Borboleta Negra
48 Capítulo Dezesseis - Parte II
Notas iniciais
Diante do espelho da penteadeira Isabella tentava apagar as marcas de seu abatimento, cobrindo as olheiras com pó de arroz. Seus cabelos já estavam presos na grossa trança enrolada no alto da cabeça; seu corpo limpo, a pele amaciada com óleo de jasmim, pronto para receber a veste da noite. A primeira das últimas; finalmente.
Apegando-se a esse pensamento, a moça tratou de espantar a tristeza pela partida, cada vez mais forte. Não sentiria pelo oficio, por certo que não, mas naquela tarde, ao voltar do banco e dar a notícia a todas, sentiu um aperto no peito que a sufocou ao ver a comoção de suas meninas. Naquele momento não lhe importou que entre elas estivesse uma traidora, apenas descobriu que gostava de cada uma delas – mais do que poderia imaginar –, e que lhes sentiria a falta.
Sendo realista, reconheceria que com elas se divertiu. Principalmente após comprar o bordel e não mais ser preciso se deitar com homem algum. Flanando pelos salões, deixando para elas a função de entreter os homens, por vezes riu genuinamente de alguma anedota mais picante, de casos engraçados ocorridos em determinada fazenda ou na cidade. Riu com elas das pequenas graças diárias, normais em uma casa onde havia tantas mulheres. Sim, sentir-lhes-ia a falta.
E havia Angela.
– Deseja me matar do coração, é isso? – questionara já em seu quarto, depois de deixar as moças chorosas no salão. – Não iria para uma de suas casas? Por que inventar de ir para Londres?
– Para ficar com Embry – a moça respondera, lutando com as lágrimas alimentadas pela comoção que causou. – Preciso dele mais do que ele de mim.
– Entendo que queira ficar com ele agora que sairá do bordel, mas... Poderia trazê-lo para morar aqui.
– Não posso tirá-lo do colégio. Então minha mudança será a melhor solução. – replicara. – E há outra razão. Bem sabe...
– Sim, eu sei. – Angela bufou. – Porém, se morar nos arredores, talvez os caminhos de ambos nunca se cruzem.
– Não quero correr o risco. Agora ele sabe Angela – revelou. – Ele sabe o que faço e, ao devolver a carta fechada, reafirmou o quanto me despreza. Eu não suportaria ter seu olhar de repudio sobre mim... Eu morreria.
– Não, não morreria, pois é forte menina – a mulher negou; derrotada. – Porém entendo que não queira passar por essa situação. Acostumei-me com a ideia de que não a teria comigo todos os dias... Acostumar-me-ei em não tê-la na cidade.
– Obrigada! – a moça a abraçou, agradecida. – Sua ajuda e compreensão serão indispensáveis. Quero que você administre o bordel enquanto decido o que fazer, com maior participação nos lucros, evidentemente.
– Amber... – a meretriz piscou, emocionada. – Vai mesmo confiar em mim? Eu quase coloquei tudo a perder quando era a dona.
– E eu tenho certeza que aprendeu o que não se deve fazer – disse a lhe sorrir, encorajando-a; para que sua ideia desse certo ela precisaria provar que poderia mantê-lo a dar lucro. – Se saiu muito bem quando... Quando estive ausente. Confio em você.
– Obrigada! Farei o possível para que não se arrependa – prometeu muito séria.
– E irá levará os livros para a conferência lá em minha casa. – Isabella determinou.
– Em Londres?! – Os olhos da senhora se arregalaram. – Poderei ver como está nosso menino?
– Não somente ver, mas passar o final de semana com ele.
– Oh, minha querida! – Angela exclamou puxando-a para um novo abraço; sorrindo, chorando. – Sinto tanto que tenha que ser assim, mas já que não tem outro jeito, confesso que começo a gostar dessa mudança.
Exatamente como Isabella se sentia. Uma vez que não havia outro final para sua história, aquele era o melhor que poderia desejar; e se agradava dele. Diferentemente de Sam. Este se mostrou inconformado com a novidade.
– Irá me deixar senhora?
– Será preciso Sam. Não tenho como levá-lo para Londres. Quem olharia pelas meninas? Por Angela?
– A senhora Krane pode contratar outro – rebateu o criado, sentido. – Eu não saberia o que fazer sem protegê-la.
Ela também sentia por deixá-lo, porém o que poderia fazer?
– Sam, eu...
– Por Deus! – com o pedido o criado a surpreendeu, caindo de joelhos tomando-lhe a mão para recostá-la na própria testa. – Eu morreria caso algo de ruim acontecesse à senhora onde eu não estivesse para defendê-la. Protegê-la é minha missão.
Sim, ela sabia da missão a qual o moreno tomou para si – transferindo para ela o trauma de não ter livrado a esposa de ser assassinada, acusada de bruxaria. Sempre se comoveu com seu empenho, mas não imaginou que ele fosse desejar protegê-la até o fim de seus dias. Sem se mover, deixando que ele segurasse sua mão fortemente e, tomando o devido cuidado com as palavras, falou:
– Não acontecerá o mesmo comigo Sam... Já cumpriu sua missão, protegendo-me até aqui.
– Não sabe disso senhora – retrucou. – Num dia tudo está perfeito e no outro, um animal entra em sua casa e tira o que tem de mais precioso, apenas por ser diferente. As pessoas de um modo geral são ruins, mas não a senhora. Como minha esposa também não o era. E eu não estava lá para livrá-la de ser atacada, da mesma forma que aqui, não pude evitar que Sir Laurent a espancasse, mas depois que a socorri, com vida, soube que precisava protegê-la de todos. Estive perdido por tantos meses até encontrar o Jardim, até me afeiçoar à senhora e ter novamente um sentido em minha vida, então não me deixe. Trabalharei em troca de teto e comida.
