Borboleta Negra
74 Capítulo Quarenta e Dois - Parte II
Notas iniciais
Edward deixou o quarto de Isabella pela porta usual e seguiu ao seu quarto. Entrou no momento exato em que Jacob terminava de colocar a tina para seu banho perto da lareira.
– Sempre eficiente – elogiou o barão enquanto desabotoava seu colete, sem pressa.
– Anos de prática! – Jacob troçou, então franziu o cenho ao olhar para o patrão. – Parece pior do que ao voltar para casa. Não descobriu o que tem sua noiva?
Edward animou-se com o tema e sorriu sem perceber.
– Descobri.
Jacob permaneceu a encará-lo, esperando por mais. Quando Edward se sentou para retirar as botas e as meias, sem dar mostras de que responderia, o criado indagou:
– Vai me dizer ou não do que se trata? Sei que não é nada sério, caso contrário não estaria rindo como um bobo da corte, mas fiquei preocupado com a senhorita de tanto que o senhor falou no meu ouvido esses dois dias.
Para Edward ainda era extraordinário, ainda assim tão natural que disse apenas:
– Isabella espera um filho meu.
Jacob abriu e fechou a boca, então, ao assimilar as palavras, igualmente sorriu.
– Que ótima notícia! – exclamou, indo até o patrão para cumprimentá-lo. – Parabéns, Sir Masen! Que seja um menino sadio e genioso como o senhor! E falo isso como elogio.
– Tomarei como elogio – garantiu Edward, levantando-se para receber o abraço efusivo e as palmadas em suas costas, sem se abalar com a troça.
Ao se afastar e mirar o rosto contente do moreno, igualmente descobria que amizade sincera, leal e natural de Jacob era uma das coisas de que precisava no momento. Aquela era a vida conhecida, seu meio, confortável e bom. A lama de sir Bradley não deveria alcançá-lo. Nunca mais!
– Como reagiu a baronesa? – Jacob especulou. – E vossas irmãs?
– Ainda não contei – revelou, voltando a se sentar para terminar de retirar as meias.
Antes que Jacob voltasse a questionar o patrão, Beni, acompanhado de duas criadas, chegou com baldes d’água para o banho. Depois de cumprimentar o barão, todos se dedicaram a encher a tina e a testar a temperatura da água. Ao ficarem novamente a sós, Jacob esperou ainda que Edward ficasse vestido em suas ceroulas e iniciasse o banho antes de indagar:
– Posso saber agora por que ainda não contou a novidade a vossa família?
– Por que ainda é cedo. – Edward sequer cogitava a possibilidade, mas esta era real. – Ainda precisamos de confirmação. Ela disse que esta virá na próxima semana, entende?
– Entendo – Jacob disse a assentir. – Sendo assim, fez bem em esperar. Mas, seja como for, saiba que desde já rogarei para que se confirme.
Edward sabia que sim sem que o amigo precisasse empenhar sua palavra. Portanto, e tudo o que pensou antes, o barão reconheceu que não poderia mais adiar algo que tinha a dizer.
– Jacob...
– Senhor, o que houve? Ficou sério de repente – Jacob o encarava com estranheza.
– Quero lhe falar do meu casamento. Sobre sua... participação. – Antes que Jacob dissesse algo, acrescentou: – Quero que seja meu padrinho principal.
Jacob conteve a respiração e franziu o cenho. Edward esperava por algo parecido.
– Sir Masen – disse com seriedade, empertigado. – Agradeço a consideração, mas todos nós sabemos e, espera-se, que convide um de vossos cunhados.
– Prefiro um amigo – Edward retrucou, não aceitaria recusas.
– Lorde Emmett foi seu colega de faculdade, é um duque. Deveria ser ele seu padrinho principal, seguido de lorde Jasper.
– Será uma cerimônia pequena. Não precisarei de tantos padrinhos – Edward contemporizou, passando a esfregar um dos pés com simulada distração. – E não dê tanta importância ao título. O que fará é organizar os convidados e um discurso durante o almoço... Ou seja, trabalhar para mim, nada além do que já faz todos os dias. E podemos quebrar o protocolo se Sua Graça insistir em falar alguma asneira ao meu respeito, assim nós teremos dois brindes.
Jacob nada disse, porém Edward sabia por sua expressão que se desarmava. Teve a confirmação no comentário:
– A baronesa não admitirá.
