Borboleta Negra

58 Capítulo Vinte e Seis - Parte II


Notas iniciais
Oie... Como foram de virada? Espero que todas bem e que possamos ter mais um ano juntas. Obrigada pelos reviews do último capítulo, novamente me desculpem por não responder a todas. Obrigada cassisilene pela linda recomendação... ADOREI!... :D Agora vamos a mais um capítulos... BOA LEITURA!

Impossível se zangar com alguém tão pequeno, com aquela face de anjo, dormindo tranquilo ao lado. Exalando um novo suspiro, Isabella lamentou ser preciso acordar o menino para que se aprontassem. Por ela poderia ficar horas a velar-lhe o sono, admirando a beleza infantil. Também gostaria de protelar o encontro entre os dois homens de sua vida. Sabia que Embry não seria malcriado com Edward uma segunda vez, mas tinha a impressão que a “amizade” estaria visivelmente abalada depois de flagrá-los na noite anterior.

Sim, a culpa era sua, não importando o que dissesse o barão. Ela jamais poderia ter assediado seu noivo daquela maneira num cômodo onde o menino estivesse. Todo o problema era ser capaz de resistir a Edward quando estavam próximos, conversando sem o peso completo da tensão. Paciência, ela pensou resignada. Sem dúvida voltariam ao zero, agora com Embry a compartilhar o distanciamento.

– Acorde seu pequeno dorminhoco... – ela o chamou por fim, soprando os cabelos castanhos, caídos sobre a testa pequena.

Embry bateu contra o próprio rosto, franzindo o cenho com o incômodo, levando sua mãe a sorrir e novamente soprar-lhe a testa. Quando o menino, arreliado, novamente tentou espantar o que perturbava seu sono, finalmente acordou. A confusão ao encarar a mãe durou um segundo, antes que sorrisse.

– Eu não sonhei... – ele murmurou contente, espreguiçando-se.

– Não meu querido, não sonhou... Estamos indo para casa e é hora de levantar – disse comovida, sem se mover.

– Podemos ir para sua casa? – Embry indagou, apagando o sorriso. – Meu pai poderia nos visitar de vez em quando.

– Pensei que tivesse gostado dele – Isabella arriscou, escrutinando os olhos azuis, temendo que sua ação impensada tivesse verdadeiramente arruinado a frágil confiança infantil. – Eu me enganei?

– Não – o menino mordeu o lábio, incerto. – Gosto dele, mas como disse para a senhora, não gosto que sejam amigos. E ontem ele...

– Ontem estávamos somente conversando – ela o cortou gentilmente. – Eu disso isso várias vezes antes que você dormisse. Por que não acredita?

Embry abaixou os olhos para um ponto qualquer entre o queixo e o colo da mãe. Isabella não saberia dizer o que a alertou, pressentimento talvez, de que algo maior estava errado.

– Embry, olhe para mim – pediu um tom mais firme. – Por que não acredita?

– É que... – ele novamente mordeu o lábio antes de prosseguir, encarando-a. – Às vezes eu penso que sonhei...

– Que sonhou com o quê? – a jovem indagou, o coração acelerado.

– Com um senhor... No corredor de nossa casa... Que segurava a senhora do mesmo jeito... E ele estava machucando... A senhora gritou com ele...

Ao final da narrativa hesitante, Isabella odiou Laurent ainda mais. Nunca imaginou que Embry pudesse ter visto mais do que ela caída no quarto, depois da agressão, porém fazia todo o sentido. Não era estranho que ele confundisse as lembranças, visto que era muito pequeno quando tudo aconteceu, ainda assim a moça se surpreendia, pois gostaria que ele simplesmente não recordasse de nada daquele passado infeliz.

Surpreendente também era saber que ele esteve fora de sua cama, vagando pelos corredores do bordel sem que ela o visse. Se já se recriminava, considerou uma mãe ainda pior. Como não poderia voltar no tempo, nem explicar algo sórdido para um menino de sete anos, reforçou a teoria.

– Você sonhou querido. Nunca ninguém me segurou daquela maneira. E se tivesse acontecido, não estaria me machucando, pois como disse, eu e seu pai apenas conversávamos. Acredita em mim?

– Acredito... – ele murmurou, sem convicção.

– Melhor assim! – Isabella exclamou, levantando para encerrar o assunto. – Agora deixe de preguiça e venha se vestir. Em breve chegaremos.

Embry riu divertido quando ela o puxou para fora da cama. Deixando que o som contagiante acalmasse seu coração, Isabella aproveitou mais um pouco daquele momento novo, não único graças a Edward, de cuidar de seu pequeno. Esquecendo o que passou e, rogando apenas para o menino não se fechasse para o “pai”.

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Contrariando seu pensamento ao deitar, sozinho, com o corpo frustrado, Edward adormeceu quase que de imediato para despertar somente na manhã seguinte. Enquanto se aprontava para o desembarque, remoia sua inaptidão com crianças e reprovável conduta. Fora irresponsável ao se render à sedução de Isabella estando ao lado de Embry. Recordando o olhar assombrado e depois acusador do menino, reconheceu que seriam necessárias muitas histórias de Yasmim e Kalil para que fosse aceito.

Esperar não lhe importava, pensou ao ajeitar sua gravata, e, sim, saber que o passo dado no dia anterior, tivesse recuado tão rapidamente. Não poderia culpar a criança, ainda mais sabendo de suas péssimas lembranças. E para bem de seus pecados Isabella se lamuriou, induzindo-o ao erro.

Paciência, o barão demandou a si mesmo, ao vestir seu colete. De seus males, ser afastado por seu “filho” era o menor. Deveria ocupar sua mente com o pedido de sua noiva. Não lhe agradava permitir que fosse ao maldito Jardim, mas havia dado sua palavra; agora era cumprir o prometido e encontrar uma forma de deixá-la ir até a casa.

Com um bufar exasperado, Edward reconheceu que ser paciente não seria uma de suas qualidades imediatas. Contrariado pela pronta rendição que o tornou permissivo, o barão terminou de se vestir e organizou sua maleta antes de deixar a cabine, levando seus pertences. Cumprimentou com um movimento de cabeça, dois senhores que passavam ao largo e se pôs diante da porta vizinha. Bastaram dois toques para que Isabella lhe permitisse a entrada. Ao fazê-lo ainda flagrou o sorriso tímido de Embry enquanto a mãe terminar de vesti-lo, antes que este minguasse.

