Borboleta Negra
69 Capítulo Trinta e Sete - Parte - II
Notas iniciais
– Estou decepcionada comigo – comentou Isabella, olhando além da janela, entristecida. – Que vexame desmaiar diante das visitas!
– Considera a senhorita Tanya uma visita? – Marie perguntou num gracejo. – Esqueceu o que lhe disse? Ela e a mãe veem praticamente domingo sim e outro não. Há muito deixaram de ser visita. São, sim, como... traças da casa.
Isabella riu sem que pudesse evitar.
– Não conhecia esse traço de sua língua, mas digo que gosto muito. Tanya até mesmo se parece com uma traça. Mais um motivo que torna ridículo meu desmaio – salientou num muxoxo. – Eu deveria ter enfrentado a situação. Deveria ter ficado ao lado de Edward, não, ter adoecido diante de uma “traça”.
– Não pense nisso. O que passou, passou. Pode soprá-la em outra ocasião.
– Não. Essa será sempre a primeira impressão. Ela cobrando explicações comigo a desmaiar. Ainda não sei o que aconteceu, Marie. Eu estava nervosa, não nego, mas não mais do que estive ao me encontrar com a condessa.
– Jane me disse que não tomou seu desjejum como devia – Maria comentou repreensiva. – E durante o almoço vi que pouco comeu. Como espera enfrentar o que quer que seja sem se alimentar corretamente.
– Amanheci enjoada – Isabella admitiu. – E os acontecimentos foram piorando o mal-estar. Por isso estive sem fome.
– Bem sabemos que não foi somente hoje. Não tem comido direito durante toda a semana. E continua a fazê-lo, pois mal tocou no lanche que lhe trouxe. Lord Edward não há de gostar de saber que não tem se alimentado.
– Não seja exagerada! Comi praticamente tudo!
– Prefiro que seja tudo – disse Marie, indo até a bandeja, que já havia levado de volta à cômoda, de lá trouxe um pedaço de bolo. – Coma.
Isabella cogitou resistir, mas pensou que Edward realmente não gostaria de saber que ficou enfraquecida por algo bobo como não comer nas horas devidas. Marie não sabia, mas tocou em seu novo ponto fraco.
Depois de empurrar o lanche garganta abaixo, comer o bolo foi relativamente fácil.
– Aqui está senhora mandona – disse ao entregar o prato vazio. – Veja lá se vai intrigar-me com o barão.
– Agora não há motivo. – Marie sorriu vitoriosa, satisfeita. – Agora vou deixar que descanse como Lord Edward recomendou. Sugiro que não deixe a cama até estar completamente recuperada.
– É o que farei...
Marie assentiu, ainda mais satisfeita. Em silêncio passou a organizar as peças sobre a bandeja, preparando-se para deixar o quarto.
– Marie... Será que já foram embora?
– Por enquanto não tenho como saber, pois estive aqui a cuidar de você, mas penso que ainda não foram. Costumam demorar.
Era o que Isabella temia. Novamente recriminou-se pelo desmaio que a afastou do barão. Sabia que ele ainda estava aborrecido e temia que tivesse agravado a situação, mas para ela, aquele não era motivo suficiente para que ele a deixasse aos cuidados de Marie e ficasse na Sala Rosa.
– Tem certeza de que ele disse que viria me ver?
Não queria soar como uma menina chorosa, mas foi o que pareceu.
– Sim – confirmou Marie, seguindo para a porta –, mas hoje o dia está cheio, então não repare caso demore a vir.
Não repararia, pensou à saída da governanta, voltando a se acomodar entre os lençóis para olhar além da janela. Na verdade sofreria com a demora, fantasiando sobre coisas que não aconteceriam, como, de repente, seu noivo milagrosamente descobrir que Tanya seria melhor esposa.
Uma que nunca fosse contra ele, nem desmaiasse em momentos decisivos. Ao pensamento seu estômago voltou a protestar, exasperando-a, pois nunca soube ser tão frágil.
Sensibilizada, questionou-se também como seria ao estar diante de Rosalie. Um fiasco era a resposta. Para a amiga, nunca estaria minimamente preparada.
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Enquanto observava Embry mover os soldadinhos de chumbo, Edward congratulou-se por procurá-lo. Nos primeiros minutos passados no quarto, já havia perdido a vergonhosa gana de agredir uma mulher.
