Notas iniciais
Mais um cap para vcs me perdoarem pelo atraso

Mary estava surpresa com o pedido. Nunca havia imaginado que Thomas se importava mesmo com coisas como aquelas. Tinha certeza que ele não tinha encontrado outro jeito, já que ele nunca pedia nada que envolvesse dinheiro para ela. Não que ela se importasse, adorava ajudar o amigo, mas ele era orgulhoso demais para admitir que precisava de ajuda.

—Por que não me pediu antes? Sabe muito bem que eu não me importo em ajudá-lo! —Argumentou ela, encarando-o.

—Mas eu me importo. E saiba que isso não irá ficar assim, eu irei lhe pagar até o ultimo centavo. —Disse Thomas, erguendo a mão para interrompê-la quando ela abriu a boca para discordar. —Não me importa o que você diga, não mudarei de idéia.

Ela suspirou irritada, dando-se por vencida. Não fazia sentido nenhum em recomeçar aquela discussão. Ela e Thomas já haviam discutido aquilo milhares de vezes no passado, e ele sempre acabava ganhando a discussão. Mary já estava cansada de tentar fazê-lo mudar de idéia.

—Comprarei seu terno. Amanha mesmo irei providenciá-lo. —Falou, entrelaçando os dedos e encarando os olhos turquesa do rapaz. —Agora pode me dizer por que esta tão preocupado com sua aparência para o baile de primavera?

Ela viu as bochechas de Thomas corarem, ele comprimiu os lábios e passou a mão pelos cabelos, evidentemente nervoso com a pergunta. Mary sorriu e se inclinou para frente, se debruçando sobre a mesa e chegando o rosto perto do de Thomas,

—Por acaso tem alguma coisa haver com alguma moça sortuda? —Perguntou ela, exibindo um sorrisinho divertido.

As bochechas de Thomas coraram mais ainda. Ele pigarreou e se levantou bruscamente, evitando encarar a amiga nos olhos. Estava nervoso, ela conseguia ver perfeitamente que aquelas perguntas o haviam incomodado muito, não só o deixado envergonhado. Ela se levantou e caminhou ate ele, pousando a mão direita por sobre seu ombro.

—Não precisa ficar assim, seja o que for, irá se resolver logo. —Disse ela, tentando entender o que acontecia no interior da cabeça de Thomas. —Olhe, se isso tem haver com alguma moça... Se ela não percebe o quanto você é especial ou precioso, então ela não te merece, Tom.

Ele soltou um suspiro e virou-se para encará-la, dessa vez ele trazia um pequeno sorriso nos lábios. Porem Mary conhecia o sorriso falso de Thomas, aquela estratégia não funcionava mais com ela há muito tempo.

—Não precisa se preocupar, não há nada de errado comigo. Nunca estive tão bem. —Declarou, inclinou-se para frente e depositou um beijo na bochecha dela, a barba roçando a pele macia do rosto de Mary. —Agora tenho de ir. Ate depois.

Thomas se afastou, caminhando até a porta e saindo da cozinha.

Depois de escolher o cardápio, as toalhas de mesa e as flores que enfeitariam a entrada do salão Mary já estavam exausta, não agüentava mais ver flores e tecidos a sua frente. Ela não sabia a diferença entre gelo e marfim, não queria escolher entre rosas e jasmins. No final da tarde já estava jogada na cama, não querendo mais levantar. Não fazia idéia de como era exaustivo os trabalhos da Rainha, não era atoa que ela sempre precisava de ajuda.

Com um suspiro ela levantou, calçou os sapatos e ajeitou os cabelos dourados rapidamente com a ajuda da escova. Caminhou ate a porta e seguiu pelos corredores, escolhendo o caminho mais curto para o jardim interno.

