Borboleta Negra

7 Capítulo Seis


Notas iniciais
Oie.... Boa noite amores!Hoje capítulo chegou um pouco mais cedo... Espero que gostem. Obrigada pelos reviews que me deixaram... Estou amando como sempre!Como na semana passada não deixarei spoiler aqui, pois não tive tempo de escolher o trecho... No sábado deixo um lá no grupo no face... BOA LEITURA...

Sob a chuva fina, montado em Draco, seu cavalo andaluz, um Edward taciturno supervisionava os primeiros trabalhos para a recuperação da ponte, depois da saída dos proprietários de terras anexas à Apple White. Em uma breve reunião foi estimado superficialmente o que seria necessário para a obra. Ficou acertado entre eles que todos tomariam a responsabilidade para si em prol da agilidade onde cada um contribuiria com o que pudesse; doações em espécie, mão de obra, ferro, ferramentas e afins. Na outra margem – dezesseis metros de onde estava – havia outros homens movidos pelo mesmo intuito.

O carvalho causador do estrago continuava caído nas águas do rio e tinha somente alguns galhos já serrados. Deles e de seu caule viria boa parte da madeira a ser utilizada na reconstrução. Caso a chuva não piorasse e o nível do rio baixasse, com o trabalho conjunto e ininterrupto poderia estimar que no mínimo em trinta dias sua hóspede poderia se vir livre de sua incômoda companhia.

Foi a essa conclusão que chegou depois de uma noite insone onde tentou entender o que acontecia. Isabella era uma mulher comprometida. Pelo conteúdo da carta não era algo inocente, pois o outro desejava deitá-la em seu colo e cobri-la de beijos; estava escrito que seria o homem da casa. A intimidade era explícita. Sendo assim estava claro que ela se resguardaria de possíveis assédios. Finalmente tinha sua resposta!

Edward só não sabia a razão de a verdade o incomodar, nem por qual motivo a partida dela fizesse seu corpo estremecer com um calafrio. Ainda assim deveria cuidar para que logo partisse. No que dependesse dele, antes até do que havia calculado ela estaria livre para cruzar o rio em segurança numa ponte nova em folha para tratar de fazer as pazes com Seu Embry.

– Bom dia barão. – Edward ouviu o cumprimento com a ênfase acintosa, gritado da margem oposta.

A contra gosto Edward levou o olhar até o moreno montado em um belo cavalo negro; uma raridade entre na raça Thoroughbred. Vestia uma capa sobre as vestes e tinha a face oculta pela sombra do chapéu, todavia não precisava vê-lo para sentir o imediato desagrado. Encontrar com Laurent Hunt logo pela manhã, serviria apenas para agravar um humor já alterado. Era vontade do nobre nem lhe responder, contudo sabia ser pior, então ruminou audivelmente.

– Bom dia Sir Hunt!

– Que infelicidade a destruição da ponte, não? – ele indagou apoiando-se sobre o pito da sela, revelando as mãos enluvadas; uma a segurar um chicote de vara única. Edward lamentou pelo cavalo que era atiçado com ela.

Esquecendo-se da má sorte daquele pobre animal e focando na conversa indesejada, o barão teve que concordar com o primeiro comentário. Depois do ocorrido na noite anterior, a perda não lhe trazia beneficio algum. Somente prejuízo a todos.

– Sim, foi uma infelicidade. – respondeu sem vontade.

– Recuperar os danos custará caro. – foi o novo comentário.

Edward nada disse. Simplesmente não gostava daquele homem. Nos seus primeiros anos em Apple White, antes que fosse para Londres, nem sabia de sua existência. Não tinha como ser diferente, visto que era filho de empregados da fazenda que atualmente era o proprietário. Conheceu-o na volta, durante uma das tantas festas promovidas por Esme Cullen, sendo ele já senhor das terras e do gado; detestaram-se desde então.

