Borboleta Negra
82 Capítulo Cinquenta - Parte II
Notas iniciais
Naquele final de inverno era raro haver neve nos campos e na lama dos aceiros podiam ser vistos os brotos das primeiras flores silvestres. Em alguns dias a monotonia do cinza e marrom cederia lugar à vivacidade dos muitos tons de verde. Tal certeza deveria animar alguém que amava aquela parte da Inglaterra, contudo, Edward sequer reparava tais detalhes. Nem mesmo olhou para o rio ao cruzarem a ponte.
Taciturno, seguia ao lado dos cunhados rumo ao último lugar no qual desejaria estar por um longo período de tempo, mas não tinha como – nem razão – para se recusar a atender às vontades do duque e do conde. Com isso deixava que Draco ladeasse o baio de Jacob, logo atrás do frísio de Jasper e do baio que emprestou a Emmett; rumo a Wisbury.
Por sua vontade, teria entrado em Apple White ao passar pelos portões, quando voltavam de sua breve visita a Westking, porém Emmett teve a infeliz ideia de seguirem em frente uma vez que nada teriam a fazer na mansão. Jasper animou-se, não deixando alternativas ao barão além de segui-los.
– Poderia melhorar sua expressão, senhor – Jacob sugeriu em um murmúrio.
– Não fazia parte dos meus planos estar com Cullen antes do necessário – resmungou, mirando suas mãos enluvadas, apoiadas no pito da sela.
– Adeque-se, pois seus podem estranhar.
Edward assentiu. Friamente pensando, se deixasse suas cismas de lado, sabia que tinha mais com o que se preocupar. Evidente que esperava ser respeitado, mas reconhecia que o silêncio de Laurent Hunt era no mínimo perturbador. E havia a súbita cumplicidade entre sua mãe e sua noiva. Não deveria considerar que fosse algo ruim, tampouco conseguia crer que fosse bom.
– Westking, confesse! – disse Emmett sem se voltar. – Considera-nos aborrecidos.
– Em absoluto! – Edward negou veementemente. – Por que pensa assim?
– Está calado há bons minutos – respondeu o duque. – Talvez preferisse estar em casa, reservando forças para amanhã... Para a noite!
Decidido a melhor seu humor, afinal nada ganharia se ficasse a remoer dúvidas sobre o que desconhecia, replicou:
– Não necessito de tais cuidados, McCarty. Amanhã à noite terei força suficiente para contentar a nova baronesa.
Ao ouvir-se Edward sentiu como se as palavras ganhassem novo sentido e por um instante se surpreendeu: Isabella seria sua baronesa de fato, irrevogavelmente. Por que mesmo esteve cismando?
– Forte como um touro, não? – indagou Jasper. – Se os tempos fossem outros eu sugeriria que nos divertíssemos em alguma casa mais animada, como uma despedida de sua solteirice, mas hoje não me animo a efetivamente ficar com uma mulher que não seja minha esposa. Apenas as admiro, pois não sou cego.
À menção a uma casa mais animada Edward empertigou-se e trocou olhares sugestivos com Jacob.
– Eu soube que aqui em Wisbury há uma casa nesses moldes, muito bem frequentada pelos senhores da região – comentou Emmett, para infortúnio do barão. – Dizem que a dona é tão linda quanto misteriosa. Parece que atende somente aos senhores cujos nomes constam em uma seleta lista... Seria interessante conhecê-la, mas hoje os tempos são outros. Padeço do mesmo mal, Whitlock... Não me inspira ter outras mulheres. Sejam meretrizes, amantes avulsas ou fixas.
Edward apertava o pito de sua sela, quando Emmett se voltou e o olhou sobre o ombro.
– Mas o que diz o solteiro em questão? Iria a tal casa? O conde e eu poderíamos apenas beber e apreciar a vista enquanto se divertisse com uma das moças... Talvez com a própria dona, caso a conseguíssemos como um presente de casamento. Poderíamos oferecer uma soma que a tal borboleta negra não tivesse como recusar.
– Agradeço o oferecimento – disse Edward com toda a passividade que conseguiu juntar –, mas, mesmo ainda solteiro, considero-me casado. Até mesmo tenho um filho, esqueceu-se?
– De fato – Emmett anuiu em meio a um suspiro. – Os tempos são outros.
