Borboleta Negra

33 Capítulo Um - Parte II


Notas iniciais
Oie... Mais um capítulo para vcs... Semana que vem trago outro. Espero que gostem...

Gostaria de agradecer aos reviews, vou respondendo de acordo com o tempo, então, também obrigada pela compreensão.

Obrigada a Lily, Jenyffer, Andy, Jaina, Biacno e Jeo, pelas indicações. Adorei meninas... :D

Agora vamos ao barão...

BOA LEITURA!

Enquanto Harry Clearwater exultava os inúmeros e maravilhosos benefícios trazidos pelos pontos de ligações entre cidades vizinhas, Edward se perguntava pela vigésima vez naquela manhã de sol tímido e frio, como fora aceitar participar daquela bobagem. Sim, pensou olhando em volta, era apenas perda de tempo inaugurar uma ponte reconstruída. Bom para todos os outros que não tivessem com o que se ocupar, no caso dele, preferia estar correndo seus pomares ou cuidando de sua sidreria.

– Edward, querido – disse sua mãe que o tinha preso na volta do braço –, se não consegue melhorar seu humor, ao menos pare de bufar como um cavalo bravio.

– A senhora bem sabe que eu não queria estar aqui – retrucou sem olhá-la.

Além do tédio, odiava-se por manter os olhos fixos no outro lado da ponte, tentando adivinhar um único rosto em meio aos vários que igualmente olhavam em sua direção. Enganava-se e com isso se aborrecia mais, pois sabia desde sempre que ela não estaria lá. A única, talvez última, esperança do barão era que, com a ponte reerguida, Isabella por ventura voltasse a Westking. Isso se morasse mesmo em Wisbury, visto que todas as palavras ditas poderiam muito bem ser mentirosas. Talvez sua ex-noiva estivesse muito longe, já estabelecida com outro e...

– Na verdade... – Edward cortou o próprio pensamento, soltando seu braço do aperto firme de Elizabeth. – Eu preciso sair daqui!

– Não pode – ela murmurou temerosa de que alguém os ouvisse. – Você precisa desfazer a fita.

– Isso tudo é tão enfadonho quanto desnecessário.

– Sinceramente não lhe entendo! Nunca antes se importou em vir a esses eventos simplórios. O que há agora? Já não basta se assemelhar a um bicho? Precisa se comportar como tal, isolando-se de todos?

– Não estou isolado – ele igualmente sussurrou, ainda olhando em frente, agora com as mãos postas para trás, odiando-se mais por ainda procurar. Ignorando a referência a sua aparência, acrescentou aborrecido: – Apenas não tenho paciência para conversas desgastantes e infrutíferas, assim como para eventos irrelevantes. É só uma maldita ponte que foi reerguida.

– Quanto ao que nos trouxe aqui, compartilho de seu desconforto, contudo é a figura ilustre desse lugar e como tal deve no mínimo, demonstrar condescendência ao atender aos pedidos que lhe sejam feitos. Já sobre as conversas aborrecidas, se está se referindo às minhas reclamações quanto ao disparate de ter feito Marie a governanta daquela casa, saiba que ainda não me calarei.

– Com isso serei obrigado a evitá-la, levando-a a crer que me isolo. Como já lhe disse várias vezes, não voltarei minha palavra atrás. E aqui não é o lugar para abordarmos temas domésticos. Se insistir senhora baronesa, não ficarei um minuto a mais compactuando com essa bobagem e...

O barão foi interrompido por uma salva de palmas e um fazendeiro muito orgulhoso de seu próprio discurso que lhe tocava o braço e indicava a larga fita azul com a mão livre.

– Faça as honras Lord Masen. – pediu Harry educadamente.

Com um suspiro resignado, Edward deu dois passos a frente para segurar um dos lados da fita.

– Veja Edward, ela chegou! – Elizabeth exclamou ao seu lado, distraindo-o por completo.

Seu saudoso coração nem ao menos recordou que a mãe não poderia saber de sua espera, nem tampouco reconhecer aquela que desejava ver, então apenas acelerou no peito para em seguida se enregelar e sofrer pela decepção; Tanya Cullen não lhe fazia falta e não compartilhava da alegria de sua mãe em vê-la. Com isso, o barão desfez o laço e, depois de estender a mão o fazendeiro, disse àqueles que os cercavam.

– Gostaria de parabenizar a todos pelo trabalho conjunto e ininterrupto que recuperou nossa ponte em trinta e quatro dias. Recebam meus mais sinceros cumprimentos... A partir de agora a ponte está oficialmente liberada, obrigado! Tenham um bom dia.