– Por Deus rogo eu Sam! O tempo da escravidão não mais existe – ela finalmente retirou a mão, agradecida de que estivessem diante do Jardim, não na cidade. Com voz um tanto mais firme, pediu. – Levante-se e escute – tão logo foi atendida, prometeu. – Vou fazer uma coisa de cada vez... Comprar a casa, acertar os detalhes de minha mudança. Se até lá, você ainda quiser ir comigo, verei como poderemos fazer. Está bem assim?
– Por certo senhora! – exclamou o moreno, tomando-lhe as mãos para beijá-las, sem nunca sorrir, como sempre. – Obrigado!
Então era isso, Isabella pensou, deixando o pompom do pós de arroz para pegar o potinho de carmim, em breve deixaria o jardim, levando muitas lembranças e possivelmente um criado ao lado. Alguém que por ter perdido aquela que amava repassou também para “sua senhora”, todo seu afeto e devoção e, ao que tudo indicava jamais a deixaria.
Aquele primeiro dos últimos dias, fora intenso e cansativo. Tudo o que a jovem cafetina desejava era finalmente poder dormir. Até lá, resignou-se pegando um pouco da pasta rubra para espalhar sobre os lábios, finalizaria sua arrumação para circular nos salões, durante a costumeira hora e então se refugiar em seu quarto, rogando que sua presença não se fizesse necessária. O show ainda tinha que continuar.
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Horas haviam se passado desde que lera a carta que trazia em seu bolso, contudo o barão sentia como se o tempo tivesse sido abreviado, deixando uma lacuna de pensamentos e decisões que não justificavam ele estar parado ali, diante de uma grande porta entalhada, a ouvir os sons que vinham de dentro; música baixa e risadas contidas. Sabia onde se encontrava. Segundo Jacob o local era aquele. A consciência trouxe a lembrança do momento exato no qual se rendeu à raiva que o impulsionou a encilhar Draco e correr a distância de Apple White até o final da estrada velha em Wisbury até chegar ao “jardim”.
Sim, era a raiva o movia; tanta que o sufocava. O barão se lembrou também dos primeiros brandys que ingeriu depois de dispensar a governanta, e de ter ido até a cozinha para confrontar a cozinheira. Uma vez ela esteve disposta a delatar a neta, então que falasse o que sabia, contudo, ao encarar os olhos escuros incrustados no rosto enrugado e frio; desistira. Aquela mulher azeda, que alardeava uma morte não ocorrida, somente o envenenaria mais. Foi então que irrompeu porta afora, vestiu o chapéu e a capa da lida diária e ali estava.
Em seu íntimo Edward queria crer que não encontraria Isabella além daquela porta. Que as acusações de Laurent, sim, fossem falsas, pois quem declarasse amor tão forte e antigo não afastaria o ser amado, nem o preteriria a outros homens. A verdade estava a poucos passos e havia apenas uma maneira de sabê-la. Erguendo os ombros, o barão bateu contra a madeira. Não se passou mais do que meio minuto até que a porta se abrisse e ele fosse convidado a entrar por uma moça vestida em um traje completo e discreto, destoando do que esperava encontrar. Por instantes pensou estar no lugar errado até que ela dissesse:
– Bem vindo ao Jardim das Borboletas.
Ele não errara.
– Não me lembro de tê-lo visto por aqui antes – ela comentou, escrutinando-lhe o rosto.
– Não costumo frenquentar esse tipo de lugar – retrucou seco, tirando o chapéu e a capa. Ao notar o arregalar de olhos da moça diante de si, indagou: – Acaso me conhece?
– Aqui não reconhecemos ninguém, não há nomes nem títulos. – Dito isso, recuperada de seu assombro, estendeu-lhe a mão. – Deixe aqui seus pertences e siga naquela direção.
Como recomendado, o barão deixou sua capa, o chapéu e partiu na direção indicada, para um curto corredor, de onde a música e as risadas vinham mais nítidas. Ao final do percurso se deparou com um grande salão onde teve a confirmação definitiva de onde estava. Em frente a ele havia uma larga escadaria. Havia ao todo dez mesas margeando as paredes, assim como alguns sofás. Homens, não muitos, de variadas idades e tipos físicos espalhavam-se acomodados. Dois dançavam.
Quem providenciava a música era uma jovem vestida precariamente num pedaço de pano amarelo. Tinha seu rosto coberto por uma grande máscara em forma de borboleta que lhe ocultava praticamente toda a face. Seus cabelos pretos por um instante levaram o coração do nobre a saltar no peito, porém o engano logo foi desfeito; não era “ela”.
E aquela não era a única moça a se vestir daquela maneira. Todas que circulavam pelo salão ou davam atenção a algum cavalheiro tinha o rosto coberto da mesma forma, variando somente a cor do disfarce; dali vinha o nome daquele lugar. Era de fato um jardim repleto de borboletas, todas cobertas com os mesmos panos reveladores, cada qual com a cor correspondente a sua máscara. Uma delas exibia um seio sem pudor ao senhor que a mantinha no colo. Para Edward pareceu impossível que Isabella pudesse estar ali. E imaginar que estivesse, alimentava sua fúria.
– Deseja companhia essa noite, cavalheiro?
Edward ouviu a pergunta no exato momento em que a dona da voz lhe tocava o peito. Era uma “borboleta” azul com cabelos loiros e lábios vermelhos. Seu corpo era convidativo, mas estava ali por outra pessoa. Recordando-se do que fora fazer, falou:
– Desejo companhia... – quando a moça sorriu, acrescentou: – Mas não a sua. Quero estar com a proprietária.