Estava sentado sobre o tapete, livre do casaco e da gravata, com as mangas da camisa erguidas até os cotovelos. Apoiava uma mão no chão, enquanto o braço livre descansava sobre seu joelho friccionado. Assim, à vontade como se acostumou a fazer todas as tardes naquele mesmo quarto, mantinha-se perto o bastante para participar da “ação”.
Até onde se lembrava, nunca havia brincado com crianças. Nem com as irmãs em sua adolescência, então considerava novo e divertido ouvir os sons que o menino reproduzia ao imitar o tropel de cavalos e as vozes de comando de cada um dos bonecos que guardavam um castelo que somente olhos infantis conseguiam enxergar.
Ah, sim, havia um “dragão” a abanar o rabo ao lado deles.
– Do que está rindo, pai?... Deveria me ajudar a proteger a fortaleza.
– Estou ajudando – assegurou, apresentando o soldado que lhe foi confiado. – Veja! Estou a postos, senhor!
– Isso! Fique atento soldado! – Embry ordenou como um superior. – O inimigo nos espreita para capturar a donzela.
– Onde mesmo se encontra a donzela, senhor? – indagou, entrando na brincadeira. – Na torre mais alta?
– Exatamente. Ela se escondeu para que o vilão não a machucasse como antes ou ao pajem que está com ela.
Imediatamente Edward perdeu o bom humor adquirido há tão pouco tempo ao notar a realidade mascarada pela ilusão. Eram tolos, Jacob e ele, por acreditar que Embry simplesmente esquecesse o que presenciou.
De repente a brincadeira inocente perdeu o encanto. O incômodo, contudo, trouxe uma ideia inspiradora que agradaria o menino e a Edward daria imenso prazer.
– Levante-se! – ordenou, dando o exemplo.
– Por quê? O que eu fiz?
Edward ignorou o temor do filho e novamente demandou, enquanto arrumava as mangas de sua camisa.
– Pegue um casaco! Sabe vesti-lo?
– Sim, senhor... – respondeu estático.
– Mexa-se! – Edward insistiu, vestindo o próprio casaco. – Não temos a tarde toda!
Lento, como se temesse o que viria, Embry o atendeu. Vestiu o casaco com mais rapidez, ao receber um olhar repreensivo.
– Para onde vamos?
– Você verá. Acompanhe-me!
Nero não precisou de comando para segui-los. No corredor, Edward sequer cogitou seguir até a escadaria principal. Dispensava novos encontros desagradáveis.
Queria perpetuar o bom sentimento que ainda inundava seu coração, com isso segurou o filho pelo ombro e o guiou até a escada dos criados. Embry se deixava levar, em silêncio.
Uma vez na cozinha, Edward recordou que havia ali alguém que também gostaria de evitar.
– Milord – disseram as criadas, inclinando-se.
Edward lhe acenou vagamente, mantendo a atenção em Sue Wood. Esta havia parado o que fazia para analisar os recém-chegados. Ao pousar os olhos no menino, abriu a boca em espanto, porém nada disse. Inocente, cordial como sempre, Embry sorriu.
– Boa tarde! – disse para todas antes que seu olhar se detivesse em Sue, talvez por ser a mais velha.
– Preciso de cinco torrões de açúcar – Edward falou a ninguém em especial.
Enquanto uma das criadas providenciava o que foi pedido, a velha cozinheira os fitava a mover os lábios minimamente, sem que nenhum som saísse por eles. Tudo o que fez foi observar imóvel os dois cruzarem a cozinha, seguidos por Nero, e saírem pela porta dos fundos, depois que o barão recebeu o que pediu.
– O que tem aquela senhora? – Embry perguntou, referindo-se à Sue.
– É o que me pergunto sempre que a vejo. Esqueça-a – demandou. Não queria o menino perto da bisavó.
– Está bem! Para onde vamos?
– Logo verá... – sorriu-lhe enigmático e o fez andar mais depressa.
Antes que eles chegassem ao seu destino, o resfolegar de um dos cavalos foi ouvido. Embry imediatamente sorriu e pulou diante do pai, barrando-lhe o caminho.
– Vamos ver os cavalos?!
– Não é o que queria desde que veio para cá? – Edward sorriu mais ao ver o espanto nos olhos azuis da criança.
– Era sim. Por que paramos?
Sem esperar resposta Embry partiu à frente, com Nero ao lado, para o estábulo próximo a eles. O barão riu divertido, esquecendo-se completamente o que havia deixado para trás ante o entusiasmo infantil.
Apertando o passo para não perder nenhuma reação, alcançou o menino que chegava ao portão principal.
