Borboleta Negra

79 Capítulo Quarenta e Sete - Parte II


Notas iniciais
Boa noite, amores... Mais um capítulo para vcs. Agora estamos na reta finalíssima... Muito pouco para o final. Espero que gostem do que virá. Antes de seguir, obrigada pelos comentários. Vcs são as melhores! BOA LEITURA!

Em Wisbury, Jacob conduziu Isabella e Embry às três melhores lojas da vila apenas para manter a farsa – para o caso de serem visto –, então foi uma agradável e feliz surpresa ter encontrado um casaco de veludo azul marinho que coubesse quase à perfeição em Embry. Enquanto o pagava, o menino não cabia em si de tanta animação.

Isabella dividia com o filho a mesma ansiedade e tinha as mãos frias sob as luvas quando Jacob parou diante do banco.

– Conheço as recomendações – disse o criado ao ajudá-la a saltar –, mas tome o tempo que for necessário, senhorita. Esperarei o quanto for preciso.

– Obrigada, Jacob.

– Sir Carlisle está aqui? – indagou Embry, analisando a construção com atenção.

– Sim, querido... Vamos?

Embry não esperou por novo chamado. Sem deixar de olhar a entrada, tomou a mãe pela mão e a puxou. Contento-o, ela seguiu até a mesa do secretário do banqueiro.

– Bom dia. Creio que o Sr. Cullen esteja a minha espera... Isabella Swan.

– Sim, ele a aguarda – disse o rapaz ao se pôr de pé. – Venha comigo, senhorita.

Enquanto os levava até a porta, vez ou outra o secretários os olhava com curiosidades, porém nada comentou. Depois de dois toques à porta, abriu-a e anunciou:

– A Srta. Swan chegou.

– Faça-a entrar – Carlisle demandou.

Enquanto erguia o véu de seu chapéu, mais uma vez Isabella quis acreditar que sua ansiedade fosse o reflexo da sentida por Embry, pois nunca esteve daquela forma antes de um encontro com o banqueiro.

– Enfim chegaram! – Carlisle festejou-os. Para o secretário, disse apenas: – Lembre-se do que lhe falei. Não quero ser interrompido.

Após assentir, o jovem se foi. Isabella não contava se comover ao ver o senhor que sustentava seu olhar com os olhos azuis a brilhar.

– Sir Carlisle! – Embry o chamou como se não o visse, contente, dispersando a emoção dos adultos.

– Como tem passado, Embry? – Carlisle sorriu para o menino, ao lhe apertar a mão.

– Muito bem! O senhor sabe que agora moro com meu pai, não sabe? Ele lhe disse no domingo? Ele é o barão.

– Sim, eu sei... – confirmou Carlisle, rindo do entusiasmo infantil. – Está feliz, meu jovem?

– Muito feliz! Ainda mais agora que meu pai será amigo da minha mãe. Eles vão se casar no sábado, o senhor sabia?

Carlisle assentiu, porém a encarar Isabella, surpreso. Ela sabia ser pela novidade de ouvir o menino chamá-la de mãe, então apenas sorriu, indicando estar bem com a mudança.

– Sim – Carlisle disse a Embry –, eu sei. Fui convidado. Saiba que estou feliz por você.

– Então vou vê-lo de novo, no sábado. E acho que posso falar com o senhor, porque vovó já sabe que eu o conheço. Sabe? Eu esqueci o jogo e falei sem querer...

– Jogo? – Carlisle indagou a Isabella, confuso.

– É uma longa história – disse ela a agitar a mão para minimizar o teor do comentário.

– E o senhor sabe? Antes éramos apenas eu e mamãe na nossa família, mas agora, além do papai, tenho tios, tias e primos... E minha avó. Não é maravilhoso?

– É perfeito!

– Mas sinto falta do senhor – Embry confessou de súbito sério.

– Mas vamos nos ver como antes... Eu só iria pedir para que não comentássemos sobre as outras vezes que nos encontramos, poderia fazer isso?

– É outro jogo?

– Carlisle – Isabella o chamou. – Eu gostaria de lhe falar em particular... Então, talvez seu secretário pudesse distrair Embry por um instante.

– Sim, claro. Deixe-me ver isso...