Sem mais palavras, sendo seguido por olhares interrogativos e de perto por uma incrédula baronesa, Edward apertou ainda algumas mãos; dos trabalhadores e outros fazendeiros, sempre se afastando da multidão rumo à carruagem.

– Edward! – A mãe lhe chamou pela terceira vez, quando já estavam longe dos presentes. – Aonde vai?

– Vamos para casa – anunciou, contudo a resposta fora dita a Jacob que os esperava em seu assento diante da boleia.

– Para Casa?! Não acredito que não falará com Tanya.

– Não me recordo de ter algo a tratar com ela. – retrucou o barão, abrindo a porta e estendendo a mão para que a mãe entrasse.

– Os pais dela e ela própria nos viram. Será uma desfeita indesculpável não cumprimentá-los ao menos – ela insistiu, sem tocar a mão do filho, franzindo as sobrancelhas sobre os olhos castanhos.

Sir Cullen entenderá que tenho meus afazeres e com suas amigas a senhora se entenderá depois... Agora preciso ir, então... – novamente indicou a mão.

– Você está ficando detestável Edward, isso sim! – Elizabeth resmungou, porém aceitou a mão estendida e embarcou na carruagem. Ao se sentar disse ainda. – Simplesmente intratável!

– Então deve agradecer por eu estar isolado – rebateu secamente, assumindo seu lugar. De posse de sua bengala tocou o teto para que Jacob o tirasse dali.

– Francamente Edward! – Elizabeth não encobria sua inconformidade. – Esse comportamento animalesco ainda é por conta daquela...

– Meça suas palavras mamãe – ele a advertiu antes que dissesse algo que ele não gostasse de ouvir.

– Evidente! Afinal ela é a mulher que ama! – troçou a baronesa, cruzando as delicadas mãos sobre a vasta saia de seu vestido.

– Exatamente. – Edward confirmou, olhando para além da janela, lamentando não ter visto a mulher que amava. – Um dia ela voltará e não quero que alimente essa antipatia.

– Antipatia? Eu não a conheço e já a detesto! – Edward a fuzilou com o olhar, ao que foi prontamente ignorado. – Se não bastasse ser uma desavergonhada ainda o rejeitou sem uma única nota, sequer de agradecimento por tê-la acolhido sob nosso teto. Essa criatura não é digna de qualquer consideração.

– O nome é Isabella... E para seu governo ela não me rejeitou, apenas está confusa... Quando cair em si, ela voltará. – Ou quando vierem os enjoos, ele pensou.

– Ouço essa cantilena desde que cheguei e até a presente data, nem sinal dessa pobre moça tão confusa. – zombou. – Acho que já é hora de você aceitar a realidade. Isabella não vai voltar. O que rogo a Deus que realmente aconteça. Você precisa de uma moça que agregue valores à nossa família. Que traga um dote considerável, que tenha um nome ilibado e uma conduta irrepreensível, não uma desvalida que se atira sobre a cama de um homem sem que este seja seu marido. Para mim, essa Isabella não é melhor do que uma rameira.

– Já basta mamãe! – Edward ciciou. – Ou não responderei por mim.

– E como pretende me punir por dizer a verdade? – A mãe o desafiou, erguendo seu rosto bonito. – Diga-me quando o comportamento dessa jovem foi condizente com as regras dos bons costumes e então me calarei.

– O comportamento de Isabella pode não corresponder aos seus costumes, mas ela foi condizente a si mesma e ao que queria. Admiro-a por não ser hipócrita.

– Cuidado meu rapaz! – Elizabeth o repreendeu com o dedo em riste. – Caminha por um terreno perigo ao insultar sua mãe e todas as pessoas de bem ao defender essa moça de espírito livre. Regras são feitas para serem seguidas. Elas nos mantém no caminho do bem e conservam a ordem entre pessoas civilizadas.

– Perdoe-me, não quis ofendê-la. – pediu contrafeito; de fato não era sua intenção. – Eu apenas...

– Não aceita os fatos. – cortou a baronesa, altiva em sua condição materna. – Você é um bom homem, mas um tanto ingênuo às vezes. Prefere ver a bondade em cada pessoa e com isso se ilude. Aceito que tenha se encantado por essa moça, que tenha se... divertido com ela enquanto esquentava sua cama, mas entenda que foi apenas isso. Não confunda um passatempo masculino com amor... Se ela retribuísse seu sentimento não teria ido embora... Se estivesse confusa já teria voltado... Já se passaram vinte dois dias, pelo amor de Deus!

– Não quero falar sobre isso – o barão retorquiu, voltando a olhar pela janela, odiando reconhecer que começava a pensar o mesmo.

– Olhe para si mesmo meu filho – ela insistiu. – Não teria nada contra sua barba caso fosse uma escolha consciente, não por desleixo. Não se arruma como antes. Não vai aos encontros com os outros cavalheiros, não os recebe em nossa casa... Aos poucos se torna um eremita.