– Bom dia! – cumprimentou a ambos, deixando sua maleta, cartola e bengala sobre a cama desfeita.

– Bom dia! – Isabella retribuiu antes de olhar incisivamente para a criança.

– Bom dia senhor... – Embry respondeu, num murmúrio, mirando o chão.

– Tudo está pronto? – Edward indagou, relevando a seriedade do menino.

– Sim – Isabella respondeu apontando a bagagem.

– Bom... Em alguns minutos chegaremos, mas teremos tempo para o desjejum.

– Sendo assim, podemos ir então. – Isabella anunciou, sorrindo-lhe timidamente antes de correr as mãos uma última vez pelo veludo azul do casaco recém abotoado de Benjamim.

Edward apenas moveu a cabeça em assentimento e saiu para esperá-los no corredor. Tão logo mãe e filho se juntaram a ele, seguiram até o vagão restaurante em silêncio. Este perdurou durante a refeição, porém, para alívio dos adultos, a tensão que esperavam estar de volta, se apresentou atenuada. Vez ou outra os olhares se cruzavam, no entanto, Isabella não sentia o desejo quase urgente de baixar as pálpebras imediatamente, sustentando o olhar azul do barão por segundos inteiros antes de tranquilamente desviar os olhos para o menino.

Na terceira vez que a ação ocorreu, Edward especulou se sua noiva temia ser flagrada a olhá-lo e conseguiu ver certa graça no cuidado. Os olhares seguintes ganharam novo teor depois que sorriu para ela discretamente e foi correspondido. Era como se partilhassem algum segredo. Talvez viesse dali a inédita tranquilidade; o erro da noite anterior os tornou cúmplices.

Contagiado por aquela impressão, o barão resolveu dar-se uma trégua, pois simplesmente estava exausto de duelar com pensamentos e cismas que, infelizmente, não tinha como dissolver por si só. Evidente que ainda o aborrecia ter que deixar Isabella voltar ao Jardim, mas se fosse frio, aceitaria que de todos os males, aquele também seria um dos menores. Com sua resolução, mesmo com Embry a ignorá-lo, o café da manhã se deu de forma agradável.

– Desejam algo mais? – Edward perguntou ao final da refeição.

– Não, obrigada... – disse Isabella.

Embry apenas moveu a cabeça negativamente, os olhos postos no prato. Se ele entoou alguma reza, esta foi silenciosa como antes de começar a comer.

Satisfeitos, ainda ligados pelo silêncio conspirador, o casal retornou à cabine, com o menino sempre entre eles, a segurar a mão de sua senhora possessivamente. Até mesmo aquele cuidado foi capaz de divertir o espírito de Edward, ainda que lamentasse a falta dos tímidos sorrisos, das perguntas ansiosas. Sim, não seria fácil. Teria que conquistá-lo. Consolava-o ter a certeza que, quando acontecesse, valeria à pena.

Uma vez acomodados no interior da cabine, na borda do colchão, Embry enlaçou a mãe pela cintura e manteve o rosto contra seu peito, os olhos fechados. Sentado na poltrona em frente, o barão ficou livre para analisá-la, sem se importar com a possessividade infantil. Isabella por sua vez encarou-o corajosamente, tentando atinar o que havia mudado.

Presos na mútua avaliação, nem sentiram o passar da hora até que soubessem da chegada iminente pelo apito do trem, e a significativa redução da velocidade.

– Chegamos... – Isabella murmurou, sentindo o coração acelerar em expectativa.

– Ainda não... – Edward retrucou; a chegada a Watlin nada representava.

– Chegamos ou não? – Embry indagou confuso, dirigindo um breve olhar ao barão antes de encarar a mãe.

– Sim e não... – ela respondeu, sorrindo-lhe. Indicando ter entendido o comentário do barão, explicou: – Chegamos à estação, deixaremos o trem, mas ainda temos um longo caminho até estarmos onde desejamos.

– Exatamente – o nobre pontuou; teriam um longo caminho.

– Sem trens? – Embry especulou; interessado.

– Sem trens – a mãe confirmou. Depois de encarar Edward rapidamente, acrescentou: – Agora seguiremos viagem na carruagem de seu pai.

– Ah... – o menino exclamou apenas, sério.

O maquinista acionou o apito mais uma vez e outras tantas até que finalmente parasse.

– Fiquem aqui – ordenou o barão, pondo-se de pé. – Verificarei se Jacob está na plataforma e pedirei que venha ajudar com a bagagem.

Isabella apenas assentiu com a cabeça, ao ter o corpo acometido de um súbito tremor. Com a saída do barão, ela, inconscientemente, prendeu a respiração. Não chegaram ao destino, contudo era como se assim fosse. Evidente que há muito tempo não havia volta, nem ela queria que tivesse tampouco, mas... Morar em Apple White, ao lado de Edward, como sua esposa, baronesa, nunca pareceu tão apavorante.

– A senhora está doente? – A voz de Embry a livrou dos pensamentos inquietantes.

Ao encará-lo, tentou respirar normalmente e lhe sorrir. Tinha que ser forte por ambos; não estava mais sozinha.

– Não meu querido... – disse. – Apenas ansiosa em seguir viagem.

– Eu ia gostar mais se fossemos para nossa casa – ele insistiu, baixando os olhos.

– Estamos indo para casa Embry. – Isabella assegurou. – Para nossa nova casa e quanto antes nos acostumarmos, melhor.

Abraçando-o junto ao corpo para que nada mais dissesse, a moça esperou pela volta do barão, tentando se distrair com o pouco que via pela fresta da cortina.

No corredor, Edward adiantou os passos, passando a frente de outros passageiros até que saltasse para a plataforma. Estava ansioso por iniciar a última etapa daquela viagem para que pudesse, enfim, seguir em frente, enfrentando o que viesse.

Erguendo o rosto, tentando ver acima das muitas cartolas e dos chapéus femininos, cada vez mais altos com seus penachos e gigantescos laços, o barão procurou por seu criado. Avistou-o poucos metros à frente, igualmente a procurá-lo entre os passageiros que desciam dos outros vagões.

– Jacob! – Edward chamou, acima do falatório generalizado, erguendo também a mão para que seu criado logo o visse. – Aqui!

