Notas iniciais
Acho que a qualidade dos meus contos está caindo de novo. Mas isso não têm muita importância, espero que esse não tenha ficado tão ruim. Ainda vou escrever um realmente bom sobre bonecas.

“Era uma casa estranha, aquela. Os dois andares da casa em madeira, mal iluminados por velas, estavam sempre lotados de estantes. As estantes estavam sempre lotadas de bonecas. Bonecas de porcelana te olhavam de todo canto. Encarando você, sorrindo para você. Prontas para puxar sua perna”.

A garota sentiu uma mão gelada na canela e gritou. Os irmãos começaram a rir.

— É sempre fácil te assustar, Ju.

O garoto loiro e baixinho que não devia ter mais de onze anos saiu de debaixo da cama. Julia, também loira, porém mais alta, estava encolhida em cima da cama, quase chorando de medo; sempre fora fácil assustá-la.

O mais velho ria descontroladamente, rolando no chão. Ele sempre gostava de ver a garota gritar. Era um sádico, o medo nos olhos dela o divertia muito.

— Idiotas!

Ela começava a rir também.

Estavam sozinhos em casa e a luz havia acabado. Sobrava acender uma vela e contar histórias. A garota estava tão compenetrada que nem percebera o irmão mais novo entrar debaixo da cama. Foi quando ouviram um barulho no quarto de hóspedes.

O quarto de hóspedes não era usado por hóspedes há anos. Era, na opinião dos irmãos – principalmente do mais velho – o lugar mais macabro da casa. Era onde a mãe deles guardava a coleção dela. Uma grande coleção de bonecas de porcelana. Os irmãos calaram.

— O que foi isso?

A voz suave da garota estava assustada. Ela costumava ficar com medo de qualquer coisa. Mas naquele momento o mais velho mal podia falar.

Desde pequeno, tinha pavor daquele quarto mais do que ninguém. Quando necessário, entrava e saia de lá sem nem olhar para as bonecas que pareciam encará-lo. Tinha pesadelos toda vez que, sem querer, seus olhos caiam em uma das dezenas espalhadas pelo grande cômodo.

— Vamos lá ver.

O mais novo dos três parecia não ter sequer percebido de onde o som viera, pegou a vela e saiu do quarto, sendo seguido pela garota que tinha medo do escuro e pelo mais velho que, naquela situação, não queria ficar sozinho no quarto da irmã que também tinha uma boneca daquelas no armário.

— De onde veio Ju?

No corredor, a garota apontou para a porta do quarto de hóspedes. O pequeno loiro hesitou, mas pôs a mão na maçaneta.

— Dani, não.

O aviso de Diego não serviu em nada, o pequeno entrou no quarto com a vela, sendo seguido pela loira.

— Vamos Diego, são só bonecas e você sabe disso.

Ele ficou lá fora até que a irmã veio e o puxou pelo braço. Olhando para o chão ele entrou no quarto, ouvindo os irmãos.

— Não tem nada aqui, só as bonecas mesmo.

O mais velho fechava os punhos com força. Não queria olhar para o lugar, sabia bem o que tinha ali; os dois mais novos começaram a procurar pelo quarto por algo. Um rato ou algo assim era o mais provável; Mas o medo consumia o mais velho.

— Ajuda aqui Diego, temos que achar esse bicho.

Diego respirou fundo. Não tinha que temer as bonecas. Eram apenas bonecas. Inanimadas, paradas, para sempre. Fechou os olhos, devagar ergueu a cabeça. Reabriu os olhos.

Dezenas de bonecas pareciam encarar-lhe. A luz da vela refletindo nos rostos polidos e sorridentes. Vestidos de renda, azuis, verdes, vermelhos. Cabelos loiros, castanhos, negros. Todas o encarando com o sorriso tranqüilo e bizarro de algo sem vida. Todas o encarando com o olhar penetrante que apenas “elas” sabiam dar.

A luz no corredor acendeu. O irmão mais novo, rápido, acendeu a lâmpada do cômodo, vendo então o pequeno roedor correr para fora do quarto.

— Vamos, vamos.

Os dois mais novos foram atrás do pequeno animal. Diego, devagar, olhos vidrados em uma das bonecas, caminhou para trás. Apagou a luz e fechou a porta. Respirou fundo ao sentar-se no corredor, de costas para o cômodo. Estava salvo.

— Boa noite.

A voz doce e infantil que saía de trás da porta podia muito bem ser uma ilusão. Mas Diego sabia, nunca mais entraria naquele quarto.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!