Borboleta Negra
86 Capítulo Cinquenta e Quatro - Parte II
Notas iniciais
Ao cruzarem o limiar, os noivos foram aplaudidos e receberam vivas. Edward inclinou a cabeça em mudo agradecimento. Isabella, por sua vez, não foi capaz de esboçar qualquer reação. O número de convidados havia crescido consideravelmente enquanto estiveram na sala de jantar.
As damas ricamente vestidas e ornadas ladeavam seus pares, igualmente bem alinhados em seus ricos trajes. A comemoração poderia ser considerada uma linda festa caso Isabella não estivesse terrificada por reconhecer entre os senhores recém-chegados alguns conhecidos. Enfim, seu maior temor se concretizava na primeira aparição pública.
Quis descer a mantilha sobre o rosto. Não o fez por imediatamente considerar que seria pior deixar apenas sua boca à mostra, como Amber. Expor-se-ia menos se enfrentasse a situação de rosto livre, como Isabella Bradley, a nova baronesa de Westking.
Sim, Isabella enfrentaria a todos de queixo erguido, contudo em seu íntimo se encolhia. Em especial por reconhecer o médico da família que a conhecia desde pequena, William Morrigan e Stuart Grings, conde de Stamford. Um nobre rural que, como Edward, era jovem e não escondia sua predileção pelo campo.
Por sorte, não se lembrava de ter visto o médico no Jardim, contudo, recentemente ela e o conde trocaram algumas poucas palavras, quando ele lhe pediu que o adicionasse à sua lista. Isabella, educada e complacente, prometeu pensar a respeito.
Evidente que jamais o recebeu em seu quarto, assim como a nenhum dos senhores que reconhecia, mas todos a conheciam e sentir os olhares especulativos sobre si enquanto Edward e ela recebiam os novos cumprimentos, desestabilizava-a.
― Westking ― disse Stuart ao se aproximar, fitando a noiva. ― Permita-me salientar a beleza de sua jovem esposa.
― Não dirá nada novo para mim ― Edward retrucou ―, mas sinta-se à vontade.
― Sendo assim ― o jovem conde se curvou em uma exagerada mesura antes de dizer a Edward, encarando a moça. ― Sinto-me honrado por participar de tão bonita festa e celebrar sua união com esta linda dama.
― Estamos igualmente satisfeitos com vossa presença, Stamford. Sinta-se à vontade em nossa casa.
― Claro! Claro! ― disse o conde, ainda a olhar a noiva. Então se aprumou e encarou o barão. ― Apenas lamento a escassez de damas solteiras. Ao que vejo, serei forçado a dividir a atenção da senhorita Cullen com Hunt. Bom que somos amigos. A disputa será amena.
Edward assentiu e trouxe sua noiva para mais perto, incomodado com os olhares que ela recebia, tentando não pensar que os tremores fossem causados por conhecer aqueles senhores; por ela já ter se deitado com qualquer um deles. Apenas podia estar seguro de que o conde, alto e loiro, não fora um cliente, afinal, este tinha retornado para a casa que herdou do pai há dois anos, depois de Isabella ter comprado o Jardim e encerrado suas atividades.
O barão não queria enveredar por aquele caminho, mas não comandava sua mente e coração. Como não podia encerrar a festa, lutou para sufocar o inadequado ciúme e beijou a testa de sua esposa.
― Acalme-se ― disse como que para si mesmo. ― A ideia é aproveitar.
― Está bem... ― sussurrou Isabella, tentando controlar seus tremores.
Tarefa inglória. Não havia a mínima possibilidade de obter êxito quando a curiosidade coletiva estava toda, de modo indisfarçado, voltada para ela. Ainda assim, esforçou-se. Ao som dos músicos, Isabella valsou com seu marido. Este, possessivo, monopolizou a esposa o quanto pôde. Por vezes voltou a invejar Jacob, que raríssimas vezes dançou somente com sua relutante esposa.
A cada nova dança, Isabella percebia a crescente irritação de Tanya Cullen. O conde Stamford desistira de cercá-la e fora se juntar a um dos grupos formados pelos senhores, deixando a moça livre para reclamar o quer que fosse aos ouvidos de Laurent Hunt. Este se mostrava tranquilo. Detalhe que igualmente irritava a filha do banqueiro.