Como aquele homem, atualmente com quarenta e dois anos, havia conseguido o feito era um mistério. Para o senso comum não fora uma aquisição por meios lícitos. Acreditava-se em extorsão através de chantagem que culminou na morte do antigo patrão; um velho viúvo sem parentes que reclamassem a herança. Como as suspeitas nunca foram provadas, Laurent era livre e aceito entre os cavalheiros da região.

Não era uma figura agradável, por muitos, apenas tolerado. No caso de Edward, suportado pelo bem das boas relações, contudo a antipatia mútua era notória. Não que o rechaçasse por ser um novo burguês ainda em ascensão financeira – legítima ou não –, mas por carregar com ele o ranço dos pobres de espírito e atribuir a si mesmo uma importância que não possuía; onde invariavelmente se ressentia com aqueles que a detinham.

As provocações vindas de Hunt foram imediatas e gratuitas desde o início. Edward por sua vez, ainda baronete, revidava-as à altura. Porém com o passar dos anos, especialmente após herdar o título de seu pai, passou a beneficiá-lo com seu desprezo. Foi movido por este e por seu péssimo humor daquela manhã que resolveu se calar. Infelizmente o mesmo não ocorria com o moreno.

– Então barão... Quem arcará com as despesas?

– Contribuirá aquele que desejar. – Edward retrucou seco, por fim. – Com o que desejar... Dinheiro, material, mão de obra.

– Mandarei meus homens para ajudar então. – ele gritou, aprumando-se sobre a sela. – Dinheiro já basta aquele já dou para manter a nobreza.

– Faça como bem lhe aprouver. – Edward replicou indiferente; não era sustentado por suas libras.

– Com vossa licença, Lord Masen. – um dos homens se aproximou, requerendo sua atenção. Secando a chuva em sua testa com a manga da camisa, falou. – Acaso tenha algo mais a fazer, pode ir em paz. Agora é conosco então não há razão para ficar aqui na chuva a conversar com aquele senhor detestável.

Seu chapéu de abas largas o protegia assim como a capa; poderia ficar ali o dia inteiro se fosse preciso, mas gostaria mesmo de estar em outro lugar longe da presença indigesta. Depois de agradecer pela atenção e despedir-se dos trabalhadores, Edward girou o cavalo de pelos castanhos e patas brancas na direção de Apple White e partiu sem mais palavras a Laurent Hunt.

Ao invés de conversar com que nem gostava, queria era saber se sua hóspede havia deixado a cama; se estaria melhor. Sim, era o que queria, mas ainda não poderia ir até ela. Primeiro seguiu para a casa de Jacob. Encontrou-o sentado na varanda a lustrar uma das botas já calçada em seus pés. Sua esposa estava à porta da casa com as mãos na cintura.

– Bom dia Lord Masen! – ela o cumprimentou tão logo parou. – Que bom que apareceu. Diga para esse cabeça-dura que deve descansar o pé. Ele está se preparando para ir atrás de vossa senhoria.

– Bom dia Leah! – cumprimentou alimentando certa inveja do amigo por ter alguém que se preocupasse com ele. Olhando o criado particular, indagou. – Aonde pensa que vai? Não me recordo de tê-lo chamado.

– Já estou recuperado Sir Edward! – ele alegou se pondo de pé. – Soube da ponte. E agora? Será um transtorno e tanto!... Como será para a senhorita? Ela ainda está no palacete?

– Está. – caso não tenha fugido ao raiar do dia, pensou azedo. Aproveitando sua irritação, ralhou. – Mas não deve se preocupar com essas coisas. E saiba que eu determinarei quando estiver recuperado. Até lá, ordeno que fique aqui.

Leah lhe sorriu satisfeita enquanto Jacob amarrou a expressão.

– Como desejar barão! – resmungou. Contudo logo se desarmou, porém não sem provocar o patrão. – Não posso ajudar com o acontecido, mas será que poderia ao menos cuidar desse rosto? Está horrível...

Instintivamente Edward coçou o rosto e sentiu os pelos crescido em todo seu queixo. Aparar-lhe o cavanhaque era uma das primeiras tarefas de Jacob em dias alternados e aquele era o dia de limpar-lhe o rosto, contudo naquela manhã o barão nem mesmo sentiu a falta do velho hábito. O pensamento em Isabella o dispersou. Ainda a esfregar os dedos sobre a barba rala, falou já apeando de Draco.