– Já que abordamos esse tema – disse Edward disposto a mudar de assunto –, sobre amantes... Que fim levou Ketlyn Shepway?
Foi a vez de Emmett se empertigar sobre a sela. A resposta demorou a vir, levando Edward a crer que tivesse ido longe demais, tocando em um assunto notório, porém delicado, apenas para desviar a atenção do Jardim.
– Até onde sei – disse o duque –, e não por vontade ou gosto, Ketlyn se casou com o velho Marquês de Gassen e ostenta o novo título nos salões franceses. Há anos não a vejo.
– Eu a vi certa vez – comentou Jasper, sem se importar com o tom aborrecido do concunhado. – Meses antes de voltar para a Inglaterra. Ainda é uma bela mulher.
– Não havia razão de deixar de ser – retrucou Emmett. – Ketlyn ainda é jovem e duvido que quando velha deixe de ser bela. Bom para o marquês. De minha parte, importa-me Rosalie.
Decididamente Edward se arrependeu pela inversão desastrada de assunto. Agradecia por não ter reconhecido nenhuma nota de pesar ou ressentimento em Emmett. Queria crer que estivesse o cunhado sendo sincero quanto à devoção por sua esposa, mas, ainda que ele mesmo amasse a irmã, sabia que a graça de Rosalie jamais superaria a beleza da ex-amante do duque.
– Muito me alegra ouvir isso – disse. – Bem sabe o quanto esse casamento me consternou na época. Cheguei a considerar que usasse minha irmã apenas para calar da sociedade.
– Bem sei – Emmett aquiesceu –, mas espero que essa impressão tenha sido esquecida.
– Por certo que foi... Não teria como ser mantida quando vejo a família que formou com Rosalie. Ou o quanto ela se mostra satisfeita por viver em McCarty Castle.
– Sim, ela está satisfeita... Mas se acaso quisesse voltar, eu faria como nosso conde e arranjaria uma mudança. Seguiria meu coração e seríamos vizinhos, Westking!
– Não vale roubar meu galanteio se a esposa em questão não puder ouvir – protestou o conde, simulando aborrecimento.
Edward sorriu agradecido pela retomada do humor. Talvez Jasper tivesse razão e Rosalie precisasse ouvir declarações como aquela para acreditar no amor do marido. Ela nunca saberia, então agradeceu ao menos ser ele a ouvir. Ainda se lembrava de sua ida até o castelo do duque para resgatar a irmã recém-casada.
Na ocasião, de fato acreditava que Rosalie estivesse sendo usada, pois sempre soube do envolvimento inadequado entre o duque e a viúva. Contudo, mesmo ciente do falatório, sua irmã assegurou ter se casado por amor e que era correspondida. Um sentimento nascido à primeira vista, tão forte que se casaram às pressas.
Como ele bem pensou Rosalie não superaria Ketlyn em beleza e na ocasião nem mesmo atendia aos padrões estéticos enaltecidos nos salões, mas não viu real motivo que o fizesse duvidar. E ainda, como também comentou, ver a família que construíram provava tais palavras.
– Seria interessante tê-lo como vizinho – disse sorrindo. – Embry adoraria ter os primos por perto.
– Pensaria desse modo até que Krun começasse a danificar suas maçãs – observou o conde.
– Bem lembrado! – Edward riu mais. – E como está seu falcão, McCarty?
– Espero que bem – disse Emmett. – Se não fosse tão temperamental eu o teria trazido. E só para lembrá-los, eu não poderia garantir a integridade de pombos, galinhas e pintos, mas asseguro que as maçãs não seriam danificadas.
– Então quem não apreciaria a vinda de um falcão-peregrino para Apple White seria a senhora Wallace – disse Jacob.
– Viva! – Emmett exclamou e novamente se voltou para olhar os homens seguiam às suas costas. – O padrinho sabe falar!
– Até demais – Edward garantiu, divertindo-se com o súbito desconcerto do amigo. – Na maioria das vezes o mistério é como calá-lo.
– Falo apenas o necessário, senhor – retrucou Jacob, altivo.
– E eu creio que hoje falei demais – disse Jasper. – Ainda não me desculpei por comentar a escolha de seu padrinho, Westking.
– Não se desculpe, Whitlock... A baronesa seria informada de toda forma.
– Eu sabia que Lady Westking não aprovaria – disse Jacob, incomodado. – Senhor, ainda há tempo de...