– O que quer é impossível cavalheiro – a moça informou. – Amber não recebe a ninguém. Não sem prévio acerto. – acrescentou rapidamente.
– Diga quem sou e ela me receberá! – bradou altivo. Impaciente por estar naquele antro, acometido pelo ressentimento.
– Não devemos importuná-la cavalheiro. Amber é quem dita às regras e dificilmente as quebra. Fique comigo, serei boa o bastante.
– Já falei que quero estar com a dona deste “jardim” – falou mais alto.
A música cessou e as risadas se calaram, contudo não se importou. O brandy ingerido potencializava seus sentimentos; desinibia-o. Batendo repetidamente sobre o bolso de seu casaco, falou:
– Tenho dinheiro. Ela que estipule o preço... Eu pago!
– Que balburdia é essa na minha casa?
Assim como Edward, todos se voltaram na direção da voz vinda do alto da escada.
E lá estava ela. Não havia engano. Mesmo com seu rosto coberto como todas as outras e com os cabelos presos rigidamente numa trança enrolada no alto da cabeça que ocultava sua forma e comprimento, o barão a reconheceu. Para agravar o inadequado ciúme, ela também se vestia de forma sumária com o mesmo tecido leve que deixava a curva de sua cintura à mostra, mal se sustentando sobre os seios, suspenso por uma tira fina coberta de pequenas pedras brilhantes.
Decididamente era a borboleta mais bela daquele jardim, mesmo sendo a mais tétrica. Em toda sua vida, o barão nunca vira uma borboleta negra.
– É esse cavalheiro Amber que insiste em vê-la.
A explicação de Jessica fora desnecessária, ela havia ouvido. A situação não era inédita, tanto que raramente Isabella deixava seu quarto para intervir de forma mais incisiva, como fizera. Fora até a escada ao reconhecer a voz improvável, e mesmo que tenha confirmado ser Edward a promover o escândalo, indo contra tudo àquilo que desejou para ele, agiu por reflexo.
Não houve arrependimento, afinal tinha que ser forte, contudo, notar a incredulidade dos olhos azuis, maximizados naquele rosto ferido, abalou-a mais do que todas as vezes que imaginou aquela cena. Ainda assim, mortificada, não poderia se abater. Foi com os ombros eretos que o ouviu corrigir pausadamente.
– Vê-la não... – lidando com o choque em encontrá-la, o barão acrescentou: – Quero ser atendido pela dona do Jardim. Ou a borboleta estaria cansada?
Citar palavras usadas nos momentos especiais que compartilharam foi de uma crueldade aniquiladora. Caso restasse alguma dúvida, naquele instante Isabella soube que não haveria meio de reparar seus erros. O barão não perdoaria a rameira que o desprezou e humilhou, então, o melhor a fazer seria encerrar aquela ligação em definitivo, de uma forma esperada por todos que assistiam a cena, para que ao menos jamais fizessem qualquer ligação entre eles:
– Desculpe-me cavalheiro, mas me reservo o direito de atender quem quero, quando quero. Possuo uma lista exclusiva e até onde me recordo, não está nela.
– Não creio que vagabundas tenham quaisquer direitos – retorquiu altivo, causando um burburinho no salão.
– Está me confundindo cavalheiro – disse, desejando soar impassível. – Pode não ser digno, mas este é meu trabalho. Logo, não sou vagabunda. A palavra que procura é meretriz.
– Que seja! – Edward exclamou indiferente. – Tenha o nome que tiver, deve saber com quem fala, não? Sendo assim acho que deveria rever sua posição.
Nesse instante Sam chegou ao salão apressadamente, porém estacou a dois passos do barão e encarou sua senhora, indeciso sobre como agir; seus olhos estavam alarmados e silenciosamente escusos. Com um mínimo manear de cabeça, Isabella sinalizou para que nada fizesse. Para o barão retrucou com firmeza.
– Não preciso rever coisa alguma. E tanto o conheço que lhe asseguro, “aqui não é vosso lugar”.
– Realmente não é – admitiu secamente –, mas é onde estou e não voltarei sem ter o que quero. Pago bem por seus serviços. Não é disso que se trata?
Isabella enfrentou o desafiador olhar do barão corajosamente. Fora precoce descartar aquela visita. Por certo que cedo ou tarde Edward desejasse conferir a informação de Laurent por si mesmo. Deveria ter se preparado para evitar um confronto público para não agravá-lo, como fazia. Mesmo de onde estava podia ver que Edward havia bebido além da conta. Apesar do bendito recolhimento invernal que mantinha muitos cavalheiros em suas casas, aquela cena lamentável correria de boca em boca e mancharia a imagem que tanto quis preservar.
Enfim, resignou-se. Como o mal estava feito – por ambos – e não poderia salvar o barão da exposição, decidiu recebê-lo, porém não poderia levá-lo imediatamente; o barão teria que esperar. Ainda no intuito de não ligá-los, anunciou para que todos pudessem ouvir.
– Pensarei a respeito por alguns minutos. Aguarde, por favor.
Sem mais palavras ela se retirou. Edward a acompanhou com o olhar até que sumisse no alto de escada. O tecido negro de suas vestes não era transparente, contudo sua leveza e fluidez deixavam muito pouco para a imaginação, principalmente por indicar a falta de qualquer peça íntima. Com olhos inflamados, o barão olhou em volta. Para sua surpresa, “ele” era o centro das atenções, não ela. Não deveria se espantar visto que era o nobre da região. Fazer escândalos em uma casa de meretrício não constava como suas atribuições reais.