– Milord – o cavalariço cumprimentou reverente.
– Mike. O que faz aqui?
– Vim ver como está a Palomino, senhor – respondeu com os olhos fixos em Embry que passou por ele após um breve cumprimento e parou no corredor, admirado com alguns animais que vieram até a porta de suas baias, curiosos.
– Este é Embry, meu filho. Finalmente o vê.
– É um belo menino, milord – Mike elogiou, olhando-o incerto.
A atenção do orgulhoso barão era dirigida ao menino para que não perdesse nenhuma reação, mas não pôde deixar de reparar na expressão do criado.
– Deseja dizer alguma coisa, Mike?
– Não, milord... – o rapaz ergueu os olhos furtivamente e os baixou em seguida. Antes que Edward o forçasse a falar, ele acrescentou. – Bem, é que... Eu nunca poderia imaginar que Vossa Senhoria tivesse um filho já crescido com a senhorita. Caso eu soubesse...
– E por que supõe que devesse saber? – Edward estranhou a colocação. – Diga?
Ao ordenar olhou para o menino, que se distanciava, a analisar as baias.
– Não deveria – disse o cavalariço, rapidamente. – Só imaginei que, agora que soube do menino, seria horrível se descobrisse que alguém ajudou a mãe dele a ir embora...
Edward pensou por um instante, encarando o rapaz seriamente.
– Antes talvez... Hoje já não importa! – disse, desviando o olhar para Embry. Sem nada acrescentar, desinteressado daquele assunto, foi até o menino e o tocou no ombro para incentivá-lo. – Não diz nada?
– São tantos... – Embry murmurou.
– Onze ao todo, como lhe disse.
Determinando que devesse promover uma aproximação entre o menino e os animais, conduziu-o até a baia de um andaluz inquieto por não ter sido cumprimentado. Ao parar diante de Draco, Edward lhe esfregou o pescoço a guisa de carinho.
– Boa tarde, meu rapaz! Quero que conheça uma pessoa. – Olhando para o menino, ainda a cariciar o animal, falou. – Este é Embry... Embry, este é Draco.
– Ele é lindo! Posso tocá-lo?
– Espere. Dê-me sua mão – Edward pediu. Ao ser atendido, o barão depositou os torrões de açúcar na palma pequena. – Isso... Agora aproxime sua mão com cuidado e deixe que ele pegue o açúcar.
Embry fez como pedido, tendo a mão do barão sob a dele, para mantê-la firme no lugar. E também por prevenção, pois Edward não sabia como o andaluz receberia a aproximação de uma criança.
Com exceção ao leve estremecimento de Embry no momento exato em que Draco capturou o agrado oferecido, tudo correu bem.
– Ele pegou o açúcar! Ele pegou o açúcar!
– Draco é muito educado – elogiou o tratador que os seguia.
– Eu vi... – Edward voltou a sorrir para o filho, relevando a presença do rapaz. – Acho que agora pode tocá-lo.
Como bom interesseiro que era Draco mantinha a cabeça abaixada, tentando farejar a mão que lhe tocava o focinho e a face.
– Draco é mais bonito do que imaginei – comentou o menino, ainda o tocando. – Posso montá-lo um dia?
– Veremos – Edward disse vagamente; uma novidade por vez para o andaluz, mesmo acreditando que se comportasse. – Luna eu deixo que monte, com certeza.
– Qual é Luna?
– Aquela menina bonita, bem ali – indicou a égua baia.
– Ela é linda! – Embry exclamou, já a correr até a baia indicada. – Posso montá-la hoje?
– Não hoje. Em breve... Venha, vamos ver os outros.
– Até logo Luna – Embry se despediu antes de deixar o pai guiá-lo pelas outras baias, sempre com Mike a segui-los. Nero os assistia de longe.
Cada cavalo visto provocava uma nova surpresa. Vez ou outra o menino fazia um comentário pertinente sobre a raça que reconhecia, deixando o barão e o cavalariço admirados com o conhecimento.
Ao acreditar que este tivesse sido repassado pelo “padrinho”, Edward sentiu uma pontada incômoda de ciúme, porém ele logo a sufocou. Daquele dia em diante toda informação sobre cavalos viria dele, o pai.
– Nossa! Esse Palomino está bem gordo! – Embry comentou ao parar diante da porta aberta, então olhou para o barão e indagou incerto. – É um Palomino, não?
– Sim, mas é uma fêmea – Edward o corrigiu. – Mike estava cuidando dela quando chegamos. E ela está gorda desse jeito porque está gerando um potro.