– Isso pode fazer.

Depois de deixar o cavalo amarrado numa das árvores ao lado da pequena casa, Edward foi até ela. Na varanda deixou a capa e o chapéu molhados. Ao chegar à sala encontrou o amigo a manquejar rumo à cozinha.

– Sente-se e fique a vontade Sir.

Edward fez como sugerido, sentando-se no único sofá da sala decorada com simplicidade, forrado com tecido floral. Como das outras vezes que esteve ali, lamentou a obstinação do amigo em aceitar sua ajuda para erguer uma casa melhor. Ele e Leah bem o mereciam. Caso imaginasse que tocar no assunto surtisse algum efeito o faria, mas já haviam discutido sobre o tema inúmeras vezes para saber de antemão que seria inútil insistir. Quando Jacob retornou com o pote de espuma e a navalha, nada falou.

– Sente-se aqui, Sir... – o criado pediu, indicando uma de suas cadeiras.

Sem nada dizer, Edward fez como pedido. Não tinha o costume de usar gravata durante o dia então já havia desabotoado o colarinho. Apenas ergueu o queixo e deixou que Jacob fizesse o que sabia tão bem; torná-lo menos horrível. Tudo o que não queria era assustar sua hóspede até mesmo acordada, pensou contrariado.

– Se não ficar quieto vou cortá-lo. – o moreno avisou ao terminar de cobrir seu rosto com a espuma espessa.

– Estou quieto. – retrucou.

– Como uma minhoca na brasa. – Jacob replicou prontamente. – Está assim por conta da ponte?

– Deve ser... E também porque estive ainda há pouco com Laurent Hunt.

– Credo! – ele exclamou revirando os lábios. – Lembrou de se benzer?

– Não foi necessário. – Edward falou arriscando um sorriso. – A assombração está presa do outro lado do rio. Ficaremos sem cruzar com ele por um bom tempo.

– Se isso o alegra então há outro motivo que o perturba. Quer contar o que é?

Não, ele não queria. A especulação somente reforçou sua vontade de ver aquela que o fazia quicar como uma minhoca na brasa. E ainda havia tanto a ser feito naquela manhã, considerou pesaroso.

– Prefiro que termine logo com isso. – falou simplesmente, sem responder-lhe. – Ainda preciso ver como está o resgate da carruagem.

– Se me deixasse ajudar... – Jacob começou sugestivo.

– Ajudará se fizer minha barba em silêncio para então descansar. – Edward o cortou. – Preciso de sua ajuda, mas quando parar de andar como um bode coxo.

Quando recebeu um olhar enviesado, pela primeira vez naquela manhã, o barão riu por gosto, mesmo que mansamente.

– Vê?... Também sei fazer comparações.

Novamente contrariado, o criado pediu que fiasse quieto para que não lhe arrancasse o nariz e cumpriu com sua tarefa. Cuidadosamente retirou os pelos crescidos durante a noite que deixavam o rosto do barão sombreado. Com o serviço concluído, limpou o rosto de Edward com uma toalha úmida e o liberou, lamentando não ter ali a loção que costumava aplicar após o serviço.

– Está bem assim. – Edward o tranquilizou.

– Tem certeza que não precisará de mim? – Jacob tentou uma última vez.

– Tenho! – o barão assegurou, já abotoando sua camisa. Ao terminar tocou o ombro do amigo. – Apenas descanse, está bem?

– Descansarei então.

Com a palavra final, Edward se despediu. Na varanda recolocou sua capa e o chapéu. Sem montar Draco, seguiu na direção do estábulo. Depois de deixar o animal aos cuidados do cavalariço para que bebesse água antes de novamente utilizá-lo, caminhou decidido até sua casa. Entrou mesmo pela cozinha, retirando o chapéu. Ao avistar Marie que vinha da lavandeira, indagou.