Enquanto Carlisle seguia até a porta, Isabella se inclinou para o filho de forma que seus rostos ficassem à mesma altura.

– Eu disse alguma coisa errada? – Embry indagou num muxoxo.

– Não... É apenas um assunto de adultos. Assim que terminarmos, eu o chamarei. E não precisa ter medo, pois Jacob está lá fora.

– Isabella, Quincy irá mostrar o banco a Embry.

Embry hesitou, porém se deixou ser guiado para fora da sala e ser entregue ao secretário. Bastou ver o sorriso de Carlisle ao ficarem a sós para que Isabella aceitasse a verdade: sua ansiedade nada mais era do que a falta que sentia de seu amigo. Este demonstrou sentir a mesma, pois ainda a lhe sorrir simplesmente lhe abriu os braços.

– Oh, Carlisle! – Isabella não sabia ao certo porque chorava até que diminuísse a distância e o abraçasse.

– Isabella?! – Carlisle se mostrou novamente confuso. – O que houve? Pensei que estivesse feliz... Edward, não...

– Eu estou – ela disse rapidamente ao se afastar. Tentou esboçar um sorriso, mas apenas chorou mais.

– Como posso acreditar quando chora? – O banqueiro entregou-lhe um lenço e enquanto Isabella o apertava junto aos olhos, levou-a até uma das cadeiras e fez com que ela sentasse. Depois de se acomodar na cadeira ao lado, pediu: – Por favor, me diga a verdade. Fiz o que pude para juntá-los, mas era para que fosse feliz ou no mínimo que se sentisse segura, amparada... Se Westking não está...

– Não é nada disso – Isabella o interrompeu a secar os olhos, recuperando-se da comoção inesperada. – Ainda não está tudo como se deve, se é que um dia vai estar, mas sou feliz. Nunca duvide. Se não fosse por mim, seria por meu filho. Você viu como ele está radiante.

– Vi, assim como o ouvi chamá-la de mãe e agora você a tratá-lo por filho. Sei o que isso significa... Para os dois, na verdade.

– Sim... Agora não há razão para a proibição. – Dessa vez o sorriso surgiu facilmente.

– Folgo em saber, mas não por completo – comentou Carlisle a escrutinar-lhe o rosto. – Conheço-a o bastante para saber que simularia estar contente apenas para que Embry estivesse bem, sem se importar consigo. Então... Tem certeza, Isabella? – Carlisle se aproximou e lhe segurou as mãos. – Se não está como imaginei, eu posso ajudá-la a sair de lá. Se eu voltei a errar com você, não pretendo...

– Carlisle... – Isabella libertou uma das mãos e lhe tocou o rosto para silenciá-lo. – Estou bem, acredite. Como pode se oferecer para me tirar de lá depois de tudo que fez?

– Talvez eu não soubesse o que estava fazendo – ele replicou, segurando-lhe a mão sobre o próprio rosto, causando estranheza na moça.

– O que está acontecendo, Carlisle?

O banqueiro voltou a escrutinar-lhe o rosto, pensativo, então admitiu:

– Sinto sua falta. Provavelmente soe egoísta, mas se tivesse imaginado, por um segundo, que seria afastada de mim eu teria revisto minha decisão de tentar uni-la a Westking.

– Carlisle?! – Estupefata com a declaração Isabella soltou as mãos e se pôs de pé.

– Por que o assombro? – Carlisle se levantou. – Por anos somos amigos. Sempre pude vê-la quando e onde quis e agora sou implacavelmente afastado. Domingo mal conversarmos.

– Impedidos pelas circunstâncias...

– Não, pelo barão. Desde que descobriu a verdade Westking deixou claro que minha participação em sua vida e na de Embry estava encerrada. Bom Senhor! Você desmaiou e ele não teve o cuidado de me tranquilizar, enviando uma nota avisando-me de seu restabelecimento.

– Carlisle... – Entendia-o, mas sentia que havia mais. – O que não me diz? Sabe que Edward não está errado. Agora não há muito que você possa fazer por nós, então, sim, suas obrigações estão encerradas... No mais, não ficaríamos afastados. Nós nos veremos sempre que for a Apple White ou em eventos. Você é amigo da família, logo, não será extraordinário se nos virem a conversar...

