Borboleta Negra

93 Capítulo Final


Notas iniciais
Então é isso!... Chegamos ao final. Fico feliz e agradecida a Deus por ter cumprido minha promessa de levar BN até o fim. Por todos os comentários ao longo desses anos eu sei o quanto riram, choram, surtaram e torceram pelo barão e sua borboleta. Agora, espero que gostem da conclusão. BOA LEITURA!

― Mamãe, acorde!

Isabella piscou algumas vezes. Antes que olhasse para o filho, sentiu o rosto arder fortemente ao compreender que esteve fitando seu marido, alheia a tudo. Os risos ao redor indicaram que todos estavam cientes de seu desligamento.

― Estou acordada, querido ― disse amavelmente.

Particularmente Isabella tinha suas dúvidas de que estivesse lúcida. Fora essa a razão de se perder em devaneios, mirando o barão. Tudo parecia tão extraordinariamente certo que não a surpreenderia se acordasse e se descobrisse em seu quarto, no Jardim das Borboletas, depois de sua mente ter dado vida a um sonho fantástico.

Compreensível, pois tantas coisas aconteceram nos últimos dias.

Para Isabella, ainda era assombroso ver o barão na saleta, agora para a comemoração do aniversário de Embry, sentado confortavelmente em uma poltrona ao lado da lareira, com Nero aos seus pés.

― Não quer um pedaço de bolo? ― Embry indagou, olhando da mãe ao pai. ― E o senhor?

― Sim, claro! ― Isabella agitou as mãos e por fim se levantou para receber o pedaço de bolo que Marie lhe estendia. ― Parabéns, meu querido!

― Obrigado! Enfim tenho oito anos, mas agora não preciso mais me preocupar ― Embry sorriu contente.

― Não precisa... Ocupe-se de ser criança, Embry ― disse o barão, porém a sustentar o olhar de sua esposa.

Indiferente aos olhares entre o casal, Embry assentiu e recebeu outro pedaço de bolo que foi entregar ao pai. Isabella ocultou sua comoção ao confirmar que não sonhava e que cada um deles poderia se ocupar daquilo que era; sem cuidados exagerados.

― Acredito que nunca me acostumarei com o modo que se olham ― disse Rosalie ao se aproximar. ― Hoje vejo que essa história não poderia ser diferente.

― É como penso ― Isabella murmurou, provando um pedaço de bolo sem notar, agora pedida na imagem de Edward e Embry, um a sorrir para o outro.

― Consegue entender que você viveu uma das histórias que criávamos no pomar? ― indagou a duquesa. ― Com vilões, heróis, encontros, desencontros. Teve até mesmo a tentativa de envenenamento e... Oh, que falta de sensibilidade a minha! ― repreendeu-se. ― Sue era...

― A bruxa má, sem dúvida. Não disse nada além da verdade ― ou nada que ela já não tivesse pensando, considerou Isabella.

A baronesa não cometeria a indiscrição de acrescentar que em boa parte daquela história o real e grande vilão sequer esteve presente e que infelizmente não seria castigado. Ou talvez ele tivesse sido punido ao jamais conseguir conquistar o amor da única mulher que amou. Enfim, jamais saberiam. Que sir Ludwig descansasse em paz, Isabella desejou sinceramente.

― E, sabe? ― Isabella sorriu para a amiga, contente. ― Ainda vivo meu conto de fadas. Espero que nunca termine.

― Pelo modo que meu irmão a olha, jamais ― observou Rosalie, analisando o irmão. ― Partirei feliz por vocês.

Isabella estremeceu em expectativa. Não se sentiu culpada, pois sabia da ansiedade de seus co-cunhados em partir. Após a pequena comemoração do aniversário infantil não haveria nada que os detivesse em Apple White e enfim Edward e ela poderiam dar início à vida de casados. Para que não fosse arrastada para um novo devaneio que a desligaria do mundo, Isabella indicou o duque.

― E quando saberei como se deu o seu conto de fadas? ― gracejou.

Isabella não se surpreendeu ao ouvir o suspiro profundo, pois já havia entendido que a história da duquesa tinha sido tão conturbada quanto a sua. Ter a confirmação apenas elevou sua curiosidade, mas não insistiria caso Rosalie se recusasse a saná-la.

― Prometo que em nosso próximo encontro eu narro o meu conto de fadas ― disse Rosalie com os olhos postos no marido. ― Adianto que o início não foi nada convencional.

― O que não foi convencional? ― a voz de Alice às costas das damas fez com que se sobressaltassem. Perspicaz, a condessa observou: ― Assustei-as? O que segredavam?

― Não há novos segredos, milady ― respondeu Isabella, afastando-se para que a cunhada fizesse parte da conversa.

― Graças aos céus! ― Alice ergueu as mãos enluvadas de modo teatral. ― Descobrir que somos irmãos de Laurent Hunt foi o bastante para mim. Todavia... Digam-me, sobre o que falavam?

― Sobre nossas histórias ― disse Rosalie, porém não falou de si. ― Eu dizia a Isabella que a sua não foi convencional.

― Falavam de mim? ― os olhos da condessa brilharam. ― Gosto dessa novidade, mas sou obrigada a discordar... O conde se interessou por mim em um dos bailes em McCarty Castle, enviou-me flores no dia seguinte e dois dias depois pediu minha mão ao papai, que a concedeu. O clichê básico de todas as uniões.

― Se está dizendo... ― Rosalie murmurou sugestivamente, deixando Isabella igualmente curiosa quanto à história de Alice.

― Irá me contar um dia? ― indagou segura da nova amizade.

― Na primeira oportunidade ― prometeu Alice. ― Mas agora preciso me sentar. Veja como o conde me olha... Não é excitante e intimidador?

Sem esperar pela resposta, Alice foi se sentar ao lado do marido. Este a tocou no ombro de modo discretamente carinhoso. Sem dúvida excitante e intimidador, Isabella considerou.