Sir Edward! – o moreno exclamou ao vê-lo, cruzando pelas pessoas até estar diante dele para retirar o chapéu e estender a mão. – E então, como foi de viagem?

– Como tinha que ser... – o barão apertou a mão estendida. – Como está você?

– Bem, obrigado – respondeu, recolocando o chapéu, sem tomar fôlego, perguntou. – Está com o menino?

– Sim... – Edward sorriu sem nem notar. – Você gostará dele.

– Pelo o que vejo, já aconteceu com Vossa Senhoria – o criado salientou, escrutinando o rosto do patrão.

– Ele é um bom menino. – Edward não tinha porque negar. – Acho que não tinha como ser diferente. Além do mais, ele tem o meu sangue.

– E, como Vossa Senhoria está se sentindo em relação a isso? – Jacob indagou, ainda analisando-o.

– Estaria mentindo se dissesse que não mais me incomoda a forma como somos ligados, mas este não é um assunto para ser discutido aqui. Vim buscá-lo para que nos ajude com a bagagem. Isabella e Embry esperam na cabine. Venha, depois conversaremos... Também quero saber como estão em Apple White. Minha mãe, a sidreria...

– Sim... – Jacob desviou o olhar rapidamente, indicando em frente. – Vamos, Sir... Depois conversaremos.

Edward estranhou a mudança sutil, porém não o deteve. Se fosse algo grave seu amigo já teria dito. No momento tinham que desembarcar mãe e filho para que seguissem viagem. Sem novas questões, ambos seguiram de volta ao trem, até chegarem à cabine indicada pelo barão.

– Vamos! – Edward chamou ao entrar, causando um notório sobressalto em Isabella que estava sentada exatamente da mesma forma de quando a deixou; abraçada ao filho.

A moça flagrou o olhar inquiridor do barão, porém nada disse, afastando-se de Embry para se levantar. Logo Jacob se juntou a eles.

– Bom dia senhorita – cumprimentou. – Fez boa viagem?

– Bom dia Jacob – retribuiu. – Sim, obrigada...

A moça lhe sorriu, porém o criado não viu o gesto. Jacob mantinha os olhos postos no menino, agora também de pé, a encará-lo de volta; curioso. Quis apresentá-los, contudo a voz lhe faltou. Constrangia-a imaginar o que se passava pela mente do homem moreno, parado pouco atrás do patrão.

Como se lesse seu pensamento, ou apenas por ser o certo a se fazer, Edward tomou a palavra.

– Jacob, eu gostaria de apresentá-lo a Embry... Meu filho.

– Vossa Senhoria... – Jacob falou, inclinando a cabeça para o menino. – Prazer em conhecê-lo, Jacob Black, seu criado.

– Não... – ele uniu as sobrancelhas e estendeu a mão pequena. – Você não ouviu... Meu nome é Embry Swan. Prazer em conhecer Jacob. Você é amigo da minha senhora?

Apenas Jacob achou graça da confusão. Rindo discretamente apertou a mão estendida, enquanto Edward e Isabella se entreolhavam seriamente. Nenhum dos dois, durante a viagem, lembrou a necessidade de ensinar o novo nome ao menino, ou como seria tratado dali por diante.

– Sou – Jacob respondeu ao pequeno, recebendo um sorriso. Porém este se apagou ao acrescentar –, mas sou mais amigo de seu pai.

– Ah... – ele exalou, recolhendo a mão e recuando um passo.

– O que houve? – Jacob perguntou diretamente ao patrão. – Não causou boa impressão?

– É uma longa história – Edward retrucou subitamente aborrecido, vestindo sua cartola antes de indicar a bagagem. – Vamos pegar tudo e sair, sim?

– Diga que ele puxou seu gênio que será um resumo bem explicativo para mim – o moreno replicou, se adiantando para pegar a bolsa de Isabella e os embrulhos.

Isabella não ousou olhar nenhum dos dois. Conhecia o trato entre eles, mas ainda se sentia deslocada por saber que, se Embry tinha algum traço da personalidade do barão em si, este veio indiretamente; infelizmente.

– Apenas cumpra sua função Jacob! – Edward ordenou; pegando sua maleta e bengala. – Embry, pegue sua lata e vamos.

Saindo antes de todos, o barão seguiu para a saída do trem, voltando-se apenas para ajudar Isabella a saltar e também Embry, segurando-o pelo braço quando ameaçou pular para a plataforma. Sem olhá-lo, o menino segurou a mão da mãe, que dirigiu um olhar ansioso a Edward.

– Vai passar... – ela lhe murmurou.

– Eu sei que vai – ele disse apenas indicando o caminho em frente.

– Se puxou ao “pai” podemos contar que tão cedo... – Jacob começou atrás deles.

– Fique quieto – demandou o barão.

Jacob se calou, porém Isabella viu que ainda sorria discretamente. Antes que desviasse os olhos, o moreno murmurou.

– É um belo menino.

– Obrigada... – ela sussurrou, considerando inadequado se envaidecer.

Novamente envoltos pelo silêncio, deixaram que Jacob tomasse a frente e os guiasse até a carruagem. O criado acomodou a bagagem num dos bancos antes de se voltar para o menino.

– Gostaria de vir comigo? Posso deixar que segure as rédeas vez ou outra.

Os olhos de Embry brilharam em expectativa, olhando a imensa carruagem e então o cavalo que a puxava.

– De verdade? – indagou extasiado. – Minha senhora pode ir conosco?

– Bem... – Jacob olhou para os adultos e então para o menino. – Só há espaço para uma pessoa.

– Então, não... – Embry respondeu olhando discretamente para Edward. – Obrigado.

– Obrigada por tentar distraí-lo Jacob – disse Isabella com maior entusiasmo. – Mas de toda forma prefiro que ele vá conosco. O vento se tornará ainda mais frio quando ganhar velocidade.

– Sendo assim...

Edward encerrou a discussão, estendendo a mão para que Isabella entrasse na boleia. Ainda ignorando o distanciamento infantil, o barão segurou o menino pela cintura e o colocou diretamente no piso da carruagem, antes de segui-lo. Quando finalmente partiram, os noivos voltaram aos olhares intermitentes, sempre que Embry se distraia com sua lata, ou com alguma imagem que lhe chamasse a atenção através da janela.

Edward sempre desejaria se perder no mar negro nos olhos de Isabella, satisfeito por ela não ocultá-los, porém era hora de ser prático. Com isso, desviou seu olhar ao pequeno quando deixaram a cidade para trás.