– Como não, se você tem sido a voz dela em meus ouvidos há anos? – troçou o barão, satisfeito por estar sendo melhor do que poderia imaginar. Sério, encarando o amigo, assegurou: – Com minha mãe eu me entendo, Jacob. Apenas diga que sim.
Mais uma vez Jacob ficou em silêncio. Então, voltando a se empertigar, declarou:
– Será uma honra, senhor.
Edward assentiu e para desfazer o clima de súbito inquietante, voltou a troçar enquanto colocava seu amigo a par dos acontecimentos e dava seguimento ao seu banho.
– Acredito que minha mãe sequer faça conta de quem convido para me constranger no almoço, pois estará preocupada com seu próprio compromisso.
– Qual compromisso, senhor? – Jacob indagou claramente aliviado com a mudança do tema.
– Senior Zimmer voltou a visitá-la em minha ausência... Com flores!
– Imaginei que ele o fizesse – comentou o moreno –, e acreditei que o senhor ficaria aborrecido, mas, com tranquilidade citou um compromisso...
Edward assentiu e, enquanto finalizava seu banho, secava-se e começava a se vestir, narrou a conversa com Isabella, que o trouxe à razão; com Senior, que expôs seu interesse; e com Elizabeth. O que fora dito pela mãe Edward achou por bem ocultar. Estava decidido a não perder nem mais um minuto de seu tempo com consternações ou citações que envolvessem as atitudes questionáveis do primeiro barão.
Tal senhor estava morto, ele, vivo, recriando a vida na mulher que amava, e era isso que importava.
– Então – Jacob concluiu – amanhã saberei da novidade. Fico feliz que tenha mudado seu pensamento.
– Eu também, meu amigo – disse Edward, sincero. – Eu também.
Sem mais temas a tratar, o barão dispensou seu criado para que terminasse de se vestir. A hora marcada se aproximava e queria estar presente quando Senior Zimmer chegasse. Antes de descer, passou pelo quarto de Embry.
O menino jantava sob a supervisão de Irina. Sem dirigir-lhe a palavra, Edward retribuiu o cumprimento do filho:
– Boa noite, Embry. Lamento não ter tempo de dar-lhe alguma atenção, mas hoje, atrasei-me enquanto me vestia.
– Pode me dar atenção amanhã – Embry sugeriu –, ou depois do jantar.
– Verei o que consigo fazer. – Edward lhe tocou os cabelos num breve carinho e rogou para que o menino se alegrasse ao saber que teria um irmão. – Agora, termine sua refeição.
Ao ser obedecido, Edward saiu sem despedidas adicionais. Se Irina não se mantinha em seu lugar, trataria de lembrá-la onde deveria ficar. Em especial por ser um mal menor que, como a anuência da baronesa ao pedido de Zimmer, em breve partiria com sua senhora.
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Para endossar as palavras do barão, aquela noite Marie enviou Jane ao quarto da futura baronesa. Enquanto a prestativa jovem ajustava as fitas do espartilho, Isabella considerava se pediria ao noivo para que fosse ela a ser sua criada de quarto. Não era o que queria, mas reconhecia a necessidade de mudança. Em especial se sua gravidez fosse complicada como a de Embry.
No bordel não contou com a ajuda diária de muitas mulheres?
– Perdoe-me por comentar, mas está quieta essa noite – disse Jane quando Isabella se sentou à penteadeira para que a jovem a penteasse.
Olhando-a pelo reflexo, Isabella sorriu.
– Não precisa se desculpar... E, sim, estou um pouco indisposta.
– Talvez seja a ansiedade pelo casamento – Jane lhe sorria de volta. – Será uma bela festa.
– Acredito que sim.
– Por certo! – Jane sorriu mais, como se desejasse animá-la. – Leah já começou a selecionar as frutas, as nozes e as castanhas para o bolo. As aves que serão servidas já estão apartadas das demais, sendo alimentadas com ração especial. Os porcos enviados pela Sra. Wallace também estão recebendo melhor alimentação. Os criados presentearam o barão com um cordeiro e tem as iguarias que alguns comerciantes enviam todos os dias da vila.
– Disse que Leah já se ocupa do bolo... E Sue Wood? O que tem feito? – Isabella especulou. De repente quis saber.
– Por enquanto nada... A parte que lhe compete terá início a partir de amanhã, acredito. Como sempre, ela será a responsável pelo banquete. Todas na cozinha estão bastante animadas.