Pois que todos os hipócritas fossem ao inferno! Ele ao menos era solteiro, diferentemente dos conhecidos que via ali. Ignorando-os, sem cumprimentá-los, Edward se voltou para a moça que o atendeu e pediu uma dose da bebida mais forte.
Movendo-se com desenvoltura ela se foi. Não confiando mais na estabilidade de suas pernas, o barão se sentou à mesa mais próxima e esperou. A moça voltou em seguida trazendo uma pequena bandeja, nesta um cálice mínimo com o líquido verde; absinto o nobre reconheceu a bebida proibida. Vinha acompanhado com o torrão de açúcar para que fosse queimado antes de ser entornado na bebida para incendiá-la, reduzindo o teor alcoólico. O barão dispensou o cerimonial, bebendo mesmo como estava.
– Traga outro – ordenou roucamente, a ardência poderosa privando-o de ar.
Sem questioná-lo a moça se foi. Quando voltou com o novo cálice trazia também um recado.
– Amber irá recebê-lo cavalheiro.
Edward não reconheceu o sentimento que o acometeu; ansiedade talvez. Decidido, concentrou-se para se manter firme e levantou. Tomando o novo cálice com mão instável, bebeu a dose de absinto a um só gole. A bebida queimou a garganta já injuriada, inflamou seu peito, aqueceu suas veias, mas não foi capaz de dissipar a raiva. Metendo a mão no bolso de seu casaco, caçou algumas moedas, porém, a moça o deteve.
– Amber mandou avisar que, se consumisse algo, seria cortesia da casa.
– Muito atenciosa sua patroa – ironizou. – Onde a encontro?
– Irei levá-lo. Acompanhe-me.
Sem esperar qualquer comentário, ela depositou a bandeja sobre a mesa e saiu à frente do barão. Edward a seguia sentindo os olhares em si. Ignorou a todos e marchou escada acima percebendo como esta parecia ter vida; movia-se de um lado ao outro. A mágica do absinto somado ao brandy, ele escarneceu da própria embriaguez ao atingir o alto da escada.
– Aqui cavalheiro. – A moça anunciou abrindo uma porta sem bater.
Tão logo Edward entrou a cicerone fechou a porta atrás de si. O quarto para onde fora conduzido era pequeno, luxuosa e extravagantemente decorado onde predominava o vermelho e o dourado. Até mesmo o tecido que pendia no dossel da cama de madeira entalhada era da mesma cor. Quarto de prostituta.
Sentindo o estômago agitado, o barão passeou o olhar nas costas daquela que se mantinha diante da janela fechada, seguindo as duas tiras de pedrinhas brilhantes que desciam em V até a borda baixa do traje indecente, confirmando a nudez sob o tecido fino e brilhante. Naquele momento Edward sentiu como se fogo do inferno o consumisse, destruindo seu juízo e coração. Teve vontade de ir até ela e espancá-la por preferir aquela vida. Por se expor daquela maneira e, acima de tudo, por se deitar com homens selecionados.
Sequer se moveu.
– Por que está aqui Lord Masen? – Isabella perguntou a meia voz.
– Precisava confirmar pessoalmente as palavras de Hunt – o nobre se ouviu dizer; o estômago a dar voltas ao imaginá-los naquele quarto – Um cliente seu, suponho.
Isabella manteve a cabeça erguida, olhos posto na cortina a sua frente, o coração reduzido ao dizer o que não poderia negar.
– Antigo cliente, não mais... Há quase quatro anos – acrescentou, sabendo ser inútil esclarecer.
Uma parte do barão quis acreditar que o tempo fizesse alguma diferença, contudo a parte ressentida refutou qualquer argumento; odiando saber que aquele homem abjeto um dia a tocou.
– Agora que confirmou – ela disse sem olhá-lo – acredito que possa ir embora. Posso providenciar que saia pelos fundos, assim os cavalheiros não o...
– Pouco me importa os cavalheiros que estão em seu salão – Edward a cortou. – Nada devo a nenhum deles. Não vim apenas confirmar as palavras de seu “ex-cliente”, e, sim, também tentar entendê-la, pois somente assim poderei me vir livre de você.
Isabella apertou os olhos com força. Depois do que passaram até chegarem àquele ponto não deveria doer tanto confirmar o que já sabia. Merecido, pensou erguendo os ombros corajosamente antes de se voltar.
– Pois então olhe! – demandou, ostentando a máscara de borboleta. – Olhe bem para que não restem dúvidas do que sou e então vá embora.
– Ir embora? – indagou com escárnio, ressentido com a facilidade com que era dispensado; e ela o amava desde pequena? Impossível! – Já que estou aqui quero saber o que tem a oferecer. É assim que trata seus clientes atuais? Mandando-os embora?
– Não é meu cliente milord – ela retrucou. – Já disse que não está...
– Na maldita lista! – Edward bradou, assustando-a. Enraivecido com ela, consigo; com tão miserável sentimento que sufocava seu orgulho e o mantinha naquele quarto. – Eu ouvi da primeira vez, e ainda assim você resolveu me receber, então exijo ser tratado como os demais.
– Sendo assim – Isabella anuiu calmamente –, vossa senhoria tem razão.
Estava partida ao meio por ver o barão em seu bordel, com o rosto muito vermelho, nariz e lábios cortados; ébrio. Ferido internamente por ela; disposto a igualmente ferir. Se tratá-la como aquilo que de fato era daria ao nobre algum alento, que assim fosse. Com passos lentos Isabella foi até Edward, recriminando-se por seu coração bater acelerado; por ter tentado reconquistá-lo naquela manhã quando tudo já estava irreversivelmente perdido, por ver o mal que lhe fazia. Por desejá-lo tanto.