– Quero ter paz – disse cansado, esfregando a pérola do anel de Isabella.

– Não a encontrará evocando quem está longe, dormindo ao lado de um chapéu.

– Antes um chapéu a ornar minha cama a ter sua dona a conspurcá-la, não?

Por sorte Jacob estacionava diante do palacete o que permitiu ao barão saltar da carruagem antes mesmo que esta parasse completamente. Em largas passadas, Edward marchou para a sidreria pouco se importando com sua falta de cavalheirismo ao não ajudar a mãe a saltar do veículo. Seu criado linguarudo que fizesse as honras, pois era outro que dividia as mesmas opiniões; estava cansado de todos eles. Não poderia estar assim tão iludido com Isabella. Sim, ela mentiu. Talvez mais do que pudesse supor, mas havia as ações. Ninguém poderia ser tão pérfida ao ponto de dissimular os mínimos gestos, as atenções. Quando ela o tratava era a mais verdadeira das mulheres, pois ele nunca lhe pediu coisa alguma. Então, havia de ter uma explicação e ele a teria; quando ela voltasse.

§§§

Isabella vagava por seu quarto, apertando os dedos, impaciente. Antes a realização de um evento tão pouco significativo sequer lhe chamaria a atenção, naquela manhã, no entanto, obrigava-se a ficar confinada em seu quarto para não irromper porta afora e seguir para a inauguração da ponte. Na presente data o amontoado de madeira e ferro representava muito em sua vida, sendo o principal responsável pelos dias que passou ao lado de seu barão.

Não, corrigiu-se, Edward não era mais seu. Justamente por esse motivo não deveria se boicotar e procurá-lo, mesmo que para vê-lo de longe. Não havia razão para agravar uma dor que, ao que tudo indicava, seria perpétua.

– Amber – chamou uma das meninas, fazendo com que Isabella se sobressaltasse.

– Entre Maureen – liberou, fechando a frente de seu penhoar para então abraçar a si mesma.

– Com licença – pediu ao abrir a porta.

A garota mirrada, de cabelos tão negros quanto os seus fora a última a chegar ao bordel, vinda por escolha própria após fugir de casa onde era constantemente espancada pelo pai alcoólatra. Certa vez Isabella sentiu o peso de uma mão masculina então, em partes a entendia e nutria alguma simpatia por ela.

– Diga o que deseja – a encorajou.

– Bem... – Maureen iniciou sem jeito, ajeitando um cacho de seus cabelos escuros – Eu gostaria... Não, na verdade, Susan e Kate também gostariam de ir espirar como está a festa lá na ponte e Angela disse que viesse pedir a você.

– Não sei se deveriam...

– Sabemos que você não gosta que fiquemos passeando por aí, mas acredito que não tenha problemas... Prometo em nome de todas que não falaremos com ninguém, muito menos com clientes, como quando vamos à igreja ou ao mercado.

Isabella considerou o pedido por um momento; não queria ela mesma estar perdida em meio à multidão?

– Não podemos chamar a atenção Maureen, mas vou abrir uma exceção.

– Ah, obrigada Amber! – exultou a moça, batendo palmas. – Prometo contar tudo na volta!

– Não! – Isabella se exaltou, assustando a moça. Após um pigarro, se recompôs e falou com voz estável: – Não quero saber de nada que vir por lá.

– Está bem... – Maureen murmurou, olhando-a com receio. – Então já vou...

– Bom passeio – ela igualmente murmurou. – Que Deus as acompanhe!

Ao ficar novamente sozinha, Isabella foi até a janela. Estava uma bonita manhã ainda que o sol se mostrasse timidamente. Inevitável não recordar dias passados; dias que deveria esquecer para que anseios irresponsáveis como aquele que exortava a seguir Maureen não se repetissem. Ao gritar com a garota se dirigia a si mesma, pois durante um segundo se alegrou com a possibilidade de saber como o barão estaria.

– Não é mais da minha conta – sussurrou, tentando ser enfática.

– Agora fala sozinha? – Angela indagou às suas costas.

– Agora não anuncia sua entrada? – Isabella rebateu sem olhá-la, mirando as copas das árvores que cercavam o Jardim.

– A porta estava aberta e... Eu bati. Você que está aí toda suspiros e distraída.

– Estava pensando na noite de hoje – mentiu.

– Por quê? – Angela estranhou. – O que tem essa noite?

– O mesmo que na noite passada e na passada... – a jovem cafetina novamente se abraçou para se aquecer. – Rostos que não desejo ver, toques que não quero sentir, hálitos nauseantes de clientes bêbados e inconvenientes.