– Eu disse que soaria egoísta – Carlisle esboçou um sorriso que não chegou aos olhos e pousou as mãos no pescoço nu da jovem, para que ela o encarasse. – Entender que não voltaremos a nos encontrar secretamente, que não viajaremos juntos nem seremos... íntimos, arrasou meu coração.

De súbito a intimidade citada, a mesma que o permitia tocá-la do modo como fazia, perturbou-a e a conversa que tivera com Angela no último encontro voltou nítida aos ouvidos de Isabella. Queria crer que Carlisle sentisse por ela apenas amizade, então disse sem rodeios:

– Evidente que a intimidade seria encerrada, Carlisle. Amanhã serei uma senhora casada. Uma que terá que redobrar os esforços para nunca ser envolvida em escândalos. E você, mais do que ninguém, sabe disso... Como pode se surpreender com a mudança? Aliás, por que sofrer pela mesma? Será possível que tenha a ver com as amantes semelhantes a mim?

Carlisle maximizou os olhos e recuou um passo.

– Como sabe sobre isso?

– Angela me contou... Para justificar a traição de Kate. Acredito que esteja a par do que aconteceu no Jardim.

– Sim, eu soube, mas...

– Pois bem – Isabella não se incomodou de mais uma vez interrompê-lo –, segundo Angela, Kate se ressente do amor que você me dedica. Ela não compreende que se trata de algo casto... Ou tenho sido ingênua? Seria possível, Carlisle? Ainda me lembro de nossa última viagem, quando ouvi um sermão por beijá-lo.

– O que mais eu poderia fazer quando nem mesmo sei o que se passa comigo? – ele indagou num ríspido ciciar.

– Carlisle?! – Isabella recuou um passo; desconhecia-o.

– Não se defenda de mim, Isabella – Carlisle pediu em tom ameno. – Excedi-me ao ser sincero. Eu realmente não entendo o que sinto. De concreto, de coração, sei que a amo... E enquanto minha mente a deseja, meu corpo não reage como se espera de um homem. Então me comprazia com seus toques, as massagens, os beijos fortuitos... E já que me exponho, admito, guardava as emoções para os encontros com outras jovens.

– Oh, Carlisle!

A confusão do amigo a comoveu mais do que a chocou. Era como se sempre soubesse. Não foi ingênua, sim, condescendente. Caso nunca tivesse se envolvido com Edward, talvez tentasse fazer com que Carlisle transpusesse tal barreira, considerou Isabella, pois também o amava.

– Por favor, não se enoje de mim... Nem me odeie.

– Oh, Carlisle! – Isabella avançou e o abraçou para expor que o compreendia. – Como poderia odiá-lo se é uma das pessoas mais importantes da minha vida? Apenas lamento não ter como ajudá-lo porque, seja lá qual relacionamento tivemos, este ficou no passado. A partir de agora devemos construir outro, adequado à nossa realidade.

Por um instante Carlisle nada disse. Somente a abraçou com força, então a afastou e sorriu.

– Releve as incoerências de um velho!

– Carlisle... – ela murmurou, condoída.

– Não se atreva a me olhar dessa forma – Carlisle ralhou. – Tenho me saído bem até aqui. Nem deveria ter-lhe dito como me sinto. Acho que perdi o senso por acreditar, tolamente, que Westking proibiria encontros entre nós. Mas é como disse... Minha família tem sido assídua em Apple White há anos e não há razão para que isso mude. Não será extraordinário trocarmos algumas palavras.

Ainda confusa com a revelação, Isabella considerou sábio sepultar aquele tema. Não seria hipócrita aconselhando-o a ser fiel à esposa, muito menos insensível, ou tola, pedindo que ele parasse de conseguir amantes que o lembrassem dela.

– Ainda teremos de primar pela discrição, meu amigo – deveria retomar os assuntos que a levaram ao banco. – Ouviu Embry dizer que o citou para a baronesa.

– Sim – Carlisle pareceu aliviado com a mudança de tema. – Conte-me como foi isso.

Isabella assentiu e depois de se sentar, rolando o lenço em seus dedos, contou sobre o jogo proposto por Edward, sobre o ato falho de Embry e a necessidade de usar a mentira utilizada por anos.

– Bom Senhor! – Carlisle consternou-se. – Quando Lady Westking vir Esme, eu serei delatado.