Talvez fosse influenciada pela felicidade citada, mas Isabella quis saber mais. Ainda a olhar a moça pelo espelho, indagou:
– Já deve saber que ela é minha avó, não?
Jane desviou o olhar, dando atenção aos cachos que prendia num elaborado penteado.
– É o que dizem...
– E é verdade. Então me diga... Sue fala sobre mim?
– Não para mim ou quando eu pudesse ouvir – assegurou Jane. E Isabella acreditou, pois a jovem parou o que fazia para lhe sustentar o olhar. – Mas ela fala no menino. Mais depois que o viu, quando o barão passou com o filho pela cozinha. Sue interrompe seus afazeres para ouvir as criadas derreterem-se em elogios. Ela mesma os diz, citando o quanto o bisneto é bonito. Já a flagrei por duas vezes a espiá-lo enquanto corre nos fundos da casa.
– Curiosidade natural – Isabella elucidou sem saber definir o que sentia. – Obrigada por me dizer.
Depois de sorrir para a criada, indicou o cabelo para que esta voltasse ao trabalho, e não procurou por novos temas. Mirando os próprios olhos no espelho, ficou a cismar com o que ouviu. Sua avó elogiava o bisneto. Espionava-o. Por que o faria se não gostava da neta?
Quando Jane passou a escolher as joias que Isabella deveria usar, esta resolveu esquecer-se da avó. Nunca a entendeu e não se ocuparia dela aquela noite. Se não colaborasse com a criada seria a última a descer.
Enquanto Jane enfeitava o penteado que finalizou, prendendo algumas presilhas, Isabella escolheu e pôs um par de brincos de ouro e delicadas esmeraldas para que combinasse com seu vestido de cetim verde.
Uma vez pronta, agradeceu Jane e a dispensou. No corredor se despediram e Isabella seguiu até o quarto do filho. Encontrou Nero a dormir diante da lareira e o filho a folhear um livro, já pronto para se deitar, na companhia de Irina. Depois de cumprimentar a criada, dirigiu-se ao menino que, depois de deixar o livro de lado, vinha recebê-la.
– Como passou a tarde?
– Brincando com Lionel e John – ele disse antes de abraçá-la pela cintura. – Quando subi a senhora estava dormindo – soou acusador.
– Perdoe-me... Estou mais preguiçosa do que posso me lembrar – tentou gracejar, afastando-o para olhá-lo. Ao ouvir o breve riso da criada a encarou. – Algum problema?
– Não – esta disse, tentando evitar um sorriso. – Nada.
– Não parece ser nada – Isabella retrucou. – O que é engraçado?
– Bem... Já que perguntou... – Irina se mostrava indiferente. – É que me ocorreu ser outra coisa, não preguiça... Então considerei engraçado, pois pareceu uma desculpa pueril.
– O que é pueril, mamãe? – Embry indagou, interessado como sempre.
– Algo próprio de crianças, querido – respondeu-lhe a acariciar-lhe o rosto. Para a criada, livre de ternura, disse: – E, pueril ou não, verdade ou mentira, o assunto não lhe diz respeito.
Não era de seu feitio ser grosseira com criados, mas simplesmente não gostava daquela mulher. Ainda lembrava a forma como olhou para o barão. A postura demonstrada ali apenas piorava sua impressão.
– Perdoe-me, Srta. Swan – pediu Irina, sem parecer que sentia.
Isabella ainda a encarou por um instante. Também recordou que Irina esteve perto quando comentou sua gravidez com Marie. Bem, se fosse o caso de ela saber, não temia, pois o maior interessado estava ciente. E se insinuava algo mais, seria apenas indiscrição. Fosse como fosse, a partir dali, Isabella manter-se-ia atenta.
– Bem... – disse ao filho. – Vim desejar-lhe boa noite antes de descer para o jantar, pois ontem não o encontrei acordado ao subir.
– Tentei esperar, mas não consegui – Embry declarou num muxoxo, porém estufou o peito e prometeu: – Hoje serei forte, pois até mesmo papai virá.
– Ele lhe disse isso? – A surpresa contentou-a tanto quanto a aceitação de seu pequeno em ver os pais, juntos. Formavam uma família!
– Sim... Há pouco, quando veio me ver.
Isabella não gostou de saber que Edward e Irina estiveram no mesmo cômodo, mas não ao ponto de azedar seu humor. Sorrindo para o menino, disse:
– Bem... Seja como for, não se preocupe em permanecer acordado, meu amor... Siga o exemplo de Nero e descanse. Amanhã nos veremos se nós o encontrarmos dormindo.