– Estamos aqui para que sejam inconvenientes e nós vendemos as bebidas, deveria se alegrar por ela ser consumida – a amiga retrucou indiferente. – Quanto mais ébrios, mas generosos os cavalheiros ficam. No mais, não está me dizendo nada novo; nunca gostou dessa vida, então continuo sem resposta... Se essa noite é igual a todas as outras, por que pensar nela em especial?

– Penso em todas; a novidade é que hoje você percebeu.

– Você está estranha, isso sim! Não tem motivos para reclamar uma vez que nada mudou. Continua fazendo o mesmo de antes, então não entendo o porquê de tanto “incômodo”. Aliás... Eu entendo. É por causa dele, não é?

– Ele quem?! – Isabella a encarou, alarmada; Angela não tinha como saber, tinha?

– O homem com quem esteve por duas semanas.

Sim, era por ele, a moça pensou ao acalmar o coração. Apertando os olhos reconheceu que, depois de Edward, até mesmo os mínimos toques que tolerava educadamente há quatro anos a exasperavam. Desde a primeira noite na qual se obrigou a descer que tudo estava ainda pior. Antes era fácil deixar que sua mão fosse beijada, vez ou outra sorrir matreiramente fingindo apreciar ter seu pescoço cheirado e até mesmo trocar algumas palavras com aqueles que frequentavam seu bordel. Agora tudo a exasperava. Na primeira noite, dias atrás, não vagou pelos salões nem dois quartos de hora antes de voltar ao quarto, nauseada; sentindo-se mais suja quanto das vezes que levou um homem para sua cama. Sentindo-se uma traidora.

– Não precisa nem responder – Angela falou. Isabella já havia se esquecido de sua presença. Novamente a olhar pela janela a ouviu acrescentar: – Não precisa mesmo dizer coisa alguma, pois eu vejo o quanto vem sofrendo. Está cada vez mais distante. Não ficou assim abatida nem quando nosso pequeno se foi... Você se apaixonou por esse homem, não é mesmo?

A jovem não conseguiu responder, mas ao secar uma lágrima que teimou em rolar por seu rosto, denunciou o sentimento que tentava sufocar.

– Eu sabia – a amiga exclamou sem qualquer convencimento pelo acerto, antes disso, logo ralhou: – O que eu cansei de lhe dizer? Mulheres como nós não podem cair nessa esparrela. Veja como está agora!... Estragou com sua vida!

– Não! – Isabella negou veemente, olhando para a amiga. – Não havia como estragar o que eu não tinha! Estou viva agora, depois de cair na esparrela.

– Bela vida! Presa aqui em seu quarto... Desde que voltou não foi nem mesmo à igreja. Não desceu um único dia sequer para tomar sol... O que pretende? Ficar tísica e morrer?

– Minha morte livraria os dois homens que amo da vergonha pública – ela replicou –, mas não pretendo morrer. Não sou boa o bastante para ser mártir. Apenas não tenho vontade de sair... Esqueça minhas lamentações, com o tempo, tudo voltará a ser como antes, você verá.

Ela sabia que não seria, mas não tinha que dizer a alguém que apenas a recriminaria.

– Não acredito em você e gostaria muito de saber quem é ele.

– Ninguém que você conheça. – Isabella retrucou. – Esqueça isso.

– Não tenho como esquecer e considero mesmo maçante não me lembrar de possíveis candidatos a amante que morem em Westking... – com isso Isabella viu a meretriz torcer a boca, indicando pensar. Então Angela deu de ombros ao dizer: – Não importa... Apenas me diga que tomou todas as precauções... Não tem como estar grávida, não é mesmo? O amor deixa as mulheres estúpidas quanto aos cuidados.

– Sim, fomos precavidos... – e quando não, o destino se encarregou de ser.

– Tanto melhor... Não iria querer outra criança sem pai que provavelmente também proibiria que a chamasse de mãe.

– Angela, por favor... Se não entrou aqui para falar algo relevante me deixe sozinha – pediu exasperada.

– Falei alguma mentira? – A mulher ergueu os ombros, inocentemente. – O pobre Embry já carrega a sina de ser um bastardo e nem pode chamar a mulher que o gerou de mãe... Sei que faria o mesmo com outra criança... Ou seria diferente porque essa seria “fruto do amor”?

– Cale-se! – Isabella deixou a janela para vagar impaciente pelo quarto. – Tirou a manhã para me infernizar? O que pretende?

– Maureen comentou que você estava esquisita e vim vê-la. Essa não é a primeira vez que uma das meninas nota como está, então resolvi que já é tempo de você cair em si e ver no que está se tornando. – Angela falou inabalável. – Antes não era a mais animada das mulheres, mas parecia conformada com sua sorte... Agora se apega a qualquer indisposição para fugir de sua responsabilidade para ficar chorosa pelos cantos desse quarto.

