabelos. – Bem, devo dizer que você é um rapazinho encantador. Obrigada por não me considerar uma velha. Agora acho que devemos nos apresentar corretamente. Como se chama?

– Embry Edward Masen Bradley – disse o nome inteiro, mostrando ao barão que havia decorado como esperado e causando nova comoção na avó.

– Embry é o nome de meu pai, seu bisavô – ela comentou embargada.

– Eu tenho um bisavô? De verdade?

– Não meu querido... – ela negou após um pigarro. – Ele já não está entre nós, mas ficaria muito feliz em conhecê-lo. Quem lhe deu esse nome foi muito feliz na escolha – salientou erguendo os olhos para o filho, como se fosse dele a iniciativa.

– O mérito é da mãe dele – esclareceu o barão. – E agora que já se conhecem, que tal os dois descansarem antes do jantar. Amanhã poderão conversar um pouco mais. Preciso ir até meu quarto. Se Jacob me preparou um banho, este há muito está perdido.

– Não! – ela rogou. – Vá tomar seu banho e descanse da viagem. Deixe Embry aqui comigo.

– Não hoje – o barão negou resoluto; não seria prudente deixá-los a sós. – A senhora já teve emoção demais por um dia, lembre-se do quão fraco é seu coração. E Embry precisa de descanso para assimilar tantas novidades.

– Eu não sei se a senhora sabe – o menino falou ainda sem se mover –, mas agora eu moro aqui. Tenho até um quarto! Iremos nos ver todos os dias. Acho que devemos obedecer assim nos veremos sempre.

– Sábias palavras... – Edward elogiou, deixando-se contagiar pela inocência da criança.

– Por favor, deixe-o... – implorou a baronesa, fazendo como a mãe do menino, ajeitando o casaco que moveu durante o abraço. – Eu cuidarei dele enquanto você e sua “noiva” descansam. Aliás, posso ficar responsável pelo meu neto. Nós poderemos nos conhecer melhor agora e depois eu providenciarei para que seu jantar seja servido em seu quarto e lhe farei companhia até que seja hora do jantar dos adultos.

– Mamãe, eu não sei se será uma boa ideia. Eu já iria pedir à Sra. Channing que contratasse uma preceptora e...

– Por favor! – Elizabeth o cortou. – Sei que é comum nas outras casas, mas não nesta. Eu não precisei de uma quando vocês eram três, imagine se não dou conta de cuidar de meu neto. Está decidido. Embry é minha responsabilidade, não me prive desse prazer.

Edward ficou sem ação, sendo como Isabella ao prever o futuro próximo onde haveria uma acirrada divergência de interesses; assim como o menino imaginou ter a mãe só para si, a moça deve ter imaginado o mesmo. Com a constatação, o barão apertou a ponte do nariz, sentindo a primeira pontada de uma dor de cabeça que, talvez, se tornasse intermitente.

– Aceito por hora – disse por fim. Ainda não era seguro confiar no jogo proposto, porém, levar o menino apenas adiaria uma situação que logo seria corriqueira. – Deseja ficar aqui Embry?

– Se o senhor ou minha senhora não se importar...

– Não nos importamos – assegurou o barão, antes de seguir rumo à porta. – Comporte-se.

– Sim senhor...

Ao fechar a porta Edward ainda flagrou um novo olhar de adoração de sua mãe para o neto. Sim, seria aniquilador caso ela descobrisse. Naquele instante o barão entendeu um pouco mais as atitudes cruéis de Isabella. Tratava-se de uma escolha ruim em meios às piores. Uma que faria sofrer, mas que, talvez, causasse menor estrago. E, sim, doía em quem manipulava o destino alheio.

Com esse sentimento o barão caminhou a passos largos até seu quarto. Precisava falar com a moça. Antes do jantar se possível, mas naquele instante daria sua vida por um banho.

– Até que enfim! – Jacob se pôs de pé tão logo o barão entrou. – Seu banho amornou. Se desejar eu posso mandar subir mais água quente.

– Deixe como está! – negou o barão, conferindo às horas; ainda teria muito tempo caso não remanchasse. – Pode ir para sua casa, posso cuidar de mim mesmo.

– Tem certeza? – Jacob se mostrou tentado. – Não quer que eu espere até que termine seu banho?

– Não... Já fez o bastante por hoje. Vá descansar... Somente me faça o favor de garantir que Isabella esteja no quarto dela daqui a meia hora, sozinha.

– Assim o farei... – o moreno moveu a cabeça, porém não saiu quando o barão começou a se despir. – Como está a baronesa?

– Cuidando do neto – Edward respondeu, sentando-se sobre a cama para retirar aos sapatos. Parou a ação para observar, admirado – É algo extraordinário como aquele menino nos conquista!

– Bom que seja assim – Jacob comentou. – Com todos rendidos será difícil rejeitá-lo caso...