Isabella gostaria de saber a razão de Tanya ora emburrar-se, ora gesticular com forçada discrição. Como não havia meios de saber, a jovem baronesa agradecia o avançar das horas que trazia o fim da festa. Infelizmente os convidados não davam demonstrações de cansaço. A sidra e a champanhe que eram servidas parecia renovar a animação geral.
Na hora habitual as crianças foram levadas para o andar superior. Não sem veementes protestos. Isabella sabia que a inconformidade de Embry estava relacionada ao desejo inocente de auxiliar o pai a protegê-la, e se sentiu um pouco mais tranquila ao ver Amy levá-lo.
Edward sorriu para o menino que se afastava, então tomou sua esposa pela mão e a levou de volta à roda de dança.
― Lembra-se da vez que sonhei com você? ― disse Edward ao iniciar os passos de uma valsa. Isabella assentiu e sem que pudesse evitar, acompanhou-o no sorriso. ― Bem ― ele prosseguiu ―, este seria o desfecho caso não tivesse me acordado.
― Sonhava com nosso casamento? ― a novidade a distraiu positivamente. ― E era assim?
― Deve se lembrar de que a senhora me acordou antes. Estávamos na parte religiosa, diante do bispo. Já que não há meios de perdê-la, confesso que em sua primeira noite eu li a carta de Embry. Desde aquele momento quis que a linda borboleta viesse pousar na minha mão.
― Edward... Então esta era a razão do constante ciúme ― murmurou embargada, nada aborrecida. Seu marido a imitou ao apenas assentir. Isabella sorriu contente. ― E apesar de voar para longe, por fim eu pousei!
― E meu sonho se tornou realidade ― disse, evitando pensar que perto deles, a encará-los sem reservas, estava alguém que poderia transformar tudo em pesadelo. Edward ainda preferia acreditar em suas palavras.
― Também confio que aqui estamos seguros ― disse Isabella, causando estranheza ao marido. Ao olhá-la, percebeu que ela lhe seguira o olhar e mirava Laurent e Tanya que dançavam um pouco distante.
― Sim, vamos esquecê-los ― Edward recomendou, lamentando não poder beijá-la.
Como prova da confiança compartilhada pelo casal, as horas avançavam sem que nada extraordinário acontecesse. Aborrecido ao barão foi ser obrigado a ceder a vez para que a esposa dançasse com os co-cunhados e outros senhores. Até mesmo com Otto Cooper, que chegara com atraso ao baile.
― Não me lembro de tê-lo convidado ― resmungara Elizabeth depois de o inspetor ter cumprimentado o casal. Edward se absteve de comentar, pois não se aborreceu mais do que já estava com todos os outros que ela sequer deveria ter convidado.
Ali, como na casa de Cameron Hope, Cooper e Hunt se mantiveram lado a lado no mesmo grupo de senhores, enquanto Tanya novamente cedia ao assédio de Stuart. Edward gostaria de saber o que conversavam, mas ao ser liberado para que pudesse se aproximar, tanto o fazendeiro quanto o inspetor havia se afastado.
Restou guardar a curiosidade e voltar sua atenção à dança. Logo tirou Esme Cullen para dançar ao ver o banqueiro oferecer a mão à Isabella. O fazia pela etiqueta, e não o irritou ver sua esposa ser conduzida pelo velho amigo. Entre eles, podia adivinhar o teor da conversa mantida com discrição.
― Tranquilize-se, Carlisle ― disse Isabella, sem saber que confirmava a dedução do marido, que dançava ao lado. ― Já entendi que não teve culpa da presença de Laurent.
― Não gosto de vê-lo aqui, em especial com minha filha... Mas lhe disse o quanto ela é geniosa.
Isabella bem sabia. E agora via que o que sobrava em gênio forte à filha, faltava em pulso ao pai. Talvez pela culpa. Ela jamais saberia, pois não havia como se ocupar das questões de seu amigo, apenas rogar pelo melhor para todos.
― Tranquilize-se ― repetiu. Mudado o tema, forçou-se a sorrir e disse: ― Vê? Estamos conversando e não é estranho aos olhos de todos.
― Sim! ― Carlisle animou-se. ― Também pude conversar com Embry. E, contrariando meu temor, Elizabeth não me crivou de perguntas. Parece ocupada com Senior Zimmer.