– Embry – chamou –, nós precisamos conversar sobre um assunto.

– Eu já me desculpei por retrucar senhor – defendeu-se Embry, correndo os olhos para a mãe. – Serei castigado?

– Não, meu querido – ela o tranquilizou, tocando-lhe a bochecha. – Acho que não é sobre isso que seu pai deseja conversar e, se teme castigos físicos, estou certa que ele não os utilize.

Edward assentiu em silêncio, agradecido. Seu pai, nem seus avôs nunca ergueram a mão para corrigi-lo, então não seria ele a iniciar a prática.

– Exatamente – disse. – Já esqueci o que se passou na noite passada. O que quero é instruí-lo sobre certas mudanças. Algo que já deveríamos ter feito.

Isabella imitou-o, apenas maneando a cabeça em assentimento.

– Oh... – Embry exclamou aliviado, voltando imediatamente a sua seriedade.

– Bem... – Edward prosseguiu. – Deve saber que ao chegar a Apple White, sua nova casa, irá conhecer sua avó...

– Eu tenho uma avó?! – o menino novamente olhou para a mãe, sem reparar que havia interrompido a fala do irmão, os olhos brilhando. – Michael tem uma avó. Ela sempre leva doces para ele nos dias de visita.

– Bem... Agora você tem a sua. – Isabella sorriu tentando ser animadora, sem saber qual tipo de avó ele deveria esperar. A dela nunca fora do tipo afetuosa.

– Como ela se chama? – ele perguntou para a mãe.

– Acho que essa conversa é entre você e seu pai – ela disse gentilmente. – Pergunte a ele?

Embry voltou o rosto para Edward, mas se manteve em silêncio. Talvez duelando entre o ressentimento nascido na noite anterior e sua curiosidade. Venceu a segunda.

– Como se chama a minha avó, senhor?

– Elizabeth Sheldon Bradley, baronesa de Westking. Mas você poderá tratá-la formalmente por Lady Elizabeth, milady ou por vovó, caso prefira.

– Como o senhor acha que ela prefere? – perguntou incerto.

– Experimente chamá-la de vovó – Edward sugeriu.

Ser tratado por pai havia funcionado com ele. Provavelmente a baronesa não resistisse à novidade caso fosse conquistada desde o primeiro instante. Embry maneou a cabeça, deixando o barão livre para prosseguir.

– Há ainda a questão de seu nome.

– O que tem meu nome? – o menino uniu as sobrancelhas mínimas.

– Bem, agora que estou de volta, houve uma mudança. Swan deixou de ser seu sobrenome. A partir de hoje, sempre que se apresentar, você deverá dizer o nome correto. Embry Edrick Masen Bradley, baronete de Westking.

– Por que não posso me chamar Swan? – perguntou novamente para a mãe.

– Seu pai já explicou querido. Agora ele está de volta e o reconheceu. É natural que tenha o nome dele. Não gostou de saber que é um baronete? Esqueceu que, justamente por isso, um dia irá conhecer a rainha Vitória?

– Oh... – Embry maximizou os olhos azuis, como se finalmente entendesse a importância da mudança. – Sim, eu gostei de saber.

– Sendo assim – Edward retomou a palavra –, não esqueça seu novo nome. Poderia repeti-lo para mim?

– Agora eu me chamo Embry Ed... Edri... – consternado por seu titubear, admitiu. – Não me lembro. Esse nome é difícil senhor.

– Edrick – ele ajudou, ocultando um sorriso divertido com o atabalhoamento infantil, temendo que o menino entendesse como deboche por sua falha. – Embry Edrick Masen Bradley. Sei que entendeu, não precisa repetir agora. Basta se lembrar e nunca mais citar seu antigo nome, nem mesmo comentar que houve alguma mudança, está bem?

– Sim senhor. – Embry anuiu, maneando a cabeça.

– E uma vez que agora é um baronete, todos o tratarão por sir ou vossa senhoria, como fez Jacob ao se apresentar. Então não as corrija.

– Sim senhor... – o menino novamente moveu a cabeça, correndo os dedos sobre sua lata. – Preciso saber de mais coisas?

– Bem, quando chegarmos a Apple White eu irei providenciar uma preceptora para cuidar de sua educação, assim como alguns professores para instruí-lo. Deverá também aprender algumas línguas estrangeiras.

– No colégio aprendíamos Latim – ele disse.

– Como baronete, herdeiro de meu título, deverá aprender mais do que Latim. – Edward comentou e, considerando já ter fornecido informações demais para um menino de sete anos, encerrou o assunto. – Mas não pense nisso agora. Tudo será feito com calma para que se acostume a sua nova vida.

– Está bem senhor... De tudo, o que mais quero é aprender a escrever cartas – disse o menino.

– E para quem escreveria? – Isabella perguntou interessada, tentando não pensar no quanto ser despreparada a desabilitava para a função de educar o menino.

– Ora – ele começou como se fosse óbvio –, para a senhora!

– Mas estaremos na mesma casa... – ela achou graça e se deixou contagiar pelo sentimento para não sucumbir à tristeza por sua limitação.

– Não importa. – Embry falou abrindo sua lata de súbito. – Veja! Tenho todas as suas cartas aqui.

Isabella mirou o conteúdo da lata enquanto o menino remexia nos envelopes. Comoveu-a reparar que o tesouro de Embry era formado por coisas dadas por ela ao longo daqueles anos. Além das cartas, ela pôde ver as embalagens dos caramelos que levou em suas visitas, algumas moedas, botões de casacos que há muito tempo já estavam perdidos e um bonequinho de chumbo.

– Eu gostaria de saber o que tem aí – disse Edward imperativo, muito curioso em ver o que teria levado sua noiva a secar os cantos dos olhos discretamente.

Como seu tom não deixava margem para recusas, Embry estendeu-lhe a lata. Edward se inclinou para frente e depois de dar uma olhada, ergueu os olhos para Isabella. Ela já havia se recomposto, mas pela emoção que ainda trazia na expressão, ficou claro o significado de cada “antiguidade” contida ali. Voltando a se sentar corretamente no assento, Edward fez coro com o menino.

– Realmente não importa. Acredito que sua mãe ficará muito feliz em receber suas cartas, mesmo que more no mesmo lugar. Posso ajudá-lo a escrevê-las enquanto ainda não puder fazer por si só.

