Borboleta Negra
78 Capítulo Quarenta e Seis - Parte II
Notas iniciais
Desde o início, ao ter seu convite para que fossem à sidreria aceito, Edward soube que a tarde seria pouco produtiva, mas não lamentaria, pois ao menos teria distração. De toda forma seria injusto creditar sua inatividade dos últimos dias a McCarty e Whitlock. Enquanto não se casasse e todos não voltassem para seus respectivos lares, ele não tinha como se concentrar em coisa alguma. Portanto, na primeira oportunidade, enquanto seguia os cunhados em um passeio pelo galpão, tomou a única providência prática daquela tarde.
– Quero que vá até Carlisle e lhe avise que amanhã pela manhã, Isabella e Embry irão até o banco – disse discretamente a Jacob. – Você irá levá-los.
Seu tom e a presença dos nobres não deram ao criado a chance de expor a curiosidade que tinha nos olhos escuros. Após uma breve despedida, Jacob colocou seu chapéu e partiu.
– Bem, Westking, o que faremos agora já que não possuímos qualquer vocação que nos permita ajudá-lo?
– Tampouco há o que pudessem fazer – disse Edward em resposta ao duque. – Se Whitlock não tivesse cavalgado até aqui desde Brighton, eu os convidaria para correrem os pomares.
– Por mim parece ótimo – assegurou o conde. – Estou habituado a montar, bem sabe.
Sim, Edward sabia. Aos 42 anos o conde de Whitlock sempre parecia ser o mais bem disposto dos três. Provavelmente ainda fossem os reflexos dos anos que se aventurou pela África, depois da perda de sua primeira esposa. Muito era comentado, porém pouco o próprio conde confirmava. Havia o rumor de que, ao aturar junto ao exército bretão, ele tenha ostentado a patente de capitão, detalhe nunca confirmado. Fosse como fosse, Jasper era uma fortaleza de músculos e vigor, então Edward não insistiria para que descansasse.
– Sendo assim, se McCarty não se opor...
– Não me oponho. Estive sentado naquela carruagem por horas e horas – disse Emmett. – Por sorte Whitlock me encontrou e fez companhia, distraindo-me. Agora, qualquer atividade será bem-vinda. E depois talvez possamos provar um pouco dessa sidra, não?
Edward assentiu.
– Como queira, Vossa Graça – disse reverente, porém para provocá-lo.
Depois de deixar Denali encarregado do galpão, o barão convidou os cunhados para irem até o estábulo. Enquanto caminhavam lado a lado, os lordes colocavam o barão a par do que se passava no Parlamento e em suas respectivas regiões. Como sempre, tentaram convencê-lo a passar uma temporada em Londres; especialmente depois de casado quando não correria o risco de ser caçado por mães afoitas em encaminhas suas filhas.
– Se não quiser ir para as festas e concertos, vá ao menos para fugir do inverno – sugeriu Emmett.
O frio não o afetava e sempre iria preferir ficar em Apple White. Agora que se uniria a Isabella e suas versões – tendo segredos a ocultar – ficar longe dos grandes salões era tão necessário quando obrigatório. Sabia que sua noiva pensava o mesmo então não titubeou ao negar.
– Prefiro não me ausentar. Preciso cuidar de minhas macieiras.
– Bem, o convite sempre estará de pé. Minha casa é sua casa.
– Obrigado.
– Ou se preferir, pode ficar na minha – Jasper ofereceu.
– Agradeço, mas realmente prefiro ficar em Apple White.
– Bem, agora eu até entendo – Emmett troçou. – Não há de querer expor uma esposa tão bonita. Quisera eu poder manter Rosalie em casa um pouco mais, quando o circuito de bailes e saraus começa... Não sei quando ela se tornou tão popular.
– Quem diria – Edward zombou –, “o Duque”, padecendo de ciúmes?
– Considero cuidado... – Emmett replicou. – Bem sabemos que para muitos, uma aliança no dedo e um marido em casa, nada conta.
Sim, ele sabia. Edward não tinha em lista tantas quanto McCarty ou outros colegas de faculdade, mas havia se deitado com algumas senhoras casadas. Imaginar que algum homem pudesse se insinuar para Isabella, como ele mesmo fizera em sua juventude, fazia com que consolidasse sua decisão de nunca levar sua esposa a conhecer a sociedade londrina.
– E quanto ao conde? – Edward indagou para dissipar seu incômodo. – Algum problema em deixar a condessa ir aos bailes?