– Desfaça o laço – instruiu ao chegar diante dele e lhe dar as costas; resoluta.
Edward prendeu a respiração ao tê-la a sua frente, vestida com aquele pedaço de coisa alguma e desceu os olhos nublados pelas costas lisas até encontrar o laço ao qual ela se referia. Imediatamente soube que não era aquilo que queria. Não deveria querer.
Foi até o bordel para questioná-la, não fazer uma cena ou comprar seus serviços, no entanto, naquele instante, não se furtou de correr dois dedos pela pele macia e perfumada até o final da coluna, onde estava o laço do mesmo tecido do vestido, contentando-se ao vê-la se eriçar. Com dedos trêmulos puxou uma das tiras de seda preta e, uma vez desfeita a amarração, o peso das muitas pedrinhas fez o tecido leve tombar por inteiro, deixando a jovem meretriz complemente nua.
A satisfação daninha por saber que ela não lhe era indiferente se esvaiu, assim como todas as outras coisas. Com um engasgo, o nobre a trouxe para si mesmo de costas e abraçou-a apertado; uma das mãos já sobre um seio.
– Maldita! – rosnou procurando a curva da nuca para beijar. – Não consegue imaginar o quanto sinto a sua falta mulher!
Caso fosse comparável à sua, Isabella poderia mais do que imaginar; poderia sentir o quanto lhe doía. Todo o seu corpo reclamava a falta dele, porém não importava. O barão não estava naquele quarto à procura de declarações; era um cliente a procura da meretriz e era ela que iria encontrar. Resignada o corrigiu:
– O nome é Amber e se está assim necessitado, fornique o quanto quiser.
A frieza dela o fez recuar. Não chegou até ali sabendo o que faria ou diria, excedeu-se, sim, mas, ao abraçá-la, acreditou que fosse como antes. Horrível engano fora o seu, Edward pensou novamente enraivecido. E uma vez que estava com a rameira, segurou-a sem cuidados pelos ombros e a fez girar. Com mão decidida tentou tirar-lhe a máscara. Ela o deteve.
– A máscara fica. Disse que deseja ser tratado como todos.
– Que seja! – ciciou o barão, segurando-lhe o queixo para beijá-la. E novamente Isabella o deteve virando o rosto prontamente.
– Beijos estão fora de cogitação – ela anunciou ainda com o rosto virado. Quando voltou a olhá-lo, prosseguiu: – Não se vem ao Jardim em busca de romance e, sim, de alívio para as necessidades masculinas. Tem uma hora para estar em mim quantas vezes desejar, mas minha boca não será tocada nem o tocará em parte alguma.
Novamente as palavras cruas o chocaram. E não pararam.
– Como prefere começar? De pé? Sentado? Deitado? – indagou eficiente. – Apenas devo informá-lo que não poderá ir até o fim, pois não estou preparada. Não esperava atender alguém.
Então a visão com ela “preparada”, em qualquer posição, para receber outro homem estalou no rosto do barão como uma bofetada, incitando-o a devolver a humilhação, denegrindo-a de todas as maneiras imundas com as quais estava acostumada. Quando falou sua voz não passava de um rouco sibilar.
– Deite-se.
Isabella fez como ordenado. Descalçando os sapatos, deixou-os sob o monte de tecido e seguiu até a cama; inabalável apesar da nudez, mostrando a ele a razão da naturalidade com que sempre se exibiu. Ao se deitar, Isabella se posicionou no centro da cama. Notou que Edward a seguiu de perto, viu-o retirar o casaco, a gravata, abrir o colarinho e então não mais se mover.
– Estou pronta senhor. Caso tenha pressa faça como muitos que nem ao menos tiravam os sapatos.
E lá estava a frieza visceral, chocando-o ao ponto de enfim desarmá-lo. Imaginar um homem qualquer fornicando com Isabella, completamente vestido a usar botas enlameadas fez com que se enojasse de si mesmo. Não importava o que ela havia feito ou dito. Assegurou-lhe ser diferente e ali estava; fazendo tudo exatamente igual aos outros.
Subitamente aquele quarto vermelho sufocou o barão, mitigando a raiva e o desejo desvirtuado que sentia. Aquilo tudo era demais para ele, então, abaixando-se, pegou seu casaco e a gravata. Sem nada dizer foi até o amontoado de seda preta e também o pegou. Este jogou para que ela o pegasse.
– Cubra-se Isabella – recusava-se a chamá-la por qualquer outro nome; e ela que não se atrevesse a corrigi-lo. Ao ser atendido, dirigiu-se à porta e, antes de sair, sem olhá-la, disse apenas. – Lamento!
Fechar a porta atrás de si não encerrou seu sufocamento, precisava sair daquele lugar. Em passos largos seguiu pelo corredor, porém a fuga o levou até próximo à escada, onde estacou. Trêmulo pelos resquícios de ira e luxúria, confuso pelas últimas descobertas e pelo álcool, tentou refazer o laço de sua gravata para apresentar-se minimamente decente, sem sucesso algum. Os dedos pareciam travados, o tecido escorregadio.
Com um bufar exasperado, Edward desistiu da tarefa, deixando a gravata apenas passada pelo colarinho ainda aberto e vestiu o casaco. Tinha que ir embora, entretanto não conseguia dar um passo adiante. A voz de Jacob a fazer coro com a sua própria, reforçando uma verdade que ele sozinho se recusava aceitar. Precisava pensar.