– Isabella já despertou?

– Sim, Lord Mason... – antes que perguntasse onde ela se encontrava a criada acrescentou. – Mas ainda está deitada.

– Ainda? – ele se admirou.

Não que ela tivesse hora para deixar a cama, mas não considerava comum que se ficasse recolhida por tanto tempo. Inconscientemente levou sua mão ao relógio que trazia consigo esquecido de que o usava mesmo que não funcionasse. Contendo uma imprecação, perguntou rapidamente.

– Alguém sabe me dizer as horas?

– Um pouco mais das nove, Milord. – ela mesma respondeu e explicou, cortando o pensamento de que talvez Isabella estivesse no quarto para não encontrá-lo. – A senhorita ainda está deitada, pois amanheceu febril.

– Ela está doente? – imediatamente ele olhou para a porta que levaria a escadaria dos criados; a informação havia varrido sua súbita e estranha tristeza, substituindo-a pela preocupação. – Talvez eu devesse...

– Sei que não devo dizer o que fazer Lord Masen – Marie o deteve antes de desse um passo –, mas a senhorita deve estar dormindo. Dei-lhe um chá para a febre e acredito que logo ela se recupere, porém deve descansar.

– Tem razão! – ele disse rodando o chapéu em suas mãos; aflito consigo mesmo por dar tanta importância a uma febre.

Edward podia sentir todos os olhos sobre si, sabendo que, assim como ele mesmo, todas estranhavam suas reações. Não lhes devia satisfações, mas ainda gostaria de evitar mexericos que inevitavelmente chegariam aos ouvidos da mãe. Toda aquela situação já era inusitada em si para que a criadagem imaginasse ter algum envolvimento onde infelizmente não havia. Reassumindo seu ar altivo, meteu o chapéu de volta à cabeça e falou para Marie.

– Bom... Sei que minha hóspede está em boas mãos. Caso ela precise de algo, avise-me imediatamente.

– Assim o farei caso seja preciso. – ela anunciou servil.

Ao sair para a chuva, Edward olhou para o andar superior novamente por puro reflexo. Dali não poderia nem ao menos ver a janela do quarto de sua irmã. Restava-lhe desejar que Isabella prontamente se recuperasse, pois como determinou na noite anterior, sentia-se seu responsável. Cuidaria dela independentemente de ter fracassado em seu primeiro intento.

Resignado, tentando ignorar a imagem que sua mente criava de uma moça debilitada entre os lençóis, o barão seguiu de volta ao estábulo para recuperar seu cavalo. Já sobre o animal partiu rumo à estrada para ver como estava o resgate de sua carruagem. Chegar ao cenário do acidente não ajudou com seus pensamentos; apenas o recordou do quanto a carta era importante à Isabella.

Quando falou sua voz saiu ríspida independente de sua vontade.

– Por que ainda não tiraram a carruagem do caminho?

– Perdão Lord Masen. – falou Mark, um dos trabalhadores. – Estamos esperando que cheguem com a nova roda. Assim como ela está e com o caminho enlameado não conseguiremos movê-la.

Ele sabia que sim, mas estava azedo e preocupado para considerar o óbvio.

– Há quanto tempo partiram para buscar a roda? – indagou ainda rispidamente.

– Tommy já deve estar vindo Milord... – foi Mark quem novamente lhe respondeu. Ambos ouviram o som da charrete ao mesmo tempo, então o criado sorriu e apontou. – Veja... Ali vem ele.

Antes que o criado estivesse com eles, Edward desmontou e amarrou Draco em uma das árvores do caminho. Retirou suas luvas, a capa e se aproximou dos homens que aguardavam a roda já enrolando as manchas de sua camisa. Quando esta chegou, ele foi o primeiro a puxá-la para fora da charrete não se importando para os protestos de seus criados. Precisava trabalhar para calar sua cabeça; ela lhe mostrava cenas e criava pensamentos que ele não conseguia entender, então iria ocupá-la com algo útil.