– Antes de ir embora – Embry a impediu de se curvar para beijá-lo. – Eu poderia pedir para conhecer o pomar?
– O pomar? – Isabella estranhou o pedido.
– Sim – Embry sorriu. – Hoje tia Rosalie nos contou histórias sobre o pomar e eu fiquei com vontade de ir até lá, mas ela disse que está frio ainda e que o chão deve estar enlameado.
Não mais do que ao redor da mansão, Isabella considerou, ainda digerindo a novidade. Nunca lhe ocorreu que a duquesa também contasse histórias para os meninos, incluindo o pomar. Saber a animou mais, tanto que sorriu ao prometer:
– Iremos amanhã pela manhã.
– De verdade? – Embry aplaudiu e pulou no lugar, contente, fazendo com que Nero erguesse a cabeça para olhá-los.
– De verdade... Agora volte para a cama.
Quando conseguiu interromper os pulos do menino, Isabella o beijou na bochecha, despediu-se de Irina por mera educação e saiu. Ao chegar à saleta descobriu que de fato fora a última a descer. Edward se pôs de pé ao vê-la entrar e lhe sorriu. Antes de registrar como estavam as damas presentes, admirou-o e, como sempre, considerou-o muito bonito em seu traje de noite, completo.
Depois de cumprimentar a todos e conferir que as damas apresentavam-se impecavelmente vestidas, Isabella foi até Edward, tentando ignorar o olhar insistente de Rosalie. Foi por um olhar como aquele que, depois de deixar Edward na companhia de Senior, ela subiu para o quarto. A inexplicável e muda avaliação era incômoda.
– Está radiante! – elogiou-a Edward, curvando-se para beijar-lhe os dedos. Com o gesto e o brilho em seu olhar o barão conseguiu varrer todo desconforto. Atencioso ao extremo ele a conduziu até uma poltrona. – Sente-se aqui. Hoje não oferecerei uma taça de xerez.
– Por que não? – quis saber Alice.
– Por que ela desmaiou esta tarde – disse Edward, sempre a mirar sua noiva, sentindo crescer o desejo de demonstrar a ela o quanto estava feliz com a vinda de um filho verdadeiramente seu.
Seria exatamente o que faria quando ficassem sós.
– Ah, essa resposta não vale – reclamou Alice. – Até as almofadas sabem que aquilo foi mentira. Teria alguma outra razão?
Até mesmo Elizabeth que se mantinha ereta e estoica desde que a futura nora entrou, voltou-se para acompanhar a resposta. Rosalie era a única que não se mostrou mais interessada do que já estava; apenas os analisava de seu posto.
Naquele momento Isabella entendeu que a responsabilidade de anunciar sua gravidez era do barão. Edward indicou ainda não estar disposto a fazê-lo, pois insistiu na desculpa dada:
– Sim... Assim como todas vocês tentaram me iludir, mas Isabella tem demonstrado certa fraqueza e no domingo, verdadeiramente desmaiou, então, com a proximidade do casamento, prefiro que ela se resguarde. – Diretamente para a noiva, recomendou: – Não deve beber nada que contenha álcool ou se exceder.
– Assim farei – Isabella assegurou culpada por não ter tomado tais providências, antes. Ao menos quanto ao álcool, afinal, em nada se excedia.
– Com licença... – Amy pediu do limiar. – A Sra. Newton mandou avisar que o Sr. Zimmer se aproxima.
Elizabeth se pôs de pé, lívida.
– Traga-o até aqui, Amy – Edward demandou.
Em silêncio, todos esperaram até que Senior Zimmer fosse conduzido até a saleta. Durante os cumprimentos a voz da baronesa mal foi ouvida.
– Como disse – falou Edward ao recém-chegado –, poderá conversar com minha mãe. O que ela decidir, estará bem para todos nós. Venham – chamou as irmãs e sua noiva –, vamos deixá-los a sós.
Sem nada dizer, todas o acompanharam até a biblioteca.
– E agora ficamos nos coçando de curiosidade – Alice resmungou ao se sentar.
– Vamos contar que sejam breves – disse Isabella, também estava curiosa.