― Isabella, acredite ― disse Rosalie, igualmente mirando a irmã ―, nada em nossa família pode ser considerado clichê ou básico.

― Mas o importante é que tudo sempre acabe bem, não?

― Sem dúvida ― anuiu a duquesa, a sorrir para o marido e seus filhos. ― Tudo acabou bem.

Era o bastante, pensou a baronesa antes de novamente se perder no olhar do barão. Isabella não teria como saber, mas o marido considerava-a muito bonita e bendizia a promessa feita ao filho de que não voltaria a usar luto. Sem dúvida as cores a favoreciam e a visão do colo, ornado com um dos colares que a presenteou, muito o agradava. Edward gostaria de ser esquecido em seu posto para apenas admirá-la, porém não estavam sós e uma vez que a partida de suas visitas era iminente, recebia com atenção quem se aproximasse.

― Folgo em vê-lo bem, Westking ― disse Jasper ao se colocar ao lado da poltrona. ― Porém quero sua palavra de que me mandará chamar caso precise de qualquer ajuda.

― Digo o mesmo ― Emmett se juntou a eles. ― Estarei à disposição para o que for preciso.

― Agradeço aos dois ― disse Edward ao se levantar ―, mas peço para que não se preocupem. Estou bem. E tenho Jacob à frente da sidreria. Em breve tudo voltará ao normal.

Jasper assentiu. Emmett por sua vez maneou a cabeça e riu discretamente.

― Ah, meu amigo, é meu dever lembrá-lo que está casado. Nada voltará ao normal. Mas se tiver a sorte que tive, irá agradecer por cada novo dia que não poderá prever em absoluto.

― Já agradeço ― murmurou Edward, intimista. Até ali seu casamento em nada tinha sido como esperado, porém, apesar de tudo, não pediria que fosse diferente. Contudo, não queria falar de si, sim fazer algo que não poderia adiar. ― McCarty, Whitlock ― chamou-os como se não estivessem ao lado. Ao ter a atenção dos cunhados, disse: ― Não tenho palavras para agradecer o que fizeram por mim. Resta-me apenas dizer obrigado!

― Não tem o que nos agradecer, sim, nos desculpar uma vez que não evitamos o pior ― disse Jasper, com o peito altivo.

― Todos evitaram, Whitlock, bem sei ― Edward discordou. ― E lhe devo agradecimento especial. Em sua última visita o Dr. Morrigan contou que você foi o responsável pela retirada do florete.

― Estou habituado ― o conde retrucou prontamente, livre de orgulho. ― Repeti essa ação inúmeras vezes em todas as batalhas que participei.

― Seu pulso firme não piorou minha situação. Serei eternamente grato. Aos dois!

― Esqueça-se disso ― pediu Emmett. ― Sabemos que faria o mesmo por nós.

― A qualquer momento ― reiterou, comprometido.

Antes que os cavalheiros pudessem dar seguimento à conversa, Beni surgiu à porta e, desconcertado, chamou a atenção para si.

― Com a licença de todos... ― disse o criado, com os olhos fitos no piso. ― Há um casal à porta da cozinha, esperando pela baronesa.

― Pela baronesa? ― Edward se adiantou à surpresa da esposa. ― Disseram os nomes? O que desejam?

― Não, senhor. Apenas pediram que viesse chamá-la.

Sem identificar o sentimento que a estremecia, Isabella procurou pelo olhar do marido. Não sabia o que esperar, pois simplesmente não atinava o que um casal de estranhos pudesse querer com ela.

― Irei ver quem são e o que querem ― Edward determinou ao pegar sua bengala, disposto a proteger a esposa do que fosse.

― Não pode se esforçar ― disse Elizabeth, de pé, ao lado do marido.

― Com a licença de todos, irei com o barão ― disse Isabella, segura, não deixando margem para negativas.

O caminho até a cozinha foi feito em silêncio. Mesmo que fosse preciso caminhar com o apoio da bengala, Edward fez questão de ceder o braço livre à esposa para lhe transmitir segurança. Não conseguia imaginar se alguma nova ameaça os esperava, mas deixaria claro que nada mais a atingiria.

Ao chegarem à cozinha o espírito de luta estava acirrado, então foi com imenso alívio que receberam o casal. Sem ocultar o prazer em vê-los, esquecida de sua posição, Isabella se desprendeu do marido e correu até os recém-chegados para abraçá-los.

― Sam! Jessica! O que fazem aqui?

― Assegurou que eu poderia vir, senhora ― disse Sam depois de cumprimentar o barão parado à porta. Foi para ele que acrescentou: ― Se o senhor tiver colocação para mim e minha esposa, nós...

― Esposa?! ― Isabella olhou de um ao outro, admirada.

― Para todos os efeitos... ― Jessica sorriu e assentiu timidamente antes de segredar: ― Não nos casamos de fato, mas Sam insiste em dizer que sim. E ele não quer que eu fique no Jardim, mesmo que não atenda aos senhores há dias.

― Com o tempo cuidaremos disso ― disse Isabella, agradecendo o fato de não serem ouvidos. Para ela não haveria problemas em deixar que o casal ficasse, contudo, bastou mirar o marido para saber que ele não compartilhava de sua opinião. ― Edward?

― Não sei se seria prudente ― ele disse por fim, quando estava próximo o bastante para falar apenas a quem estava perto. ― Pode ser perigoso... Confio em Sam, mas essa moça...

― Não tenha cuidados, senhor! ― Sam se colocou ao lado de Jessica protetoramente. ― Estamos à procura de uma nova vida, esquecidos do passado. Precisamos apenas de uma boa oportunidade e teto. Se não puder ser aqui, entenderemos.

― Edward, por favor... ― Isabella implorou. Compreendia o risco, mas gostaria muito que ficassem.