Uma hora e meia depois todos voltavam para Apple White. Edward ia à frente com Draco, seguido pela charrete e por sua carruagem. A lateral desta estava também danificada, seu casaco havia sido roubado, assim como sua bengala, mas o barão não se importava. Todas as coisas quebradas ou perdidas poderiam ser recuperadas ou substituídas. O que parecia não ter solução era o constante movimento de seus pensamentos.

De volta a sua casa ainda tentou se ocupar com a limpeza e a avaliação do que precisaria ser feito no veículo, contudo logo se rendeu à sua vontade que parecia ser perene. Novamente deixou Draco com quem lhe cuidava e, depois de um afago em seu pescoço molhado e de lavar o excesso de lama de suas botas, marchou para a casa. Entrou pela cozinha, deixando o chapéu e a capa pendurados do lado de fora.

Não avistou Marie em parte alguma, porém não perguntou por ela. Apenas cruzou o cômodo rumo ao corredor. Ao acessá-lo descobriu que a criada havia acabado de deixar a cozinha, pois ainda pôde vê-la no alto da escada a carregar uma bandeja; prontamente a seguiu saltando os degraus de dois em dois.

– É para a senhorita Swan? – perguntou já às costas da criada.

– Pelo bom Deus Lord Masen! – ela exclamou equilibrando a bandeja que por pouco não soltou. – Quase me mata de susto!

– Perdoe-me. – pediu sincero passando por ela e tomando sem cerimônias a bandeja que continha um prato de sopa e algumas rodelas de pão. – Deixe que eu fique com isso.

– Já estou bem... – ela anunciou avaliando-o. – Posso levá-la.

– Não precisa. Eu mesmo levo a sopa para a senhorita Swan. Vá cuidar de outras coisas.

Como esperado a criada não ousou contestar e o deixou. Entre satisfeito e levemente ansioso com a nova oportunidade dada pela providência divina, Edward seguiu para o quarto da irmã. Equilibrando a bandeja em uma das mãos, bateu à porta e esperou.

– Está aberta Marie.

Edward ouviu a voz de sua hóspede e novamente estranhou a reação imprópria de seu coração. Quando falou sua voz falhou levando-o a pigarrear e dizer com maior força.

– Não é Marie. – anunciou. – Posso entrar? Está composta?

Composta? Isabella pensou alarmada ao ouvir a voz inesperada. Estava em meio aos lençóis com Nero aos seus pés, sentindo o rosto ainda quente, provavelmente seus cabelos estavam assanhados e usava trajes de dormir. Pensando rapidamente determinou que a camisola de Rosalie nada revelaria então se sentou e passou as mãos apressadamente pelos cabelos na tentativa de abaixá-los. Quanto ao resto nada poderia fazer, pois ainda se sentia febril e deixar a cama seria pior.

– Estou. – disse por fim e esperou.

E então a porta se moveu levando o galgo a erguer a cabeça e as orelhas ao avistar seu dono.

– Bom dia! – Edward exclamou curvando cavanhaque e lábios num sorriso completo. – Ou seria boa tarde?

– Como ainda não deixei a cama nem almocei vou considerar que seja bom dia! – ela respondeu.

Ela procurou imprimir à voz o mesmo tom ameno das palavras de seu anfitrião. Este especialmente animado e bonito teve que reconhecer. Vestia uma calça preta metida em botas de montaria da mesma cor e um colete azul escuro bordado em tom mais claro sobre uma camisa branca com os punhos erguidos. Os cabelos escurecidos por uma leve umidade estavam presos e os olhos azuis brilhavam para ela. Ignorando os efeitos que a avaliação novamente exercia nela, troçou.

– Nunca imaginou ter uma hóspede assim tão preguiçosa, não é mesmo?

– Sei que não é a preguiça que a mantém presa à cama. – ele disse sério, depositando a bandeja sobre as pernas dela para se sentar na poltrona mais próxima. – Marie me contou que amanheceu doente.

