Borboleta Negra
32 Capítulo Sinopse / Prólogo - Parte II
Notas iniciais
Sinopse
Apesar de marcada pela vida, Isabella se rendeu ao amor, contudo as marcas de seu passado não permitiram que se entregasse definitivamente ao futuro que Edward lhe oferecia. Então, após a inevitável separação, borboleta e barão seguem caminhos distintos, porém não totalmente afastados. O destino que os uniu parece relutar em mantê-los longe.
Seria o sentimento nascido em poucos dias ser forte o bastante para sobreviver aos reveses da vida? Às omissões e revelações aterradoras? Ainda era válido desejar que sim...
Prólogo
Sentada à penteadeira, diante do grande espelho, Isabella agravava a palidez de seu rosto aplicando pó de arroz. Estava de volta a sua casa há duas semanas e ainda não se sentia pronta para enfrentar uma noite no salão, entretanto, já tinha protelado seu retorno por demais, esgotando todas as desculpas.
Nos últimos três dias pôde se valer das incômodas regras mensais que não somente a incapacitou pelas cólicas sentidas, como sepultou de vez a esperança de ter a recordação viva de seu amor. Já nos primeiros dias de seu regresso, esteve livre de assumir suas atividades por arder em febre, provavelmente emocional, ou somente consequência da forte gripe. Esta causada pelas águas frias do rio e também pela chuva que tornou a molhá-la até que estivesse a salvo, sendo acolhida por Brenda, a serviçal de sua casa, que a recebeu na porta dos fundos, antes mesmo que o dia clareasse.
Ao baixar o pompom sujo com o pó branco e mirar os próprios olhos através do espelho, Isabella podia ver o momento de sua chegada como se este se desse naquele momento. Pela primeira vez em anos não se sentiu protegida ao cruzar o batente e fechar a porta atrás de si. Os dias passados em Apple White a fizeram sentir como se sua casa não lhe pertencesse.
Perturbador também foi notar não ter sentido tanto a falta daqueles que a receberam com um misto de preocupação e festa; sendo Angela e Sam os mais fervorosos. Desses dois ela nutriu verdadeira alegria em reencontrar, principalmente o fiel guarda-costas que sem cerimônias a abraçou fortemente e exclamou embargado:
– Graças ao bom Deus está de volta senhora! O que lhe fizeram? Onde esteve?... Se alguém se atreveu a machucá-la eu...
– Deixe-a respirar, Sam... – pediu Angela, doce como sempre, tocando o ombro do grande homem. – Ou se está assim tão preocupado, leve-a para cima, não vê como ela está fraca – para a criada, ordenou: – Esquente água para um banho. Rápido.
Isabella ainda tentou protestar, mas não foi ouvida. Por fim agradeceu ser erguida e carregada até seu quarto no andar superior. Como fora obrigada a se livrar da anágua para cruzar o rio, estava gelada. Sentia as pernas pesadas, duvidando que conseguisse dar mais um passo adiante depois da longa caminhada. Esta, por sorte, reduzida em boa parte graças ao cavalariço.
Ainda na presente data Isabella rogava que Luna tivesse feito o caminho de volta ao estábulo como estava habituada a fazer; jamais se perdoaria caso algo acontecesse com a égua. E também a Mike, por ajudá-la. Teria sido ideal que ele não a tivesse visto enquanto abria a baia de Luna, mas como poderia adivinhar que o rapaz estivesse dormindo ao lado para cuidar de uma égua prenha?
– O barão irá me matar caso descubra, senhorita – ele dissera simplesmente apavorado ao pedir que a ajudasse.
– Você sabe que não, ainda assim é melhor que ele jamais descubra – ela retrucou. – Acredite, é para o bem de seu senhor. Minha estada aqui se estendeu mais do que deveria. Se tiver alguma dúvida, pergunte a sua mãe... Ela explicará que não sou adequada. Logo a baronesa retornará... Pense na confusão que eu criaria para seu senhor.
– Mas para onde iria uma hora dessas? – o cavalariço indagou, consternado. – Logo choverá. E se algo acontecer?
– Nada acontecerá. Sabe que agora monto muito bem. Tenho uma amiga em Westking – mentiu. – Pela manhã mando alguém trazer Luna com um bilhete que lhe isente de culpa. Entendo se não me ajudar, mas estou decidida a ir embora e partirei a pé se for preciso... Seria tão mais simples se você ficasse do meu lado...
Isabella jamais se orgulharia por ter iludido o rapaz, pedindo com cumplicidade, tocando-lhe a mão levemente, num breve carinho persuasivo. Tentava se desculpar, dizendo a si mesma que por Edward seria capaz de qualquer coisa, mas no fundo se sentia trapaceira.
Com isso sempre pedia em suas orações para não ter criado um problema para Mike e consequentemente a Marie, assim como agradecia por Ele ter mantido Sam livre de encrencas depois de ter surrado Laurent Hunt dias depois de seu desaparecimento. Soube, ainda durante o banho preparado por Brenda, que seu segurança cercou o cavalheiro numa das ruas de Wisbury e tentou obrigá-lo a dizer onde a havia escondido.
– Sam não deveria tê-lo agredido – disse a Angela na ocasião, ainda tentando se livrar dos tremores; estes não resultantes do excesso de água fria e, sim, pela falta de seu lorde. Talvez nunca mais estivesse livre deles.
– Eu tentei dissuadi-lo – dissera-lhe a amiga. – Segurei-o por uma noite, mas no segundo dia sem notícias ele simplesmente enlouqueceu. Devemos agradecer que não tenha matado o infeliz.