Isabella agradeceu por ter sido salva de cometer alguma indiscrição ao ser preciso trocar de par. Logo valsava com o duque.
― Assim como eu, o barão teve sorte ― comentou Emmett, admirando-a. ― Conseguiu uma bela esposa.
― Fico feliz ― disse ela, ainda mais agradecida por não ter temas sérios a tratar com o nobre. ― Não pelo elogio, mas por saber que se considera afortunado por ser casado com Rosalie.
― Como não ser? ― Emmett olhou para a esposa então uniu as sobrancelhas. Isabella lhe seguiu o olhar e descobriu a amiga dançando com Stuart, conversando animadamente. ― Veja como é bonita ― disse seriamente. ― E me aceitou. Agora que é da família, e são amigas de longa data, sei que um dia conhecerá nossa história, então irá me entender... Por ora, com vossa licença.
Antes que o dispensasse Emmett a deixou, inclinou-se e partiu decidido para apertar o par, sem cerimônias. Ela poderia se ofender por ter sido abandonada em meio à dança, contudo sorriu; divertida com a intempestividade. Seu riso morreu ao ser atraída por um novo par.
― Enfim tenho a chance de dançar com tão adorável noiva ― disse Laurent, sustentando o olhar alarmado de Isabella.
― Laurent, por favor... ― ela rogou, olhando em volta. Logo avistou seu marido, aproximando-se tão decidido quanto o duque há pouquíssimo instante. ― Deixe-nos em paz.
― Deixarei quando também tiver paz.
― Com sua licença, Hunt ― disse Edward com toda tolerância possível para não atirá-lo longe pela ousadia. ― É a minha vez.
― Sempre é a sua vez, barão ― replicou Laurent, afastando-se para se curvar em uma exagerada reverência ao casal. ― Agradecido pela dança, milady.
― Tenho ganas de matá-lo! ― ciciou o barão ao segurar a mão e a cintura de sua noiva.
― Acalme-se ― pediu Isabella. ― Como bem disse, ele veio para provocar-nos... Vamos ignorá-lo.
― O que ele lhe disse? ― indagou roucamente, sem ouvi-la, ainda abalado por ver seu desafeto tocando-a com tranquila intimidade.
Isabella não gostaria de acirrar um ânimo já exaltado, porém omitir seria pior. Com isso narrou a breve conversa.
― Pois nada me daria maior prazer do que dar ao cavalheiro a paz eterna! ― Edward sibilou.
― Não vê? ― Isabella esboçou um sorriso, recuperando-se do susto. Precisava acalmá-lo, pois não queria que seu marido se tornasse um assassino por sua causa. ― É assim que ele nos quer... Desestruturados. Vamos ignorá-lo. Não há nada pior.
― Tem razão... ― Edward se deixou aquecer pelo sorriso apaziguador. ― Ladrar é o que resta ao cão.
Isabella assentiu e sorriu mais.
― Já disse o quanto está bonito? Ou o quanto estou feliz com nosso casamento?
― Não me recordo ― ele gracejou, sentindo o desejo de que a festa chegasse ao fim, renovado. ― Todavia, poderá refrescar minha memória em breve.
― Terei um imenso prazer! ― respondeu no mesmo tom.
Presos em sua bolha, esqueceram-se de todos em volta, muito conscientes um do outro. Ansiando um beijo, Edward se inclinou sobre ela, contudo a valsa chegou ao fim e o alarido ao redor levou-os a se afastar, desconcertados. Riam com cumplicidade entre si, quando Elizabeth se aproximou para avisar que alguns convidados desejavam se despedir.
Graças aos céus! Isabella festejou intimamente, deixando-se levar por seu marido até a porta da Sala Rosa. Ao receber as felicitações finais e despedir-se de Isaac Peterson e esposa, ela considerou a possibilidade de que, de fato, nada temerário aconteceria e se permitiu verdadeiramente relaxar.
― Está acabando ― murmurou para Edward.
― Sim, está ― ele lhe sorriu, sabendo que compartilhavam o mesmo sentimento. ― Eu lhe disse que...
― Ah! ― A surpresa e arrastada exclamação interrompeu o barão que de imediato se voltou para encarar quem se manifestou. No lado oposto do salão livre de dançarinos e de música, sustentando-lhe o olhar com desafio, Laurent se repreendeu em alto tom para novamente ser ouvido além das conversas paralelas: ― Que parvo sou! Como pude não reconhecer a noiva!