Ao se calar Edward a avaliou. Mesmo com o rosto corado pela febre, ela estava melhor do que sua mente o fez acreditar. E para bem de seus pecados continuava muito bonita, tendo os cabelos negros emoldurando-lhe a face e o colo. Este revelando quase nada pela abertura da camisola de sua irmã e justamente por nada mostrar instigando sua imaginação. Era errado, a jovem não o queria, mas desejava estar na cama com ela.

– Foi a chuva. – Isabella sentenciou alheia aos pensamentos do barão, contudo estava certa que a febre era de fundo emocional, afinal sentira o mesmo ao se separar de Embry pela primeira vez.

Inconscientemente correu os olhos para a carta de Embry que novamente releu naquela manhã; queria mais do que tudo no mundo poder deitar a cabeça em seu colo. Mas não ali naquele palácio; e sim em sua própria cama... Os carinhos dele com certeza a curariam.

– Com certeza foi a chuva. – ela ouviu a voz subitamente dura do barão. Ao correr os olhos para o rosto sério seu anfitrião novamente falou no mesmo tom. – Lamento que tenha adoecido quando já é obrigada a ficar onde não deseja.

Não era mentira que preferia estar em qualquer outro lugar, mas nas palavras do nobre sua inconformidade adquiria um contexto novo e desconhecido. Unindo as sobrancelhas, falou.

– Bom... Não nego que preferia estar na minha casa, mas já que preciso de sua hospitalidade não há nada que a torne minha estada melhor ou pior; apenas adoeci. Logo passará Lord Masen.

Isabella usou o tratamento formal por brincadeira, então se assustou ao vê-lo se levantar rapidamente com expressão transtornada.

– Rogarei que de fato assim seja. – disse já seguindo rumo à porta em duras pisadas. – De minha parte tentarei abreviar a recuperação da ponte assim poderá partir para estar o quanto antes junto aos seus.

A moça nem teve tempo de responder, pois a porta fora fechada ruidosamente após a saída intempestiva do barão. Sem entender o que havia acontecido naquele quarto, ela mirou o prato de sopa. Havia perdido a fome, mas se obrigou a tomá-la e a comer os pedaços de pão. Ficar sem se alimentar em nada a ajudaria; nem a deixar a cama, nem a raciocinar sobre a mudança brusca que presenciou. O que diabos ela havia dito de errado?

Edward deixou o quarto para imediatamente deixar a casa. Considerava-se um tolo por se preocupar e se apresentar diante de quem nem mesmo queria sua presença. Isabella já havia dispensado sua companhia para o jantar, deixara claro que não queria estar na sua casa e em sonho deixou muito bem esclarecido que seu toque a exasperaria. Para arrematar salientara que nada poderia melhorar uma estada indesejada e ainda suspirava para um pedaço de papel como se este fosse a personificação do amante faltoso. Sim, era um tolo por impor sua presença, por se deixar levar por palavras educadas, não sinceras.

Nutrindo raiva por si mesmo, o barão caminhou pela chuva até o velho galpão de madeira construído anexo a uma casa de pedra afastada do palácio. Entre seus tonéis se distrairia daquela que deveria já ter desistido de desejar. Ao se aproximar da construção sentiu o cheiro característico de maçã prensada que aliviou em muito o desconforto.

Respondendo aos cumprimentos dos trabalhadores destinados a cuidar das meninas de seus olhos, foi se inteirar do serviço feito até ali. Até o final da tarde vagou entre as piletas onde se juntava as leveduras ao mosto extraído das maçãs colhidas dias antes de seu vasto pomar e entre os tonéis destinados a fermentação. Em dez dias estaria tudo pronto para a separação das borras e a clarificação. Com isso poderia iniciar a produção artesanal da sidra criada por seu avô paterno.

Dedicar seu tempo ao que gostava de fazer de fato ajudou a tirar Isabella de seus pensamentos, contudo ao caminhar de volta para casa no início da noite, ela novamente se instalou em sua mente. Não queria se preocupar tanto, afinal parecia que ela somente tivera febre, contudo se viu contornando o palacete para – pela terceira vez num único dia – entrar pela porta da cozinha.