– Nenhum – Jasper assegurou. – Alice é jovem e nem sempre posso acompanhá-la, então não me aborrece que vá.
– Quanto tiver vossa idade, Whitlock, espero ter adquirido essa tranquilidade – disse Emmett.
Edward nada disse, pois sabia que nem se chegasse aos cem anos deixaria de se importar. Sua cota de desprendimento se limitava a não adoecer sempre que se lembrasse de onde Isabella viera.
Foi com alívio que o barão chegou ao estábulo, encerrando aquela conversa.
– Milordes – cumprimentou-os Mike, reverente.
– Precisamos de dois cavalos – disse Edward antes de se voltar para o conde. – Por certo não vai montar em seu cavalo, não é mesmo?
– Não – disse o conde, olhando para o Frísio acomodado em uma das baias mais ao fundo do estábulo. – Sand Storm precisa de descanso.
– Um de seus criados o alimentou e hidratou, milorde – disse Mike. – Bem, se me seguirem, eu posso indicar-lhes as montarias para esta tarde. Quanto a Draco, senhor...
– Eu mesmo o selarei, Mike – Edward dispensou o cuidado. – Atenda aos cavalheiros.
Quando os homens se afastaram, Edward tratou de fazer como dissera. Com Draco preparado, o barão foi ajudar seu cavalariço a selar os cavalos escolhidos pelos cunhados. Em alguns minutos deixavam o entorno da mansão e se dirigiam aos pomares de Apple White e também os da propriedade de seu avô paterno.
A inspeção não durou mais do que duas horas, então, com o dia ainda claro, os três estavam de volta à sidreria, onde, atendendo ao pedido anterior do duque, Edward providenciou sidra para a degustação.
O barão se considerava forte para a própria bebida, mas depois de algumas taças reconheceu estar um tanto ébrio. Era como se ele estivesse de volta aos encontros entre cavalheiros no tempo de faculdade. A presença de Emmett tornava a lembrança palpável. Talvez fosse efeito da sidra, mas até mesmo a diferença de idade entre eles e Jasper não era notada por estarem todos livres de seus casacos, tendo as faces coradas, rindo fácil, e padecendo de uma embaraçosa dificuldade em pronunciar algumas palavras.
– Westking... – chamou-o Emmett. – É impressão minha ou sua sidra está mais forte, encorpada.
– É impressão – assegurou Edward. – Não arriscaria mudar o que agrada a todos. O que acontece, meu caro, é que nós estamos mais velhos... O tempo da esbórnia ficou para trás.
– Essa conversa me faz sentir mais velho do que de fato sou – resmungou o conde. – Nem me lembro do meu tempo de esbórnia.
– Talvez não o tempo da faculdade, mas... E quando esteve na África, percorrendo montanhas e desertos? – indagou Emmett com liberdade, afinal, eram amigos de longa data. – Por certo manteve contato com toda sorte de povoados ou tribos... Com suas bebidas à base de raízes e pós, servidas por mulheres de pouco recato... E menos panos sobre os corpos.
Por um instante Edward acreditou que a leveza do momento estivesse perdida, pois, essa jornada do conde tive início meses após a perda da primeira esposa e filho, quando o nobre contava 26 anos. Contudo, apesar de Jasper ter apagado seu sorriso enquanto mirava um ponto qualquer no assoalho, logo riu brevemente e encarou o amigo com astúcia.
– Boa tentativa, McCarty! – elogiou o conde. – Mas não vai me ouvir confirmar ou desmentir nada do que dizem. Se for verdade que cheguei ao posto de Capitão ou se dormi todas as noites com duas ou três mulheres, somente eu saberei...
– Ah! Isso não é justo – resmungou Emmett. – De que me adianta ser seu amigo se não tenho informações privilegiadas? Westking, faça alguma coisa! É seu casamento... Será que não consta em algum livro que um homem em vias de cair no sagrado laço do matrimônio tenha direito a um pedido?
Edward gostaria que assim fosse, mas não para desperdiçar um pedido em bisbilhotices sobre as peripécias do seu cunhado aventureiro, sim para reparar algum erro do passado no qual ele e sua noiva estivessem envolvidos. Como não seria possível, o barão apenas sorriu e se deixou contagiar pelo bom humor.
– Não se força um homem a dizer o que não deseja – troçou com a verdade. Então, não tão ébrio que se esquecesse de suas obrigações, Edward achou por bem aproveitar a ocasião para esclarecer um assunto. – Já que citou a amizade... E nós estamos sós, eu gostaria de falar algo aos dois...