Isabella se enrijeceu ao lado do barão, este duramente empertigado. Sem deixar de reparar no sorriso maldoso que iluminava o rosto de Tanya, ela ouviu Edward replicar no mesmo tom, imprimindo advertência à sua voz:
― Não creio que tenha tido qualquer ligação com minha esposa para que agora possa reconhecê-la. Fará melhor se voltar a aproveitar minha receptividade e não cometer um equívoco do qual venha a se arrepender.
A esta altura, todas as atenções estavam voltadas aos dois homens que se encaravam.
― Ah, mas não cometerei um equívoco, barão ― disse Laurent sem se intimidar, tendo Tanya a exultar ao seu lado. Carlisle se aproximou apressadamente e falou algo ao fazendeiro, porém foi ignorado. ― E para sua informação ― acrescentou ―, não apenas conheci a noiva como fomos íntimos.
― Como se atreve! ― bradou Edward, rubro, trêmulo, assustando aos presentes e até mesmo aos músicos, que encerraram os acordes da música que iniciavam. ― Cale-se!
― Gostaria de atendê-lo, mas não posso ― Laurent se mostrava animado. ― Preciso parabenizar a nova baronesa, afinal... Não é todo dia que uma meretriz se casa com um nobre, não é mesmo querida Amber?
― Cretino! ― Edward avançou um passo ao que foi contido por Isabella; o choque, antes de abatê-la, deu-lhe inesperada força.
Enfim, acontecia como sempre previu. Vê-la ao lado de Edward, de rosto limpo, desfilando por um salão, seria mais do que Laurent toleraria. Evidente que cuidaria para que a cena não se repetisse.
― Vamos ignorá-lo ― ela pediu. ― O cavalheiro claramente está bêbado. Ele não sabe o que diz.
― Não sei? ― Laurent desdenhou. ― Muitos dos senhores podem confirmar o que digo. ― Olhando em volta, ele pediu ajuda. ― Vamos! Desmintam-me! Digam que aquela mulher não é Amber, a dono do Jardim das Borboletas que tanto conhecem.
Em meio às exclamações de damas aviltadas e das evasivas de senhores constrangidos, a voz do conde vizinho foi ouvida:
― Não sou comprometido, então posso falar sem receio... Com o devido respeito ao barão, sim, a semelhança existe... Eu mesmo tinha reparado.
― O que pretendem? ― Edward chispou o olhar enfurecido para Stuart por acreditar que fizesse parte da trama; não tinha declarado serem amigos? ― Como ousam afrontar-me dessa maneira?
― Acalme-se ― pediu Emmett que, assim como Jasper e Jacob, veio se colocar ao lado do barão. ― Hunt realmente está embriagado. Nota-se.
― Não há afronta ― corrigiu-o Laurent, inabalável. ― O senhor tem minha admiração por tão corajosa atitude. Caso não esteja sendo iludido, casar-se com a meretriz mais cobiçada foi...
― Vou matá-lo! ― Edward ciciou antes de desprender-se da mão de Isabella em seu braço e avançar.
As senhoras se agitaram e gritaram enquanto se afastavam mais para os cantos do salão. Perdida, esperando pelo pior, Isabella olhou em volta. Seus olhos encontraram os da baronesa, maximizados em sua direção. Naquele instante a moça lamentou a falta de tempo que não lhe permitiu preparar a senhora para aquele momento.
Para Rosalie e Alice, Isabella não ousou olhar. Aflita, tentou igualmente seguir o barão para segurá-lo, contudo alguém a deteve. Rosalie.
― Deixe que com cavalheiros resolvam este disparate ― ela sugeriu. ― Nada podemos fazer.
― Mas... ― Isabella tentou soltar-se, sem sucesso.
― Deixe-os ― a amiga disse firmemente. ― Laurent chegou a um ponto sem retorno. Resta-nos rezar.
Rezar? Em seu pavor, esquecera-se de todas as rezas. Com a mente nublada, Isabella viu quando os cunhados de Edward o contiveram há poucos metros de Laurent.
― Soltem-me! ― ele ordenou aos captores, fuzilando seu desafeto com o olhar.