– Não complete! – Edward o interrompeu, pondo-se de pé para voltar a se despir. – Nem em pensamento. Ninguém há de rejeitar “meu” filho.

– Já o assumiu de verdade, não é? – o moreno indagou, analisando o patrão. – Foi o primeiro a ser conquistado!

– Fui – o barão admitiu sem receio, coçando o queixo espinhento, recordando os comentários do menino. – De uma forma que jamais imaginaria ser possível, ainda mais sendo ele filho de quem é.

– Acho que deve seguir sua própria recomendação Sir Edward. Esqueça-se desse detalhe. O menino é vosso agora.

– Tem razão... – Edward correu as mãos pelo cabelo, sua cabeça agora latejava.

– Vosso de um jeito que até se assemelham no gênio – Jacob troçou. – Vai me contar o que fez para que ele o olhasse daquela forma?

Apesar da dor de cabeça, Edward sorriu. E então riu, divertido, como há muito tempo não fazia.

– Ele está com ciúme de mim! – revelou, rindo mais, levando seu criado a franzir o cenho. – “Embry” está com ciúmes de “mim”.

– Certo, acho que precisa mesmo de um banho – Jacob falou, indo para a porta. – Está incoerente. Entendo ele ter ciúme, mas não vejo onde possa estar a graça.

– Sim, deixe-me – Edward não explicaria as agruras pelas quais passou hostilizando certo “amante meloso” –, mas antes, me diga como correu tudo na minha ausência. Notei sua seriedade quando comentei Apple White, ainda na estação.

– Nada aconteceu Sir Edward – Jacob assegurou. – Minha seriedade era quanto vossa mãe. Ela não se conformou com vossa viagem, crivou-me de perguntas... Evidente que eu nada disse. Então, ontem apareceu enlutada. Eu deveria tê-lo alertado, perdoe-me.

– Não há o que desculpar – Edward o eximiu enquanto baixava o suspensório; suas faltas eram piores. – E se era somente isso...

– Tem mais uma coisa... – Jacob o interrompeu titubeante, mirando o chão.

– O que houve? – o barão parou sua ação para encarar o criado. – Fale. É ainda com minha mãe?

– Bem... Não exatamente – titubeou. Ao erguer os olhos e notar o olhar incisivo do patrão, Jacob revelou a um só fôlego. – Senior Zimmer esteve aqui a vossa procura, mas acredito que sua real intenção era visitar vossa mãe. O cavalheiro até mesmo trouxe flores.

– Flores?! – Edward maximizou os olhos azuis; incrédulo.

– Sim – Jacob confirmou –, mas a baronesa não o quis receber. Tratou-o como se ele estivesse aqui por Vossa Senhoria e mandou que voltasse em dia mais apropriado, quando já tivesse voltado de viagem.

– Mais essa agora – o barão passou a desabotoar a camisa, contrariado. – O que aquele senhor tem em mente?

– Realmente não sabe Sir Edward? – Jacob o encarou sugestivo, erguendo uma das sobrancelhas, já livre do breve embaraço.

– Acredito que por hoje eu realmente não precisarei mais de seus serviços. – Edward o dispensou com simulada indiferença, sem responder-lhe. – E não se esqueça de pedir a Isabella que fique em seu quarto.

– Assim o farei – ele finalmente abriu a porta, para desejar com seriedade, talvez para não arreliar mais o patrão. – Tenha uma boa noite Sir Edward... E boa sorte com o que virá.

– Amém!

A palavra saiu ruminada antes que Edward arrancasse fora a camisa e terminasse de se despir. Ao entrar na tina, liberou um impropério, mais pela novidade do que pela água estimulantemente fria. Parecia que o universo conspirava contra ele, pois para cada questão minimamente resolvida, uma nova surgia.

Não era tolo. Já havia notado o interesse de seu vizinho, mas jamais imaginou que ele se atrevesse a cortejar sua mãe. E isto, quando ele nem mesmo estava em casa. Seria preciso acabar com o disparate o quanto antes. Somente não se irritaria mais por saber que a baronesa não se mostrou inclinada a aceitar tamanho descaramento.

Com Senior se entenderia depois, Edward determinou apertando as têmporas. No momento bastava o temor de que Embry esquecesse o “jogo”, e a ansiedade de estar com sua noiva. Sua curiosidade aumentava a cada instante, acerca de “senhora”, assim como a vontade pura e simples de estar com ela longe dos olhos acusadores do menino. Àquele pensamento o barão sorriu, a despeito da dor que alfinetava sua cabeça. A cumplicidade nascida entre eles se revelou ser extremamente estimulante, dissipando ainda mais a nuvem já não tão densa, nem tão escura.

Notas finais
Bom... O que acharam? Por favor, me contem... Tenham um lindo domingo amanhã e até mais... Tenho que correr para providenciar mais de nosso barão... Bjus meus amores...