– O que é gerando? – Embry o olhou com estranheza. – E o que é um potro?
Sir Frederick não disse tudo afinal, Edward pensou satisfeito.
– Potros são filhotes de cavalos. Quando disse que ela está gerando um potro, quis dizer que tem um filhote na barriga dela, entendeu?
– Tem um filhote na barriga dela?! Como ele foi parar lá? Ela o comeu?!
Mike riu da pergunta assombrada, enquanto Embry voltou a olhar a égua, recuando, como se pudesse ser devorado pela pacata Palomino. Parou ao encostar contra o corpo do barão.
– Não, ela não o comeu – Edward o tranquilizou, contendo o riso. Não poderia ser didático, então simplificou. – O potro está crescendo na barriga dela.
– E como ele foi parar lá se ela não o comeu? – indagou ainda descrente.
– Sobre isso, conversaremos depois. Apesar de já ser “grande”, ainda é cedo para que entenda todos os segredos da natureza.
– Quando poderei saber? – Embry se voltou para encará-lo, curioso.
Edward lhe sustentou o olhar por um instante, verdadeiramente desconcertado ao descobrir que seria também sua incumbência introduzir o menino nas questões sexuais.
Por anos considerou o ensinamento básico de seu pai algo tão assustador quanto constrangedor, mas agora entendia que aquela seria a solução mais fácil. Quando chegasse à hora, igualmente levaria seu filho a um bordel e o deixaria aos cuidados de uma rameira.
Tal ideia o nauseou por muitas razões, levando-o a descartar o pensamento. Para responder ao menino que o encarava expectante, bateu no próprio ombro e determinou.
– Quando você ultrapassar esta altura nós voltaremos a esse assunto, combinado?
– Combinado! – Embry anuiu, voltando a olhar para a égua. – Quando o potro vai sair da barriga dela?
– Bem, Mike e eu calculamos que seja na segunda quinzena deste mês. Certo? – perguntou ao rapaz.
– Sim, milord. Mas talvez seja antes...
– E como ele vai sair de lá?
Daquela vez Mike conteve o riso. Edward, por um instante, arrependeu-se de ter apresentado a égua prenha ao menino tão ansioso em saber o que era complicado explicar.
– Bem, como ele sairá não importa – disse solene, acreditando ter encontrado algo que distrairia o menino. – O importante é que quando sair, ele será seu.
– Meu?! – Embry maximizou os olhos. – Meu de verdade?! O potro será meu?
– Foi o que eu disse. – Edward confirmou, congratulando-se pela decisão. – Será meu presente de aniversário para você.
– Já é meu aniversário?! – indagou ainda mais animado, pulando no lugar.
– Não é hoje, mas é neste mês. Estou apenas me antecipando. Gostou do presente?
– Sim, senhor! – respondeu ainda a pular no lugar, então, sem aviso, atirou-se contra a cintura do barão e o abraço com força. – Estou tão feliz! Obrigado papai! Esse é o segundo presente mais maravilhoso que me deu.
Atordoado com a sucessão de sentimentos que o invadia a cada reação infantil, Edward segurou-lhe as costas, retribuindo ao abraço como podia. Entendia a redundância que exprimia a alegria do menino, mas demorou alguns segundos até compreender a frase completa e indagar:
– O segundo?
– Sim. O primeiro foi ter me tirado do castigo.
Edward pigarreou, maldizendo a presença do criado que poderia bem ver sua comoção. Controlando a emoção, para se manter impassível, bateu cordialmente nas costas do filho para pedir:
– Não repita isso! Apenas se alegre.
– Milord!
Nunca antes Edward considerou a aparição de Beni tão providencial. Ao olhar para o criado que vinha até eles apressadamente, este avisou:
– Vossa irmã, a Duquesa de Ascot, acaba de chegar.
– Rosalie! – exclamou reflexivo. Logo desfazia o abraço apertado que ainda recebia. – Venha, Embry. Temos que voltar para casa. Mike termine o que veio fazer e vá descansar. Hoje é seu dia de folga.
– Assim farei milord! – respondeu prontamente, afastando-se.
– Beni, leve Embry até Amy. Nosso passeio acabou por hoje – demandou, não deixando margem para contestação. Tinha pressa em falar com sua irmã, a sós. – Entre pelos fundos e não deixe que ninguém o interpele.
– Onde está Nero? – Embry perguntou, olhando em volta.
