Bonitos Rumores
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Notas iniciais
Jonas
A esposa de Jonas apertava a sua gravata no pescoço com perfeição; era uma santa mulher da igreja, de longe podia se observar. Todas as manhãs trazia seu café quente e bem adoçado na cama seguido da leitura de passagens dos livros sagrados, beijava-o com doçura e ia logo cuidar dos filhos. Não tinha do que reclamar, aos cinquenta anos era magra e esguia, a pele preta e adorável deixava-a ainda mais elegante no caríssimo vestido branco com gola de plumas que usava, trazia no rosto o sorriso sincero de uma mulher bondosa.
Beijou Jonas no rosto e declarou que iria arrumar as crianças.
Jonas suspirou e levou as mãos ao rosto; era um crápula. Não podia estar simplesmente satisfeito? Tinha pelo menos cinco propriedades, uma igreja fervorosa que adorava sua família, duas crianças lindas e instruídas, e uma mulher espetacularmente linda que o ajudava em tudo. O que lhe faltava? Ele sabia exatamente, mas admitir em pensamento parecia tão pecaminoso quanto a pratica.
Não tinha muito tempo para pensar nisso, estava na hora do Grande Jantar, a esposa o chamou para descer, deveriam ser os primeiros a chegar para estrearem as fotos e as entrevistas.
— querido me de a mão.
Pegou a mão de sua esposa e juntos seguidos dos filhos alinhados desceram até o jardim de eventos.
O lugar estava simplesmente fantástico, toldos espalhados por toda área verde se perdiam de vista nas colinas, estavam iluminados por grandes lanternas de vidro, lustres e holofotes, de luzes amarelas ofuscavam a noite escura; um grande tapete vermelho se estendia ate a chegada do salão principal do evento, ante a uma escada cheia de fotógrafos e colunistas interessados. Nas tendas, grandes espreguiçadeiras, cortinas, pufes, violinos e violoncelos ao vivo, bem como um enorme buffet e garçons a postos que ainda não começavam a circular.
— chegamos cedo demais – grunhiu a esposa desapontada – o lugar ainda nem estava cheio de olhos curiosos de hospedes como deveria estar; a festa era aberta apenas as famílias confraternizastes, alguns políticos e envolvidos nos projetos.
— qual o problema? – respondeu Jonas também se sentindo um tanto constrangido – vamos entrar
Não se importava com a fama de cafonas, novos ricos ou classe em ascensão; tão pouco com a polemica da sua prosperidade disparada depois de tomar frente da igreja de maior renome do estado, eram meras acusações, dissimulações e inveja; Jonas sentia-se um homem de fé, que foi pobre a vida inteira e de alguns anos para cá estava simplesmente sendo recompensado, disfrutando das promessas de riqueza do supremo criador.
Andaram todos pelo enorme tapete até o salão principal, clicados por alguns flashes a esposa de Jonas, Marrie, estufava seu peito como um pombo, sorria muito satisfeita, como se todos pudessem notar o quão absurdamente caro tinha sido aquele vestido. Finalmente chegando ao topo da escada, um colunista pediu uma foto da família. Se posicionaram nos degraus e sorriram.
— pode dar algumas palavras Sr. Feitosa? – pediu um jornalista magro e feioso estendendo sem cerimonia um microfone.
Jonas estufou seu peito sorridente e afirmou que sim no meio tempo em que sua esposa abraçava amigas jornalistas e com crianças posava para fotos de outras revistas.
— Sr. Feitosa que bela família! Qual o sentimento de estar aqui hoje? – perguntou o jornalista com simpatia.
Jonas considerou fazer um discurso, mas pensou nos comentários maldosos das cafonices que aquilo implicava portanto foi curto e conciso.
— ah meu jovem, glorias a deus sempre bom estar com a família, ainda num evento como estes! Um evento que valoriza as famílias mais influentes desse país, um exemplo para o mundo cheio de degenerados em que vivemos hoje! – respondeu quase enrolando as palavras de tão nervoso, não conseguia se acostumar com aquilo, era excitante e parecia perverso aos olhos de deus ao mesmo tempo.