– Não será – tranquilizou-o. – Lady Westking está disposta a manter sigilo sobre este detalhe em favor de Edward. Mas não duvido que ela o aborde para ter detalhes.

– Por certo ela o fará... E o que devo dizer?

– Endosse a mentira... Peço ainda que, se for preciso, crie provas. Como as apresentadas no internato.

– Sim, claro! Agora... – Duas batidas à porta o silenciaram e logo o secretário a abria para anunciar:

– Quem esperava acaba de chegar, senhor.

– Faça entrar! – demandou Carlisle. Para a moça que o encarava interrogativamente, ele explicou a sorrir: – Quando soube que viria decidi fazer-lhe uma surpresa.

Antes que Isabella pedisse detalhes, viu Angela surgir ao lado do secretário, seguida por Sam que tinha Embry, segurando-o firme pela sua mão; ela sabia não ser o contrário.

– Boa tarde – Angela os cumprimentou.

– Sir Carlisle... Minha senhora... – disse Sam à guisa de cumprimento.

– Angela! Sam! – Isabella se pôs de pé num salto para abraçá-los. – Carlisle, obrigada!

Como não amá-lo? Não havia como, então intimamente rogou para que seu atencioso amigo um dia encontrasse paz para sua mente e coração.

– Posso ficar agora, mamãe? – Embry indagou, com esperança no olhar.

– Em instantes, querido – Isabella negou. – Ainda estamos tratando de assuntos importantes. Prefiro que vá com o Sr. Quincy.

Com um muxoxo Embry a obedeceu. Ao ver a porta ser fechada, Isabella se voltou para escrutinar o criado.

– E você, como está?

– Ainda não foi dessa vez que aquele pulha conseguiu o que queria – disse. – Então estou bem. E a senhora?

– Estou bem. – Sam estava mudado, porém Isabella não dispunha de tempo para elucidar o que seria. Tinha algo a dizer que não poderia adiar. Olhando de Sam a Angela, acrescentou: – Acredito que já saibam... Edward conseguiu uma licença especial. Nós nos casaremos amanhã. Eu sinceramente gostaria de convidá-los, mas...

– Não lamente – Angela pediu, sorrindo. – Seria algo curioso a futura baronesa ter entre os convidados um leão-de-chácara, uma cafetina e algumas meretrizes. Conhecemos as limitações e todos nós desejamos felicidades na nova vida.

– Gostaria que pudesse ser diferente, então, obrigada! – Isabella lhes sorriu. – E me contem as novidades. Desde quando está de pé, Sam?

– Estive acamado por quatro dias, senhora. Desde que a febre cessou passei a descer e a dar voltas ao redor do Jardim.

– E acompanhado, devo acrescentar – disse Angela sugestivamente.

Ao ver o moreno desviar o olhar, Isabella foi tomada pela curiosidade.

– Acompanhado, Angela? Por quem?

– Por Jessica – revelou a senhora. – A estabanada se sentiu culpada com o que aconteceu e não deixou que ninguém se ocupasse de tratá-lo. Seja dia ou noite, sem descanso, Jessica está firme ao lado de Sam. Tanto que sequer tem trabalhado ultimamente... E acredito saber o motivo...

– Senhoras, por favor... – Sam pediu, desconcertado.

– Além da culpa?! – Isabella admirou-se. – O que seria?

– Certa tarde, na sexta-feira para ser exata – Angela segredou teatralmente, pois todos a ouviam muito bem –, enquanto passava pelo corredor, ouvi sons bem conhecidos vindos do quarto de nosso enfermo.

– Sam?! – A moça o encarou entre divertida e surpresa. – Você e Jessica?!

– Por favor, senhora – disse Sam a mirar o piso. – Não gostaria de tocar nesse assunto. Estamos na presença de um cavalheiro.

– Não por mim – Carlisle liberou o tema, divertido.

De súbito Isabella soube o que tinha mudado: o olhar devotado que por anos recebeu de seu criado. Sam ainda a olhava com ternura, mostrava-se servil, mas sem a costumeira veemência. Para provar sua teoria, disse:

– Não precisamos falar sobre isso, Sam... Mas tenho algo para você. Eu conversei com o barão. Edward permitiu que fosse morar em Apple White, na qualidade de meu segurança, como tem feito. Basta você querer... Já que está recuperado, o que me diz?