Edward mirou cada um dos rostos expectantes. Como dissera, confiava em Sam cegamente. Mais até, devia a ele sua vida e gostaria muito de tê-lo ao lado. Porém, quanto à moça, nada sabia e temia que não soubesse segurar a língua. Entretanto, como se não bastasse não ser ingrato, ainda estava preso ao temor da perda definitiva e nada conseguia negar à esposa.

― A casa precisa de cozinheira ― disse à guisa de resposta. ― Se souber cozinhar, Jessica, a vaga é sua.

― O que não souber eu posso aprender, sir Edward ― Eve se animou.

― Muito obrigado, senhor! ― disse Sam, satisfeito.

― Eu que lhe agradeço. Sabe bem a razão... Obrigado, Sam! ― Edward inclinou a cabeça em uma breve reverência. ― Tem em mim um devedor eterno.

― Não fiz mais do que a minha função, senhor ― comentou Sam, impassível como de costume. ― Estou aqui para servi-los.

― Então está arranjado! ― Edward determinou. ― Jessica ficará na cozinha e você ficará no lugar de Jacob, ajudando-me no que for preciso. Entrem e se acomodem. Pedirei que a governanta venha instalá-los e instruí-los.

Ainda esquecida de sua posição, Isabella voltou a abraçar o casal antes de fazer com que entrassem e se sentassem à mesa.

― Leah, estes são Sam e Jessica. Sei que abusamos de sua generosidade, mas eu me sentiria especialmente agradecida se ensinasse o que sabe a ela antes de nos deixar.

― Não há abuso, Isabella ― Leah disse o nome com segurança própria aos amigos, ainda que se recusasse a participar das reuniões como a que acontecia na saleta. Analisando Jessica com curiosidade, piscou e acrescentou: ― Prometo ensinar quase todos meus segredos.

― Será perfeito para mim! ― Isabella sorriu. ― Contento-me em provar suas especialidades quando for visitá-la em sua nova casa.

― Perfeito, é essa a palavra ― Edward maneava a cabeça para a súbita ideia. ― Sam e Jessica poderão ocupar a casa que Jacob e Leah deixaram.

― Espero que ambos sejam tão felizes quanto eu e meu marido ― Leah sorriu para o casal. ― Mudamo-nos há poucos dias, então a casa está limpa e arejada. Os móveis estão em bom estado, também asseguro.

― O que tivermos estará muito bom para nós ― garantiu Sam, sincero em sua humildade, tocando o rosto da companheira com ternura.

De súbito a cena comoveu a baronesa, contudo ela a ocultou.

― Sendo assim, sejam bem-vindos! ― exclamou.

― Agora devem nos dar licença ― disse o barão. ― Estamos com visitas.

Após breves despedidas Edward e Isabella deixaram a cozinha. Não cabendo em si de alegria, a baronesa parou o marido antes que chegassem ao hall e o abraçou, levemente.

― Obrigada!

― Não me agradeça, Bella ― disse Edward, aproveitando o abraço para cheirar os cabelos de noite. ― Permiti que ficassem, mas não me agrada ter aquela moça aqui.

― Não teremos problemas, Edward ― assegurou. ― Você não tem como saber, mas o destino não poderia ter formado um casal melhor. Tenho certeza de que Jessica irá agarrar essa oportunidade com gratidão e afinco. Terei uma defensora, não uma delatora.

― Com o tempo saberemos ― Edward redarguiu; mais atraído pela visão da boca rosada do que consternado. Isabella sentiu a mudança do ar, no olhar do marido.

― Edward... Precisamos voltar. Sabe que não pode se esforçar.

― Ouço essa ladainha protecionista sempre que nossos beijos se tornam mais ardentes. Quando vai aceitar que eu estou bem e entender que preciso de mais? ― indagou aborrecido.

Por tempo indeterminado ainda dirigiria ao irmão toda sorte de xingamentos e blasfêmias por limitá-lo. Sem dar esposa a chance de resposta, soturno Edward ofereceu seu braço a ela e, apoiando-se na bengala, voltou à saleta. Depois de enviar Marie à cozinha com as devidas recomendações, resumidamente explicou às visitas que a casa contava agora com novos criados e pediu que voltassem a se divertir.

― Assuntos que não mais me dizem respeito ― disse Elizabeth. Em outros tempos Isabella tomaria como provocação, agora sabia ser a verdade em um gracejo.

― Mas não deve se animar, pois sei que a fazenda do Sr. Zimmer é espaçosa e há de requerer muitos cuidados ― Isabella tomou a liberdade de troçar.

― De fato! ― a senhora sorriu para o marido. ― Terei muito trabalho para colocar a casa em ordem.

― E tem toda a liberdade ― disse Senior Zimmer, retribuindo o sorriso de sua esposa. ― Tudo que tenho, agora é seu.

― Mamãe! Mamãe! ― Embry veio saltar diante da baronesa, livrando-a da renovada comoção, agora por ver que a sogra finalmente experimentava a felicidade de uma união tranquila. ― Lionel e John querem se despedir de Kalil. Posso ir ao estábulo?

Isabella baixou o olhar para o filho e sorriu.

― Permito que vá se me dizer como se sente ― gracejou. Para sua surpresa, o sorriso luminoso minguou. ― Embry, o que há?

― É que não quero estragar a surpresa ― sussurrou o menino. ― Não posso dizer como me sinto porque está tudo em uma carta.

― Em uma carta? ― Isabella admirou-se.

― Sim... ― olhando com cumplicidade para Elizabeth, disse: ― Vovó me ajudou a escrevê-la e a Sra. Channing a deixou em seu quarto, mas é para ler somente à noite. Promete?

― Prometo ― disse no mesmo tom, fitando a sogra que, distraída, conversava com Senior Zimmer.

― Agora posso ir? ― Embry pulou diante dela, ansioso.

― Deixe Embry ir, tia Isabella ― pediu Lionel. John apenas assentiu, com os olhos a brilhar. Até mesmo Nero parecia ansioso pelo passeio. ― Nossos pais nos deram permissão.