O repórter deu uma risadinha de canto de lábio, parecia que havia pegado um rato na ratoeira, parecia que tinha conduzido a conversa para o ponto desejado.
— entendo – disse ele pouco menos animado – mas como assim mundo de degenerado? O senhor se refere aos ladrões, corruptos... ao gays?
Jonas rangeu os dentes, sentiu os músculos rígidos mas não deixou que transpassasse as suas feições serenas.
— eu não escondo minha religião de ninguém meu caro, se alguém degenera a estrutura original da família não merece meu respeito, incluindo os gays também porque não? – respondeu esquivo.
— talvez porque o senhor seja um.
Ao afirmar isso o reporte puxou um papel que escondia em sua outra mão, na folha existia um Jonas jovem, tinha em torno de uns dezenove para vinte anos, com as mãos na cintura posava para a fotografia, os cabelos muito compridos, unhas postiças perfeitamente vermelhas, o rosto transformado pela maquiagem forte, saia e top escondendo as formas masculina.
Como se alguém tivesse ativado a combustão de um elemento ou disparado uma arma as coisas fluíram numa sequencia insana. Jonas lançou-se para cima do repórter com toda força, ambos rolaram os degraus da escada atracados como animais, Sra. Feitosa soltou um grito de horror e puxou as crianças para debaixo do seu braço, as lentes dos repórteres e fotógrafos viraram-se para a cena como cabeças de corsa veloz captando tudo com total exclusividade, sem duvida a coisa mais emocionante de todos os eventos.
— Jonas que insanidade é essa? – gritou sua esposa desesperada do topo da escada.
Jonas agarrou o rapaz pelo colarinho e lhe aplicou dois bons socos no rosto, e começaria a lhe estrangular se dois seguranças não tivessem corrido ao encontro da cena e ordenassem que os dois parassem.
Levantaram-se e se deram conta de que todas as atenções estavam voltados para eles. Um dos seguranças segurou o Sr. Feitosa enquanto outro puxava com violência o repórter pra fora.
— você será processado – gritou o pastor aflito jogando seu corpo na direção do jovem mas sendo contigo pelo segurança – vou acabar com você.
— hipócrita! – gritou o jovem repórter que completamente ensanguentado começou a se dirigir para saída.
Virou-se para a plateia que o assistia, ajeitou a gravata e os cabelos como se aquilo fizesse voltar sua dignidade e compostura e apagar seus cortes, machucados e sujeira no paletó todos chocados, boquiabertos.
— o que estão olhando? Preciso bater em mais alguém?
Todos voltaram a normalidade ou o mais próximo que aquilo poderia chegar.
...
— conte-me imediatamente o que aquele repórter lhe disse de tão mal pra você agir como um grosseiro – a esposa insistia sem parar como um relógio despertador sem botão de soneca. A essa hora a festa já estava lotada, estavam sentados em uma das mesas observando o vai e vem de celebridades e autoridades que riam e conversavam, por mais que parecesse que tudo estava em perfeita ordem, Jonas era capaz de sentir que o burburinho de maioria das mesas era o que havia ocorrido lá fora.
— não vou dizer de novo Marie, em casa conversamos. – repetiu sendo mais grosseiro do que de costume fazendo a esposa se ajeitar com tristeza na cadeira – além do mais os Brasel chegaram.
Marie suspirou e ergueu as sobrancelhas com desdém, dentre as famílias que menos gostava os Brasel eram os campeões; os ricos de berço maravilhosos demais para se misturarem com eles, levantou junto com o marido a contra gosto para dar os cumprimentos a eles.
O Sr e Sra Brasel pareciam como sempre para Jonas, um casal feliz e cheio de sintonia, conversaram brevemente sobre quão bonito estava o evento este ano, uma conversa curta o suficiente para perceber que a herdeira deles, maquiada e decotada como uma devassa estava extremamente infeliz.