Edward o imitou, contudo logo elucidou:
– Provavelmente foi receber a antiga dona. Depois ele voltará a segui-lo, não se preocupe. Agora vá com Beni e fique com Amy, até que um de nós vá vê-lo.
– Sim, senhor... – murmurou, seguindo os adultos para fora do estábulo.
Edward adiantou seus passos, marchando para a lateral da casa quando o menino o chamou. Voltou-se em tempo de vê-lo se separar de Beni e correr em sua direção. Não queria estragar o clima bom entre eles ralhando pela desobediência, mas Embry não lhe dava alternativas.
– O que eu disse que fizesse? – indagou seriamente. – Volte e vá com Beni!
– Vou num instante, pai – o menino garantiu. – É que eu queria dizer uma coisa...
– Pois então diga. Não ouviu que temos mais visitas?
Embry não o respondeu. Somente se aproximou mais e disse num breve sussurro.
– Acho que vou gostar se o senhor também for amigo da minha mãe.
Ao se calar, Embry correu para junto do criado, deixando o barão a olhá-lo, estarrecido. Sem saber exatamente quando passou a ser completamente aceito, Edward seguiu seu caminho; não dispunha de tempo lidar com a mudança.
Ao chegar diante da casa, encontrou os criados da irmã, auxiliados por duas de suas criadas, a descarregarem a bagagem atada à traseira do coche de aluguel. O único veículo a ocupar o calçamento frontal; os Cullens haviam partido.
Mal percebendo os cumprimentos que recebia, Edward subiu os poucos degraus apressadamente e precipitou-se para o hall com a esperança de encontrar a mãe e suas irmãs ainda a trocarem os primeiros cumprimentos.
Por sorte, foi como esperado. A baronesa e a filha caçula davam atenção para Lionel e John, enquanto Rosalie entregava sua capa a uma de suas criadas, tendo Nero a cercá-la, clamando sua atenção.
– Digo-lhes, pensei que o trem nunca fosse chegar! – lamuriou-se.
– Quanto exagero! – troçou o barão às costas da irmã, que se voltou, exibindo seu melhor sorriso.
– Edward! – ela exultou, abrindo os braços para recebê-lo.
A empatia sentida por Rosalie não era algo que pudesse explicar, ou esconder. Alegrarem-se e se abraçarem espontaneamente em seus encontros sempre seria tão natural quanto respirar.
Naquela tarde, estreitar a irmã em seus braços tinha um significado a mais para o barão. Não que existissem dúvidas quanto ao exposto por Isabella, mas Edward ansiava saber de detalhes que, talvez, somente sua irmã pudesse lhe dar.
– Bem-vinda a Apple White!
– Estou tão feliz por estar aqui – disse ao seu ouvido. – Finalmente escolheu alguém!
– Eu deveria me ressentir... Nunca recebo a mesma recepção – queixou-se Alice, cercando-os, salvando o barão de responder ao comentário.
– Se bem me lembro eu disse “bem-vinda” – Edward gracejou, mantendo um dos braços sobre os ombros de Rosalie.
– Refiro-me a essa recepção esfuziante... Com vivas, sorrisos e abraços! – A condessa maneou a cabeça com afetação.
– Também, se bem me lembro, desde pequena costumava me afastar quando tentava fazer o mesmo – ele a provocou. – Você costumava dizer que era...
– Uma aproximação indevida para contatos desnecessários. – Alice concluiu, sorrindo para a própria barriga. – Acho que esta situação afeta meu humor. Não me importaria se meu irmão me desse um abraço, mesmo desnecessário.
– Esta situação afeta seus princípios, isto sim. Que bela chantagista está sendo agora!
Deixando Rosalie, Edward abraçou Alice e a beijou no rosto, rapidamente. Infelizmente, naturalidade não era algo que viesse em instantes, mas tentou demonstrar o carinho que lhe tinha.
Disposto a manter seu plano, ele beijou o rosto da irmã uma vez mais, sorriu-lhe e então finalmente agachou-se diante de seus sobrinhos. Agora tinha uma nova visão dos meninos.
– Como têm passado? – indagou aos dois, sorrindo-lhes.
– Muito bem, titio – respondeu Lionel, o mais velho. – E o senhor?
– Estou melhor agora, com vocês aqui para alegrar mais esta casa. E você John, como está?
O menino loiro, de rosto corado e rechonchudo, apenas o olhava, esboçando um tímido sorriso.
– Ele ainda não fala direito, titio – explicou o irmão.