― Sim, Embry pode ir ao estábulo ― Edward liberou ao notar o mutismo de sua esposa.

Ao que parecia, assim como ele instantes antes, ela fora posta a par da carta que os esperava no quarto. Em resposta ganhou dela um olhar agradecido, logo substituído pela expectativa. Edward dividia com a esposa o sentimento, contudo, pacientemente esperou pelo término da comemoração e as subsequentes despedidas.

Depois de abraços, apertos de mãos e promessas de reunirem-se em breve, Edward ― com sua pequena família ao lado e alguns criados às costas ― viu partirem sua mãe, padrasto, irmãs, cunhados e sobrinhos. Até que enfim, pensou.

― Já sinto a falta de meus primos ― disse Embry antes mesmo que a última carruagem cruzasse o portão, divertindo os adultos ao seu redor. ― Com quem brincarei?

― Com Nero ― sugeriu Edward.

― E com seu potro, Kalil ― disse Isabella.

― Não será o mesmo ― Embry torceu os lábios em um muxoxo. Após um suspiro profundo, revelou: ― Prefiro brincar com meu irmão. Já não me importa que seja um menino. Lionel briga com John, mas sempre fazem as pazes.

Para os pais, a diferença havia, porém nenhum dos dois dava real importância ao fato. Menino ou menina, após a confirmação da gravidez, sabiam que este crescia forte no ventre de Isabella e seria bem-vindo. Quando nascesse, veriam se teriam um motivo com o qual se preocupar. No momento, somente um assunto os movia.

― Bem! ― disse Isabella, tocando a ponta do nariz de seu filho. ― Já passa das seis horas. O senhor teve muitas emoções por hoje e seu pai precisa de descanso. Amy, leve-o ao quarto, por favor.

― Sim, senhora ― prontificou-se a moça.

― Eu irei ver como estão os novos criados ― disse Marie, sorrindo abertamente para o casal. ― Com vossa licença.

― Apesar das restrições, eu suponho que a baronesa me levará ao meu quarto ― gracejou Edward ao ficarem sós.

― Sem dúvida alguma ― Isabella tomou o braço que o barão lhe oferecia. ― Não está curioso quanto à carta de Embry?

― Edward... Senhora... ― Jacob os chamou antes que Edward pudesse responder. Depois de olhar para o amigo que se aproximava, puxando seu baio pelas rédeas, o barão franziu o cenho:

― Boa noite! O que aconteceu para que tenha trabalhado até agora?

― O carregamento de rolhas chegou com atraso ― disse Jacob. ― Vim apenas para avisá-lo e ver se minha Leah já pode ir para casa. Não há com o que se preocupar. Tenho tudo sob controle.

― Confio em você, mas deixarei de me preocupar quando puder voltar ao trabalho.

― Agora sente exatamente o mesmo que eu, quando machuquei meu pé e me mandou ficar em casa, depois que retiramos uma moça enfezada do temporal ― Jacob troçou, sorrindo para a baronesa.

A lembrança, ainda que divertida, trouxe uma profunda e dolorida nostalgia ao barão. E também o temor. Se não tivesse se rendido à curiosidade e ao despeito, atualmente seria ele a vir da sidreria para mais uma noite de xerez e charuto antes do jantar. Não estaria se recuperando de um ferimento, por pouco mortal. Teria uma vida tranquila, porém vazia.

Sem dúvida Edward teria algo profundo a dizer sobre o episódio citado, porém optou por gracejar:

― Parabenizo-o pela tentativa de prender minha esposa em uma de suas tantas conversas... Contudo, vá buscar a sua e tenha uma boa noite!

Assim como Isabella, Jacob riu antes que se despedisse e seguisse seu caminho. Por sua vontade o amigo estaria presente na comemoração do aniversário, porém, assim como Leah, Jacob se recusou, alegando ter muito trabalho na sidreria. A baronesa esperava que com o tempo o casal se sentisse à vontade para estar junto aos ex-patrões em suas recepções.

Sem dúvida somente o tempo corrigiria o que faltava ser corrigido. Restava aproveitar o momento, Isabella considerou ao recordar da carta que os esperava no quarto.

― Nunca me disse se está curioso para ler a carta de Embry ― lembrou.

― Evidente que estou ― disse o barão enquanto fazia com que a esposa entrasse à sua frente. ― Agora que nos livramos de seu amigo falastrão, poderemos lê-la.

Edward gracejava e não mentia, mas o desejo premente era o de ter sua esposa para si somente, como no tempo em que levou a moça enfezada para Apple White. Seguindo o caminho antes tomado por Amy, Embry e Nero, o casal subiu em silêncio e assim se manteve até que o barão fechasse a porta do quarto e se livrasse da bengala.

― Ali está ― ele indicou o envelope disposto sobre a cama. ― A carta.

― Ela pode esperar ― disse Isabella, antes de tudo imbuída na tarefa de ajudar o marido a despir o casaco, como fazia sempre que preciso.

Depois de livrá-lo também dos sapatos, levou-o até a cama e esperou que se acomodasse. Livre das próprias botas, com cuidado Isabella se sentou ao lado e pegou o envelope. Notou que tremia ao retirar a carta.

― Gostaria que eu lesse? ― Edward se ofereceu ao reparar na vermelhidão que cobria as faces da moça.

― Por favor ― Isabella entregou o papel ao barão. Era tolo de sua parte, mas constrangeu-se ao se deparar com a delicada letra de sua sogra.

Sem esforço, Edward retirou um pincenê da gaveta de seu criado-mudo e o acomodou sobre o nariz.

― Vejamos o que temos aqui... ― murmurou antes de iniciar a leitura. ― Caros papai e mamãe. Gostaria de ser eu a lhes escrever, mas ainda estou aprendendo e minha letra não é bonita. Vovó me ajudou depois de prometer escrever tudo que eu disser. Ela também disse que válida é minha intenção, então espero que não reparem por não ser eu a fazê-lo.

