Bonequinha

1 Capítulo único


Bonequinha.

Minha bonequinha quase pronta.

Fruto de meu trabalho pela madrugada, feito de esforço e prazer. Seriam apenas dela os meus suspiros, seus olhos vidrados em eterna valsa com os meus; a dança perfeita com cheiro de noite e lâminas brilhantes. Com cheiro de velhas roupas e do brilho de nossas vozes.

O pincel fino traçou a meu mando um breve contorno puro sangue em seus lábios sem vida, inanimados na morte pregando uma peça com sua beleza. Ao fundo, um Jazz de combinação harmoniosa fazia de meu coração um velocista. Minha bonequinha. Toquei suas bochechas de tecido aveludado, senti com elas minha vida dando piruetas nas estrelas, a euforia fazia meus dedos batucarem em um ritmo novo, inventado e um tanto louco. Tatuando sua essência com digitais de adoração.

Bonequinha, seu cabelo serpenteando na mesma trança delicada, trançada bonita noutra madrugada, numa em que a lua brilhava alta em contraste com o infinito do medo. Ainda me surpreendo com o quanto o trabalhado de minhas mãos pode fazer o lindo ser querido por olhares extasiados com ânsia; o silêncio das palavras não ditas ainda gritando pelo cinza de seus olhos enquanto os fios eram domados, ainda ferozes, soltando-se como veneno das presas de um réptil.

E as mãozinhas... Ó querida, também pintadas de sangue, marcas da vivência e de experiências, ou talvez marcas refletidas da própria alma. Mãos macias e rijas. Em pouco tempo estariam enferrujadas pelo Velho Novo. Só eu irei lembrar até restar nada de meus ossos, de como nossos dedos se engataram naquela primavera com flor especial. Como nossos corpos se tornaram um só ao virar pura chama.

Admirei-te. Bonequinhas não sorriem.

Não as minhas!

Peguei-a em meus braços, grudada na fragilidade. Ó, querida, perdera pesos de alegria em sua chegada a meu coração. Barrada nas portas de um sentimento. Sugada por meu amor, não tanto quanto o tecido aveludado estava a ser sugado pela morte. Por metal. Por fúria.

Querida bonequinha, não chore mais vermelho em seu descanso amargo. Um dia ainda te presentearei à terra para um fofo abraço.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!