– Hum... O tom ficou sério – Emmett observou.
– O que seria, Westking? – indagou Jasper. – Se for oferecer mais de sua sidra, eu aceito.
– Posso providenciar a sidra, mas não é do que se trata.
– Diga logo, homem! – Demandou o duque erguendo sua taça vazia. – E venha lá a sidra. Acho que não brindamos à saúde da rainha.
Edward tinha certeza de que tal brinde fora uns dos primeiros, mas não se distraiu ao ponto de responder.
– Bem... Eu gostaria de dizer que os tenho em alta estima. – Emmett e Jasper falaram ao mesmo tempo, cada um dizendo quanto igualmente estimavam-no. Depois de sinalizar para que se aquietassem, Edward prosseguiu: – Já que sabem do meu apreço, gostaria que não se sentissem ofendidos por eu ter pedido a Jacob que seja meu padrinho principal.
Os nobres olharam-se entre si, então o encararam em sincronia perfeita, como se tivessem previamente ensaiado o movimento.
– Westking – disse Emmett –, eu sequer tive tempo de esperar que viesse ao meu casamento.
– E não me ocorreu que pudesse me convidar para o posto – Jasper assegurou. – Então se isso é um pedido de desculpas...
– Não é. Apenas gostaria que soubessem, e não se sentissem ofendidos.
– Não me sinto – disse Jasper. – Apenas considero inusitado, mas se tem algo que já aprendi a seu respeito, é que não se apega aos padrões. Como prova, temos o casamento em si.
– Exatamente... – Emmett fez coro com a voz levemente empastada. – Você poderia ter reconhecido o filho e se casado com qualquer outra, mas não... Vai reparar seu erro e eu o admiro por isso... Confesso que não faria o mesmo. Ou faria... – corrigiu-se após pensar um instante. – Se estivéssemos falando de Rosalie... Não sei o que sua irmã fez comigo, Westking, mas por ela eu faria qualquer coisa.
– Por Isabella eu faço qualquer coisa – Edward garantiu.
– Assim como eu faria por Alice – disse Jasper. – Então, Westking, faça tudo como bem determinou. E traga a sidra.
Na verdade, a sidra estava sobre a mesa, então bastou abastecer os copos. Depositava a garrafa sobe a mesa, quando Jacob entrou depois de anunciar-se.
– Jacob! – Emmett o festejou. – Que o padrinho junte-se a nós!
– Sirva-se, Jacob – Edward indicou um dos copos trazidos por um de seus funcionários, sustentando-lhe o olhar.
Com o conhecimento de anos, Jacob o entendeu e assentiu discretamente, indicando ao patrão que o recado fora dado. Em voz alta disse:
– Cavalheiros, eu agradeço, mas se o Sir Edward me dispensar, gostaria de ir cuidar de meus outros afazeres.
– Fique à vontade – Edward o liberou. Sabia que o moreno jamais se sentaria e beberia com os lordes.
Com a saída de Jacob, Edward percebeu que a tarde tinha escurecido. Sentindo sua cabeça leve, consultou seu relógio de bolso; já passava das seis horas.
– Acho que deveríamos fazer o mesmo – disse ao guardar o relógio.
– Sim – Emmett anuiu depois de tomar um gole de sidra –, voltemos para casa! Estamos fracos para a sidra e domados pelo amor... Que trio! Talvez as três malvadas sequer estejam pensando em nós então é melhor lembrá-las de nossa existência.
– Seria desculpável, afinal estão todas ocupadas – comentou Jasper, confortável em sua experiência.
– Não... – o duque negou com ênfase teatral. – Ocupo-me todos os dias e ainda assim, penso em minha esposa, então ela me deve o mesmo cuidado.
Edward entendia o conceito e sorriu de modo intimista, sem nada dizer. Logo seria hora do jantar e estavam desconexos, bêbados como um peru na véspera do Natal.
– De que está rindo, Westking? – Emmett ralhou, franzindo o cenho. – Ainda nem casou e já não se importa se sua noiva pensa ou não nessa sua feia figura?
– Ainda sei como dar a ela o que pensar – respondeu zombador, levando o conde a rir, divertido.
– Vocês dois me envergonham – Emmett exasperou-se e se pôs de pé. Depois de manter-se no eixo, determinou: – Temos de fazer alguma coisa! Se não deixamos nossas esposas felizes, outro vem e tenta levá-las...