Rosalie nada disse. Como na saleta, apenas alternava seu olhar entre Isabella e Edward. Este nada disse, apenas passou a caminhar de um lado ao outro. Atitude que denunciava certo nervosismo. Para surpresa de todos, em menos de dez minutos Marie foi procurá-los e avisou constrangida, que Elizabeth subira ao quarto, indisposta e Senior Zimmer esperava pelo barão no hall principal, pronto para partir.
– Partir?! – Edward indagou com o cenho franzido, encaminhando-se para a porta. Ao notar que seria seguido, barrou as damas: – Vocês permaneçam aqui.
Ignorando os protestos de Alice, Edward deixou a biblioteca a passos largos, sendo seguido apenas por Marie. De fato, Senior Zimmer estava à porta, consternado, girando seu chapéu com mãos aflitas. Ao ver o barão maneou a cabeça e desculpou-se:
– Perdoe-me, mas não poderei ficar para o jantar.
– Fique à vontade, mas me diga... O que alegou minha mãe para recusar? – Para Edward aquela era a única pergunta a fazer, visto que a recusa era clara.
– Rogo mais uma vez para que me perdoe, mas gostaria de partir imediatamente. Creio que vossa mãe possa dizer-lhe seus motivos para declinar do meu pedido. E, em tempo, senhor, eu quero agradecer pelo vosso convite para o casamento, contudo acredito que não venha reunir-me a vocês. Então aceite minhas felicitações antecipadas.
– Absolutamente! – Edward aceitou a mão estendida, por saber que não se negava o cumprimento de um cavalheiro, mas recusou a felicitação. – Faço questão que venha. Considerarei como desfeita se não vier.
Senior Zimmer travou os lábios, quase ao ponto de ocultá-los sob o vasto bigode, mas aquiesceu.
– Sendo assim, até sábado, Lorde Edward.
– Westking – corrigiu-o. Edward ainda não sabia as razões da mãe, mas algo lhe dizia que aquela história não findava ali. – Bom retorno.
– Boa noite, Westking.
Após uma reverência Senior vestiu seu chapéu e se foi. Edward esperou que o senhor montasse e partisse somente então se voltou para Marie, prostrada às suas costas.
– Avise na biblioteca que o jantar irá se atrasar. Vou ver o que se passa com a baronesa.
Edward subiu os degraus de dois em dois e adiantou seus passos no corredor até estar diante da porta de sua mãe. Bateu por educação, mas em seguida girou a maçaneta, decidido a entrar. Estarreceu-o encontrá-la trancada.
– Mamãe! – chamou-a, novamente a bater. – Precisamos conversar.
– Amanhã, Edward – ela disse chorosa.
– Agora! – ele demandou, batendo com maior firmeza. Se ela chorava não estava confortável com a recusa. Havia algo errado ali. – Abra! Se não o fizer baterei a noite inteira. Quer assustar seus netos?
Golpe baixo, Edward sabia, mas tinha pressa. Como esperado, sua questão levou a baronesa a abrir a porta. Partiu o coração do barão ver sua mãe com os olhos úmidos, a apertar um lenço sobre o nariz.
– O que quer? – ela indagou ao lhe dar as costas. – Recusei o pedido, já sabe. O que é de extraordinário?
– Seu comportamento – Edward disse brandamente. – Se fosse seu desejo recusar, não estaria chorando. – De súbito uma ideia lhe ocorreu e enfureceu. – Ou aquele senhor lhe faltou ao respeito? Se o fez eu...
– Não! – Elizabeth se voltou e lhe tocou o peito como se ele estivesse prestes a irromper porta afora. – O Sr. Zimmer jamais me faltou ao respeito. Sempre é muito gentil e educado.
Os elogios soaram com ternura, o que reforçou a tese de haver algo fora de lugar. Aproveitando-se da aproximação, Edward segurou a mãe pelos ombros para que não lhe escapasse e indagou:
– Se o admira e lhe tem apreço, afinal, agora chora... por que recusou o que lhe propôs?
Os olhos de Elizabeth voltaram a marejar, mas a senhora não lutou por liberdade. Cansada, confessou:
– Enquanto seu pai foi vivo, nunca olhei para outro, mas tempos depois... Logo na primeira oportunidade que tive de engrenar uma conversa mais animada com Senior eu o considerei interessante. Gostei dele. Se esse pedido tivesse vindo, antes... Eu não o recusaria, mas agora...