Encontrou Marie sentada à mesa diante de uma xícara de chá e um prato com bolo. Ao vê-lo a criada prontamente se pôs de pé para se colocar a disposição.

– Fique a vontade Marie. – ele a tranquilizou. – Quero apenas saber se a senhorita Swan está mais bem disposta.

– Está. No meio da tarde a febre finalmente cedeu, contudo eu a convenci a ficar ainda em repouso; considero-a tão delicada...

– De fato ela parece ser. – o barão comentou, novamente odiando-se, no momento por cogitar convidá-la para o jantar. – Acha que ela estaria bem ao ponto de descer?

– Acredito que sim, mas ainda há pouco quando aceitou minha recomendação a senhorita me disse que preferiria mesmo ter seu jantar no quarto. – a mulher respondeu como se lesse seus pensamentos.

– Evidente que ela prefere. – o barão ruminou raivoso.

– O que vossa senhoria disse? – Marie se aproximou como se assim fosse ouvi-lo.

– Disse que não precisam se preocupar com meu jantar. – e mais alto falou a todas. – Ouviram. Não precisam se ocupar com nada para mim. Façam o que Marie determinar para nossa convidada e só.

– Mas senhor... – Marie ainda tentou alcançá-lo, porém Edward deixou a cozinha sem olhar para trás.

Subiu pela escadaria mais próxima e seguiu até a ala onde se encontravam os quartos de ambos. Por um instante parou a porta de Rosalie e apurou os ouvidos para ouvir além da madeira. Pelos latidos soube que o galgo traidor estava com a moça. Ameaçou entrar e reclamar a posse do cachorro, contudo se freou no segundo seguinte por considerar a ação infantil para um homem de sua idade e ser apenas pretexto para estar com ela.

Recolhendo o punho erguido parado a milímetros da porta, Edward foi para o próprio quarto. Nele fez seu asseio com a água fria de uma ânfora, secou-se e vestiu roupas limpas. Com um inédito sentimento de solidão, decidiu que iria até Jacob e Leah; contava que o amigo o distraísse.

Ao deixar o quarto novamente parou diante da porta de sua hóspede e escutou. No momento ela conversava com o cachorro, mas ele não pôde entender suas palavras além de “Nero”. Seguindo seu caminho, Edward riu sarcástico ao notar que sentia inveja de um galgo inglês traidor de donos dedicados; estava bem arranjado.

Ainda sorrindo zombeteiro preso em suas cismas, o barão deixou o palácio e o circundou para caminhar até a parte destinada aos casebres dos funcionários. Encontrou o de seu criado com a porta aberta e dela chamou.

– Jake? Leah? Posso entrar?

Lord Masen? – foi a esposa de Jacob quem primeiro o recebeu.

Vinha da cozinha a secar as mãos no avental. Ao confirmar sua desconfiança encontrando o barão no meio de sua sala a mulher estacou.

– Boa noite Leah... Vim ver como está Jake. – Edward anunciou não reparando na reação alarmada.

– Ele está melhor Milord... – ela falou saindo da inércia para abanar uma poeira imaginária do simplório sofá. – Não esperava que voltasse aqui. Sente-se, por favor... Vou chamá-lo.

Edward sorriu com o embaraço e fez como indicado. Ao sentar-se ela se voltou e perguntou atabalhoada.

– Aceitaria algo? Não temos nada refinado, mas posso prepara-lhe uma xícara de chá... Ou talvez um suco...

– Não quero nada Leah. – disse movendo a mão tranquilizador.

Aquela reação exagerada quando estava onde se suponha não ser digno de recebê-lo por vezes se tornava aborrecida. Antes de seu título era um homem como outro qualquer e seria interessante ser tratado como tal ao menos pelas pessoas que gostava. Aquela não era a primeira vez que entrava naquela casa e a amizade que tinha por Jacob – mesmo com o respeito no tratamento sendo mantido – era notória então não cabiam tantos rapapés em sua recepção. Desejando quebrar aquela reserva de vez, Edward a deteve.