― Evidente que não, querido ― Isabella respondeu como se o filho ali estivesse.

Edward considerou divertido, contudo teve a sensibilidade de não demonstrar. Em vez de rir ou sorrir, prosseguiu:

― Algumas noites, no colégio, eu pedia a Deus para que me fizesse adulto, assim eu sairia do castigo e poderia voltar para casa. Hoje, eu agradeço que não tenha acontecido como pedi, pois o que tenho é melhor. Meu pai é corajoso e nos protege. Minha avó é bonita e atenciosa. Tenho tias, tios e primos. Tenho Nero e o Kalil. Logo terei um irmão ou uma irmã. Como disse vovó, tenho uma família grande e unida... ― Edward interrompeu a leitura ao ouvir um soluço. ― Bella, você está bem?

― Estou ― ela assegurou mesmo embargada. ― Sempre me emociona lembrar que Embry acreditava estar de castigo.

Edward assentiu, considerando que de um jeito ou de outro, todos estiveram de castigo até que se encontrassem. Depois de segurar a mão de sua esposa, retomou a leitura.

― Como disse vovó, tenho uma família grande e unida. Eu nunca iria imaginar que um dia fosse ser tão feliz. Tudo isso graças ao papai, que me tirou do colégio. Não sei como dizer isso olhando para ele e como não quero entristecê-lo, decidi ditar essa carta, assim posso explicar aos dois como me sinto... ― Edward novamente se interrompeu, agora para limpar a garganta com um pigarro.

― Edward... Você está bem? ― Isabella devolveu a pergunta, compadecida.

― Estou ― ele garantiu, soando mais sério do que pretendia. Após um novo pigarro, leu: ― Obrigado por me trazerem para casa. Obrigado por serem amigos e obrigado pela minha primeira festa de aniversário. Eu amo vocês dois. Pedi que vovó escrevesse isso mil vezes, mas ela disse que tomaria muito tempo e que uma vez já seria o bastante.

Ambos foram obrigados a rir da sinceridade prática de Elizabeth.

― Por que não me surpreende? ― indagou Isabella, secando suas lágrimas com a mão livre.

― Embry se deparou com uma senhora resistente ao contrário de Kelton ― Edward observou, aproveitando o divertimento para dissipar de vez a comoção. ― No entanto ela tem razão... Uma vez bastou.

― Para mim também bastou ― disse a moça, mirando o barão. Quando ele fez menção de baixar a carta, ela o deteve. ― Há mais atrás.

Para Edward estava claro que chegara ao fim da missiva, então foi com o cenho franzido que girou o papel. O recado era breve e pôde lê-lo para si antes de proferi-lo. Logo ergueu as sobrancelhas em admiração. Antes que Isabella o questionasse, ele deu voz às palavras da mãe.

― P. S. Aproveito esta para igualmente agradecer a paciente retidão de ações e do caráter de ambos que me permitiu ver através do preconceito e enxergar com o coração. Sou grata por me fazerem sentir como membro de uma verdadeira família, com netos perfeitos, um filho e três filhas que amo... Elizabeth Zimmer.

― Três filhas que amo?! ― Isabella engasgou. ― Edward, você inventou isso.

― Em absoluto ― Edward se fez de ofendido e deixou que a esposa avaliasse a carta. ― Aí diz claramente que minha mãe a acolheu de coração.

― Nem sei o que pensar ― ela murmurou, enquanto lia o breve recado de sua sogra. ― Ela me considera uma filha.

― É o que é, Bella... Sua filha pela lei ― o barão brincou com as palavras, passando a brincar também com as mechas negras que emolduravam o rosto luminoso da baronesa. Depois de se livrar do pincenê, capturar a carta e deixá-los sobre o criado-mudo, ele segurou o queixo de sua esposa. ― Está feliz?

― Sim ― ela sussurrou como se segredasse. ― Tanto que tenho medo. Compreende?

― Medo de acordar ― anuiu Edward no mesmo tom. ― De ver que na verdade estou sozinho.

― No meu caso, de estar ainda no Jardim, impedida de estar com você...

― Graças aos céus não estamos dormindo ― Edward correu a mão que acariciava o rosto contrito para o pescoço desnudo e sorriu. ― E não há nada que ameace o que sentimos.

― Não há, não é mesmo?

Edward negou com a cabeça e Isabella viu o vislumbre de rebeldia cruzar os olhos azuis. Sentindo-se encorajada, perdida na visão dos lábios e dentes que o cavanhaque emoldurava, ela se deixou aquecer e retribuiu o sorriso. Ao sentir o carinho em seu colo, compreendeu o olhar traquinas e agitou-se.

― O que está fazendo?!

― Considero-a bonita de todas as maneiras. Acredito que não tenha dito o quanto estou satisfeito em vê-la livre daquele luto infundado ― disse inocentemente.

― Sim, o senhor disse... Muitas vezes, na verdade.

― Então posso inovar e dizer que a admiro mais em trajes menores. Tire esse vestido e me beije.

― Edward... ― ela maneou a cabeça, repreensiva, porém deixou a cama para atendê-lo.

O momento era ímpar. O marco que daria início às suas vidas, com isso Isabella queria mostrar-se sem subterfúgios morais ou sociais.

Livre de qualquer constrangimento ― com os olhos fitos no barão que se reacomodou nos travesseiros para vê-la se despir ―, além do vestido, a baronesa se livrou das meias e do espartilho. Não deveria, mas se excitou como se os olhos azuis a tocassem.

― Quando me olha dessa forma, sei exatamente quem é você ― disse Edward, contagiado pelo fogo que via nos olhos de azeviche. ― Tanto que me atrevo a pedir que se mostre mais.

Decididamente ela não deveria, contudo Isabella estava cansada de repetir a ladainha protecionista e sequer pestanejou antes de retirar o chemise.