Aquela não era uma mulher qualquer, e, sim Cora, a menina que morou na sua casa; que brincou com Rosalie. Algo terrível havia acontecido para que estivesse naquele bordel. Provavelmente pelo fato de ter sido abandonada pela única pessoa da família. Sue Wood era o tipo de pessoa que renegaria o próprio sangue por valores tidos morais. E ali estava o erro. Apesar do pouco tempo que estiveram juntos, Edward conhecia aquela mulher, precisava tão somente entendê-la. Se acaso fosse embora, jamais aconteceria.
Com esse entendimento, o barão fez o caminho de volta, preparando-se para confrontá-la até que lhe dissesse tudo o que desejava saber, sem mais mentiras, sem humilhações desnecessárias, sem máscaras. Diante a porta tentou ordenar os pensamentos e então a abriu. Para sua surpresa o cômodo estava vazio. Entrou movido pela incredulidade, afinal se ausentou por míseros minutos. Olhando em volta, soube que não ter errado de quarto ao ver a coberta remexida onde Isabella havia se arrastado.
Não encontrá-la onde deixou enregelou o coração do barão. Era como se aquele cômodo luxuriante e vazio zombasse de sua oportunidade perdida, e lhe assegurasse que não mais a encontraria; Isabella seria invisível mais uma vez.
– Não! – ciciou a si mesmo, sabendo ser o efeito do álcool a confundi-lo; ela morava ali; não iria a parte alguma. Porém, onde estaria?
Voltando para o corredor, olhou para um lado e outro. Foi então que viu uma mulher, avançada da idade – ainda bonita –, metida num vestido revelador e excessivamente maquiada a encará-lo. Não lhe importava saber quem seria, tinha apenas uma pergunta.
– Onde ela está?
O barão não foi específico, contudo a mulher o entendeu, tanto que, em vez de respondê-lo, questionou-o.
– O que deseja com ela? Destratá-la? Amber não precisa disso. Não agora que vai partir...
– Partir?! Para onde? – Edward indagou dando um passo à frente, pronto para impedi-la de sair seu responder às suas questões; ela não lhe escaparia mais uma vez. – Exijo que me leve até ela!
– Acalme-se. – pediu a mulher estendendo a mão; contendo-o. – Ela não está partindo “agora”... Mas daqui a alguns dias deixará a cidade definitivamente. Hoje ela tentou marcar um encontro para resolver essa confusão entre vocês, porém vossa senhoria não demonstrou qualquer interesse. Ela entendeu que seria melhor assim e resolveu se mudar para Londres. Amber se arrepende das coisas que lhe disse no baile e prefere partir a envergonhá-lo com sua proximidade, então... Agora que ela encontrou seu caminho, não a maltrate. Essa menina não merece.
– Dou-lhe minha palavra de que não é minha intenção destratá-la. – assegurou o barão roucamente; tonto. Seu coração traiçoeiro pulsando acelerado, temeroso com a iminência da partida certa. – Errei ao não receber a carta pela manhã, mas agora estou aqui justamente para esclarecer toda essa... “confusão”.
Aquela não era a melhor palavra para descrever o que acontecia entre eles, mas deveria valer.
– Sendo assim... Sei que é um homem de palavra. – anuiu a senhora. – Vou levá-lo até ela.
A mulher veio até ele e tomou a frente, indicando que deveria segui-la. Caminharam até o final do corredor, viraram à esquerda até estarem diante da última porta, na qual a senhora bateu levemente.
– Amber?
– Vá embora Angela.
Isabella pareceu cansada ao pedir, apresentando sem saber aquela que o ajudava; Angela, a outra boa amiga, segundo Carlisle.
– Deixe-me sozinha – pediu.
– Será breve. – A moça a ouviu dizer enquanto retirava os brincos e os depositava sobre a penteadeira; suas mãos tremiam violentamente. Sequer cogitava repetir o pedido quando ouviu a porta ser aberta.
– Por Deus Angela, poderia ao menos uma vez...
Sua voz morreu no vazio ao ver entrar a última pessoa que imaginaria enquanto Angela mantinha a porta aberta; não depois de tudo o que disseram, do que aconteceu. Aturdida, Isabella correu os olhos de um a o outro em tempo de ver a amiga dar-lhe uma piscadela e fechar a porta às costas do barão.
O silêncio os envolveu; Isabella paralisada pela expectativa, apenas esperou. Edward por sua vez, analisava-a, ainda a usar a máscara, vestida num penhoar branco, leve o bastante para marcar as formas que jamais fora capaz de esquecer, que minutos antes estiveram expostas aos seus olhos. Agora, com a dor da futura partida a espremer-lhe o peito, a raiva ganhou novo e amargo sabor.
– Tire essa porcaria do rosto – ordenou. – Quero vê-la.
Isabella não se atreveu a retrucar. Não entendia o motivo da volta, nem a súbita mudança, mas algo na voz do barão indicava que não seria sábio desobedecê-lo. Depois de desfazer o laço que prendia a máscara, retirou-a e a atirou sobre o móvel ao lado.
Edward escrutinou o rosto pálido por meio de pó de arroz, os lábios e bochechas rubros de carmim que a transformavam na meretriz. Aquela não poderia ser a mesma moça que acolheu durante a tempestade; a mulher que o assombrava dia e noite, muito menos uma que declarou amá-lo desde menina, jurando jamais trocá-lo. Aquela era a rameira, e não lhe agradava vê-la.