– De fazer a baronesa ver que não há do que reclamar – interrompeu-o. Sabia bem o que faria para sossegar o espírito da mãe. Caso não conseguisse, paciência. Ao menos contentaria a si mesmo. – Vejam! – Edward desnecessariamente indicou as construções à frente. – Wisbury. E uma vez que não iremos à esbórnia, que tal seguirmos diretamente ao banco?
– Ao banco – anuíram o duque e o conde. Jacob se manteve calado, como na maior parte do passeio.
Sem mais palavras, Edward tomou a dianteira e, sem reduzir a velocidade, incitou os três outros cavalheiros a aumentarem a marcha. Vez ou outra o conhecido barão era cumprimentado com vivacidade, como de costume. O que lhe causou estranheza durante o percurso até o banco foi receber olhares mais demorados dos senhores que encontrou.
Um dos fazendeiros até mesmo lhe sorriu de modo sugestivo e avaliativo ao que ele respondeu com um toque na aba de seu chapéu, impassível.
– Você é bem-quisto, Westking – comentou Emmett ao apear diante do banco.
– Como nós, em nossas terras – salientou Jasper enquanto prendia as rédeas de Sand Storm. – Podemos prosseguir com o passeio?
– Sim... – Emmett anuiu. – Quero reencontrar Cullen, um senhor que considero muito agradável.
Edward também o considerava agradável, apesar dos gestos cênicos, antes. Atualmente preferia manter a distância que garantiria a preservação das boas relações. Valendo-se do comentário do conde para bater-se de responder, o barão novamente tomou a iniciativa de entrar no banco. Depois de cumprimentar quem estava no salão, seguiu diretamente até a mesa do secretário do banqueiro.
– Boa-tarde... Diga a sir Cullen que desejo vê-lo.
Sem questionamentos, o rapaz se apressou para obedecê-lo. Ao deixar a sala este era seguido por um patrão lívido, branco como papel. Depois de correr os olhos maximizados pelo barão e seus companheiros, a cor voltou com força, tingindo as faces de um vermelho muito forte. De súbito animado, Carlisle Cullen se adiantou para cumprimentá-los.
– Quanta honra receber tão ilustres figuras! – Disse com sua costumeira afetação. – Venham! Quincy, não me procure enquanto estiver com os cavalheiros.
A reação dos senhores da cidade não causou maior estranheza em Edward do que a expressão do banqueiro. Por um instante Carlisle o encarou como se lhe devesse uma vultosa quantia e estivesse em vias de ser cobrado. Não era o caso, considerou o barão, este nada lhe devia. Ao contrário, prestou-lhe um favor ao promover o encontro entre sua noiva, a cafetina e um leão-de-chácara. Infelizmente não poderia lhe agradecer naquele momento.
– Sente-se – pediu Carlisle enquanto tentava organizar os papéis em sua mesa. – Se soubesse que viriam teria me preparado para melhor recebê-los.
– Tampouco sabíamos que viríamos, Cullen – disse Edward ao se acomodar. – Estamos ocupando nosso tempo.
– As senhoras tomaram a casa – Emmett moveu as mãos em um gesto grandiloquente. – Todos os espaços estão sendo preparados para o grande acontecimento então não resta um canto para nós.
– Pois fizeram muito bem em vir – disse Carlisle. Depois de juntar todos os papéis em uma pilha e organizar sua mesa, indicou um dos móveis da sala. – Poucos sabem, mas naquele armário guardo o melhor uísque e o melhor charuto que trago de Londres. Deixem-me servir aos senhores.
– Isto está melhor do que eu imaginei – disse Emmett enquanto cheirava ruidosamente o charuto que escolheu.
– Obrigado! – Jasper agradeceu à guisa de recusa quando Carlisle lhe apresentou a caixa de charutos. – Mas aceitarei o uísque.
– O mesmo para mim – disse Edward antes que Carlisle fosse até ele.
– Assim sendo, guardarei o meu para depois do jantar – Emmett levou seu charuto ao bolso do casaco.
– Jacob... – Carlisle lhe ofereceu os charutos após um instante de incerteza.
– Estou bem, senhor – negou com um gesto e voltou a segurar as abas de seu chapéu. – Tampouco se ocupe de oferecer-me a bebida.