– Pensando bem... – disse quando ela já estava à porta. Quando a dona da casa se voltou, anunciou. – Aceito ser convidado para o jantar.

– Para...? – ela gaguejou incrédula. – Para jantar aqui?!

– Sim. Com Jake e você... Tem algum problema?

– Minha comida é simples Milord... – ela esclareceu vermelha até a raiz dos cabelos.

– Tenho certeza de que é tão saborosa quanto a que prepara em minha casa. Se esse é o problema, não há mais... Agora, poderia chamar por Jake?

Com passos vacilantes Leah se foi e logo o amigo entrava pela mesma porta com o olhar tão incrédulo quanto o da esposa.

– Soube que veio jantar em minha casa. – ele comentou tão logo se cumprimentaram e acomodaram. – Que novidade é essa?

– Leah estranhar até entendo, mas você? – Edward uniu as sobrancelhas. – Quantas vezes você já jantou comigo quando minha mãe não está?

– Muitas. – o moreno admitiu. – Mas uma coisa e me sentar à sua mesa quando se sente especialmente sozinho, outra muito diferente é vir procurar por companhia aqui.

– Gostaria de saber o que de tão extraordinário há aqui para você e sua esposa espantarem-se com minha decisão. – falou contrafeito.

Não era herdeiro ao trono britânico, somente detentor de um título conseguido por seu pai por deferência da rainha Vitória em reconhecimento pela popularidade e qualidade das bebidas produzidas a base de maçã e por colaborar com outros produtores de Westking e adjacências com seu subproduto, sendo assim a figura mais importante da região. Apreciava o respeito vindo com o prestigio de algo feito por seu avô e aprimorado por seu pai, mas no momento este era completamente inadequado e exagerado.

– Perdoe-me Sir Edward, mas há de convir que isso seja diferente...

– Não posso desejar mudar de ares de vez em quando? – replicou ainda aborrecido.

– Evidente que pode e saiba que será muito bem vindo a se juntar a mim e minha esposa. – sorrindo acrescentou. – Isso se ela sobreviver. Quando me avisou da novidade estava à beira de um ataque de nervos.

– Não queria perturbá-la. – Edward correu os olhos para a porta como se assim visse a pobre mulher.

– Não se preocupe, logo passa... – Jacob o tranquilizou claramente o avaliando. Após um suspiro, pediu. – Agora conte a verdade... O que há de errado? Está estranho desde essa manhã. Por que procurar por nossa companhia quando tem uma bela senhorita bem abaixo de seu teto? Acaso tentou alguma coisa e ela o escorraçou?

– Apague esse sorriso. – ordenou seco. – Ele é ofensivo. E para sua informação, não tentei nada nem ninguém escorraçou ninguém... A senhorita Swan passou todo o dia indisposta e em repouso. Mal a vi.

– Está certo... – Jacob murmurou intimista coçando o queixo moreno. – Se não quer dizer não diga. Esqueçamos as jovens inteligentes que mantém distância daqueles que nada querem além de diversão e falemos de assuntos práticos... Já iniciaram os reparos da ponte?

Edward refreou o desejo de mandar Jacob ao inferno e sair. Não queria mesmo ficar sozinho nem deveria culpar o amigo por conhecê-lo tão bem. Descoberto o mistério de Isabella ele havia conseguido outro para ocupar-lhe a cabeça; um problema novo e completamente seu. Um que não o desligava dela, que tornava sua casa sufocante mesmo que fosse grandiosamente espaçosa somente porque não poderia cruzar a porta de um único quarto. Que o fazia ter ganas de duelar com um homem que nem conhecia, mas que considerava meloso e inoportuno.

Sim, era evidente que havia algo muito errado, mas como Edward poderia explicar se nem mesmo ele sabia a razão de estar tão contrariado? Com Isabella não protagonizava o primeiro flerte fracassado de sua vida, então por que incomodava tanto?

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Notas finais
Bom... Por hoje é isso... espero que tenham gostado... Contem-me!Quero agradecer a atenção e desejar a todas um excelente feriado e uma feliz Páscoa!... BJUS...