– Tenho certeza de que é apenas uma questão de tempo – Edward sorriu para o pequeno, antes de se erguer.
Gostava de imaginar como seria ao descobrirem haver outra criança na casa, mas no momento, ansiava por ficar a sós com Rosalie.
– Edward – chamou a baronesa. – Estive pensando se não seria o caso de conversarmos imediatamente com sua irmã. Melhor contar-lhe de uma vez, como fez com Alice.
– Não gostei desse tom. – Rosalie olhou de um ao outro, preocupada. – O que está havendo? O que querem me contar?
– Peça para que a ama leve os menino até o quarto reservado para eles – sugeriu a baronesa. – Enquanto isso, nós...
– Se não se importam... – Edward a interrompeu, dirigindo-se também a Alice. – Eu gostaria que essa conversa fosse apenas entre mim e Rosalie.
– Vocês me assustam.
– Não há razão. – Edward tomou a mão de Rosalie e a beijou. – Acalme-se.
– Está bem! – aquiesceu a mãe. – Fique a vontade.
Com um respeitoso inclinar de cabeça, Edward pediu licença à mãe e à irmã, para se retirar, levando Rosalie pela mão que nunca soltou.
– Edward, diga logo o que há... – ela pediu enquanto cruzavam o corredor; com Nero a segui-los.
Edward nada disse até que tivesse entrado em sua sala preferida.
– Sente-se – pediu enquanto fechava a porta.
– Por Deus, Edward! Está me matando... O que houve? Não haverá casamento? É isso?
– Não é isso – assegurou ao sentar-se junto a ela. – E deixemos para falar sobre meu casamento mais à frente. Agora, preciso lhe fazer uma pergunta.
– Pois faça – liberou-o, aflita.
O barão escrutinou os olhos azuis da irmã, pálidos como o céu em manhãs de inverno e intimamente rogou para que ela não se ressentisse com as novidades.
– Você se lembra de sua amiga Cora?
Rosalie piscou algumas vezes, olhando-o com estranheza, confusa.
– Cora Hupert?! É dela que fala?
– Sim... Você se lembra, não?
– Como poderia me esquecer?
Imediatamente ela voltou sua atenção ao galgo sentado ao lado, afagou-lhe a cabeça e, sem deixar de olhá-lo, prosseguiu:
– Estaria mentindo se dissesse que penso nela todos os dias, mas, vez ou outra, desde que deixou esta casa, Cora ocupa meus pensamentos. Aos domingos eu a incluo em minhas orações, pedindo que esteja bem, onde estiver.
De súbito Rosalie encarou o irmão.
– Isto é o esperado, pois fomos ligadas por muitos anos... Estranho é ouvi-lo falar sobre ela... Acaso tem notícias de Cora?
– Eu gostaria de saber como foi depois que ela partiu. – Edward ignorou a pergunta. – Como foi para você, chegar de seu passeio e não a encontrar. O que lhe disseram?
– Voltar de meu passeio?! O que está dizendo? Eu estava aqui naquele dia!
– Você estava... – Edward não pôde concluir.
Aflito, o barão se pôs de pé para caminhar pela saleta. Talvez entendesse a razão de Isabella não ter mencionado esse detalhe, mas o enojou imaginar o comportamento de seu pai, tendo uma das filhas na casa, enquanto...
– Edward, você me assusta! O que foi agora? Não consigo entendê-lo.
– Se estava aqui, diga-me o que aconteceu? – Edward novamente descartou a pergunta, precisava de respostas. – Lembra-se de ter acontecido algo anormal?
– Anormal, eu não diria, afinal Sue nunca demonstrou afeto por Cora, mas considerei violenta a forma como tratou a neta, naquela tarde. Eu estava lendo, bem aqui, quando ouvi gritos distantes. Evidente que fiquei curiosa e sai para descobrir o que estava acontecendo. Ao abrir a porta, papai passou pelo corredor veloz feito um raio e se fechou no gabinete.
Edward a ouvia, zanzando diante dela, sem deixar de encará-la.
– Fui primeiro até ele e perguntei o que se passava. Ele estava furioso. Gritou comigo e mandou que eu fosse para meu quarto e não saísse sem permissão. Não obedeci, por certo. Uma vez que ele não me respondeu, fui à cozinha, e de lá até a dispensa, onde acontecia a confusão.
– O que acontecia? – Edward indagou roucamente.