– Já tentaram levar a duquesa? – Edward indagou reflexivo, verdadeiramente curioso. Não parecia que o cunhado troçasse.
– Isso não vem ao caso – Emmett desconversou, tentando, sem sucesso, reorganizar sua gravata.
– O pobre não sabe o que diz... – Jasper segredou a Edward e riu condescendente antes de incentivar o amigo: – O que sugere, McCarty?
– Vamos agora fazer-lhes uma serenata.
– Falta-nos instrumentos – Edward observou, divertido como há tempos não se sentia, esquecido do comentário anterior.
– Instrumentos?! Falta-nos talento – Jasper salientou, rindo mais. – A ideia é fazê-las se lembrar de nós ou afugentá-las?
O duque deu de ombros já a vestir seu casaco.
– Podemos declamar um poema – solucionou. – Se Romeu conseguia encantar Julieta com meia dúzia de palavras bonitas antes do canto da maldita cotovia, nós também podemos.
– Minha nossa! Agora ele nos compara a enamorados fictícios! – Admirou-se o conde antes de se levantar e pegar seu casaco. – É melhor não contrariá-lo. Venha, Westking.
– Como?! – Edward olhou de um ao outro, incrédulo.
– Mexa-se, homem! – Emmett foi até Edward para empurrá-la rumo à porta.
Não tinha escapatória, pois até o conde pareceu embarcar na loucura do duque, então o barão recebeu seu casaco e deixou o escritório. Ao passar por seus funcionários, dispensou-os por aquele dia e, na companhia dos cunhados, cada um a puxar seus cavalos pelas rédeas, seguiram para a mansão.
Riam e perturbavam-se ao chegarem à porta principal. Edward bateu no franco de seus cavalos para que voltassem ao estábulo antes que tomasse a frente e entrasse. Estavam no hall, diante da escadaria, quando Emmett segurou-lhe o braço.
– Aqui está bem.
– Bem para quê?! – Edward olhou-o estupefato. – Não vai levar sua insanidade a cabo, não é?
Em resposta, liberando sua voz de barítono, Emmett começou entoar uma velha cantiga de amor, comumente ouvida em alguns bailes onde os anfitriões incentivam suas filhas a tocar e cantar. Estava prestes a dissuadi-lo quando o conde fez coro. A veia artística de Emmett era conhecida, mas Edward jamais poderia imaginar que Jasper – invariavelmente sério – de fato seguisse com a brincadeira. Passado o assombro, restou a Edward rir da cena inusitada.
Isabella viu Nero erguer a cabeça alguns segundos antes de ouvir a música. Conhecia-a, pois Pepper por vezes a cantava no Jardim. Sua voz era macia e melodiosa, completamente destoante daquelas que ouvia: graves, fortes, porém arrastadas e desencontradas.
– O que é isso? – indagou Embry, deixando de lado sua refeição.
– Estão cantando... – disse Amy, tão ou mais surpresa do que Isabella.
– Eu quero ver – Embry se pôs de pé. – Por favor, mamãe.
– Melhor não... – ela negou ao reconhecer o que alterava as vozes. Não seria muito educativo um menino ver o pai e os tios ébrios antes do jantar. Ignorando o olhar sentido, Isabella pediu a Amy: – Fique com ele e não deixe que saia. Vou ver o que está acontecendo.
Ao chegar ao corredor, antes que alcançasse a escadaria, encontrou-se com Alice que vinha de seu quarto. A condessa tinha o rosto corado e o olhar incrédulo.
– Eu não acredito que seja o conde a cantar... – disse num murmúrio.
Isabella nada falou, apenas maneou a cabeça e acelerou os passos. Logo viram Rosalie, parada à beira da escada, olhando para baixo, rindo divertida. Ao se aproximar e ver a cena, Isabella estacou. Antes de igualmente paralisar, Alice levou as mãos enluvadas à boca e maximizou os olhos.
Poderia ser impressão, mas ao vê-las reunidas, a dupla redobrou seus esforços ao reiniciar a canção. Edward apenas ria, e sorriu ao ver a noiva antes de rir mais alto. Isabella não poderia dizer o que a duquesa ou a condessa sentiam, mas ouvir a risada de seu noivo, assim como vê-lo divertindo-se, teve o poder de abalá-la ao ponto de comovê-la.
Ela sequer atentou ao fato de ter um duque e um conde a provar que, apesar da pompa e boa educação, eram pessoas comuns não divindades tituladas. Sua atenção era toda para o barão. Era tolice, talvez, mas para Isabella era como ver o sol romper as nuvens negras depois de dias e dias de tormenta.