– Não sei por que ainda me surpreendo com as atitudes do barão – comentou Carlisle, admirado. – Sam, não há o que pensar.

De fato, pensou Isabella, Sam não teria o que considerar, antes... Agora, a demora em respondê-la dizia à moça mais do que mil palavras.

– Bem... – Sam disse por fim, ainda desconcertado. – Sempre vou querer protegê-la, senhora, mas... acredito que também precisem de mim no Jardim... Então...

– Sam – Isabella lhe segurou as mãos e sorriu –, se permanecer no Jardim, estará bem para mim. Eu ficaria aliviada por saber que Angela e as meninas estão sendo bem cuidadas. E meu oferecimento sempre valerá. Basta você querer.

– Apesar de tudo, o barão lhe ofereceu casamento, senhora. Se eu não confiar que ele seja capaz de protegê-la, não sei mais o que pensar. Sendo a senhora uma dama, uma baronesa, não acredito que sir Laurent volte a importuná-la.

– Todos nós contamos com isso – disse Angela. – E de minha parte, Sam, saiba que as portas estarão sempre abertas para que vá ou volte.

– Por enquanto, prefiro voltar – Sam falou diretamente para Isabella. – Obrigado pela atenção, senhora. Caso mude de ideia, mando avisá-la.

– Estarei esperando – ela garantiu.

– Bem, já que estão acertados – Angela chamou a atenção de Isabella –, temos um tema espinhoso a tratar.

– O que seria?

– É sobre a ida do barão ao Jardim – disparou. – Os cavalheiros têm comentado. Todos já estranhavam a sua falta desde o ocorrido... E agora, com a notícia do casamento...

O burburinho tivera início, enfim. Isabella estremeceu.

– O que dizem? – Ela tinha de saber.

– Não nego nem confirmo – Angela revelou –, mas não posso garantir que uma das meninas não seja indiscreta com algum de seus clientes. Até porque, os acontecimentos falam por si só.

– Claro! – Para demonstrar uma segurança que não sentia, sorriu. – Sempre soubemos que seria assim e não nos resta muito a fazer além de esperar para ver como se desenrolam os novos acontecimentos. Mas, Angela, se ainda cabe o pedido, por favor, negue. Negue sempre. Não importa o que as meninas disserem. Sua palavra sempre prevalecerá. Diga que cansei dessa vida e me mudei para Londres... Com a sua negativa e sem provas, tudo não passará de especulação e logo será esquecida.

– Tem razão... Perdoe-me por não ter pensado dessa forma.

– Não se desculpe. Tudo aconteceu de repente e quando tivemos a chance de conversamos, Laurent bagunçou tudo... Apenas tome esse cuidado a partir de agora.

– Assim farei. E... Tenho algo mais a dizer... – Isabella sinalizou para que prosseguisse. – Bem... Kate voltou três dias após o incidente. Não vou defendê-la, mas o susto fez com que ela se arrependesse e... Eu deixei que ficasse.

– A casa é sua, Angela – Isabella salientou com impensada aridez. – E já que me lembrou desse detalhe e estamos aqui... Carlisle! – chamou-o. – Teria como deixarmos os termos de doação da minha parte do Jardim a Angela, ainda hoje?

– Por certo – garantiu o banqueiro de moro profissional –, mas não há a necessidade de ela estar aqui. Aliás, essa reunião já se estendeu por demais. Sabemos que todo cuidado é pouco.

– Sim! Vamos, Sam! – Angela se agitou. – Isabella...

– Angela... – a moça torceu os lábios, de súbito comovida. – Nem sei o que dizer...

– Eu, sim – Angela se aproximou e lhe segurou as mãos. Com os olhos marejados, disse: – Saiba que continuarei a incluí-la em minhas orações. E que farei o que estiver ao meu alcance para que esteja a salvo da maledicência, pois se existe alguém no mundo que não merece carregar a nodoa do meretrício, esta é você. Jamais poderei agradecer por sua generosidade e prometo não voltar a falhar.

– Angela...

– Não diga nada, apenas ouça – Angela pediu. – Não temos tempo, nem isso é um adeus. Sei que ainda nos veremos. Discretamente... Na igreja, talvez. Então não vamos nos estender em despedidas lacrimosas. Fique em paz, olhe para frente... E seja feliz.