O jardim interno não era interno, era a céu aberto, mas era diferente dos outros, ele era no coração do palácio. Um jardim quase não visitado pelos habitantes do palácio. Ela não entendia bem por que, já que aquele lugar era lindo. Bem no centro jazia um balanço de ferro, ao redor os canteiros de flores de todos os tipos. Se você olhasse de cima, do terceiro andar, veria que as flores formavam o belo desenho de um diamante, com o balanço no centro.

Quando ela chegou ao jardim pode ver que o sol já estava se escondendo atrás das montanhas, o céu adquirindo um belíssimo tom de laranja. As sombras já começavam a se formar pelo jardim, em breve tudo estaria escuro, o jardim sendo iluminado somente pelas lanternas colocadas nos galhos das pequenas arvores e arbustos. Porem o balanço não estava vazio, havia alguém sentado nele, balançando as pernas para frente e para trás.

Ela reconheceu os cabelos castanhos, o brilho dos olhos negros, a postura perfeita de um cavalheiro da corte. Demetrio não havia percebido a presença da dama, ele encarava fixamente o céu, observando as nuvens banhadas de laranja e rosa. Ela quase deu meia-volta e foi em borá, mas Demetrio já havia parado de encarar o céu e já tinha percebido sua presença. Ele a encarava fixamente, sem dizer uma palavra.

Mary pode sentir as bochechas corarem perante o olhar dele, o modo como ele a encarava fixamente sem se importar com o que ela pensaria. Já estava se sentindo desconfortável quando ele sorriu e levantou, caminhando em sua direção.

—Me desculpe, não vi a senhorita ai. —Disse ele, parando a sua frente. —Se estou te incomodando, posso...

Ela exibiu um sorriso doce e balançou a cabeça negativamente.

—Não, eu que cheguei depois, eu que devo sair.

Ela virou-se e deu um passo a frente, porem sentiu os dedos ásperos de Demetrio envolverem seu braço, impedindo-a.

—Adoraria que ficasse e me fizesse companhia. —Propôs, fazendo-a virar e encará-lo. —Se importa?

Ela sorriu e se deixou ser guiada por ele, que a levou ate o banco e se sentou no balanço, batendo ao seu lado para que ela sentasse. Mary não ousou proferir uma única palavra, não quando quem estava sentada ao seu lado era Demetrio. Podia sentir as bochechas queimando, dando-a a certeza de que ela estava corada.

—Então, posso saber o nome da dama? —Perguntou ele, olhando-a ligeiramente por sobre o ombro.

—Mary Anne, mas pode me chamar de...

—Irei te chamar de Bela Anne. Combina com sua beleza. —Disse ele, rindo diante da falta de jeito de Mary.

Ele não falou mais nada, só encarou o céu que agora escurecia os poucos. Mary finalmente tomou coragem e resolveu falar alguma coisa, mas antes que ela pudesse proferir qualquer coisa ele se virou bruscamente e franziu a testa.

—Você não é a Dama da Rainha? —Perguntou de supetão.

—Sim, eu sou a Dama da Rainha. Faz alguns anos alias. —Contou, tentando controlar a ansiedade na voz. —Mas e você? O que gosta de fazer?

—Gosto de estar na companhia de mulheres bonitas e agradáveis. —Disse ele com um sorriso travesso. —Mas fora isso, adoro cavalgar.

—Nunca cavalguei. Deve ser divertido. —Revelou, tentando ignorar a declaração dele.

Demetrio olhou para o pulso, verificando o horário e se levantando devagar.

—Me desculpe, tenho de ir. —Disse ele, pegando a mão dela e depositando um beijo demorado ali. —Espero encontrá-la mais vezes.

Ele sorriu e se afastou, caminhando para dentro do palácio, desaparecendo em meio aos corredores bem iluminados do interior do castelo.

O que acabou de acontecer? —Pensou ela, confusa. —Demetrio me cortejou. Isso aconteceu realmente?

Mary encarou o teto, esticando-se na cama. O dia havia sido corrido e a única coisa que queria era uma boa noite de sono em sua cama quentinha e confortável.