Carlisle assentiu e voltou ao móvel para servir o uísque e distribuí-lo entre os senhores. Ao receber seu copo, Edward novamente notou o olhar aflito do banqueiro. Antes que o questionasse, este se voltou os nobres e pediu:
– Se me derem licença, preciso de dois minutos a sós com o barão.
– Fique à vontade – liberou-o o duque.
– Agradecido, Vossa Graça!
Após uma mesura, Carlisle encarou Edward e lhe indicou a porta. Curioso, o barão igualmente escusou-se e o seguiu. Ao fechar a porta, o banqueiro sinalizou para que seu secretário se mantivesse sentado, indicando que não precisaria de sua prestativa ajuda, e se aproximou de Edward para sussurrar:
– Sua vinda foi providencial, Westking.
– Por quê? – indagou Edward após levar as mãos aos bolsos.
– Bem... Isabella teve ter-lhe colocado a par do que se passa...
– Não pude conversar com minha noiva – retrucou, aborrecido com a intimidade. – Não tivemos tempo, tampouco oportunidade.
– Então reforço minhas palavras... Foi providencial que viesse. – Edward sinalizou para que prosseguisse. – É sobre sua visita ao Jardim... Alguns senhores têm comentado.
– Que comentem! – Edward deu de ombros. – Sou solteiro. Que mal há em ir a uma casa de má fama?
– Nenhum, sir, caso também não comentassem o sumiço de Amber – Carlisle acrescentou.
Edward conteve a respiração. Pelo comportamento dos senhores de Wisbury citado por Jacob, ele soube que sua ida ao Jardim era comentada, porém não tinha levado aquele detalhe em consideração. Quando Carlisle concluiu seu aviso, o barão já imagina que fosse daquele modo.
– E somado aos acontecimentos há seu casamento...
– Ninguém tem como saber que é ela a minha noiva – replicou num ciciar, ao que recebeu um olhar pesaroso. A quem queria enganar? – Certo! – exasperou-se. – Certo! Todos os malditos que a conhecem confirmarão as suspeitas quando a virem.
– Aquela máscara sempre foi um fraco disfarce – Carlisle deu voz ao pensamento do amigo. – Nunca comentei, pois Isabella tinha paz ao crer que sim.
– Ideal seria nunca tê-la condenado a viver naquele lugar! – Edward sibilou entre dentes, aproximando-se ameaçadoramente. Contudo se conteve ao recordar onde estava. Ao se afastar, arrumou seu casaco e bufou com forçada resignação. – Enfim, não vamos entrar no mérito dessa questão. O mal já foi feito e agora é lidar com o que vier.
– Bem... – Carlisle igualmente arrumou seu casaco. – Tenho provas de que ela era minha funcionária. Por isso apreciei que viesse. Queria lhe avisar para que sustentasse essa versão, caso algum inconveniente a aponte... amanhã.
– Amanhã?! – Edward o encarou com estranheza. – Impossível! Amanhã é meu casamento. Ninguém se atreveria a apontá-la em minha casa. E no mais, apenas poucos convidados comparecerão.
– Neste caso, considero sábio se manter vigilante – disse Carlisle.
– Bem sabemos que sua sabedoria é questionável, então... Obrigado pelo aviso. Quando se fizer necessário, sustentarei esta versão dos fatos.
– É só o que lhe peço, sir... Não quero que nada de mal aconteça a Isabella e... – Carlisle se calou, quando Edward riu mansamente e o encarou de modo beligerante.
– Acredita que sua preocupação vai além da minha, Cullen? – indagou o barão, desafiador.
– Em absoluto! – Carlisle moveu as mãos no ar e sorriu conciliador. – Eu apenas queria...
– Sei bem o que apenas queria – Edward mais uma vez o interrompeu –, mas não tenho como provar o que ferrenhamente nega. Portanto, tomarei seu “conselho” e me espelharei em sua determinação ao defendê-la. Se isto era tudo, podemos entrar? Creio que excedemos os dois minutos que educadamente nos concederam para esse à parte.
Carlisle desculpou-se e assentiu antes de indicar a porta para que voltassem à sua sala. Ao entrar, surpreendentemente encontraram Emmett e Jasper em uma animada conversa com Jacob. Quando os olhares caíram sobre si, o barão soube ser ele o foco e maneou a cabeça, tentando imaginar quais revelações vexatórias o duque fornecia ao criado para que este abandonasse a conhecida reserva.