Com a respiração suspensa, sem ainda entender a mudança anterior, Isabella pressentiu ter ocorrido outra. Apesar da precária iluminação de seu quarto, viu os olhos azuis, já escurecidos, simplesmente enegrecerem antes que o barão avançasse em sua direção, segurasse-a fortemente pelo braço e a arrastasse para junto da cômoda. Sem nada dizer, ou soltá-la, ele testou o peso da ânfora. Ao senti-la cheia, despejou um pouco de água em sua bacia.
– O que está fazendo? – indagou confusa, ignorando a dor em seu braço.
Sem respondê-la, Edward depositou a ânfora sobre o móvel e obrigou a moça a se abaixar sobre a bacia de porcelana, passando a lavar-lhe o rosto em seguida.
– Pare! – ela pediu quando o barão baixou a mão para pegar mais um pouco da água fria. – Deixe que eu faça isso.
O nobre não a ouviu, não a atendeu. Agia instintivamente. Não era gentil, molhando-a e esfregando a mão vigorosamente por toda a face para retirar quaisquer resquícios de pó e carmim que pudessem restar; queria ver a mulher que conhecia.
– Pare... – ela novamente pediu, sufocada. A mão poderosa e o excesso de água não a deixavam respirar corretamente.
Não foi atendida. Edward apenas parou ao se dar por satisfeito, quando então, sem se preocupar em secá-la, prostrou-a diante de si e ergueu as mãos, tateando aflito entre a cabeça e a trança até encontrar os grampos que passou a retirou um a um.
– Pare! – ela gritou, tentando detê-lo. – Está me machucando!
Sem uma palavra ele bateu nas mãos que seguravam as suas, voltando a retirar mais grampos.
– Pare Edward! – Isabella demandou ao sentir um puxão mais forte, esquecida da formalidade a qual se obrigava a tratá-lo.
Entendia que ele a odiasse, mas para tanto o barão não tinha o direito, pensou sentida, raivosa ante ao ataque inesperado. Na tentativa de detê-lo, ela socou o peito largo, os ombros. Surpreso com o revide enfurecido, Edward prendeu-lhe os pulsos e os segurou às costas dela.
– Largue-me! – ordenou ela, debatendo-se. – Não tem o direito de me machucar!
– E acaso você tem o direito de me ferir? – indagou o barão, muito perto, num urro acusador. – Eu alertei para que não jogasse comigo. Disse que jamais havia me declarado a alguém e o que fez? O que você fez?
– Eu errei! – Isabella respondeu no mesmo tom. – Errei Edward, e não há um só dia que eu não sofra por isso. Agora me solte! Está me machucando. Deixe-me ir!
A declaração e o pedido, juntamente com a força imprimida para se libertar, enregelaram o barão. Sim, ela errou, mentiu, mas não a deixaria ir embora, não a perderia. Como se ela pudesse escapar de seu aperto férreo, curvou-se sobre o corpo pequeno, prendeu-a com mais força. Os corpos então se encaixaram completamente; olhos sentidos a se acusarem, bocas arfantes quase a se tocarem. Peito contra peito, deixando que cada um sentisse a cadência forte e pulsante do outro coração.
A mudança repentina foi palpável, fazendo ressurgir o desejo urgente entre eles. Perscrutando o rosto limpo e molhado, Edward reconheceu aquela que sempre amaria e, esquecido de qualquer tema que desmerecesse seu sentimento, incapaz de refrear a fome que sentia dela, rogou:
– Por Deus, não negue seu beijo a mim!
– Nunca mais – ela prometeu.
Os olhos se fecharam e as bocas diminuíram a mínima distância entre gemidos e grunhidos. As mãos que antes a prendiam pelos pulsos, apertaram-na mais contra um corpo trêmulo. Livre, Isabella aventurou as mãos pelos cabelos aparados do barão, prendendo-os. O beijo era violento, como a luta que os inflamou, a boca masculina esmagava a da moça sem cuidado, a língua prendia a dela, faminta. O hálito rescindindo a absinto a inebriava, amolecendo-a tanto quanto o explorar de sua boca; das mãos que iniciaram um vagavam afoito por seu corpo.
Com o desejo a doer-lhe abaixo do ventre, Isabella retirou o casaco do barão; puxou a gravata solta. Desabotoou o colete e a camisa. Tirou as duas peças de uma só vez, levando as alças do suspensório na mesma ação, aproveitando-se para apertar os ombros largos, os braços fortes, como se necessitasse acreditar que os tocava. Ao tocá-lo no abdômen considerou-o muito magro, mas não teve tempo de pensar sobre a mudança; importava senti-lo.
Edward gemeu junto à boca macia ao sentir as mãos delicadas a tocá-lo enquanto o despiam. Os violentos tremores ameaçavam não o deixar de pé, então Edward a arrastou até um pequeno sofá ao lado da janela, sentou-se – amarrotando camisa e colete que não haviam se desprendido de sua calça – e a colocou sobre seu colo. Ansiando senti-la contra si, retribuiu o favor ao tentar despi-lo soltando o laço do penhoar para tirá-lo completamente, deixando-a nua.
Ávidas, suas mãos vagaram ao redor dos seios antes de fecharem-se sobre os bicos despertos. E foi por eles que finalmente quebrou o beijo, antes de alcançá-los, porém, mordeu o queixo da moça que gemeu de surpresa, dor, prazer. Descendo um pouco os lábios ao longo do pescoço de jasmim, chupou-o com força, marcando. Marcou também o colo até que finalmente cobrisse um mamilo. Sim, era fome dela que sentia, por isso a provou com sofreguidão. Como se bebesse de um seio enquanto comprimia outro com sua mão indelicada, preparando-o antes que também o provasse.
– Ah, Edward... – lamuriou-se ela, seu centro pulsando; dolorido e ansioso ao sentir a dureza do barão abaixo de si. Comprimindo-se contra ele anunciou: – Eu preciso de você.