– Sim – ela murmurara – Agradeço somente por Sam não se tornar um assassino, pois Laurent já teria ido tarde...
– Nossa! – Angela exclamou. – Nunca a ouvi falar dessa maneira... Nem mesmo quando ele...
– Quando ele adiantou o que eu já deveria ter feito muito tempo antes – a meretriz cortou a amiga. – Aqui não é lugar para crianças.
No entanto, ela quis abrigar outra nas mesmas condições, pensou ainda a se olhar no espelho; Deus era preciso em sua obra não permitindo que seu ato impensado, movido pelo amor excessivo ao barão trouxesse ao mundo outro anjo inocente, bastava seu pequeno Embry. Sim, ela pensou, bastava aquele que nunca deveria ter vivido naquela casa então não poderia depositar em Laurent toda a culpa por estarem separados.
– Amber... – Angela a livrou das lembranças ao bater à porta. – Está pronta? Posso entrar?
– Ainda não, mas entre mesmo assim... – a amiga já havia visto seu corpo em todas as fases de nudez, então não faria diferença estar vestida num penhoar.
Voltava a retocar o pó-de-arroz quando a mulher se sentou sobre a cama, olhando-a através do espelho.
– Tem certeza de que está pronta? Talvez devesse...
– Já é hora... – Isabella a cortou, dizendo à amiga o mesmo que dizia para si desde a manhã. – Estive fora por muitos dias. Pode me ajudar a prender o cabelo?
– Claro! – Angela foi até ela para fazer como pedido. Depois de receber a escova que Isabella lhe estendia, passou a penteá-la para fazer a costumeira trança. O silêncio durou poucos instantes até que ela indagasse: – Nunca vai me contar onde você esteve todo aquele tempo?
– Eu ainda não quero falar sobre isso – Isabella sustentava o olhar da meretriz. Confiava nela, mas não queria dividir seu breve romance com ninguém.
– Não precisa dizer o nome se não quiser – ela sugeriu como se lesse seus pensamentos –, mas ao menos admita ter estado com um homem. Eu vi a marca em seu pescoço enquanto a banhava.
– Por favor, não insista – pediu cansada, lembrar o que viveu com o barão sempre doeria, especialmente a última noite.
– Tudo bem! – Angela deu de ombros, voltando a prender o cabelo na trança apertada. Novamente o silêncio foi quebrado cedo demais. – Sei que não estava com Sir Cullen, pois ele veio aqui algumas vezes ao descobrir seu desaparecimento. Aliás... Já não é hora de avisá-lo sobre seu retorno?
– Ainda não – também não estava preparada para encontrar quem a faria lembrar os dias que passou em Apple White.
– Muito bem... Quando estiver na hora avise, pois ele está mesmo muito preocupado.
– Amanhã ou depois peço a Sam que leve um recado, está bem assim?
– Está – ela concordou, iniciando o enrolar da trança no alto da cabeça da moça enquanto prosseguia: – Não deve tratá-lo com indiferença. Sir Cullen é como um pai para você.
– Prefiro tê-lo como a um bom amigo – corrigiu incomodada; um pai não teria com uma filha a intimidade que partilhavam.
– Sem dúvida ele é o melhor, então não o maltrate – pediu estendendo a mão para receber os grampos que fixariam a trança em seu lugar.
Isabella não respondeu. Nunca fora sua intenção maltratá-lo, mas se comparasse ao mal que causou a Edward, o que fazia com o banqueiro era nada.
– Terminou? – perguntou secamente; valia para a trança e o discurso.
– Terminei. – Angela respondeu, provavelmente aos dois, pois o penteado que ocultava o cumprimento e a forma de seus cabelos estava pronto e o tema não fora estendido. – Quer que a ajude com a roupa?
– Não, obrigada! Prefiro que vá para o salão... Irei em breve.
– Assim farei – a meretriz anuiu, seguindo para a porta.
– Espere. – Isabella a deteve. – A casa está cheia?
– O movimento habitual, você verá.
Ao ficar sozinha, Isabella exalou um suspiro comprido; realmente não estava pronta. Como também nunca esteve pronta para tantas outras coisas que fora obrigada a fazer, então, como sua vida deveria seguir adiante, ela se levantou para concluir a troca de roupa. Seu rosto foi o último a ser coberto, como todas as outras meninas igualmente faziam.
Com mais um suspiro, daquela vez, resignado, Isabella ergueu os ombros e deixou o quarto. Em seu caminho encontrou uma das meninas que seguia ao seu próprio quarto, levando um cliente pela mão. Jessica lhe sorriu abertamente, demonstrando satisfação em vê-la de volta, mas nada disse. O homem que a acompanhava era novo, Isabella não o conhecia então ambos pouco se deram importância.
Isabella descobriu ao parar no alto da escada que agradeceu a falta de conhecimento cedo demais. Após um breve instante, até que a primeira pessoa a notasse, o burburinho correu o salão e praticamente todas as cabeças se voltaram em sua direção.
– Amber! – gritou um dos cavalheiros, erguendo sua taça num cumprimento em forma de brinde que foi seguido por muito outros enquanto ele exclamava muito satisfeito. – Está de volta a borboleta mais bonita desse jardim!
Isabella sentiu seu estômago revirar, no entanto, engoliu em seco e procurou seu melhor sorriso antes de começar a descer a escada e repetiu a frase do dia:
– Já é hora!
Fale com o autor