– Com que então meu senhor era divertido no tempo de faculdade? – disse Jacob, sustentando o olhar do patrão.
– Um dos mais animados, eu arriscaria dizer – salientou o duque. – E contaria mais de suas peripécias se não estivesse sendo atacado por olhares dardejantes. O que há? – Emmett indagou, olhando de Edward a Carlisle, livre do bom humor. – Algum problema?
– De forma alguma! – Carlisle se adiantou ao barão. – Assuntos financeiros que requeriam uma rápida atenção especial. Perdoe-nos pela demora.
Emmett e Jasper dispensaram os pedidos de desculpas. Logo o duque retomava seus gracejos, arreliando o barão. Este, por sua vez, manteve sua consternação oculta sob um estudado divertimento. No fundo sabia que cismar sobre o que estava por vir seria inútil. Melhor deixar-se verdadeiramente envolver pelo clima leve de seus cunhados.
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Isabella acordou sobressaltada, ouvindo as batidas à porta.
– Sim... – disse roucamente ao se sentar, aturdida. Estava sonhando com algo que trazia uma inquietação estranha ao seu peito, porém não recordava as imagens.
– Sou eu, Marie... Posso entrar?
– Sim, por favor – Isabella a liberou e, ignorando a incômoda sensação, levantou para acender uma lamparina, pois o quarto estava mergulhado na penumbra.
– Minha nossa! – Marie surpreendeu-se ao entrar. – Perdoe-me por deixá-la no escuro e no frio. Deveria ter subido ou enviado Jane, mas...
– Mas todos estão ocupados – Isabella sorriu para tranquilizá-la antes de recolocar o copo da lamparina no lugar para proteger a chama.
– Sim, estão, mas nada justifica minha falta – Marie se apressou para melhor iluminar o quarto. – Está na hora de eu abrir mão de seus cuidados e deixar que Jane os assuma de vez. Esta é a segunda vez que erro – lamentou.
– Por que diz isso? – Isabella conhecia a competência da governanta e não julgava que a deixar no escuro fosse um erro, mas ficou curiosa quanto a outro deslize.
– Hoje mais cedo... Sue Wood esteve aqui – disse Marie enquanto seguia para a lareira. – Ela estava transtornada e pensei ser por causa dos preparativos, mas soube que ela veio lhe trazer o chá sem nenhuma permissão de deixar a cozinha. Esta não é a função que lhe cabe e por... por seu parentesco e o constantes resmungos nos quais cita seu nome, imaginei que ela tivesse... a importunado.
– Sim, ela me importunou – Isabella não tinha motivos para ocultar –, mas não foi nada com que deva se preocupar ou recriminar.
– Cuidarei para que não se repita – Marie prometeu solenemente. – A partir de amanhã Jane assumirá seu trato e eu ficarei de olho em Sue.
– Acredito em você. – De fato acreditava, pois se havia alguém além de Edward, Rosalie e Embry naquela casa que a queria bem essa era Marie. – Então acredite em mim quando digo que nada grave aconteceu. Agora, ajude-me com a toalete, sim?
– Por certo! – Marie sorriu e se aproximou. Ao pousar os olhos na bandeja sobre o aparador, comentou: – Voltou a rejeitar a comida? Está enjoada?
– Não... Com exceção ao sono que abate algumas vezes, tenho me sentido melhor nos últimos dias. Por que pergunta?
– Não comeu nem bebeu... Veja! Agora o chá está frio, os biscoitos amolecidos...
– Desculpe-me – pediu a moça. – Não tinha fome quando Jane trouxe o chá e terminei por dormir...
– Isabella – Marie a interrompeu gentilmente –, não precisa me dar explicações. Apenas me preocupei, não estou passando um sermão – teatralmente altiva, salientou: – Amanhã, nessa hora, você será a nova baronesa. Cobrará por satisfações, não as dará.
Instintivamente Isabella levou a mão ao coração; nova baronesa de Westking! Antes que se desesperasse, sorriu, pensando que o que de fato importava, era que seria a senhora Edward Edrick Masen Bradley II. Esposa, não amante.
– Eu serei... Não serei? – indagou, sabendo que seu sorriso seria o mais patético entre todos os sorrisos patéticos de jovens apaixonadas.
– Será! – Marie garantiu, acompanhando-a no sorriso.