― Não deveria se voltar contra sir Laurent ― disse Tanya, depois de se livrar no pai e se aproximar ―, sim expulsar a rameira. O que fez este cavalheiro foi salvá-lo.
― Cale-se, minha filha ― Carlisle interveio antes que Edward a destratasse. ― Este não é assunto para uma dama!
― Deixe-me papai! ― Aflita, ela se voltou para o barão. ― Deveria também me agradecer por insistir para que sir Laurent encerrasse a farsa da víbora enquanto é tempo. Aproveite que o padre ainda está aqui, as muitas testemunhas, e anule esse casamento. Não seja motivo de piada, de vergonha. Por favor, senhor. Eu...
― Afaste sua filha de minhas vistas, Cullen ― Edward sibilou, sem olhar para o banqueiro. ― Ou não responderei por mim. Não tome partido se não quiser, mas não deixe pior do que está.
Carlisle, suado e rubro, segurou a Tanya pelo braço com maior firmeza e, mesmo sob protestos, arrastou-a para longe.
― Agora minha conversa é com este cavalheiro ― disse o barão, com simulada paciência, tentando ignorar as muitas mãos em seus ombros e braços. ― Hunt, retire o que disse! Desfaça o mal-entendido, implore meu perdão e o de minha esposa, ou não viverá para ver a luz de outro dia.
― Barão, eu não posso fazer o que sugere ― insistiu Laurent, impassível. ― Como dizer que não vejo Amber diante de meus olhos quando ela está bem ali, linda, e ainda mais desejável?
― Por certo, agora vou matá-lo!
― Pare com isso, homem! ― ordenou Stuart ao se aproximar do fazendeiro para sabiamente afastá-lo do barão. ― Não sabe o que diz!
― Como não, Stamford? ― Laurent riu escarninho. ― Você mesmo confirmou minhas palavras.
― Não ― ele negou veementemente, tão agitado quanto os demais senhores.
― Sim ― Edward o desdisse. ― Se está de acordo com esse estafermo, por que agora o adverte?
― Advirto-o para evitar uma tragédia ― explicou Stuart. ― Nada confirmei e não estou de acordo com quem quer que seja. Apenas disse que existe a semelhança, não que se tratava da mesma pessoa. Pois não é. Mesmo sem as palavras de sir Carlisle, eu tenho a mais absoluta certeza.
― Como pode ter tanta? ― atreveu-se a indagar uma das senhoras, mirando a nova baronesa com evidente desagrado. ― Nunca antes ouvimos falar desta jovem. Já Tanya Cullen todos nós bem conhecemos e a preocupação dela parece ser legítima. Nosso estimado barão pode estar sendo vítima de um golpe.
Animadas pela iniciativa, todas as senhoras passaram a falar ao mesmo tempo. Não dirigiam ofensas explícitas à noiva, mas abertamente especulavam sua origem e suposta ocupação.
― Não me obriguem a ser grosseiro ― Edward falou acima da balburdia. Movido por uma raiva visceral, bruscamente se libertou, contudo não investiu contra Laurent, apenas olhou em volta. ― Lembrem-se de que estão na minha casa, diante de minha esposa. O que disserem a ela valerá para mim. Não admitirei que a destratem tendo por base as calúnias deste estafermo. Se não conhecem a nova baronesa, recordo a todos que a inimizade entre mim e Hunt é pública. Não é novo que queira me desmoralizar.
Ouviu-se então o assentimento geral, os novos comentários voltados contra Laurent e sua atitude.
― Nada disso é necessário ― Stuart igualmente alteou a voz, olhando em torno como o barão. ― Errei ao confirmar a semelhança, mas como eu disse... Não se trata da mesma pessoa.
― E como pode ter certeza? ― outra senhora insistiu. ― Explique para que possamos entender essa cena lastimável.
O conde de Stamford empertigou-se. Após respirar profundamente, falou:
― Com o devido perdão de seu marido, já que a senhora resolveu se ocupar da vida alheia, eu sugiro que pergunte a ele, pois ontem mesmo estivemos juntos no referido Jardim e fomos muito bem recebidos por Amber.
Isabella conteve a respiração, assim como seu marido, alguns metros à sua frente.
― Isso é impossível! ― Laurent refutou no momento exato em que a convidada bisbilhoteira se voltava contra o marido. ― Amber está bem aqui, aos olhos de todos!