– Isso é problema meu não de nenhuma de vocês. Se já sabia que eu estou apaixonada deveria me entender.

– Eu entendo, tanto que estou desrespeitando seu pedido somente agora. Você não somente se apaixonou, esperava mais... Tanto que mentiu para mim agora; não foi prudente coisa nenhuma. Pensa que não notei seu desespero ao vir suas regras? Não nasci ontem minha querida, você “esperava” estar grávida, queria um vínculo com esse homem. Talvez uma desculpa para voltar.

– Isso nunca! – exclamou veemente. – Ele seria só meu.

– Ah sim? – Angela simulou espanto para então voltar à calma anterior e prosseguir: – E seria diferente? Acho que não, pois já conheço essa história... Ficaria toda feliz no começo e então toda culpada por ser uma puta e quando a criança crescesse, iria cismar que ela não a merecia como mãe.

– E não mereceria! Ninguém merece ser filho de uma rameira, mas não deixar que me nomeiem não muda o amor que sinto por eles ou o deles por mim...

– “Ele” – Angela a corrigiu: – Você tem apenas “um” filho Amber... E eu sei que não muda, mas acredito que haja coisas piores que desabonem uma mãe, como roubar e matar, por exemplo... Pare de fazer o tipo “romântica sofredora enclausurada” e o mais importante, não deseje ter um filho como se ele fosse um prêmio de consolação que provavelmente apenas faria sofrer como nosso pequeno.

– Embry não sofre! – Isabella negou irritada.

– Sofre, pois não tem pai, nem tem mãe... E você ainda queria outro!

– Saia! – ordenou. – Saia antes que eu diga algo que me arrependa. Saia!

– Não dirá, pois não tem argumentos minha querida. – Angela rebateu com voz mansa. – Sabe que tenho razão, não sabe?

Isabella odiava reconhecer a verdade em cada palavra, mas precisava acreditar que ela mesma estivesse certa. Embry não sofria por não chamá-la de mãe, eram parceiros e se amavam, tanto que jamais faria distinção entre ele e seu irmão; caso tivesse vindo. Cansada daquela conversa que somente a magoava, falou:

– Estou tentando deixar de ser a maldita romântica sofredora enclausurada então não vejo a razão em me atormentar. Insisto que deva sair, por favor?

– Desculpe-me Amber... – Angela pediu conciliadora. – Perdi o prumo quando admitiu o que eu já sabia e me excedi. Não tenho o direito de opinar sobre a forma como resolveu educar seu filho, nem deveria recriminá-la quando ainda está fragilizada, mas... – subitamente bufou exasperada e prosseguiu: – Eu tenho vontade de abrir sua cabeça para ver que porcaria estava pensando para ser tão irresponsável! Como foi se apaixonar?

Isabella riu sem humor e, rendendo-se ao ar conciliador da mulher que a acolheu e tratou quase que como a uma filha, troçou:

– Foi mais fácil do que partir manteiga. Devo ser muito estúpida mesmo.

– Ou ele um homem especial – disse a velha meretriz subitamente séria. – Não leve em conta tudo o que eu digo minha querida... Estou aflita por vê-la apática e acabo perdendo o rumo... A verdade é que não há muito a se fazer quando o amor nos pega de jeito. E você nunca foi estúpida menina, muito pelo contrário... Jamais conheci alguém tão determinada e responsável como você... A prova está aqui – Angela abriu os braços, indicando seu entorno. – Com seu esforço salvou o bordel da falência e o tornou o que é hoje e só tem vinte e três anos... Quando se curar, você irá longe!

– Não quero ir longe. – Isabella exalou cansada; caminhando até sua cama onde se sentou.

– Como disse? – Angela indagou cautelosamente; incerta.

– É um desejo que vem crescendo... – a moça se recostou contra seus travesseiros e acariciou seu dedo vazio onde por poucas horas esteve seu anel de noivado. Ainda alisando o dedo, encarou a amiga. – Não quero mais estar aqui. Estou pensando em vender minha parte no Jardim.

– Não... – a velha meretriz deu um passo atrás. – Não pode estar falando sério. Esse é o nosso negócio. Aqui é sua casa. Para quem venderia?

– Talvez você pudesse comprá-lo de volta, ser a única dona – sugeriu; vinha acalentando aquele arranjo há alguns dias.

– Sabe que eu não poderia – Angela exclamou sentida. – Assim como sabe que eu não teria para onde ir caso quem compre sua parte cisme de querer também a minha que é mínima.