– Mas o que...?
Isabella moveu seu olhar para a baronesa estupefata que veio da cozinha, seguida por Marie e Irina. Os cantores e o barão igualmente olharam-na, mas não lhe deram atenção, e voltaram a cantar para suas senhoras até que a cantiga chegasse ao fim. Daquela vez não a reiniciaram, sim se curvaram, indicando o fim da apresentação.
Isabella reagiu e aplaudiu um instante após suas futuras cunhadas, assim como saiu da catatonia e desceu, seguindo-as. Viu quando o duque e o conde estenderam as mãos para recebê-las por sua visão periférica, pois em tempo algum desviou o olhar do barão.
Edward segurou-lhe a mão e, como seus cunhados, beijou.
– Perdoe-me por não cantar para você – pediu a lhe sorrir –, mas o que me carece para as artes, me sobra em juízo.
– Você cantou – ela disse enlevada, retribuindo o sorriso, lamentando não poder se atirar em seus braços e beijá-lo.
– Agora somos desajuizados – resmungou o duque.
O conde nada disse, apenas trocava olhares com a condessa como se estivessem sós.
– Com todo perdão, Vossa Graça – disse Elizabeth ainda surpresa com a apresentação –, mas não parecem ter o juízo no lugar. Acaso vêm da vila?
Isabella entendeu que aquela era a forma educada de a baronesa questionar se estiveram bebendo em alguma taberna, pois era evidente que todos estavam alterados pela bebida.
– Não, milady – disse o duque. – Não deixamos Apple White. Temos os rostos corados graças à sidra do nosso estimado barão e se externamos nosso sentimento em forma de canção foi somente por sermos devotados às nossas senhoras. Não pense que vosso filho tem mais juízo do que nós.
– Daqui a dois dias tudo ficará como deve ser – Edward a interrompeu. Uma vez retomada sua consciênci– Não penso – ela disse sem entonação especial –, pois ele também está “corado” e sei o quanto é devotado à noiva. Bem, se já encerraram as apresentações, sugiro que subam e se refaçam. Em breve o jantar será servido. Se me derem licença... Preciso retornar à cozinha.
Após a liberação geral, a baronesa se foi, novamente seguida por Marie e Irina. Esta se retirou depois de demorar-se um instante no qual correu os olhos pela cena. Isabella não lhe deu importância, estava absorta na face do barão que se dirigiu aos cunhados:
– Bem, sugiro que aceitemos a recomendação de minha mãe. Vemo-nos em uma hora, na saleta.
Após as despedidas, os senhores e suas senhoras seguiram para o andar superior, conversando entre si.
– Venha! – Isabella o chamou ao pegá-lo pela mão.
– Venha, você! – Edward aproveitou as mãos unidas para puxá-la.
Antes que Isabella especulasse para onde seria levada, o barão simplesmente os ocultou na lateral da escadaria, entre a parede e a balaustrada, sob a fraca sombra de uma estátua acomodada sobre um pilar.
– Edward?! – chamou-o entre surpresa e temerosa quando ele se recostou à parede e a abraçou, segurando-a pela cintura. Não estavam em reservado, ou escondidos de fato, para tamanha proximidade. – O que está fazendo?!
– Sendo desajuizado para provar a minha devoção – elucidou antes de segurar-lhe a nuca e prender-lhe a boca num beijo apaixonado.
Por eles dois, ela gostaria de ser forte e trazê-lo à razão, afinal se expunham em local impróprio, mas... era igualmente devotada e logo estava rendida ao afago em sua língua, inebriada pelo perfume da sidra que parecia desprender dele.
Isabella tentou protestar quando teve um seio apertado mesmo sobre o bojo do vestido, mas não teve forças para afastar-se. Logo uma mão possessiva apertava-lhe uma das nádegas ao mesmo tempo em que atraia seu quadril para uma instigante rigidez.
– Edward, alguém pode nos ver... – ela o alertou num sussurro, sentindo-se desfalecer ao receber um beijo na lateral de seu pescoço.
– Inferno – ele praguejou junto à pele delicada. Odiava o fato de ser obrigado a parar, mas sua noiva tinha razão. Ao afastá-la, mirou os brilhantes olhos negros e segredou: – Se morássemos a sós eu a teria aqui, agora, mas não é o caso e temos visitas.
Isabella pôde apenas assentir, lamentando a inviabilidade de tal aventura despudorada.
