Book With One-Shot's - Vol.02
8 O Café das Lembranças
O aroma intenso de café recém-passado enchia a pequena cafeteria de Kanazawa. As mesas de madeira polida refletiam a luz suave das lanternas penduradas, e a chuva fina que caía lá fora criava pequenas manchas douradas no chão. Yuna entrou, abrindo o guarda-chuva e sacudindo a água do casaco. Fazia anos que não visitava este lugar, mas algo no nome da rua e na placa antiga da loja fez-lhe acelerar o passo: queria recordar-se do sabor do passado.
Sentou-se junto à janela e observou a rua deserta, os reflexos das lanternas no pavimento molhado e os guarda-chuvas coloridos que passavam apressados. Pediu um café e um bolo de chá verde, mas antes mesmo de chegar à mesa, reparou num caderno esquecido numa cadeira ao lado. Era velho, com capa de couro gasto e folhas amareladas, e tinha o cheiro característico de recordações guardadas durante anos.
Curiosa, abriu-o lentamente e encontrou páginas cheias de notas, desenhos e pequenas memórias: receitas, listas de cafés preferidos, até esboços de pessoas que pareciam familiares. Yuna sorriu, sentindo uma estranha conexão com quem tinha escrito aquelas palavras. Algumas frases faziam-na rir, outras tocaram-lhe o coração: pequenos momentos capturados, instantes que, de outra forma, desapareceriam para sempre.
Enquanto lia, o dono da cafeteria aproximou-se com um sorriso discreto.
— Parece que encontrou algo interessante — disse ele, baixinho.
— Sim — respondeu Yuna. — É incrível como estas pequenas memórias parecem dar vida ao lugar.
O homem assentiu.
— Este café sempre foi sobre isso. Sobre lembranças. Muitas pessoas vêm aqui para guardar algo ou para se lembrar de alguém. Às vezes, apenas estar presente já é suficiente.
Yuna permaneceu sentada, saboreando o café quente e refletindo sobre a vida. Lembrou-se de Keita, o amigo de infância que sempre a fazia rir com as suas histórias absurdas. Eles perderam contacto depois que ele se mudou para Hokkaido, mas, ao ler aquelas memórias no caderno, sentiu que a distância nunca apagara a ligação que partilharam.
Inspirada, pegou na caneta que carregava na mala e começou a escrever algumas linhas: pequenos pensamentos, lembranças de cafés visitados, dos passeios ao pôr-do-sol, das conversas que duravam horas. A cada palavra, sentia que reconectava consigo mesma e com o mundo que a rodeava.
A chuva lá fora intensificou-se, e o café ficou envolto num suave nevoeiro de vapor. Yuna terminou o bolo, fechou o caderno e deixou-o sobre a mesa, como um presente para quem o encontrasse a seguir. Sentiu uma paz inesperada, uma certeza de que, mesmo nas memórias que julgamos perdidas, existem novas formas de recomeço.
Ao levantar-se para sair, percebeu que o céu começava a abrir, revelando uma franja de azul que contrastava com a chuva recente. O reflexo do sol nascente nas poças de água lembrava-lhe que cada dia oferece oportunidades simples de felicidade: uma chávena de café, uma memória, um gesto de carinho ou um instante de reflexão silenciosa.
Yuna sorriu, guardou o guarda-chuva e atravessou a rua. Sentiu o coração leve, como se tivesse recuperado algo que nunca devia ter perdido: a capacidade de valorizar os pequenos momentos, os encontros inesperados e a beleza das lembranças que nos moldam, sem nunca nos prender.
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