– Esqueça o que eu disse. – Isabella pediu, comovida com o abalo da amiga. – Como falei, é apenas um desejo que vem crescendo. Ainda preciso pensar mais... Há as despesas com Embry, preciso pensar em sua formação... Esqueça!

– Não venha pôr panos quentes agora! – pediu ainda ressentida. – Eu a conheço. Você está decidida isso sim. Sempre soube que basta um pedido seu para que Sir Cullen assegure o futuro de Embry. Mas que porcaria Amber! O que esse homem fez com você afinal? Precisa mudar tanto assim? Não tome decisões no calor das emoções... Espere alguns meses, aceite que essa é sua vida e siga em frente. Não vê que nada mudou? Se está de volta é porque esse romance não deu certo e se acabou tem que enterrá-lo.

– Está enganada Angela... Eu mudei e não sei o quanto mais poderia suportar, nem pelo futuro de Embry. Essa decisão não surgiu do dia para a noite. Eu já vinha planejando parar futuramente quando tivesse o suficiente para a formação de meu pequeno, então... Apenas adiantaria o que já queria. Estava somente protelando... Indecisa e sem esperança, sem ver razão para deixar, agora, uma vida conhecida, mas eu vejo que, desde já, posso ser mais do que isso. – disse imitando a amiga ao indicar seu entorno. – Nunca mais serei uma mulher respeitável, mas posso viver como uma. Edward não precisa ter vergonha de mim e...

– Edward?! – Angela maximizou os olhos.

– Embry! – Isabella corrigiu apressadamente. – Embry!

– Posso estar ficando velha, mas não sou surda – Angela veio se sentar ao lado da jovem visivelmente abalada. – Você esteve todo esse tempo com o barão de Westking?!

– Por favor, esqueça o que eu disse – pediu aflita; não era para ninguém saber.

– Não há a mais remota possibilidade! – A velha meretriz exclamou teatralmente. – Como poderia esquecer? Esse envolvimento seria o escândalo do século!

– Exatamente, por isso simplesmente esqueça! Como você mesma disse, acabou! Estou de volta, então não tem mais nada a ser dito...

– Uma ova que não tem! – Angela a cortou. – Quero os detalhes e não se preocupe que o que dizer não sairá desse quarto, mas tem que me dar alguma coisa... Como isso pôde acontecer? Como você ficou por todos aqueles dias no palácio dos Masen Bradley e não me conta? E a baronesa? Amber?

Não havia escapatória. Isabella pensou derrotada. Acomodando-se melhor contra os travesseiros, novamente abraçou a si mesma e falou:

– Encontrei com Edward...

– Ai meu Deus! – Angela a interrompeu entre emocionada e incrédula, juntando as mãos diante dos lábios. – Você o trata pelo primeiro nome!

– Sim, ele me permitiu... – Isabella disse saudosa. – Mas não vai ficar me interrompendo, não é?

– Perdoe-me, é que é demais para mim... Justamente o barão... E você! Depois de tudo pelo que passou naquela casa... Eu simplesmente não consigo imaginar...

– Se me deixar contar, não será preciso – ela retrucou.

– Está bem! Perdoe-me... Você dizia...

– Dizia que reencontrei o barão no dia de meu encontro com Carlisle. Depois que o deixei fui até a loja de doces para comprar alguns caramelos e ele me seguiu até lá...

– O barão a seguiu?! – Os olhos da meretriz brilharam com sua animação. Aborrecida, Isabella apenas a encarou para que se contivesse. – Desculpe-me. Calo-me!

– Tanto melhor...

Com isso a jovem meretriz narrou como se deu seu encontro com Edward, a chuva, a hospedagem.

– Nossa minha menina, imagino como não deve ter sido horrível para você, entrar naquela casa depois de tantos anos, depois do que aconteceu...

– Sim, foi ruim... Nos primeiros dias tive pesadelos com o porco nojento. Mas eu reencontrei também com Nero...

– O mesmo Nero que você salvou do fogo?

– Sim... Ele me reconheceu e voltamos a ser amigos... – com a lembrança u nó de formou na garganta de Isabella. – Mas tive que deixá-lo novamente.

– Certo, certo... É lindo seu envolvimento com o velho cão, mas quero saber de você com o barão... Como foi se apaixonar? Ele não a reconheceu em tempo algum?

– Não havia como... Ele nunca me viu crescida.

– Mas você se apresentou, disse que era a Cora?

– Por favor, não repita esse nome – era como se sempre o ouvisse na voz odiosa de sua avó. – Essa morreu, então não havia como dizer tal coisa.

– Mas então...?

– Ele não soube quem eu era... E... Infelizmente se interessou por mim...

