Bonitos Rumores
1 1.
Notas iniciais
Charles
Não eram nem quatro da manhã quando na suíte do Trivial Palace o telefone tocou. Estridente, rudioso e detestável. Charles xingou algo e começou a bambolear pela cama, virou varias vezes fingindo que estava sonhando, e que se continuasse fingindo o telefone iria parar de tocar.
— que inferno! – bradou.
Iria demitir que ousava ligar aquela hora, da ultima vez foram dois funcionários pro olho da rua por acorda-lo antes das nove pois um cano da piscina da sauna estava fora de controle; puxou o telefone do gancho com violência.
— o que porra é?
Ouviu atenciosamente as palavras do outro lado na linha, mudo. Completamente mudo.
— já estou indo. – disse com a voz petrificada de medo.
Pulou da cama sem preguiça, correu até a cabideira ao pé da janela de cortinas dançantes. Vestiu-se rapidamente num hobie de seda e calçou chinelos que não eram os pares corretos. Parou na frente do espelho numa freada busca, estava horrível parecia estar dez anos mais velho...
— por favor não, por favor não, não,não... – rezava silenciosamente como se de algo adiantasse. Tateou em busca da chave do quarto com as mãos tremulas e quando finalmente conseguiu abrir considerou a ideia de dar meia volta e fingir que aquele telefonema jamais existiu,
O Trivial Palace dormia. Seus corredores gelados estavam todos escuros e sombrios; Charles começou a se encaminhar para saída como um completo turista mesmo tendo crescido ali, o paraíso na terra de seu pai, o recanto de luxos e riquezas construindo pela família Trivial; deu de cara com um banheiro de funcionários, pegou uma escada errada e acabou numa lavanderia, suava frio quando deu meia volta e ao invés de aperatar nos botões de descer do elevador subiu mais dois níveis, parecia que o seu corpo o sabotava por ganhar tempo, quando finalmente deu a volta pela quadra de tênis encontrou em pé parado Pacco, o vigilante com uma empregada desmaiada no colo.
— onde está? – questionou ele tentando manter a voz firme.
Pacco deitou a empregada na grama gélida e sem pronunciar palavra alguma começou a andar até o Clube Private.
Um corpo na piscina.
Estava nua, pálida. Uma cascata de cabelos loiros flutuava como cobras da cabeça de medusa pela água, o corpo magro lembrava um anfíbio, uma criança. Charles levou a mão a boca e sentiu os joelhos fraquejarem, passou as mãos pela cabeça apertou os cabelos começou a respirar ofegante.
— Cici que a encontrou – Pacco disse ligeiramente – veio correndo me avisar.
Olhei para o céu e não faltava muito para amanhecer, pontas de luz dourada começavam a despontar no céu clareando a paisagem. Charles grunhiu, começou a andar de um lado para o outro em desespero completo. O que faria? Quando os hospedes acordassem seria o fim da sua família, o fim da sua dinastia, quem fez isso acabara de jogar a reputação de gerações no lixo, rangeu os dentes e pensou no que o falecido pai faria, jamais deixaria o barco afundar... jamais permitiria um escândalo, um assassinato debaixo do seu nariz não... nunca.
Respirou fundo e calou seu chilique interno, chilique não era para os homens da família dizia seu pai, sempre que se desesperava por algo, mas como evitar? Desespero era quase sua natureza. Mordeu o lábio com violência e até podia sentir o gosto do sangue.
— Pacco.
— sim senhor?
— tire a garota da água.
— o que? Senhor... a policia certamente...
Eu o interrompi.
— eu cuidarei disso – disse com firmeza. – e vou te dizer exatamente o que fazer. Seja rápido.
Pacco ficou relutante, tremeu, jogou-se na água com nojo, como se o corpo a contaminasse, a deixasse amaldiçoada, nadou lentamente até o corpo e começou a remove-lo.
Charles observou, agora só precisaria cuidar das fitas de segurança.
— siga-me – ordenou ao funcionário.
Olhou a garota morta pingando gélida nos braços de Pacco, mexas de cabelo lindo e brilhante ainda grudavam-se no seu rosto, apesar dos lábios roxos parecia que dormia como um anjo bom.
— ah meu deus Ana. – murmurou Charles com pesar pegando o corpo no seu colo. – eu te avisei tanto! Fique longe dos rumores ou morra... menina estupida, eu te adorava.
E caminharam com o dia nascendo em seus encalços.
Fale com o autor