– Obrigado senhor... – disse Embry, fechando a lata –, mas acho que vou esperar... ou posso pedir para Sir Carlisle. Ele um dia irá me visitar?

– Sim, um dia... – Edward respondeu a contragosto, mirando as paisagens que via além da janela; paciência, paciência.

Isabella nada acrescentou. Não poderia sem que irrompesse em pranto. Ela mesma tinha seu próprio “tesouro”, com as cartas de seu pequeno, o bilhete de Edward e sua mecha de cabelo, mas jamais poderia imaginar que, não somente o menino tivesse o mesmo hábito, como o tratasse com tanto cuidado. Decididamente ela não merecia tanto e essa consciência a mantinha emudecida.

Com isso, findas as questões, cada um se fechou em seu próprio silêncio. Pareceu demorar uma eternidade até que o barão voltasse o rosto e procurasse pelos olhos de sua noiva. Com o passar do tempo, o coração de Isabella se inquietava mais. Ainda conseguia sustentar o olhar do barão, porém pouco a pouco sua coragem se esvaia. Perdida nas contas azuis, sua comoção quanto ao tesouro do menino se tornava mínima se comprada à iminência de sua chegada a Apple White.

Logo estaria diante da baronesa, apresentando um neto ansioso por chamá-la de “vovó” quando na verdade era seu enteado, fruto de uma violação sim, mas também de adultério, ela pensou correndo os dedos pelos cabelos do menino, que agora dormia reclinado sobre suas saias. Não era como condenasse a sugestão de Edward, nem como se desejasse voltar atrás, ela somente não via como seguiriam adiante com aquela farsa. Como seria quando Embry visse Carlisle, por exemplo.

– O que a arrelia? – Edward perguntou em voz baixa a certa altura, novamente sobressaltando-a. Antes que encontrasse o que dizer, ele acrescentou: – Esta é a segunda vez que se assusta. O que há?

– Estou pensando na baronesa, em Carlisle... – ela admitiu, temendo que ele tirasse conclusões errôneas. – Não podemos obrigar Embry a mentir.

– Evidente que não, mas não se preocupe – disse com uma tranquilidade que estava longe de sentir. – Infelizmente teremos que incluir Sir Carlisle em nosso arranjo. Diremos parte da verdade. Que ele sempre soube sobre Embry. E esta versão casará a perfeição, servindo até mesmo de pretexto para ele ter recusado me ceder a mão de Tanya.

– Certamente – ela murmurou, não gostando de ser lembrada daquele pedido.

– Vamos lidar com os problemas conforme eles se apresentarem, sim? Tudo dará certo, você verá!

– Espero que sim... – Isabella murmurou, descendo os olhos para a cabeça castanha do filho antes de escovar-lhe os cabelos com seus dedos enluvados. – Gostaria de ter certeza. Não quero que ninguém saia machucado.

– Seu desejo é impossível de ser atendido – Edward retrucou roucamente, apertando o punho de sua bengala. – Já existem feridos.

– Além de nós dois – ela recapitulou. – Não quero nem imaginar as perguntas que recairão sobre Carlisle. E pense em como será degradante para a baronesa se ela...

– Ela não vai saber – o barão a cortou, incisivo. – Quanto ao Sir Carlisle, nada se pode fazer. Esse foi um risco assumido por ele mesmo anos atrás. Sobre minha mãe, sim, será um choque me vir chegar com você e nosso filho, mas ela se acostumará. É o único caminho uma vez que nenhum de nós irá recuar, não é mesmo?

– Sim... – Isabella tentou sorrir, mas não foi capaz; era estranho não ter o controle de seu futuro.

Como se alguém pudesse fazê-lo, ela se retrucou. Infelizmente a consciência do óbvio não lhe trazia paz. E uma vez que todos os assuntos sempre seriam espinhosos, ela tratou de deixar Lady Elizabeth de lado para abordar outro tema ruim, porém necessário.

– Pensou sobre meu pedido? Sobre minhas roupas e... Você sabe.

– Sim, eu sei – Edward retorquiu. Seguro de sua decisão falou: – Iremos diretamente para Apple White. Nesses primeiros dias você poderá usar os vestidos de Rosalie, como antes. Depois iremos até o Jardim para que possa cuidar de suas pendências.

– Os vestidos de Rosalie? – ela uniu as sobrancelhas.

– Doei os seus para Leah – ele disse sem preâmbulos. – Não tinha porque guardá-los.

– Entendo... – Isabella murmurou.

E ela rogou não haver feridos. Merecido ter sido lembrada não ser possível pelo mais dilacerado de todos.

O silêncio desceu sobre eles, novamente tenso. Isabella não se animou a propor novos temas, temendo deixar tudo ainda pior. Edward por sua vez, não parecia disposto a se calar. Por sorte o tema se mostrou ser “ameno”, se comprado a tantos outros.

– Preciso saber de alguns detalhes sobre o nascimento de Embry para usar quando for explicar sua... “concepção”.

– O que deseja saber?

– Sei que ele completará oito anos dia vinte e nove de março... – o barão falou roucamente. – Devo supor que ele tenha sido... Que você tenha engravidado no final de junho, início de julho...

– No final de agosto... – Isabella revelou num sussurro, incomodada com o tema. – Embry nasceu prematuro, num parto difícil.

– Sinto muito...

– Não tem por que – ela o tranquilizou, mirando o rosto sereno apoiado em sua saia. – Depois de tamanha dor fui recompensada com um menino inteiro, de saúde frágil nos primeiro dias, mas que cresceu e se fortaleceu com o passar do tempo. Não importa como ele foi feito, Embry é meu milagre.

– Sendo assim – Edward tratou de mudar o assunto que ameaçava adoecê-lo –, por que não permite que ele a chame de mãe?

Isabella engasgou e sufocou brevemente, levando o barão a se agitar. Temeu que ela desfalecesse, porém não aconteceu. Muito vermelha, a moça correu os olhos já úmidos para além da janela.

– Poderíamos ter essa conversa em outra ocasião? – pediu.

– Por que não agora? – Edward insistiu, escrutinando o rosto fortemente corado. – Se for uma longa história, nós teremos ainda quase três horas de percurso até chegarmos a Wisbury. Estou realmente curioso quanto a isso e fico ainda mais quando vejo tamanha devoção desse menino por você – finalizou indicando a lata, agora posta sobre o assento ao lado da moça.