– Infelizmente?! Você consegue fisgar o barão e pensa dessa forma?!

– Não prestou atenção em nada que eu sempre lhe disse? – Isabella indagou ainda mais aborrecida. – Ele é filho do porco! E para piorar ama o canalha!

– E é irmão de Embry – acrescentou Angela, contida. – Desculpe-me por me empolgar tanto. Você tem razão, esse romance não teria como dar certo.

– E caso desse certo, seria como você mesma salientou, o escândalo do século. Mas ele ser irmão de um filho meu ou o julgamento público ainda não seria a pior parte...

– Não?

– Ele e Laurent se odeiam – ela disse simplesmente.

– Oh!... – Angela novamente cobriu a boca, alarmada. – Que horrível!

– Sim! E dois dias antes de minha partida Laurent atentou contra a vida de Edward... Isso sem nem saber de nosso envolvimento. Agora me diga, se ele é capaz de ameaçar uma criança, o que não faria com um homem feito quando soubesse que aceitei ter com este homem a mesma vida que recusei ter com ele?

– Ele simplesmente o mataria. Bem sabemos o quanto esse cavalheiro é obcecado por você. – com um suspiro, indagou: – Foi por isso que veio embora?

– Por isso eu desisti de revelar a verdade sobre mim e estava determinada a vir embora quando a ponte estivesse concluída. Gostaria de ter ficado até o último dia ao lado de Edward, mas minha avó me reconheceu e me obrigou a deixar o palácio antes do tempo...

– Velha desgraçada! – Angela insultou sem receio em ofender a amiga. – Que um dia arda no fogo do inferno por ser tão ruim!

– Esqueça-a. Ela apenas adiantou o fim inevitável.

– Amber... – Angela começou cautelosa. – Pelo o que disse, você estava disposta a se revelar... – ela assentiu com a cabeça, então a amiga prosseguiu: – Então, será que o barão poderia entendê-la e aceitá-la? Ele aceitaria nosso Embry.

– Talvez sim... Eu estava disposta a correr o risco, mas nada mais importa. Não o colocarei em perigo.

– Bem... – ela disse no mesmo tom incerto, escolhendo as palavras. – Você sabe que Sam sempre esteve disposto a...

– Por favor, não conclua! – Isabella pediu e deixou a cama, nervosa. – Como você mesma disse, ser uma assassina é pior do que uma prostituta e não quero mais esse título para mim.

– Mas não seria você a livrar o mundo daquela preste! – Angela insistiu mais segura. – E talvez, para Sam, essa não seja a primeira morte que carregue nas costas.

– Não me importa! – A moça exclamou decidida. – Essa seria por minha causa, ao meu comando e para mim, seria como se eu mesma desse cabo do infeliz. Não quero ser cobrada pela vida de um homem, mesmo sendo ele Laurent Hunt.

– Amber...

– Por favor, deixe-me sozinha agora. – Isabella pediu indo se colocar à janela.

Como se entendesse que não adiantaria insistir, Angela foi até ela e a abraçou mesmo pelas costas, comovendo-a mais.

–Sabe que você sempre foi minha preferida, é como uma filha para mim e quero aquilo que a faça feliz. Se essa é sua escolha, assim será. E não tenha cuidados, seu segredo será levado para o túmulo comigo.

– Obrigada – fio tudo o que Isabella conseguiu dizer.

Ao ficar sozinha como por tantas vezes pediu, a moça liberou o choro que lhe fazia doer a garganta. O pranto, por dias represado veio abundante ao ponto de lhe roubar as forças, obrigando-a a se deitar. Por vezes se aventurava a pensar que talvez a antiga cafetina tivesse razão e se livrar de Laurent fosse a melhor solução e então se repreendia, arrependida. Não era uma assassina e jamais seria feliz carregando a culpa pela morte de alguém.

Deveria era se apegar a outras palavras e sepultar aquele amor de vez, aceitando que sempre seria vítima de um homem; um ao menos lhe deu os dois homens que amava, o outro não somente lhe roubava as esperanças, como a mantinha longe deles. O choro farto a fez dormir em posição fetal ao que foi despertada por Angela quando já era noite. Ao abrir os olhos inchados, Isabella descobriu o quarto na penumbra e a amiga curvada sobre si, tocando-a no ombro delicadamente.

– Acorde minha querida – pediu mansamente. – Não almoçou então lhe trouxe um prato de sopa e tenho também um recado de Sir Cullen.

Sentando-se para se recostar contra os travesseiros, a moça olhou para a bandeja sobre sua penteadeira, imediatamente recordou dos cuidados de Marie, mas não se comoveu; as lágrimas tinham se esgotaram. Não sentia fome, mas sabia que deveria comer, então agradeceu:

– Obrigada!... E qual é o recado?