Assim como ele, porém uma restrição, vinda com algo que o chocou, o fez exalar num gemido.
– Não de botas...
Isabella demorou uns poucos segundos até entender. Comovida com o cuidado, falou:
– Eu as tirarei...
Edward deixou que escorregasse de seu colo até o chão e com olhos turvos pela lascívia, assistiu a moça nua a retirar suas botas. Talvez devesse esperar que ela retirasse suas meias, contudo, sem razão ou forças para esperar mais, Edward se levantou e a tomou nos braços para levá-la até a cama. Deitou-a e a cobriu com seu peso, deixando que ela abrisse sua calça e a ceroula. Sim, deveria despi-las, porém até mesmo Isabella havia desistido da tarefa, colocando-se abaixo dele, guiando sua hombridade até acomodá-la onde ele queria estar, bastando atender à vontade conjunta, entrando. Preenchendo-a, eliminando a distância.
– Bella... – gemeu o barão num lamento agudo e comprido, junto ao pescoço macio, antes de se mover continuamente.
Deveriam ter cautela, deveriam parar, contudo, os ânimos acirrados pela luta e pelo tempo distante, inflamava-os. De tão forte levou a moça a atingir seu limite máximo, toldando-lhe o pensamento, fazendo estremecer violentamente, agarrar-se às costas do barão. Este, estimulado pela reação poderosa da única mulher que para sempre teria poder de acendê-lo e saciá-lo, rendeu-se a ela.
Um ressonar, alto e ritmado, rompia o silêncio da noite. Era bom, contudo incomum, assim como o calor de um corpo pesado sob as cobertas, que a aquecia por inteiro. A sensação e o som remeteram a mente sonolenta da moça até o tempo vivido ao lado do barão, quando ainda podia considerá-lo seu e... Um novo ressonar trouxe lucidez à mente de Isabella com a velocidade de um raio, interrompendo seu pensamento; assustando-a como um vindo de uma tormenta real.
Naquela noite a presença não era fruto de sua imaginação. Em algum momento Edward havia se despido e estava mesmo ao seu lado, abraçado a ela, prendendo-a junto a si possessivamente, depois de terem feito amor; até o fim. Talvez ela devesse se preocupar, mas não o fez. Aproveitando-se da claridade ainda produzida pela lamparina posta sobre a cômoda que lançava sua luz amarelada e bruxuleante sobre eles, Isabella o analisou em seu sono. Pela primeira vez na noite, notou as olheiras acentuadas. Vistos de perto, os cortes nos lábios e na ponte do nariz pareciam mais profundos. Impressão, ela sabia, pois em tempo algum o ferimento da boca sangrou como meses atrás, em Apple White.
Subitamente pareceu que o tempo sequer passou. Recebia-o de volta como o deixou; ferido, exausto. Então o pensamento a inquietou. O que se deu em seu quarto poderia ser considerado uma volta? Amaram-se, sim, mas... Reconciliação? Por tudo o que lhe dissera na festa de Carlisle, Edward não lera sua carta, perdida de alguma forma. Ele não sabia quem de fato era ela. E estava embriagado, ressentido. Como seria quando acordasse e percebesse haver passado a noite num bordel com quem tanto o feriu?
Isabella não sabia que horas eram, ainda assim decidiu acordá-lo. Melhor seria acabar com aquele suspense de uma vez. Decidida, correu a mão pelo braço que a segurava com o intuito de mover-lhe o ombro, porém ao tocar na cicatriz deixada pelo tiro, ela se deteve. Comovida com a lembrança daquela última noite, quando o deixou febril após tratar a infecção, ela acariciou a marca ainda rósea delicadamente.
Quando finalmente tentou acordá-lo, lutava contra lágrimas de tristeza antecipada; temendo a pronta rejeição. Não sabia o que de fato o barão fora fazer no jardim; se humilhá-la ou apenas entender para que pudesse esquecê-la. Tudo o que sabia era o quanto sua condição o chocou. Teve a certeza na forma quase desesperada com a qual lavou seu rosto e soltou seu cabelo; livrando-a violentamente do seu disfarce. Havia apenas um jeito de saber o que aconteceria.
– Edward... – chamou mansamente, tocando-o no ombro nu; nada.
– Edward – ela o moveu com mais força. – Acorde...
Como resposta obteve um resmungo e seu corpo mais apertado no abraço.
–Edward... Você não quer passar a noite aqui – ela novamente tentou. – Acorde...
Depois de um novo resmungo, o barão lentamente abriu os olhos. Sua respiração era pesada e profunda quando fixou o olhar sonolento sobre o rosto da moça; confuso.
– Bella...? – indagou num fio de voz, franzindo o cenho. – É mesmo você...?
– Sim, sou eu... – ela respondeu, e esboçou um sorriso amigável, em meio às lágrimas; nem havia notado que chorava. – Você precisa...
– De você... – ele completou num exalar, de olhos novamente fechados, correndo a mão que antes apenas a segurava, pela curva da cintura até prender-lhe o quadril e recostá-la ao dele.
Isabella descobriu então que havia despertado o barão em outro sentido, pois junto ao seu ventre uma crescente excitação enrijeceu-o completamente; contagiando-a. Logo, com um gemido preguiçoso, Edward cobriu sua boca para um beijo profundo, novamente urgente apesar de ele parecer não estar totalmente consciente. Agindo naturalmente, numa atração gravitacional. O que restava fazer senão corresponder-lhe, deixando que a prendesse sob seu peso e novamente a invadisse para se mover dentro dela? Nada.
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