Domando sua raiva o quanto podia, incrédulo quanto ao que ouvia, Edward deixou que Stuart prosseguisse.
― Não, caro amigo ― disse Stuart, com pesar. ― Desnecessariamente agrava sua situação junto ao barão. Agora, peço perdão às damas, pois serei franco. Sempre quis estar com a citada meretriz e ontem, qual não foi minha surpresa ao receber em minha casa o recado de que ela me receberia à noite. Estive com ela até esta manhã. Com isso, senhoras e senhores, fiquem cientes de que a nova baronesa é digna de nosso mais sincero e profundo respeito. Assemelhar-se a Amber é uma infeliz coincidência que nunca deveria ter sido comentada.
― Mentira! ― Laurent descontrolou-se e se voltou contra o amigo. ― O que pretende ganhar? A gratidão eterna do tão estimado barão?
― Não é mentira ― disse o senhor apontado pelo conde, ignorando os protestos da esposa. ― Realmente vi Amber no Jardim. De fato, andou sumida... ― depois de fortuitamente encarar o barão, acrescentou: ― Acredito que a confusão se deva ao fato de o desaparecimento coincidir com a ida de sir Edward ao bordel. Quando surgiram rumores do casamento eu mesmo acreditei no que diziam em Wisbury, mas ontem a teoria de que o barão desposaria Amber caiu por terra.
― Como disse Stamford ― falou outro senhor. ― Esta jovem não é Amber.
― De fato não é ― reiterou Peterson, sem se importar com a carranca da esposa. ― Desisti de ir embora para ver até onde chegaria a desfaçatez de Laurent Hunt. Não acreditem em uma palavra do que diz. Insistir nesse assunto será uma ignomínia.
― Ignomínia de fato ― disse Carlisle antes de se dirigir a Laurent. ― Não vê que é loucura insistir nesse assunto? Está claro que se confunde... Eu realmente não queria tomar partido, mas sou forçado a dizer a verdade. Assim como conhecem minha filha, igualmente me conhecem e lhes asseguro que desde que a noiva deixou esta casa, passou os últimos anos em Wiltshire. ― Sem se abalar pelo engasgo da esposa e os protestos da filha, ele procurou por apoio entre as senhoras antes ressabiadas. ― Devem se lembrar que em meu aniversário eu apresentei esta jovem como sendo uma de minhas correntistas.
― E o nome não era Simon? ― desafiou Tanya. ― O que pretende, papai?
― Evitar uma injustiça. E, como lorde Stuart, também uma tragédia ― Carlisle retorquiu. ― Sim, foi minha ideia apresentá-la com outro nome, pois a moça não queria ser reconhecida. Ela não queria que a vergonha de um filho ilegítimo recaísse sobre barão. Mas ele a reconheceu... ― apelou para o romantismo feminino. ― Reconciliaram-se e hoje vemos o resultado de tamanho amor.
A nova baronesa mirava o amigo, comovida, agradecendo intimamente por sua intercessão, contudo o fazendeiro não desistiria facilmente.
― Agora vai tentar iludir a todos com conto de fadas?! ― Laurent então reparou os suspiros admirados e enlevados que encheram o salão. ― Acreditam no que dizem? Estão loucos! ― Laurent bradou com o dedo em histe para Isabella. ― Aquela mulher é Amber e nunca viveu em outro lugar que não em Wisbury, no Jardim. Eu a conheço como a palma de minha mão, pois era minha. Eu esquentava seus lençóis antes que Westking fosse roubá-la!
― Basta! ― Edward ordenou em tom baixo e letal. Não sabia como Isabella fora vista no Jardim, o banqueiro conseguira seu respeito por finalmente expor-se, mas nada disso importava. Sabotar a sidreria, aproximar-se de Embry e até ordenar que o mandassem matar foram atitudes menores se comparadas à vil delação. Para Edward, Laurent ultrapassara todos os limites toleráveis por um homem de brio ao apontar sua esposa e afirmar que mantinham um caso amoroso. ― Escolha as armas.
― Não! ― gritou Elizabeth. Isabella sufocou e precisou ser amparada por Rosalie.
― O que disse? ― indagou Laurent, confuso.