Com a respiração suspensa e o corpo a pulsar dolorosamente pelos dias de abstinência, Edward admirou a beleza jovem de sua esposa, os seios pujantes. Expectante, determinou ser necessário confirmar que viviam a realidade. Para que tudo estivesse definitivamente em seu lugar, ele precisava estar nela. Sem deixar de olhá-la, passou a desabotoar sua camisa.

― Edward... Não devemos ir muito longe ― Isabella murmurou sem convicção alguma, abalada pela visão do peito amplo que o marido expunha. O pequeno ferimento em nada colaborava para a retomada de juízo, apenas tornava urgente a necessidade de senti-lo.

― Não imagina como me tortura interromper nossos beijos... Ou apenas dormir ao seu lado todas as noites. Uma moça determinada me disse certa vez que não esperava para ter amanhã o que queria hoje. E imagine... Ela me queria ― o barão estendeu a mão.

Isabella engoliu sua comoção ante a recordação e sorriu.

― Ela ainda o quer ― disse antes de apertar a mão do barão e se sentar sobre seu quadril. ― E imagine... Hoje ela não deseja ser invisível.

― Doces palavras, minha senhora ― Edward murmurou roucamente ao tê-la sobre sua hombridade desperta. ― Então venha... Também me lembro que minha borboleta queria um jardim todo seu.

― Sim ― a baronesa se curvou e beijou o peito nu do barão, conseguindo um gemido de deleite ―, sua borboleta apenas não sabia o que queria até que o senhor lhe mostrasse.

Para aplacar a crescente urgência que os envolvia, Isabella segurou o rosto de Edward e deu início a um beijo que não quebraria para fugir... Jamais para fugir.

Ѽ

Como em todos os jardins, além de borboletas e flores havia também espinhos. Antes que o primeiro sinal de alerta viesse, William Morrigan preveniu o casal de que a compleição delicada da baronesa não a fazia apta para a boa gestação. A explicação para os males da primeira gravidez alimentou em Isabella o temor de que tudo se repetisse. No quarto mês a avaliação se mostrou verdadeira.

A nova recomendação era a de que a baronesa deveria manter repouso absoluto e coube ao barão mantê-la sob vigilância constante para que não se excedesse. De bom grado Sam voltou a guardar sua senhora sempre que o novo patrão se ocupava na sidreria.

Outra que todas as tardes se fazia presente em Apple White era Elizabeth Zimmer. Depois de ensinar à nora a arte dos bordados, ambas passavam horas cuidando do enxoval infantil, aproveitando a paz primaveril na saleta ou na varanda. Embry invariavelmente lhes fazia companhia, deixando-as apenas para receber lições de sua preceptora, Siobhan Eich, uma senhora equiparada à Marie em competência, estatura e idade, rígida durante as lições, porém amável e atenciosa. O menino a adorava, detalhe que acirrava os ciúmes da avó e tranquilizava a mãe que pela limitação imposta, às vezes se sentia negligente. A impressão desaparecia quando estavam juntos em encontros que a divertiam.

― Deve comer menos, mamãe ― Embry dissera certa vez, admirado com o tamanho do ventre arredondado. ― Veja como está engordando meu irmão.

Até mesmo Sam, sempre tão sério, rira do comentário inocente. As reações positivas de Elizabeth não mais surpreendiam a baronesa, pois a senhora demonstrava a cada dia que para ela, o menino era de fato seu neto e tudo o que fazia ou dizia a contentava.

Para Edward, não havia distinção entre seus filhos, contudo a maior parte de sua atenção era para a criança que nasceria. Todas as noites ele ia ao quarto de Embry, porém logo retornava ao seu próprio quarto para que pudesse se deitar e contemplar a barriga de sua esposa.

― Como tratou sua mãe? ― Edward repetiu a pergunta de todas as noites, acariciando o ventre redondo, no sexto mês de gravidez, sabendo exatamente a razão dos tremores que provocava em Isabella, sem avançar. Sentia-lhe a falta, mas com a vida dela jamais agiria levianamente.

― Muito bem, como em todos os outros dias ― ela respondeu, mirando a mão que deslizava sobre sua barriga entre enlevada e excitada. Apesar de tudo, cada momento era mágico.

― Eu não esperava menos ― disse o barão. ― Ela será atenciosa e bela, como você.

― Acha mesmo que será uma menina? ― a alardeada certeza sempre a comovia. ― Oh!

― Rá! Rá! ― Edward exultou ao sentir o vigoroso movimento do bebê. ― Vê! Não tem como não ser... Ela sabe que falamos dela.

― Ou nosso rapazinho está incomodado com a mudança de gênero ― Isabella gracejou.

― Daqui a três meses saberemos.

Isabella assentiu, rogando para que o tempo corresse. Edward dividia com ela o mesmo desejo, especialmente por ser capaz de entender o cuidado excessivo de seu cunhado conde. Todas as noites ele pedia a Deus que, assim como Jasper, logo tivesse em seus braços um filho sadio; ou uma filha.

Por sua vez, Isabella constantemente dizia a si mesma que sua situação era diferente de anos atrás, quando trouxe Embry ao mundo. No entanto, no início da manhã do último dia de verão, mais uma vez as contrações vieram prematuramente.

― Edward ― Isabella chamou o barão em um murmúrio para não alarmá-lo ao confirmar que as dores culminariam no nascimento de seu filho. ― Edward, acorde...

― Isabella...? ― ele se sentou em alerta. ― O que houve?

― Acho que... ― ela tentaria manter a calma, mas foi traída por uma nova contração. Ao retomar o fôlego disse de uma só vez: ― Acho que deveria mandar chamar Marie, sua mãe e o médico. Chegou a hora!