– Bem sabe... Ele deseja vê-la. E ao que parece está desesperado, pois até mesmo se arriscou a enviar uma nota. Sam foi quem a recebeu.

Incrédula, Isabella recebeu o papel que Angela lhe estendia. Carlisle realmente se arriscara, pois havia um acordo conjunto em nunca trocarem correspondência por intermédio de terceiros.

“Minha pequena. Folgo em saber que está de volta, sã e salva depois de padecer dias na mais absoluta ignorância. Preciso vê-la para confirmar as palavras enviadas por seu fiel guarda-costas. Não a procurei imediatamente, pois minha viagem mensal à Londres já estava agendada, mas agora não há razão para protelarmos mais. Quero que me encontre no local e no horário de sempre, amanhã. Estarei esperando.”

Ao menos ele não os nomeou, Isabella suspirou aliviada. Por vezes se recriminava por ter deixado uma missiva para o barão, abrira a exceção por seu desespero e contava que, em sua raiva ao ler, Edward tivesse lançado-a ao fogo. Bilhetes e cartas sempre seriam provas irrefutáveis de envolvimentos ilícitos e da mesma forma que jamais iria querer comprometer o barão, não desejaria causar qualquer transtorno ao banqueiro. E na atual situação, nem a ela mesma, tendo em vista a estreita ligação que os dois homens mantinham.

– Ele quer vê-la, não é mesmo? – Angela indagou enquanto Isabella dobrava o papel e rumava até a lareira.

– Amanhã – foi sua resposta ao atirar o bilhete em meio às fracas chamas.

– E você ira, não é mesmo?

– Se não fosse o levaria à especulação e além do mais... Carlisle tem notícias de Embry – disse enquanto assistia o papel ser consumido até se desmanchar, enegrecido; como seu coração. Por ela nunca mais colocaria os pés em Westking, mas por seu filho, como Angela insistia em lhe lembrar, faria qualquer sacrifício. – Preciso saber de meu pequenino.

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SPOILER

Edward correu os dedos por entre seus cabelos crescidos, impaciente. As horas corriam arrastadas naquela tarde onde estava evidente que sua esperança novamente fora vã. Isabella não viera à cidade e para piorar seu humor, os rótulos de sua sidra não estavam a contento. As mudanças pedidas na semana anterior não foram feitas em sua totalidade e a arte final estava – como bem nomeou – um lixo.

– Não tenho a tarde toda – anunciou ao ilustrador. – Poderia me apresentar uma imagem que preste?

– Estou trabalhando nela Lord Masen – disse o homem, com a cabeça inclinada sobre sua prancheta a rabiscar nervosamente com seus dedos pretos de carvão. – Seria mais tranquilo para nós dois se me deixasse trabalhar e voltasse amanhã.

– Foi exatamente isso que me disse antes, e hoje não tinha nada decente a apresentar – retrucou, acomodando-se mais sobre a cadeira. – Prefiro ver como ficará antes que imprima outra temeridade.

O responsável pela arte dos rótulos lhe lançou um olhar dardejante, mas nada falou. Apenas se entregou ao trabalho com maior afinco.

Cruzando os braços sobre o largo peito e batendo um dos pés no assoalho de madeira lustrosa, Edward se preparou para esperar o tempo que fosse preciso. Esquecendo-se do desenhista questionou se em sua casa a mãe teria se atrevido a tocar nos pertences de Isabella. O barão rogava que ela não fosse insana ao ponto de desobedecê-lo, pois estava muito disposto a confiscar suas preciosas jóias e estimadas peles para antecipar o melhor presente de Natal que suas criadas poderiam receber.

Coçava sua barba distraidamente, alimentando um prazer maldoso por imaginar a mãe que o infernizava há dias, lívida a segui-lo pelos corredores enquanto fizesse a generosa distribuição quando um de seus criados apareceu em seu campo de visão, fora da sala do ilustrados. Ao perceber que fora visto, este lhe acenou com urgência, pedindo que saísse.

– Com sua licença – pediu ao carrancudo desenhista antes de se retirar. Ao fechar a porta envidraçada atrás de si indagou ao criado. – O que faz aqui?

– Perdão por atrapalhá-lo, mas Jacob pediu que eu viesse lhe avisar que a moça está na cidade.

– Ela está?! – indagar demandou certa força do barão, pois o ar subitamente lhe faltou. Já tomando o caminho que o levaria à rua, acrescentou: – Onde?

– No hotel milord.

Notas finais
Espero que tenham gostado, msm com barão de um lado, borboleta de outro... Vamos ver o que o futuro lhes reserva...

Bjus suas lindas... ÓTIMO FINAL DE SEMANA!