– Obrigada! – Isabella murmurou ao ser abraçada efusivamente. Ao afastar-se, disse: – Cuide-se. E, sim, nos veremos... Discretamente.

– Senhora! – Sam a chamou e estendeu a mão. – Aceite meus cumprimentos pelo casamento. Estou muito feliz que tenha encontrado um bom destino.

Isabella olhou para a mão estendida, então, ignorando a postura rígida do criado, abraçou-o com cuidado.

– Obrigada, Sam! Caso mude de ideia, procure-me... E, por favor – pediu ao encará-lo. – Fique atento a Laurent. Temo o que ele possa fazer.

– Esqueça-o – disse Sam. – Não é a mim que ele quer. E quem quer, agora estará bem guardada. Sei disso.

– Por favor... – Carlisle apressou-os. – O tempo.

Isabella assentiu e sorriu para os amigos. Ante a pressa, as despedidas tiveram fim. Ao ficar novamente a sós com Carlisle, a moça rogou para que o bom criado encontrasse paz para seu coração torturado nos braços de Jessica. Quanto a Angela, não tinha cuidados. Confiava que ficaria bem. Carlisle circulou sua mesa, acomodou-se e prometeu já a pegar papel e caneta-tinteiro:

– Serei breve, pois, por mais que aprecie tê-la aqui, nossa reunião também se estendeu além no esperado.

Isabella voltou a assentir e seguiu até a porta. Avistou Embry na companhia de Quincy e Jacob, despedindo-se de Sam e Angela. Nesse instante seu olhar encontrou o do criado do barão. Não precisou estar perto para entender que, apesar de tê-la liberado, estava ansioso por partir.

Jacob não saberia, mas ela também gostaria de poder ir embora, no entanto, uma vez que era obrigada a esperar, voltou a se acomodar na cadeira diante da mesa e passou a observar o amigo. Inesperadamente uma questão lhe ocorreu e sem pensar, externou-a:

– Carlisle... Você se importaria de me dizer como tem passado sua filha?

Carlisle a encarou por um instante, surpreso, então respondeu:

– Sei exatamente o que quer saber, então lhe digo... Tanya não está nada bem. O que me faz sentir o pior dos pais. Nos últimos dias tenho me empenhado em convencê-la a viajar para Londres. Temos parentes que a acolheriam e a distrairiam. O tempo passa e é implacável. Ela não é mais uma debutante. Tenho esperanças de que agora, com Westking comprometido, ela olhe na direção de outro cavalheiro.

– Mas... – Isabella o encorajou. Se o amigo precisava se empenhar, algo impedia tal viagem.

– Mas... – Carlisle imitou-a no tom – Tanya está irredutível. Disse que só viajará depois do casamento. Não sei qual a razão de ela ainda ter esperanças... Lamento dizer isso, mas reconheço que minha filha não é uma moça de temperamento fácil. Segundo ela, não há casamento até que o vigário encerre a cerimônia.

Isabella não gostou do que ouviu, mas agradecia a sinceridade.

– Quem pode culpá-la? – indagou, tentando encobrir sua contrariedade.

– Eu jamais poderia. Nem que vivesse mil anos me perdoaria pelo pouco cuidado com Tanya. O quanto faltou para que eu arruinasse a reputação de minha filha? O que faço é agradecer ao barão por ser fiel a uma memória e nunca ter agido com nada além de frio decoro quando eram vistos em público. Bastaria um olhar ousado, um toque fortuito para...

– Não se torture, sim? – O pedido fora feito em benefício mútuo. Edward poderia acusá-la pela obstinação, porém era tão ou mais determinado do que ela. Se tivesse arruinado a reputação de Tanya, jamais se recusaria a desposá-la, então... – Mudemos de assunto. Comunicou ao meu inquilino que desisti de desocupar a casa?

– Sim. – Mais uma vez Carlisle não ocultou seu alívio. – O pobre homem ficou agradecido. E isso me lembra de que realmente sofri sem razão... Sou eu quem cuida de suas propriedades e de sua conta... Você, de fato, é minha correntista. Ainda há a possibilidade de novos encontros que não em festas, sob as vistas de todos.