– Sue praticamente espancava Cora, diante de algumas criadas, sem que nenhuma a defendesse. Quando soube que Cora iria embora, eu corri até nosso pai, implorei para que tomasse alguma providência, mas ele novamente me expulsou, ameaçando me castigar caso insistisse. Disse que Cora era uma criada como tantas outras, e que se eu reclamava por perder um bicho de estimação, poderia me trazer uma cadela.
O barão cerrou os punhos, controlando-se como podia para não gritar as ofensas que lhe vinham à boca, contra aquele que um dia tanto considerou. Alheia a sua reação, sempre a acariciar o galgo, sem ocultar sua comoção, Rosalie prosseguia.
– Eu soube que não poderia impedir o absurdo que acontecia, então... Corri até meu quarto, separei algumas peças de roupa, poucas por que não tinha como organizá-las em nada que ela pudesse levar. Juntei todas as minhas economias e corri até a cozinha. Cora já tinha sido expulsa, e corri até ela... e ela...
A duquesa se calou, sufocada pelas lágrimas. Edward imediatamente se sentou ao lado e lhe estendeu seu lenço.
– Por favor, não diga mais nada. Agora vejo que errei ao perguntar.
Rosalie aceitou o lenço, mas não se calou.
– Ela... Ela estava machucada... E Sue havia lhe cortado os cabelos. Cortou quase tudo. De qualquer jeito... Quando mamãe e Alice voltaram do passeio, nem se importaram com o que aconteceu. Acho que somente eu e Nero sentimos a falta dela. Depois que Cora se foi, não houve um único dia no qual eu não chorasse, mas o tempo passou... Hoje tento acreditar que ela esteja bem, vivendo feliz em algum lugar...
– Posso entendê-la... – Edward murmurou roucamente, odiando mais o antigo barão, e também sua cozinheira; monstros! Eram o que eram.
– Evidente que entende – Rosalie observou, secando suas lágrimas. – Sempre nos viu juntas como se fossemos irmãs. Eu é que não entendo por que esse interesse... Lembro-me que quando chegou, pela primeira vez depois que Cora se foi, somente no dia seguinte deu pela falta dela. E nem se importou quando eu disse que ela havia ido embora. Agora, criva-me de perguntas...
Ao se calar, seus olhos azuis brilharam. Num gesto rápido, segurou as mãos do irmão e as apertou; aflita.
– Acaso sabe de algo? Tem notícias dela? Vamos! Diga-me!
– Peço que se acalme. Achou que vou pedir que lhe seja trazido um copo com...
– Edward, eu não quero nada! – ela o segurou no lugar. – Conte-me o que sabe, por favor.
– Pois bem... – O barão respirou profundamente, preparando-se para o que viesse. – E se eu lhe dissesse que ela está aqui...
– Aqui?!
E seu espanto Rosalie se levantou e olhou em volta, como se assim pudesse ver a amiga. Deixando transparecer sua animação, ela ameaçou seguir até a porta, então parou claramente desnorteada. Sorria, mas parecia que irromperia em novo pranto.
– Como “aqui”? Ela voltou a trabalha nesta casa? Como ela está? Quero vê-la! Edward?! – gritou, pois o irmão não se movia.
Atendendo ao chamamento exasperado, Edward se levantou e foi até ela para segurá-lo pelos ombros. Com voz mansa e pausada, disse:
– Ela está em repouso... Pedi a Marie que a mantivesse deitada depois que sofreu um desmaio.
– Um desmaio? – Rosalie maximizou os olhos. – O que houve? Ela está doente? Onde ela está? Nos quarto com Sue? Depois de tudo...
– Ela não voltou a trabalhar nesta casa – Edward respondeu ainda com calma para que ela assimilasse as palavras. – Está agora no seu antigo quarto... Ao lado do meu...
– Bem... Se ela está doente, você não poderia tê-la colocado em melhor quarto, mas... Se Cora não voltou a trabalhar aqui, então... O quê?
– Antes de respondê-la, vamos nos sentar – disse, obrigando-a a voltar até o sofá. Aquela era hora de contar “sua verdade” para a irmã, o barão determinou ao acomodá-los. – Não sei como receberá minha revelação, e desde já peço que me desculpe por ter escondido tal segredo por tanto tempo...
– Por Deus, esqueça os preâmbulos! Conte-me de uma vez... Qual segredo?
– Bem... Você se lembra que eu nunca deixei de vir para Apple White, em minhas férias ou datas festivas. – Rosalie apenas assentiu ansiosamente, para que ele prosseguisse. – Então... Em uma dessas vindas, eu... Eu me envolvi com Cora...