Não poderia ser! Não quando faltavam dois meses, Edward determinou, porém nada disse. O que entendia de nascimentos? Depois de saltar da cama e abrir as cortinas para que ele pudesse escrutinar o rosto da esposa, aceitou que a hora havia chegado. Tão rápido quanto pôde, o barão vestiu sua calça, a camisa usada na noite anterior, calçou as botas mesmo sem meias e saiu para atender ao pedido da baronesa.

Marie, que Edward encontrou na cozinha coordenando as atividades do dia, foi enviada ao quarto. Mark foi enviado à fazenda de Verne Zimmer com a tarefa de trazer Elizabeth enquanto o patrão ia até a nova casa de Jacob. Ao ser recebido, antes que pudessem se cumprimentar ou o moreno externar sua surpresa, o barão pediu:

― Vá até a vila e traga o doutor Morrigan. Isabella vai dar à luz.

― Já?! ― Jacob admirou-se.

― Corra, homem! ― Edward ordenou nada inclinado a responder o que ele mesmo custava a aceitar. ― Não sei o que será de mim se algo acontecer a ela!

A resposta de Jacob foi recebida pelo vento, pois Edward apenas deu meia-volta e incitou Draco a correr. De volta à Apple White, alheio à grosseria, ele ignorou quem tentou detê-lo para obter informações. Parou somente ao ver Sam aos pés da escada, aflito por sua senhora. Longe de enciumar-se, disse:

― Tudo ficará bem.

― Como eu posso ajudar, senhor? ― indagou Sam, solicito como esperado.

― Mantenha Embry afastado ― foi tudo que ocorreu a Edward. Sua mente estava nublada. Ao entrar no quarto, confundiu-se ao encontrar a esposa rindo de algum gracejo dito por Marie. Com o coração aos saltos ele se acomodou ao lado de Isabella e lhe segurou a mão. Sem se importar com a governanta, beijou-a levemente e indagou: ― O que houve? Não chegou a hora?

― Oh, sim ― disse Marie, lembrando-o de sua presença. ― Seu filho está a caminho, senhor. Porém esse é um momento de alegria, especial. Era o que eu dizia a Isabella.

Sim, o barão não tinha pensando daquela forma, então sorriu, tranquilizando-se. Contudo o momento pareceu especial e o contagiou até que Isabella se encolhesse e reprimisse um urro de dor, apertando-lhe a mão com força esmagadora.

Por sua vontade Edward não se afastaria, mas por não disfarçar seu nervosismo, Elizabeth o convidou a se retirar do quarto tão logo entrou, calma como viesse para o chá. Com a ajuda de Marie a senhora cuidou da nora até que Jacob chegasse com o médico.

― Se der mais uma volta, Edward, o chão irá ruir ― observou Jacob, impassível, pouco mais de uma hora depois, após tantas idas e vindas de Marie; sem que ela lhe desse qualquer informação.

― Pois que a casa desabe ― Edward replicou, correndo as mãos pelos cabelos em desalinho. ― O momento pode ser especial, porém é também delicado e eu não sei o que...

― Seria de você se algo acontecesse à baronesa ― Jacob completou, sorrindo. ― Foi o que me disse quando me mandou à vila. Sossegue.

― Deixe-me! ― o barão ordenou, sem se importar em ser rude. ― Quero apenas que tudo acabe.

― Cedo ou tarde irá acabar... Onde está Sam?

― Pedi que mantivesse Embry afastado ― respondeu Edward, de má vontade, mesmo agradecido com a tentativa de distraí-lo. ― Eu não queria que meu filho ficasse nervoso.

― Para tanto temos você não é mesmo? ― ignorando o olhar dardejante do amigo em resposta à sua troça, Jacob contemporizou: ― Desculpe-me... E se acalme. Nada irá acontecer. Não importa o que digam, sua esposa é forte e logo ouviremos o choro de seu filho.

Como se tivesse o dom da adivinhação, Jacob ditou a verdade, pois de imediato o choro estridente pôde ser ouvido no corredor. Nem que vivesse mil anos, Edward saberia descrever os sentimentos que o invadiram: alívio, alegria, pavor. Foi preciso domar seu ímpeto para que não irrompesse porta adentro antes mesmo que recebesse os cumprimentos do amigo falastrão.

― Parabéns, Edward! ― Jacob o abraçou brevemente. ― Pelos bons pulmões vejo que teremos uma miniatura de você.

― Será um homem de bem, então... ― disse sem notar, mais interessado na porta fechada. ― Por que não vêm me chamar?

― Porque estão cuidando da mãe e da criança ― Jacob lhe tocou o ombro de modo confortador. ― Está tudo bem. Acabou.

Edward gostaria que fosse fácil acreditar. Somente acalmaria seu coração quando estivesse com sua família. Algo que demorou bons minutos para acontecer. Até que Marie fosse chamá-lo, pareceu ter se passado uma eternidade. Então o tempo parou e mais uma vez o barão soube que anos não o ajudariam a descrever a cena vista.

Isabella estava acomodada no centro da cama ― limpa, linda ―, sorrindo e chorando para o embrulho que tinha nos braços. Ao olhá-lo, contudo, o sorriso se extinguiu. Antes que Edward a questionasse, Elizabeth se aproximou e o cumprimentou de seu modo direto:

― Parabéns! E não importa o que saiba, entenda que Deus cuida para que tudo fique de acordo. Vá ver sua esposa... Eu vou chamar meu neto.

Edward se aproximou da cama e se sentou ao lado de Isabella. Ao perscrutar o rosto amado, descobriu que a beleza não ocultava o cansaço, o embargo. Tentando não pensar nas dores sentidas, ansiando ouvi-la antes de tudo, indagou:

― Por que chora, Bella?

― Eu... Eu sinto muito... ― ela lutava com as lágrimas. ― Gostaria de lhe dar muitos filhos.

― Muitos filhos?! ― Edward franziu o cenho. ― Por que pensar nisso agora? Sem dúvida, depois eu os deseje, mas tão cedo não quero que passe por nada disso.

O barão reconhecia que ele mesmo não estava preparado para outra temporada de incerteza e aflição.