― Eu disse... Escolha as armas ― Edward repetiu de bom grado, antecipando o prazer que teria ao calar o patife, definitivamente. ― E diga também a hora e o local para encerrarmos nossas diferenças de uma vez por todas.
― Está louco?! ― indagou Jasper. ― Duelos são proibidos por lei. Cada um de seus convidados são testemunhas de que o desafiou. Até mesmo o inspetor está aqui.
Edward olhou em volta até avistar Otto Cooper e encontrá-lo a assistir a cena, impassível. Sem deixar de encará-lo, disse ao cunhado:
― Todos, sem exceção, são testemunhas da vergonha a qual minha esposa foi submetida. Sua reputação foi ameaçada, sua índole questionada e minha honra maculada quando este biltre alegou ter estado com ela intimamente. Se não remover esta nódoa com sangue, para sempre ficarei desmoralizado.
― Aqui, sou um mero convidado e é como um homem comum que digo, fecharei meus olhos ao que se der aqui ― assegurou o inspetor.
― E eu concordo com Westking ― disse Emmett. ― A honra de um homem somente é restabelecida com chumbo ou aço. Ofereço-me como seu padrinho.
― Eu também ― Jacob deu um passo à frente, sem deixar de encarar o fazendeiro.
― Ainda na qualidade de homem comum, ofereço-me para ser um dos padrinhos do desafiado ― Otto se ofereceu, levando Edward a novamente encará-lo. Enfim assumia o lado que defendia.
― Pois saiba que será uma honra enfrentá-lo ― replicou Laurent, altivamente, depois de assentir na direção do inspetor. ― Escolho as espadas... Nada me dará maior prazer do que ver a vida deixar seus olhos quando minha lâmina varar seu peito.
― Para mim está perfeito ― Edward redarguiu. ― E não lamentarei por privá-lo de seu prazer, pois serei eu a matá-lo.
― Senhores ― Otto interveio ―, apenas saliento de que este deve ser um duelo civilizado, onde a morte não será admitida. A questão poderá ser resolvida ao primeiro sinal de sangue. Concordam?
― Veremos como tudo se dará ― Edward ciciou sem olhar para o inspetor. Sua atenção era exclusiva para Laurent. ― Vamos! Diga local e hora.
― Sei que tem pressa, barão, mas quero dar a um de nós a oportunidade de ver a luz de outro dia... incólume ― acrescentou depois de olhar brevemente para o inspetor. ― Com isso, vemo-nos às oito horas, em minha propriedade... Já estará claro e não haverá senhoras para nos interromper com seus achaques.
Sem mais palavras, sem reverências, Laurent Hunt deu meia volta e deixou a Sala Rosa. Otto o seguiu depois de uma breve e nervosa despedida. O silêncio envolveu a todos por um instante antes que começassem a falar ao mesmo tempo, tirando Isabella do torpor que a paralisou. Livrando-se das mãos de Rosalie, ela segurou as saias do vestido e correu até seu marido. Sem se importar em ser indelicada, abriu caminho por entre os senhores que o cercavam e o abraçou fortemente.
― Edward, por favor, não faça isso! ― implorou. ― Não valho tanto!
Aborrecido, abalado pela expectativa que já em corria suas veias, Edward a tomou pelo braço e a levou para longe do grupo. Ignorando os muitos olhares sobre eles, sabendo que não poderia ser ouvido, segurou o rosto de sua esposa e ralhou:
― Nunca mais repita isso! Antes, talvez pudesse pensar assim... Se não bastasse o amor que lhe tenho, hoje carrega meu nome. O passado não mais existe. Você é uma dama, Ash, e merece ter a honra defendida, seja como for.
― Morrerei se o perder ― ela retrucou, aflita. ― Laurent é ardiloso e conseguiu o que queria. Sei que não será um duelo civilizado.
― Sim, será ― mentiu para tranquilizá-la. ― E o estafermo não foi bem-sucedido... Não sei como nem porque Stamford disse o que disse, mas sua palavra encerrou com os planos de Hunt. Aliás, estas levaram de vez a sombra que pairava sobre nós. Está claro que comentaram, mas sempre haverá quem a defenda.
― Não adianta, Edward... Não tenho cabeça para pensar em nossas sombras. Atraí-lo para um embate sempre foi o real objetivo ao vir aqui. Por favor, Edward... Não vá até a casa dele.