Era incômodo ter sua própria mãe a lembrá-lo de que era mulher, logo passível de interessar-se por um homem, porém Edward domou sua possessividade filial. Elizabeth sofria e, desde que notou seu erro de julgamento, não admitiria que assim se sentisse.
– O que mudou agora, mamãe?
– Agora eu tenho Embry – disse embargada. – E se vai se casar, logo virão mais filhos seus... Como poderei cuidar deles se estiver longe.
Edward sentiu seu rosto arder. O que já era ruim se tornou pior. O que sua mãe sentiria caso um dia descobrisse que abdicou da oportunidade de ser feliz para cuidar de um enteado, não neto, fruto de uma traição vil? O quanto a debilitaria a decepção causada por um filho tão amado?
Se antes Edward estava empenhado em aceitar, naquele momento tomou para si a responsabilidade de reparar o erro. Sufocando sua própria comoção, endureceu a voz e a expressão ao dizer:
– Embry tem a mim e a própria mãe. Assim como meus futuros filhos. A senhora não tem de se ocupar deles.
– Edward?! – Por fim Elizabeth lutou por liberdade e ele deixou que se afastasse. – O que está dizendo? Acaso me quer longe daqui?
– Acaso quero que viva sua vida, não a minha e muito menos a de Embry ou de outros filhos que possa vir a ter. – Ao vê-la abrir a boca para retrucar, ele a calou com o dedo em riste. Não queria voltar àquele assunto, mas se fazia necessário. – Por tudo que me disse sei que essa seria uma repetição do que já fez. Esteve num casamento infeliz, arrisco dizer, sem amor, por minha causa. Porque meu pai me deu à senhora. Basta! Já desempenhou este papel. Agora, Embry é minha obrigação.
– Edward...
– Se soubesse que permitir que cuidasse dele fosse atrapalhar sua vida jamais teria permitido – prosseguiu. – Saiba que se essa é sua única razão para não seguir o que dita seu coração, esta não mais existe. Embry é seu neto, se um dia não estiver mais nesta casa, venha vê-lo todos os dias. Se permanecer aqui, mime-o e adore-o o quanto quiser, mas não é mais sua função educá-lo. A partir de segunda-feira, começarei a procurar uma preceptora.
– Edward... – o novo chamado veio em meio a um lamento súplice.
– Está decidido, mamãe – disse irredutível, sem medo de estar sendo cruel. Vilania maior seria vê-la sofrer por um engano.
– Não vê que é tarde? – Elizabeth lutava com novas lágrimas. – Já recusei o pedido.
– Se tivesse dado qualquer indicação de que recusaria, eu a teria questionado, antes. Mas se mostrou animada. Como eu poderia imaginar?
– Enquanto eu me aprontava sem poder ir ao quarto de Embry para cuidar de seu jantar, percebi o que perderia caso partisse – revelou num muxoxo.
Edward se compadeceu e eliminou a distância para novamente segurar-lhe pelos ombros, obrigando-a a encará-lo.
– Erra ao pensar que perderá alguma coisa. Se estiver feliz, terá somente coisas boas a acrescentar ao seu neto. Se ficar aqui resignada, a cumprir o que considera uma tarefa, apenas ficará amarga, cobrando dele de outro a retribuição de seus esforços. Vejo-a com outros olhos, mamãe... Será que não tem sido assim todos esses anos? Hoje não reconheço na senhora, a baronesa dura que se arreliava ao ver crianças a correr pela casa ou ao redor dela.
– Faz-me sentir uma velha ressentida – Elizabeth retrucou, sentida.
– Perdoe-me, mas... não seria o caso? – Edward perguntou com todo carinho que poderia demonstrar. – Pense nisso.
– Como já disse... Agora é tarde. O Sr. Zimmer ficou aborrecido com meus argumentos. Talvez sequer volte a me dirigir a palavra.
– Pouco provável. Se assim for, descobriremos no sábado, durante meu casamento. Até lá... Reveja sua forma de pensar e seja egoísta, mamãe. Abnegação é para os santos. Aqui, somos apenas humanos.
Sem mais, Edward a abraçou brevemente e a beijou com ternura, antes de seguir para a porta.
– Mandarei que Amy venha ajudá-la. Boa noite, mamãe.
– Edward.
O barão parou à porta e se voltou para atender a mãe.
– Talvez tenha razão no que disse, mas saiba que suportar meu casamento jamais foi um fardo. Para ter você, passaria por tudo quantas vezes fossem preciso. Tenha uma boa noite, querido.
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