– Não é longa... – Isabella murmurou, sem encará-lo; sentindo a comoção se agravar. – A explicação é bem simples na verdade.

– Então...? – insistiu o barão; ansioso.

Aquele seria mais um detalhe a pesar na balança, que penderia para o lado contrário, pois Edward, provavelmente, consideraria ser algo mais a odiar. Não fugiria de dar a ele o que pedia, mas seria incapaz de fazê-lo na presença do menino.

– Se puder esperar até que estejamos a sós – ela indicou Embry –, eu agradeceria.

Edward cogitava que aquela fosse mais uma das decisões perturbadoras de Isabella, porém o pedido lhe indicou que deveria se preparar para algo ainda pior.

– Esperarei então – disse –, mas não muito. Que seja hoje ainda.

Isabella apenas assentiu com a cabeça; agradecida. Teria algumas horas antes de agravar os sentimentos ruins do barão.

– Deseja saber algo mais? – ela indagou sem coragem de encará-lo. – Sobre... A concepção ou o nascimento de Embry?

– Não! – Edward negou duramente. – O que sei já é mais do que suficiente.

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Ao cruzarem a ponte que ligava Wisbury a Westking o coração de Isabella batia a uma velocidade assustadora, e acelerou ainda mais quando finalmente cruzaram os portões de Apple White. Embry, que havia acordado há alguns minutos, praticamente se debruçava sobre a portinhola para admirar as muitas árvores, ainda sem ver a casa. O menino recuou no momento exato em que um latido foi ouvido, seguido de outros mais até que o galgo estivesse fazendo o alarido ao lado da carruagem.

– Este é Nero. – Edward o nomeou, tentando tranquilizar o menino. – Acho que ele vai gostar de você.

– Não quero que ele me morda – Embry revelou com os olhos azuis maximizados.

– Eu os apresentarei – disse Isabella, encontrando sua voz, demandando a si mesma que se acalmasse; Embry precisaria dela.

Logo pararam diante da casa. Edward dirigiu a Isabella um olhar significativo, encorajador, antes de abrir a porta e saltar para receber a farra de Nero ao seu redor.

– Acalme-se meu velho – o barão pediu ao cachorro algo que poderia ser para si, pois foi acometido por uma súbita emoção que lhe travou a garganta. – Sim, ela está de volta!

Com o comentário, um coração já agitado reduziu no peito da moça. Ao aceitar a ajuda para deixar a boleia, Isabella novamente lutava com suas lágrimas; sim, estava de volta. E ao que tudo indicava, para sempre. Durante todo o tempo em sua descida, os olhos estiveram cativos pelo olhar do barão. Novamente havia tanto significado no gesto e no brilho das íris azuis que ela teve que se concentrar em se manter de pé. Coube a Nero romper a bolha que os envolveu por alguns instantes.

– Acalme-se Nero! – ela repetiu o pedido do barão ao cachorro, abaixando-se para receber algumas lambidas no rosto e pescoço, enquanto o galgo pulava agitado. – Também senti sua falta – acrescentou embargada.

– Senhora?

Embry a chamou da porta, com voz trêmula. Porém quem o trouxe ao chão foi o barão, para imediatamente receber as patas de Nero sobre o peito. Ato contínuo o menino se apertou junto àquele que conhecia como pai, a procura de proteção.

– Afaste-se Nero! – Edward demandou com energia, apreciando ter sido considerado um refúgio. Agachando-se instruiu o menino. – Estenda sua mão para que ele cheire, com a palma virada para baixo. Assim...

Depois de demonstrar com sua própria mão, ele esperou que o menino fizesse o mesmo. Animando-se em ver o galgo cheirar seu dono, Embry imitou o gesto. Nero farejou a mão trêmula e então foi além, levando o focinho ao peito pequeno até que subitamente erguesse a cabeça e lambesse o rosto do menino.

– Nero! – Isabella ralhou apesar de achar graça, aliviada pelo galgo não estranhar a criança. – Isso não foi educado.

– Gostei dele... – anunciou o menino, rindo. Perdendo o medo e aventurando-se a acariciar a cabeça do cachorro que passou a lhe dar atenção exclusiva.

Edward se pôs de pé, rindo para a cena, juntamente com Isabella, quando ouviu a voz de seu criado que havia aperto a porta oposta para retirar as bagagens.

Sir Edward...

O barão procurou pelo rosto de Jacob através da boleia com as duas portas abertas. Ao vê-lo mudo, olhando fixo para frente da casa, imitou-o reflexivo. Ali, no alto dos poucos degraus, Marie mantinha as mãos unidas próximas à boca, claramente assombrada com a cena, porém seu espanto não era maior do que o da baronesa. Parada à porta entreaberta, vestida completamente de preto, Elizabeth olhava de um ao outro com os olhos castanhos saltados nas órbitas, a boca aberta sem emitir um único som.

Nada aconteceu por um minuto inteiro, até que Embry percebesse o silêncio conjunto e, depois de encarar os adultos ao seu redor, seguir-lhes o olhar. Elizabeth avançou um passo vacilante à frente, escrutinando o rosto do menino antes de encarar o próprio filho. Sua face então se tornou lívida, ela exalou um gemido agudo e inesperadamente tombou inconsciente.

– Mamãe – Edward exclamou aflito já correndo escada acima para socorrê-la. – Afaste-se – pediu a Marie que tentava erguer a cabeça da senhora desmaiada.

– Eu não imaginei milord... – a governanta começou a se desculpar. – Não a vi aqui... Ela disse que se recusava a recebê-lo ou quem quer que viesse com o senhor...

– Muito bem, deixe as explicações para depois – o barão ordenou ao erguer a mãe nos braços. – Abra mais a porta e cuide para que Isabella e meu filho sejam instalados nos quartos que preparou. Depois mande Amy...

– Filho?! – Marie exclamou imóvel.

– Abra a porta senhora Newton! – Edward bradou. – E mande Amy até o quarto de minha mãe com aquele seu frasquinho que usou para despertar Isabella quando desmaiou. Providencie também uma xícara de chá calmante. – Voltando-se para Jacob instruiu: – Chame Beni caso precise de alguém para ajudá-lo com a bagagem.

O criado não teve tempo de responder, pois o patrão sumiu porta adentro.