Apesar de tudo, a moça soube que estava feliz. Tanto que logo desfez o sorriso e tentou domar sua alegria, como se não lhe fosse permitido sentir extremo contentamento; como se a vida fosse lhe cobrar um alto preço por atrever-se.
– Bem, mas ainda não sou – disse rapidamente, esboçando um sorriso para não atrair a atenção da governanta para sua mudança de humor. – Melhor me apressar. Gostaria que me preparasse um banho. Daria tempo?
– Sim! – garantiu a governanta já a recolher a bandeja com a comida intocada. – Subirei em instantes.
Isabella assentiu e passou a se despir sem pressa. Expulsando a má impressão vinda com o temor infundado e com os sonhos cujas cenas se perderam em seu subconsciente, ela sorriu. Iria pôr em prática um de seus últimos pensamentos antes que adormecesse. Por essa razão pedira o banho. Seu casamento seria no dia seguinte, então, nada mais natural do que presentear o noivo na noite anterior.
Ao cobrir sua nudez com o robe, Isabella estava livre do pessimismo. Enfrentaram céus e terras para estarem juntos, Edward e ela, e não seria justo que algo ruim viesse atrapalhar a alegria sentida, considerou ao se sentar diante do espelho e mirar seu anel de noivado. Ela não esquecia o falatório em Wisbury, nem tinha ilusões de que este não se espalhasse por Westking Ville, mas até que acontecesse, saborearia seu momento, contando as horas até sua união.
Apegando-se ao inédito otimismo, Isabella deixou que Marie a ajudasse no banho, perfumando-lhe o cabelo e a pele, nada escandalizada com a falta de pudor de sua protegida, diferentemente da primeira vez. Como se cumprisse um ritual importantíssimo, Marie fez questão de ajudá-la também a se vestir, insistindo até mesmo em fazer um elaborado penteado.
– Isso irá atrasá-la, Marie – Isabella argumentou, sorrindo, já sentindo a falta dos cuidados da governanta que não mais teria.
– Com a agitação do dia cuidei de adiantar o que podia – retrucou Marie. – De toda forma, essa noite o jantar será breve e frugal. Ordens da baronesa, aprovada pelas filhas. Todas estão cansadas e pretendem se recolher ao término da refeição.
– E Embry?
– Está com Amy, que lhe serviu o jantar. Os filhos da duquesa estão em seus aposentos com sua própria criada.
– E Irina? – indagou despretensiosamente.
– Está com a baronesa – disse Marie. – Está aí uma criatura que eu dispensaria caso pudesse ou tivesse um bom motivo. Esta tarde esteve intratável. Mais do que geralmente o é. E diante dos patrões se mostra como a mais submissa das criadas. Falsa!
– Compreendo-a... – Isabella murmurou.
– Sim... Mas por que quer saber de Irina? Ela a aborreceu? – Marie uniu as sobrancelhas. – Caso tenha feito, me diga que reporto ao barão. Será a oportunidade perfeita para despachá-la.
– Não... – Não havia razão de delatá-la quando não poderia dizer o motivo, ou quando tudo fora resolvido. Irina era funcionária da baronesa e Isabella confiava que a senhora saberia mantê-la em seu lugar, como fizera naquela manhã. – Perguntei por perguntar...
Marie maneou a cabeça em concordância e voltou ao seu trabalho. Minutos depois, ao considerar seu trabalho concluído, ajudou Isabella a se levantar. Ao sorrir, tinha lágrimas nos olhos.
– O que há, Marie? – Isabella lhe tocou o ombro, preocupada.
– Bobagens! – Marie secou os olhos apressadamente. – Afinal, apenas não cuidarei de você, mas nos veremos todos os dias.
– E eu já disse que às vezes farei questão que seja você a me ajudar – a moça sorriu, comovida com o carinho da governanta. – Tenho certeza de que Jane não saberá fazer tranças frouxas tão bem quanto você.
Marie sorriu, agradecida.
– Não, ela não saberá... Agora deve se apressar. O jantar será breve, mas acontecerá à mesma hora.
– Sim... – Isabella gostaria de abreviar aquela despedida simbólica, pois estava ansiosa para estar com seu noivo. – E amanhã, se tiver como, venha me ver antes da cerimônia.
– Não precisava ter pedido – Marie salientou, sorrindo. – Agora vá...