― Lamento não poder atendê-la ― negou com ternura, acariciando-lhe o rosto.
― Edward ― a baronesa-mãe os interrompeu. A Isabella não surpreendeu ser ignorada. ― Não precisa fazer isso. Laurent Hunt já foi desmoralizado. Quando escolheu essa moça, sabia das consequências, então seja superior.
Antes que Edward retrucasse, Rosalie e Alice vieram cercá-lo, igualmente pedindo que desistisse.
― Sei o que estou fazendo ― disse à mãe e às irmãs.
― Se insistir nessa maluquice, vai morrer ou se tornar um assassino ― agastou-se Elizabeth. ― Sei que se baterão até a morte. É o que quer?
― Um homem que defende o bom nome da esposa não é um assassino ― Edward retrucou, aborrecido. ― Encerremos este assunto. Preciso levar Isabella para o quarto antes de preparar-me.
― Edward... ― Rosalie tentou argumentar.
― Venha, querida ― Emmett a interrompeu ―, deixe que seu irmão faça o que tem de fazer.
― Obrigado, McCarty, Whitlock... ― Edward disse aos cunhados, fechando os ouvidos para os resmungos femininos. ― Descansem que amanhã, às sete horas sairemos.
Ambos assentiram. Emmett tomou Rosalie pela mão e a afastou. Alice nada disse. Resignada, depois de lançar um longo olhar para Isabella, foi se juntar ao marido que depois de tomar-lhe o braço, retirou-a do salão.
― Lady Westking ― chamou Senior. ― Se me permite, posso ajudá-la com as despedidas e depois serei imensamente agradecido se permitir que venha pela manhã. Quero estar perto até que tudo acabe.
― Seria preferível que tirasse essa ideia estapafúrdia da cabeça de meu filho ― retrucou a senhora, sentida. ― Entretanto, entendo como as mentes masculinas funcionam e sei que nada fará para demovê-lo.
― Senhora... Se preferir que eu vá e não volte, eu...
― Não, senhor Zimmer ― Elizabeth se agitou. ― Fique. Volte quando desejar... Sinto que precisarei de um bom amigo ao meu lado.
Sem dirigir um olhar ao casal, ela se afastou, sendo seguida pelo fazendeiro, deixando-os a sós.
― Venha ― Edward tomou Isabella pela mão e a levou para o meio do salão. Restava expor-se até o fim. Ao se posicionar, segurou a mão de Isabella em seu braço e disse em bom tom. ― Gostaria de ter um minuto de sua atenção, por favor.
Como todos os olhos estavam sobre si, bastou esperar que cada um de seus convidados se calasse. Entre eles Edward não viu os Cullen, e agradeceu a ausência. Caso voltasse a ver Tanya, seria capaz de esquecer seu cavalheirismo e a estrangular até que a língua viperina saltasse boca afora.
― Peço desculpas pelas cenas lamentáveis ― fazendo ouvidos moucos à contemporização geral, prosseguiu: ― Esperava-se apenas alegria para este dia, mas infelizmente algumas situações fogem ao nosso controle... Bem viram como minha esposa foi apontada de modo ultrajante e sua honra posta à prova. Diante disso, nada posso fazer além de defendê-la. Então, apesar de nossa ligação nada convencional até esta data, rogo para que sejam sensatos e não condenem minha esposa por se parecer com outra moça, esta de vida airada.
O burburinho correu entre os convidados. Ainda sem dar atenção a quem se dirigia diretamente a ele, Edward prosseguiu:
― Sim, tivemos um filho ilegítimo, o destino nos manteve afastados, mas durante esse tempo minha esposa se manteve com o fruto de um serviço honesto em um dos bancos de sir Cullen, ele mesmo disse isso a todos. Então ela não merece menos do que seu respeito. Conto com a colaboração dos senhores, amigos e vizinhos que viram como tudo se deu, para que esta infeliz história não se torne maior do que é, nem ultrapasse os limites de nossa vila. Por ora, em nosso nome ― Edward olhou para Isabella, fortuitamente ―, agradeço a presença de todos e rogo para que tenham um retorno tranquilo aos seus lares. Boa noite!
Edward acenou de modo geral e, ainda de braços dados com Isabella, deixou o salão. Enfim, o baile chegou ao fim.
Fale com o autor