– Eu o ajudo Jacob – Isabella se ofereceu, saindo da paralisia que a prendeu naquele primeiro encontro com a baronesa. A reação fora pior do que ela imaginou.

– Absolutamente senhorita. – Jacob negou quase ofendido. – Não preciso de Beni tampouco. Dou conta de levar todas as coisas aos seus respectivos quartos.

– Ela morreu? – Embry perguntou, puxando levemente a saia da mãe.

– Não! – Isabella respondeu rapidamente ao notar o temor nos olhos azuis, abaixando-se para encará-lo de frente enquanto Jacob juntava os embrulhos. – Ela apenas teve um desmaio. Logo estará de pé novamente.

– Espero que sim... – ele murmurou, acariciando a cabeça de Nero, agora quieto ao seu lado. – E quem é ela?

– Sua avó meu querido – a mãe explicou.

– O marido dela também morreu? – Embry questionou ainda, porém Isabella não teve tempo de tentar explicar o vestido preto.

– Senhorita! – exclamou Marie.

Isabella notou a indecisão da governanta ainda no alto da escada.

– Vá chamar por Amy. O barão precisa mais de você nesse momento. Eu já conheço a casa. Esperarei na biblioteca.

– Estarei com vocês em breve... – anunciou a mulher com os olhos postos em Embry, antes de sumir no interior da casa.

– Posso acompanhá-la até os quartos – disse Jacob já a subir os degraus. – Sei onde cada um ficará instalado.

– Sendo assim... – ela anuiu, tomando a mão do menino. – Vamos.

– Esperem! – Embry pediu desprendendo-se para voltar a boleia. Logo pulava para o chão segurando sua lata, sem medo de Nero que o esperava ansioso. – Agora sim...

Isabella se adiantou para fechar aquela porta da carruagem, então seguiu o criado, evitando olhar em volta. No hall principal, na escadaria e depois nos corredores ouviam-se apenas as observações admiradas de Embry a comentar o tamanho da casa, a beleza dos vitrais, a altura do teto, o brilho do piso, as esculturas, os vasos, a maciez dos tapetes; tudo era belo e novo para o menino.

– Este será o quarto do baronete. – Jacob anunciou indicando a porta ao lado do conhecido quarto do barão. – Onde devo deixar esses embrulhos?

– Aqui... – Isabella foi até ele para tomar o que pertencia ao menino. – A sacola é minha e a maleta...

– Sim, eu sei – ele concluiu gentilmente. – Deixarei sua sacola no antigo quarto de Lady Rosalie.

– Obrigada – agradeceu antes de pedir ao menino que abrisse a porta.

Embry a obedeceu e entrou seguido pelo galgo. Parou em exatamente no meio do cômodo, olhando tudo com a mesma admiração que demonstrou até chegar ali, enquanto sua mãe depositava os embrulhos sobre a cama.

– Esse quarto é só meu?

– É sim, meu querido...

Isabella lhe sorriu, enquanto ele ia até a cama, embora em seu íntimo o coração se inquietasse mais; estava preocupada com o desmaio da baronesa. Como não havia nada que pudesse fazer, tratou de dar atenção exclusiva à criança que testava a maciez do colchão sob seus dedos. Logo Embry deixou a cama para especular o novo quarto, sendo seguido de perto por Nero.

– Tudo que tem aqui agora é meu? – ele perguntou como se custasse a acreditar, correndo os dedos pelo papel disposto sobre a escrivaninha.

– Sim... – ela novamente afirmou. – Gosta daqui?

– Gosto! – ele disse sincero, contente. Porém o sorriso logo murchou. – Mas é bem grande esse quarto. Tem certeza que a luz poderá ficar acesa?

– Tenho – disse a moça, encorajadora. – E como disse, poderei ficar com você, ou até mesmo Nero. Veja como ele já gosta de você.

Embry desceu os olhos para o galgo e voltou a sorrir. Escorregando para o chão, como se já fosse íntimo do animal, começou a esfregar-lhe as orelhas, rindo quando foi atacado para novas lambidas. O coração de Isabella se aqueceu com a cena, contudo ela não conseguia sorrir. Gostaria de saber o que se passava nos aposentos de Lady Elizabeth.

– Com licença – Jacob pediu antes de entrar. – Já deixei a sacola em seu quarto. Seja bem vinda de volta senhorita. Agora posso contar a novidade para minha Leah.

– Faça isso – Isabella forçou um sorriso em seu rosto consternado. – Assim que eu puder, quero vê-la.

– Ela também desejará vê-la senhorita. – Jacob comentou amável.

A moça lhe era agradecida por não desfeiteá-la. Outro em seu lugar iria querer que sua esposa mantivesse distância de uma mulher com passado tão obscuro.

– Bem... Irei cuidar das necessidades de Sir Edward. Com sua licença...

– Tem toda – a moça o liberou. – Se puder ajudar de alguma maneira... Com a baronesa.

– Creio que não senhorita – ele a dispensou da ajuda, olhando rapidamente para o menino. – Melhor deixar que ela assimile a novidade.

– Tem razão – anuiu. – Obrigada mais uma vez.

Jacob inclinou a cabeça, deferente, e saiu. Poderia ter esbarrado em Marie, pois a governanta entrou em seguida.

– Perdoe-me por não acompanhá-la – pediu a mulher, assim como o criado, com o olhar preso à criança que brincava distraída com o cachorro.

– Não se preocupe. O barão precisava mais de você. Como está a baronesa?

– Ainda não saberei dizer... – respondeu Marie, finalmente encarando-a. – Pedi que Amy fosse atender ao barão. Demorei a subir porque precisei preparar o chá e cuidar para que fosse entregue no quarto da baronesa, e também acalmar os ânimos na cozinha. Sabe como são os criados. Estão alvoroçados depois que souberam...

A frase morreu no vazio, com a governanta olhando novamente para o menino, que ergueu a cabeça para encará-la.

– Já? – Isabella murmurou; havia começado.

– O que houve senhora? – Embry se pôs de pé e foi até a mãe. – Minha avó não quer acordar?

– Santo Deus! – exclamou Marie, levando uma das mãos à boca. – Como ele se parece com Lord Edward!... Como...?

– Eu responderei tudo o que quiser saber Marie, mas em outra ocasião.