― O que a baronesa está dizendo, senhor ― William Morrigan esclareceu ―, é que dificilmente ela poderá lhe dar outros filhos. Tudo acabou bem, mas o parto foi complicado como o anterior. Espero que não seja um problema, afinal, já tem seu herdeiro. Que mal há em ter somente dois filhos, mesmo que um deles seja uma menina?

― Uma menina?! ― para o barão nada mais importou. De imediato ele por fim fitou a criança que, mesmo de olhos fechados, tendo uma rala penugem em vez de cabelos e a pele enrugada, ele considerou a criatura mais bonita que poderia existir no mundo. ― É mesmo uma menina! Será uma mulher de bem, como você!

― Sim... Sempre esteve certo, senhor ― disse Isabella em um murmúrio, compartilhando com ele a admiração pela menina que tinha nos braços. No entanto a limitação ainda a abalava. ― Vai me desculpar?

― Como disse minha mãe ― Edward a encarou e sorriu ―, Deus cuidou para que tudo ficasse certo. Já tenho um herdeiro, Bella.

Como, como não amá-lo mais e mais a cada dia? Isabella especulou intimamente. Seu receio fora infundado. Mesmo exausta, deveria ter se lembrado de que seu marido não a condenaria por algo que ia além de sua vontade.

― Como iremos chamá-la? ― indagou para mudar o tema. ― Antes que você entrasse, eu estava pensando em Renée Helena. Como uma homenagem à minha mãe e à personagem de Sonhos de Uma Noite de Verão.

― Considero válida a homenagem, mas não sei se gosto de Helena ― Edward observou, voltando a admirar a filha. Ela...

De súbito a porta foi aberta. Embry entrou correndo, seguido por Nero, contudo parou antes que chegasse à cama. Curioso, o galgo seguiu caminho, farejando o ar.

― Mil perdões, senhor, senhora... ― pediu Siobhan que chegou em seguida, ao lado de Amy. ― Não sei o que aconteceu. Embry é sempre tão obediente.

― Não precisa se desculpar ― disse Edward. ― Apenas deixem-nos a sós, sim?

― Sim, senhor... ― Após uma mesura, a preceptora e a criada se foram.

― Bem, vou deixá-los por um instante ― disse o médico, seguindo os passos das criadas. ― Sejam breves, pois mãe e filha precisam de descanso.

― Obrigado, doutor! ― Edward o agradeceu, com os olhos posto em seu filho. ― Venha, Embry... Venha conhecer sua irmã.

Lentamente, como se temesse assustar o bebê, o menino se aproximou. Edward o puxou para mais perto e afastou a manta do rosto parcialmente coberto. Imediatamente Embry franziu o cenho e torceu os lábios em evidente reprovação.

― Ela é toda enrugada, estranha... Parece a borda da Charlotte Russe que Jessica prepara para a sobremesa.

O barão conteve a respiração, mas ao olhar sua esposa e encontrá-la tão estarrecida quanto ele, irrompeu em uma sonora gargalhada. A baronesa o acompanhou no riso, de modo comedido. Edward pôde notar que, como ele, em seu riso Isabella demonstrava não somente divertimento, mas também todo o alívio que sentia.

― Do que estão rindo? ― Embry os encarou. ― Digam que ela não se parece com a Charlotte da Jessica!

― Sim, Embry ― Edward controlou seu bom humor. Por ser admirador do doce russo e por estar vivendo um dos momentos mais felizes de sua vida, determinou: ― Ela se parece tanto que se sua mãe permitir, nós poderemos chamá-la assim.

― De verdade?! ― o menino exultou. ― Nós podemos, mamãe?

Para Isabella cada vez mais se tornava difícil domar o cansaço, porém não tanto que a impedisse de apreciar a cena ímpar, especial como dissera Marie, que despertava nela infinita alegria. Novamente comovida, Isabella olhou de Edward a Embry e, desejando parecer enigmática, disse:

― Sim, podemos.

― Ouviu isso Nero? ― Embry riu feliz. ― Eu escolhi o nome de minha irmã.

Isabella estava encantada com a reação infantil, mas quem tinha a maior parte de sua atenção era o barão. Ela não se lembrava da vez em que o viu verdadeiramente leve, belo e contente. Para ter tudo que o instante poderia lhe oferecer, chamou-o:

― Edward... ― ao ter os olhos azuis em si, com cuidado estendeu a frágil criança que tinha nos braços. ― Não acha que está na hora de segurar sua filha?

Todo divertimento do barão se foi ao olhar para a menina. Se tudo foi como da outra vez, ele sabia que a criança inspirava cuidados. Parecia tão pequena e quebradiça... Edward não tinha certeza de que aquele seria o certo a fazer, no entanto, apesar do temor, não lhe ocorreu recusar.

― Passe-a para cá ― pediu ao aprumar-se.

Até mesmo Embry prendeu a respiração e somente a liberou quando seus pais trocavam a menina de colo, com sucesso. Edward nada percebeu, enlevado, com um pedaço vivo de si e de Isabella aconchegado em seus braços. Aquela criança era a recompensa máxima por tudo que passaram até que pudessem estar juntos, completos; em paz.

― Embry... Bella... Permitam-me apresentá-los a Renée Charlotte Masen Bradley. Que ela cresça e tenha uma vida feliz! Assim como nós, depois que nos encontramos.

Notas finais
Ahhh... Muito obrigada a cada uma de vcs que esteve comigo nessa aventura. Para todos os efeitos essa é minha última fic, mas somente Deus sabe se assim será. Se não nos vermos por aqui, espero vê-las (os) na minha nova vida de autora. Os originais continuam com o msm teor que conhecem, apenas mudam os nomes. Enfim, espero que a gente ainda se encontre, seja onde for.... Ahhh... Já estou com saudades! Me deixem saber o que acharam do final!!!!... Bjus e até breve.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.