Book With One-Shot's - Vol.02

1 O Café à Beira do Rio


A brisa de fim de tarde trazia consigo o cheiro fresco da água do rio Sumida, misturado com a fragrância suave das cerejeiras em flor. Hana apertou o casaco contra o corpo, não por frio, mas por aquele nervoso miudinho que não a deixava respirar direito. Faziam cinco anos desde a última vez que visitara Tóquio, e o simples facto de estar ali, de novo, sentada num café que nunca mudara, fazia-a sentir-se simultaneamente segura e vulnerável.

O café ficava numa rua secundária, quase escondida, com portas de madeira escura e pequenas lanternas vermelhas penduradas no beiral. Dentro, o aroma do chá matcha e do café recém-passado enchia o ar, e a luz alaranjada do final do dia criava sombras suaves sobre as mesas. Hana escolheu uma cadeira junto à janela que dava para o rio e deixou que os seus olhos vagueassem.

Lá fora, o rio corria preguiçosamente, refletindo o céu em tons de laranja e púrpura. Um casal de patos nadava perto da margem, e crianças brincavam com pequenas jangadas de papel, rindo e tentando ver qual delas chegava mais longe. Hana sorriu, e por um momento, o peso do passado pareceu dissolver-se na brisa suave que entrava pelo vidro.

Ela pediu um café e um bolo, e, enquanto esperava, mexeu no telemóvel. Um vídeo de um jogo de batalha online abriu-se sem querer, mostrando risadas e momentos partilhados com amigos de longa data. Sentiu uma pontada de saudade, mas também um calor confortável, aquele tipo de saudade que não dói, apenas lembra que houve vida e momentos felizes.

O som da campainha da porta fez-na levantar ligeiramente a cabeça. E então, viu-o. Kaito. O mesmo sorriso de sempre, ligeiramente torto, os olhos castanhos que pareciam captar cada nuance de luz. Cinco anos tinham passado, mas não tinham deixado marcas profundas no que ela sentia. Ele veio na sua direcção, hesitante, com o passo de quem teme quebrar uma ilusão, mas determinado.

— Hana? — a voz dele era baixa, quase hesitante, mas suficiente para que ela sentisse cada palavra dentro do peito.

— Kaito… — murmurou ela, sentindo os cantos da boca tremerem.

Sentaram-se juntos, sem pressa, e começaram a conversar sobre coisas pequenas: o café que continuava igual, a cidade que mudara mas permanecia familiar, os amigos que perderam e aqueles que permaneceram. Entre risos e silêncios confortáveis, o sol desceu lentamente, atingindo o rio de dourado e púrpura. Cada reflexo na água parecia marcar um segundo de memória que Hana queria guardar para sempre.

No final, Kaito sugeriu que fizessem uma caminhada até à ponte de Sumida. Hana aceitou, e ao atravessar o rio de mãos dadas com ele, sentiu que o reencontro não era apenas uma coincidência: era uma segunda oportunidade, uma promessa silenciosa de que alguns sentimentos nunca se perdem, apenas adormecem.

O céu escureceu, e as luzes da cidade começaram a cintilar como pequenas estrelas. Hana respirou fundo, sentindo o coração leve, enquanto pensava que, às vezes, os melhores momentos acontecem nos lugares mais simples: num café à beira do rio, com o sol a despedir-se e com alguém que, mesmo depois de tanto tempo, continua a ser essencial.