– E não devo sequer levá-la comigo agora, desculpe-me – ele prosseguiu ainda excitado, porém recuperado de seu arroubo. – Apesar de termos um filho, devo preservar sua imagem. Ontem errei ao deixar claro às minhas irmãs que já vivemos como um casal.
– Elas não se importam... – Isabella o tranquilizou, tentando se recuperar do próprio excitamento. – E não se desculpe. Teremos a noite toda. E daqui a dois dias...
a, tinha de tratar dos assuntos sérios. – E espero que sem pendências. Jacob levou o recado... Amanhã, resolva o que tiver de ser resolvido e volte. Sem amarras, Bella.
Enfim, Isabella considerou, o sol que vislumbrou era apenas a promessa de dias claros, mas ainda estavam em meio à tempestade e não deveria desviar sua atenção. Depois de novamente assentir, mesmo que lhe doesse, prometeu:
– Sem amarras.
Edward assentiu e a libertou. Subiram lado a lado e seguiram aos seus respectivos quartos sem se tocarem, como se nada tivessem feito. Ao fechar a porta, Isabella lamentou que a leveza ainda não fosse permanente. Durante a reunião noturna, contudo, ela descobriu não estar de todo certa.
Com os senhores refeitos da carraspana, o jantar transcorreu em clima ameno, por vezes divertido. Com destaque à rendição da baronesa aos gracejos do duque após falhar em sua tentativa de repreendê-lo pela cantoria que ela considerava “inapropriada para um lorde”.
Elizabeth falou como uma mãe zelosa ao que Emmett respondeu como um filho a pilheriar, porém com pulso firma, levando todos a rirem ainda que sem deixar margem para comentários semelhantes. Ao conde a baronesa nada disse, talvez por suas idades quase que equiparadas, ou por Jasper não inspirar comentários negativos. Fosse como fosse, a conversa acalmou ainda mais o espírito de Isabella e aumentou sua curiosidade sobre a história dos dois casais.
Esta foi esquecida ao término da refeição quando todos passaram à saleta, onde as damas conversaram sobre o casamento e os senhores degustaram seus charutos. Apesar de estarem todos reunidos, e ela ineditamente sendo incluída da conversa, Isabella mantinha o pensamento elevado, cativa do indisfarçado e insistente olhar do barão. Era como se soubesse o que ele pensava.
Confirmou o que lhe ia ao pensamento ao ter a mão morna do barão acariciando sua nuca tão logo deixaram o quarto de Embry, que dormira antes que fossem desejar-lhe boa noite. O carinho foi o bastante para despertá-la. Tanto que ao entrar em seu quarto, depois de passar pela porta de ligação, Edward encontrou-a nua; recostada aos travesseiros. Sem pudores, como ela sabia que seu senhor apreciava.
Isabella fechou os olhos ao ter seu pé beijado, preparando-se para receber todo o amor que viu nos olhos do barão durante toda a noite. E foi sublime render-se ao gozo, atada ao homem que amava; tão ineditamente silente e terno que mais uma vez a comoveu. Sem saber exatamente por que, de modo discreto, Isabella deixou cair duas lágrimas.
Ainda trêmula, secou-as antes que fosse presa num abraço restritivo. Envolta pelo silêncio que nenhum dos dois se animava a quebrar, Isabella se acomodou no peito largo e fechou os olhos. Preferia dormir livre de pensamentos, mas não domava sua mente e bastou seu coração acalmar-se da entrega para que ela se visse a cismar com o encontro da manhã seguinte.
Indicando pensar o mesmo, Edward murmurou:
– Volte sem amarras, Bella. E não invente de ir ao Jardim, nem demore.
– Não tenha cuidados – pediu ao encará-lo, acariciando o peito que lhe servia de apoio. – Estarei com Jacob. Confie em mim.
– Posso confiar em você... – Ao se calar Edward deixou no ar a impressão de que tinha mais a dizer. Isabella estava prestes a questioná-lo, quando ele sentenciou: – Vamos dormir. Quero que venha a manhã e então à tarde, para que esteja de volta. Como pedi.
Restou a Isabella assentir e fechar os olhos. Nos próximos dias, ela pensou, não deveria se perder em considerações sobre os humores, pois era impossível acompanhar as variações. No mais, era seguir fazendo sua parte. Com sua ida à Wisbury teria a chance de reconquistar a confiança do barão, então, mesmo que sentisse por Sam e Angela, ao voltar estaria livre. Depois veria como iria encontrá-los.
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