Só o que os interrompeu foi o mestre de cerimonias, o herdeiro meio metido e jovem demais do hotel anunciou com felicidade todos os conferencistas e todos os eventos daquela estadia, falou da morte do pai, trouxe a mãe até o palco.
— e esperamos que essa seja a conferencia mais inesquecível de suas vidas – anunciou ele lançando um olhar para a Brasel mais nova, pode Jonas observar que ela com isso virou o rosto completamente raivosa.
Depois de todas as formalidades e a chegada de todas as famílias tudo aquilo virou uma zona mundana, uma música mais animada foi colocada trazendo para o meio do salão valsas provocativas de casais, as mesas logo trocaram a água com gás por garrafas grossas de uísque, os senhores de suas famílias andavam pelo salão deixando suas companheiras sozinhas; pecaminoso demais e Jonas não deixaria seus filhos pequenos expostos a tais exemplos.
— recolha as crianças – disse a sua esposa – já está na hora de irmos.
A mulher assentiu obediente apesar de meio tristonha, o Sr. Feitosa começou a se despedir das autoridades até lhe ocorrer que uma pessoa o observava demais, suspirou e tentando fugir daquilo andou direto para o banheiro.
Meio nervoso suspirou forte e começou a lavar o rosto, sabia que ele estaria aqui mas o que tantos olhares poderiam significar? O que ele queria dessa vez?
— fugindo de mim? – disse com a voz calma, com aquela rouquidão que atormentava seus pesadelos, Octavio Severo arreganhou a porta do banheiro fazendo Jonas pular de susto. – o que eu fiz pra você meu amigo?
— deixe-me pensar – respondeu prontamente – além de ser meu vizinho, me chantagear, me perseguir? Absolutamente nada. Porque não me deixa em paz? O que mais você quer?
O Sr. Severo parecia surpreso com a resposta acida, tanto que sorrio e colocou a mão no peito como vitima.
— acalme-se homem! Acalme-se; você sabe muito bem que aquela chantagens bobas foram coisa do passado, eu não quero seu mal, eu adoro a sua família – disse ele se aproximando, Jonas sentia-se nervoso e desconfortável; aquele homem mundano! Cabelos compridos, aquele olhar preto feroz, o jeito irresponsável que sempre carregou por anos mesmo sendo agora um homem de sucesso – além disso tudo que quero de você é que você seja um pouco mais honesto.
— ninguém pode duvidar da minha honestidade! – bradou Jonas irritado.
Indignando e desapontado com aquilo que Jonas se tornara, Octavio lançou para ele um olhar de desaprovação.
— eu posso – respondeu – e as pessoas podem começar a duvidar se bocas começarem a ser abertas.
Antes que o Sr. Feitosa pudesse sair do banheiro, Octavio o segurou pelo ombro.
— pra você curar suas tensões diária, sei que você gosta e não negue pra alguém que te conhece melhor que qualquer um – tirou do bolso do smoking um pacote perfeitamente fechado, o pó branco era imaculado, parecia cintilar, uma quantidade substancial.
Jonas suspirou e olhou com clara tentação para aquilo.
— eu não posso. – respondeu.
—claro que pode – disse Octavio colocando o pacote com cuidado no bolso da calça do pastor – todos podemos qualquer coisa.
Num gesto insinuante Octavio começou a alisar e apertar o ombro do Sr. Feitosa que fechou os olhos.
A porta foi aberta com força, Jonas deu um salto para tras e Octavio recolheu sua mão como quem havia se queimado. Ambos prenderam a respiração num mutuo gesto de culpa presumida.
— me perdoem, pensei que fosse o feminino – respondeu a garota Ana Brasel completamente sem graça. Jonas a fitou nos olhos e a garota praticamente fugiu dali.
Pra ele, aquilo podia ser início de problemas.
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