Mas antes que pudesse apagar a luz, ouviu a batida na porta. Antes que se levantasse e fosse atender, ouviu a porta se abrir. Só tinha três pessoas que entravam em seu quarto sem permissão ou qualquer tipo de autorização: A Rainha, Thomas e...

—Anne? Você esta ai? —Perguntou Jany, da sala de estar.

—Estou na cama!

Jany não esperou mais nada. Os passos rápidos dela soaram contra o piso de mármore, a sola das pantufas fazendo um baixo ruído. Logo ela apareceu a porta do quarto, os cabelos castanhos caindo em cascata pelos ombros expostos de Jany, a camisola de alcinha não lhe proporcionava muito abrigo contra o frio. Ela sorriu e correu para a cama, se enfiando em baixo das cobertas.

—Seu pai novamente? —Perguntou Mary, se acomodando na cama, ao lado de Jany.

A Lady assentiu, não falando mais nada.

Entendendo a situação, Mary apagou a luz do abajur e voltou a se acomodar nas cobertas, sentindo o corpo quente de Jany ao seu lado.

Jany sonhara com aquela noite novamente, quando era somente uma menina de onze anos.

Acordara no meio da noite, com medo do barulho dos trovoes que castigavam o mundo lá fora. Não pensou duas vezes em correr para o quarto da mãe, pois sabia muito bem que seu pai não estava presente naquele momento, provavelmente estava em alguma taverna ou bordel da cidade.

Um calafrio percorreu seu corpo quando as solas dos pés entraram em contato com o mármore frio, o que a fez correr mais rápido para o quarto da mãe, que ficava alguns corredores à frente. Mas, quando finalmente chegara aos aposentos dos pais, pode ouvir os gemidos abafados da mãe, os choramingos que ela se esforçava para não soltar. Com curiosidade a menina se aproximou e abriu uma fresta na porta, observando a cena que se passava no interior do quarto.

Ela engoliu um gritinho ao ver a cena que se passava no interior do quarto. A mãe estava ajoelhada de costas para ela, o pai logo atrás com um relho de couro nas mãos. As costas da mulher já estavam terrivelmente machucadas, as feridas sangravam e mesmo assim ela não emitia nada mais que alguns gemidos abafados. Antes que Jany tomasse alguma atitude o relho desceu, o couro estalando contra a pele mutilada.

A mulher não sucumbiu, ela choramingou e reposicionou os braços, ergueu a cabeça e sem uma palavra ela ergueu os ombros e encarou o espelho a sua frente. Ela arregalou os olhos ao ver o reflexo da filha, os lábios abrindo-se ligeiramente e formando uma palavra.

Jany.

O relho desceu novamente, e desta vez ela não se mexeu, seus olhos azuis encaravam a filha pelo espelho, concentrando-se nela. Os lábios se moveram novamente, formando uma frase curta, mas que a menina conhecia bem.

Esta tudo bem, minha querida.

Jany engoliu um soluço, mas não se moveu. Se a mãe podia agüentar tanta dor ela podia agüentar e se tornar a ancora da mãe. Forçou um sorriso e sussurrou para mãe.

Eu te amo.

O relho desceu mais uma vez, e mais outra, e mais dezenas de vezes ate que o homem se deu por vitorioso, jogou o relho no chão e agarrou a mulher pelos cabelos, forçando-a encará-lo. Ele abriu um sorriso e ergueu o corpo flácido da esposa com um puxão.

—Agora você vai ver do que um homem de verdade é capaz. —Disse, jogando a mulher na cama e se aproximando devagar. —E depois, vai implorar por mais.

Jany correu, sabendo que não iria mais agüentar ver a cena que estava por vir. Em prantos, ela correu até o quarto da dama de companhia de sua mãe, a senhora Elida. Desesperada ela bateu na porta com força, gritando para que Elida abrisse. Quando finalmente a porta se abriu ela correu e abraçou a dama com força, soluçando.

—O que houve minha filha?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.