– Absolutamente. Perdoe-me se em meu espanto fiz parecer que a questionava. Não deve qualquer tipo de explicação a mim senhorita. – Marie liberou-a, analisando o menino. – Estou apenas admirada. Eu jamais poderia imaginar que tivesse um filho de Lord “Edward”! Como ele se chama?

– Sou Embry Edrick Masen Bradley – disse o menino com o peito erguido –, prazer em conhecê-la senhora. Sabia que sou um baronete?

– Meu Deus... – Marie novamente externou sua admiração, apertando a mão estendida. – Sim, Vossa Senhoria, eu sei que é um baronete. Eu sou Marie Newton, governanta desta casa. Se eu soubesse que viria, teria providenciado alguns brinquedos para alegrar vosso quarto.

– Brinquedos para mim? – Os olhos azuis do menino brilharam. – Ouviu isso senhora?

– Ouvi meu querido – ela lhe sorriu, afagando-lhe os cabelos. – Nero está se sentindo sozinho. Vá dar atenção a ele. Depois falaremos sobre todas essas novidades.

Embry sorriu para as duas e voltou a junto do galgo, rindo ao ser recebido com novo entusiasmo pelo animal.

– É interessante a forma como ele a trata – observou Marie.

– É como foi educado no internato no qual vivia. – Isabella retrucou rapidamente.

– Ah, sim... – a mulher endireitou o dorso, desconcertada. – Nem lhe dei as boas vindas. Fico contente que Lord Edward a tenha encontrado e trazido de volta. A senhorita será instalada no antigo quarto de Lady Rosalie.

De volta onde tudo havia começado, daquela vez para sempre, com seu filho junto a si, ela pensou. Não chovia como da outra vez que chegou, mas estavam em meio a uma tempestade; com o prenúncio de raios assustadores. Infelizmente não poderia se encolher na cama, ela teria que enfrentá-los como corajosamente fez ao deixar aquela casa. Começaria por se sentir confortável.

– Se está contente com minha volta, deixe de formalidades. Quando estivermos sós, trate-me por Isabella apenas.

– Está bem... – anuiu, então, assumindo seu tom profissional a governanta comentou: – Vocês devem estar famintos. Também ansiosos por se trocarem... Antes de subir mandei que preparassem um banho para cada um. Assim que estiverem prontos, mandarei servir o chá da tarde.

– Obrigada.

Isabella de fato desejava tomar um banho; sentia-se suja; por certo teria causado a pior impressão na baronesa. Antes que dissesse qualquer outra palavra, ouviram o pedido vacilante vindo da porta ainda aberta. Marie permitiu que duas criadas da casa, entrassem, trazendo baldes d’água.

– Atrás do biombo, por favor – ela instruiu as criadas.

Quando estas a atenderam, depois de correr os olhos especulativos rapidamente por Isabella e Embry, Marie explicou:

– Não sabia quem era o hóspede, mas como o quarto é grande, tomei a liberdade de reservar aquele espaço para os banhos.

Isabella já havia seguido as criadas com o olhar e via o reservado citado. Apreciou o cuidado, assim o menino não precisaria deixar o quarto para tomar seus banhos.

– Obrigada – agradeceu, indo para junto de Embry. – Vamos tirar essas roupas?

– Não na frente delas – ele recusou alarmado, atenuando a inquietação de sua mãe com seu pudor.

– Está bem meu querido. Vamos esperar que saiam. – Para Marie, pediu: – Se não se importar, gostaria que trouxesse o chá para este quarto. Tomarei meu próprio banho depois que ele estiver limpo e alimentado.

– Assim farei – Marie assegurou, com os olhos duramente postos nas criadas que deixavam o quarto depois de despejar a água na tina oculta pelo biombo de madeira entalhada. – Vou deixá-los a sós – anunciou rumo à porta.

– Tente descobrir como está a baronesa, sim? – Isabella pediu rapidamente.

Marie apenas lhe assentiu com um inclinar de cabeça e se foi, fechando a porta atrás de si. A moça então desceu os olhos para o menino, novamente distraído com o galgo. Sim, ela se enternecia, porém o bom sentimento despertado pela linda cena formada por Embry e Nero, milagrosamente “juntos”, não aplacava a ansiedade crescente.

Ela gostaria de poder ir até Edward e prestar alguma ajuda. Poderia apenas imaginar como ele estaria aflito caso a mãe ainda não tivesse despertado. Especular como seria quando esta recobrasse a consciência era ainda mais inquietante. Para também arreliá-la havia os mexericos que já corriam pela ala dos criados. Evidente que àquela altura Sue Wood já sabia da “novidade” e estaria muito pronta para o ataque.

O barão pediu que não se ocupasse de nenhuma das duas, mas tinha como fazê-lo. Cada uma à sua maneira tinha motivos para hostilizá-la e, o que seria pior, ao menino. Com o pensamento os pelos de Isabella se eriçaram. Não se importava muito com o que acontecesse a ela naquela casa, mas somente por pensar que pudessem maltratar Embry, já sentia seu sangue ferver. Isabella rogava que nada, nunca, acontecesse naquele sentido, pois para defender “seu filho”, não levaria em conta a hierarquia nobiliárquica, muito menos parental.

– Vamos ao banho Embry? – ela chamou com voz rouca, tentando atender aos muitos pedidos do barão, evitando “prever” o futuro; tudo ficaria bem.

– Sei me banhar sozinho senhora – ele anunciou orgulhoso, deixando o galgo para desabotoar o casaco.

Evidente que sim, Isabella lamentou com nostalgia. No dia anterior apreciou trocá-lo, penteá-lo e até amarrar seus sapatos novos, sempre sabendo que o menino era capaz de cumprir tais tarefas. Um banho independente deveria ser algo corriqueiro em Saint Joseph, porém ela não abriria mão de aproveitar o mínimo que fosse para exercer a função que se negou durante os últimos anos.

– Mas aposto que não lava atrás das orelhas, nem esfrega o pescoço corretamente, então nem tente se livrar de minha ajuda, mocinho.

– Sim, senhora! – Embry abriu um sorriso inteiro, como se não esperasse menos do que ouviu.

Notas finais
Bom, espero que tenham gostado, me contem!... :) Meninas, mês de janeiro é complicado, com pai aqui em casa de visita, então assim que puder, trago capítulo novo... Bom, quero desejar a todoas, um feliz ano novo com muita saúde e paz. O resto vamos improvisando... ;) Bjus suas lindas.