Isabella assentiu para não entristecê-lo, mas depois do que conversaram, com ou sem recomendações de Edward, ela trataria de limitar tais encontros. A determinação não a contentava e a desestimulou a introdução de novos temas.

Foi com alívio que viu Embry espiar da porta e perguntar se poderia voltar. A lhe sorriu, Isabella assentiu e lhe estendeu a mão. Com o menino ao lado, manteve-o perto. Logo este retomou a narrativa das novidades em sua vida a um banqueiro que se dividia entre escrever e olhá-lo, admirado; por vezes a surpreender-se com a afetação que lhe era peculiar.

Em silêncio, Isabella esperou que o Carlisle concluísse o termo de doação e lhe entregasse para que o lesse. Ao verificar estar de acordo, tomou a caneta, assinou, soprou o papel para que a tinta secasse e devolveu o documento. Ao entregá-lo, Isabella sentiu como se o peso do Jardim fosse tirado de suas costas. Em realidade, estava livre e não via razão para se demorar mais.

– Embry – ela pediu ao se pôs de pé –, despeça-se de sir Carlisle e vá para junto de Jacob, sim? Irei em seguida.

Carlisle deixou o papel sobre a mesa e a imitou. Logo contornava a mesa para se prostrar diante do menino.

– Até breve, sir Carlisle – disse Embry a entender a mão. – Nos vemos amanhã.

– Sim – Carlisle anuiu ao apertar-lhe a mão. Sem soltá-la, acrescentou: – Mas façamos um trato... Nada de comentarmos o passado para outras pessoas, está bem?

– Sim, senhor. Até amanhã.

Carlisle assentiu para o menino e ficou a olhá-lo enquanto deixava a sala, obediente.

– Isabella, agora eu acredito que esteja feliz. Embry não cabe em si de contentamento.

– De fato – ela sorriu. – Estamos bem, Carlisle. Não se preocupe conosco. Agora... Acho que devemos nos despedir. Tome... Obrigada! – Isabella agradeceu ao devolver o lenço.

– Prometa que voltará – Carlisle pediu de súbito ansioso, depois de levar o lenço ao bolso sem demora. – Talvez pudesse cuidar de minhas costas aqui...

– Carlisle... – Isabella maneou a cabeça, condoída. A ação esperada mostrou à moça que espaçar os encontros foi sua melhor decisão.

– Claro! Claro! É evidente que não. Perdoe minha ousadia.

Isabella sorriu e assentiu antes de abraçá-lo demoradamente.

– Até amanhã, meu amigo – despediu-se.

– Eu poderia arriscar uma última ousadia? Será pelos velhos tempos... Gostaria de ter um beijo... Casto, como sempre.

Talvez se não soubesse da confusão entre a mente e o coração de Carlisle, Isabella o atendesse, afinal, nunca lhe custou apertar seus lábios aos dele. Entretanto, ciente da verdade e cada vez mais consciente de seu novo papel, o que Isabella fez foi se aproximar e beijá-lo casta e demoradamente na face corada.

– Até amanhã – repetiu. – E não falte. Sei que sentará no lado reservado aos amigos e parentes do noivo, mas para mim, ao avistá-lo será como se visse minha família. Fique bem, Carlisle.

– E você seja de fato feliz – ele demandou com resignação. – Eu não quero ter outro arrependimento em meus ombros.

– Não terá.

Sem mais palavras Isabella ocultou seu rosto sob o véu e deixou a sala, sendo seguida por seu amigo. Pelo caminho ela sentia os olharem sobre eles, mas não se abateu. À porta, deixou que Embry se despedisse.

Com a visita encerrada, coube a Jacob adiantar as despedidas. De modo educado, porém decidido, o criado do barão liberou o banqueiro para que entrasse e ajudou mãe e filho a ocupar a carruagem.

Carlisle não se encontrava à entrada do banco ao partirem, ao que Isabella agradeceu sinceramente. Sempre seria grata a Carlisle, jamais o julgaria por confundir o sentimento, mas estava aliviada de ter encerrado aquele capítulo de sua história... Ou desatado a amarra, como pedira o barão.

Notas finais
Bem... Espero que tenham gostado. Vou tentar trazer outro no final da semana que vem. :) Fiquem com Deus!