Despediram-se no corredor. Isabella não encontrou viva alma até que entrasse na saleta. Os cavalheiros a cumprimentaram, inclinando suas cabeças, deferentes. Ao que ela imitou o gesto, delicadamente, relutando em não manter os olhos em Edward, lindo em seu traje completo, com os cabelos domados para trás.
Ao cumprimentar as damas Isabella pôde entender o desejo de recolherem-se após o jantar; o cansaço em cada face era evidente. Imediatamente a moça se compadeceu, porém intimamente acalentou certa alegria pelo cuidado com seu casamento, mesmo que os esforços não fossem de todo direcionados a ela.
Ao se sentar, descobriu que somente os homens mantinham uma animada conversa. As mulheres basicamente repassavam o que aconteceria na manhã anterior, sendo que ela deveria apenas de se ocupar em ser a noiva. Seu oferecimento de ajuda foi veementemente recusado.
Foi com alívio que as senhoras receberam o aviso de que o jantar estava servido. Elizabeth não esperou que a conduzissem, seguindo logo atrás de Marie rumo à sala de jantar. Além do cansaço, mostrava-se especialmente impaciente. Isabella quis acreditar que não por algo relacionado a ela.
Como nos últimos dias, em pares desencontrados, os três casais seguiram a baronesa. Ao se sentarem, os McCartys e os Whitlocks iniciaram uma conversa paralela entre si. Por estarem distantes, Edward e Isabella apenas se olhavam vez enquanto Elizabeth dava atenção ao seu prato, ensimesmada.
Com seu rosto a corar, Isabella sorriu minimamente para seu noivo, envaidecida por ver a admiração nos olhos azuis e por antecipar o que faria para que pudesse entregar seu “presente”. De seu posto, Edward tomou um gole de seu vinho, tentando decifrar o que se passava na mente de sua noiva para que tivesse a face corada. Não fosse a tensão na qual viviam, diria que ela estava a tramar alguma ação. Algo bom, pois sorriu.
Agradava-o considerar que estivesse certo. Precisava de boas conspirações para eliminar a centelha de preocupação que Carlisle acendeu. Ainda duvidava que alguém se atrevesse a atrapalhar seu casamento, mas... o que sabia da mente humana. E como bem pensou, Laurent Hunt encontrava-se estranhamente silencioso.
– Edward – chamou-o Elizabeth, tirando-o de suas considerações. Sem nada dizer, o barão voltou seus olhos para a mãe. – Depois do jantar, como sabe, todos se recolherão.
– Sim... Eu sei – disse. Depois de trocar olhares com sua noiva, acrescentou: – Pretendo fazer o mesmo, pois amanhã o dia será cheio.
– Antes gostaria de conversar com você sobre um assunto de suma importância – disse a baronesa, enquanto partia um pedaço da carne servida. – Na saleta.
– Sim, senhora – ele anuiu. Logo olhou para Isabella que engasgou e passou a tossir. – O que houve? Você está bem?
Não, ela pensou, tentando se recuperar do susto que levou a engolir a comida rápido demais. Teria se enganado e a baronesa fosse acusar o filho depois de colocá-lo a par do que sabia? Infelizmente não via os olhos da senhora para que elucidasse o que viria ao fitá-los. Não foi o caso, então restou tranquilizar a todos que a encaravam.
– Estou bem... – disse roucamente. – Obrigada!
– Sendo assim, voltemos a comer em paz – Elizabeth sugeriu secamente; como de costume.
Traída, era como Isabella se sentia. Não tinham combinado guardar segredo? Sim, lembrava-se bem, ela pensou; sentida. Foi desse modo que corajosamente sustentou o olhar da baronesa quando esta a encarou, como se tivesse sido chamada. Em resposta Elizabeth uniu as sobrancelhas, então maneou a cabeça, como se desistisse de entendê-la, e voltou a comer.
Bem, Isabella considerou, decidida a recuperar seu humor, não havia muito que pudesse fazer caso a baronesa fosse contra seu próprio pedido. Por sua vez, manteria a palavra empenhada.
E lá estava a mesma troca de olhares significativos entre sua mãe a sua noiva, Edward reparou. Não se sentia animado para conversas após o jantar, contudo, se descobrisse o que ambas escondiam, valeria o esforço. Enquanto comia, Edward rogou para que Elizabeth fosse breve, pois queria estar a sós com Isabella, o quanto antes.
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