– Você e Cora?! Envolvidos? – ela riu descrente. – Impossível!
– Não, não é impossível – retrucou seriamente.
A duquesa novamente o analisou e moveu a cabeça em veemente negativa.
– Insisto que seria impossível! Vamos eliminar a possibilidade de que algo acontecesse sem que Cora me contasse, o que por si só já derruba sua fantasia, pois jamais aconteceria, diga-me grande conquistador, quando e onde ficariam juntos?
– Não esqueça que estamos num palacete. Lugar para estarmos juntos nunca foi o problema...
– Ainda teria que me dizer “quando” – Rosalie ergueu uma sobrancelha, desafiadora. – Cora e eu estávamos sempre juntas.
Infelizmente não sempre, Edward pensou. Se o pai, por duas vezes a violou sem que a irmã sequer imaginasse, por que ele não poderia tê-la amado da mesma forma?
– Tem certeza? – Edward a desafiou de volta. Tinha um propósito e não poderia se deixar vencer por Rosalie. Se ela acreditasse, ninguém mais poderia contestar sua versão. – Pense. De fato ficavam “sempre” juntas?
Rosalie lhe sustentou o olhar até que aquiescesse.
– Certo, não era todo o tempo. Até porque ela tinha suas obrigações, mas ainda assim, Cora sempre seria Cora... Que era apaixonada por você eu sempre soube, mas morria de vergonha. Ela seria capaz de se atirar ao poço antes de olhar diretamente para você, como poderiam ficar juntos?
Pelo tom, o barão soube que vencia a resistência da irmã. Calando sua vaidade por ouvir de Rosalie o quanto Isabella o amava, foi além em sua revelação.
– Hoje não importa saber como, apenas interessa que ficamos juntos. E, envergonho-me em dizer, não trocamos beijos somente.
– O que está me dizendo?! – Rosalie perdeu a cor da face. – Você abusou dela?!
– Eu estava apaixonado! – garantiu. Não suportaria que sua irmã o considerasse um canalha, como fora seu pai. Diante do olhar descrente, ele insistiu. – Apaixonei-me, sim... Confesso que não a princípio, mas a amei. E era minha intenção assumi-la, mas Sue descobriu e a expulsou...
– Então foi essa a razão?! – Rosalie novamente deixou o sofá, estupefata, pensando. – Então... Papai também descobriu. Por isso não intercedeu. Ele jamais admitiria que o herdeiro do título se casasse com uma criada.
– Exatamente! – Ocultando sua satisfação por sua irmã seguir o caminho que lhe indicava, Edward foi até ela. – Não sabe como sofri quando cheguei aqui e não a encontrei.
– Teria sabido se me contasse – ela retorquiu, olhando-o acusadoramente. – Para alguém que sofria por amor, soube disfarçar muito bem... Por que nunca tentou encontrá-la? Eu nada poderia fazer, mas você...
– Eu tentei – mentiu, antes de entrar com a verdade –, mas ela simplesmente desapareceu. Somente agora, tantos anos depois eu soube a razão... Cora havia mudado de nome... E de cidade.
– Ela mudou o nome?
– Sim. Ela é Isabella Swan agora. E tem mais...
– Mais?! – A duquesa indagou com ressentido deboche.
– Acho que já compreendeu ser ela a minha noiva, não? E... Nós temos um filho, Embry.
Rosalie estacou, encarando-o, sem nada dizer. Parecia querer ver através de seus olhos, direto em sua alma, a procurar falhas, ou algo que tornasse tudo real.
– Quero vê-la! – anunciou de súbito.
– Eu a acompanharei até seu antigo quarto, mas antes devemos...
– Agora! – determinou resoluta, erguendo a mão para pará-lo. – E irei sozinha! Mesmo que este palacete seja grande o bastante para que as duas pessoas em quem eu mais confiava, encontrassem-se às escondidas.
– Rosalie, por favor... – Edward rogou consternado ao notar o ressentimento ganhava força. – Desculpe-nos... Ou culpe somente a mim. Eu ordenei que Isabella nunca dissesse uma única palavra a você.
– Não duvido que tenha ordenado – disse secamente, dirigindo-se para a porta. – O que custo a digerir é que ela tenha lhe atendido.
Nero não saiu do lugar, talvez intimidado pelo tom da dona. Edward igualmente não se moveu, pedindo silenciosamente para que a amizade entre sua irmã e sua noiva prevalecesse ao rancor que viu nos olhos de frias manhãs.
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