Boneca Humana
7 Capítulo 6 — Ajeite sua gravata
Notas iniciais
PRIMEIRO SHOW DE OS ENGRAVATADOS! PRIMEIRO SHOW DE OS ENGRAVATADOS! Uhuuuuuuuuuul! Eu mal conseguia esconder a minha felicidade.
— Será no Plasma 501. Conhecem este lugar? — Philippe perguntou para os garotos quando deu a ótima notícia. Eu, é claro, estava ao lado ouvindo tudo e comemorando.
— Está brincando? — Logan se empolgou. — O Plasma 501 é o “Salão Vampírico” de Bridgeport! Qualquer banda amadora sonharia em tocar lá um dia.
No pouco tempo em que estive aqui, não consegui aprender tudo sobre Bridgeport. Mas eu conhecia a expressão “Salão Vampírico”. Conhecido pelo seu design clássico e sombrio, o Plasma 501 era nomeado assim devido aos boatos de que vampiros frequentavam-no em séculos passados. Eram meros boatos, claro, mas não deixavam de ser interessantes.
— E eu consegui essa oportunidade para vocês. Será neste sábado, às 8 da noite. Acham que conseguem?
— Sem sombra de dúvidas, senhor. — Clark confirmou. Sei que os meninos não estavam gritando e pulando de felicidade por vergonha (e porque, francamente, é meio gay), mas vontade não faltava.
— Podemos deixar as gravações para a próxima semana e focar no repertório do show. A gente consegue. — David afirmou.
— Mas lembrem-se: O público que frequenta o Plasma 501 é um pouco… “Restrito” com o tipo de música. Devemos ter um repertório rico, mas, além das nossas composições, devemos dar preferência a rocks do século passado. — Tyler sugeriu. — The Beatles, Elvis Presley, Bon Jovi… Ou, ao menos, tocar músicas que não sejam “pesadas” para o ambiente.
— E se vampiros vão mesmo lá, temos que tocar alguma coisa que condiz com a época deles. — David riu.
Achei curioso o fato de eles conhecerem músicas antigas. Hoje em dia, quase tudo é remixado e víamos na mídia poucas músicas no estilo rock — quanto mais um rock do século XX! Acho legal que eles tentem retomar esse tipo de música. Principalmente porque eu adoro Elvis Presley.
Ficamos conversando por mais um tempo, acertando detalhes do show e eu, é claro, passei a semana divulgando-o em Sweet Amoris e chamando todos os meus amigos para irem.
— No Plasma 501? Sério? — Iris Gilbert, uma estudante de nossa classe (ruiva como eu, adorei isso!), disse. — Vai ser incrível! Poderíamos até fazer camisetas de fã-clube!
— Pra ir ao Plasma 501? Que brega! — Rosalya discordou. — Nem pensar.
— Por que não? — Iris perguntou. — Violette até poderia fazer o desenho das camisetas.
Violette, a garota de cabelos roxos que eu havia mencionado anteriormente (aquela que fez as pizzas com os trigêmeos Phillips), era ótima com desenhos. Seu sonho era ser aceita em LeFromage, a famosa escola de artes francesa. E, quando terminasse o ensino médio, eu não duvido que ela será aceita. Violette desenha de tudo, seus desenhos parecem sair do papel de tão reais.
— Porque é um salão! — Rosalya disse, como se achasse a ideia mais absurda do mundo. — Você não vai com camisetas de fã-clube para um salão! Lá é um lugar chique! O máximo que vai acontecer é as pessoas rirem da nossa cara.
— Bem, podemos ser chiques com camisetas. — Arrisquei. — Não estamos mais em 2030. É só tentar combinar o estilo e fazê-las de um modo mais “formal”.
— Eu acho isso uma total perda de tempo. — Bia Devolle, outra estudante de nossa classe, falou. Não a conhecia muito bem, mas, pelo que os outros disseram, ela era uma puxa-saco de Ambre Armitage e adorava criticar os outros. — Essa empolgação toda só pra ver uma banda que ninguém conhece?
— Que em pouco tempo será famosa e fará você engolir suas palavras! — Falei.
— Estou pagando pra ver! — Bia desafiou, me fazendo ficar irritada.
— Olhem só: Estou pouco me importando se vocês vão com camisetas, vestidos, fantasias, pijamas ou a droga que for. Só sei que irei fazer uma matéria completa para o jornal da escola sobre o show. — Disse Peggy Turpin, a repórter e editora do jornal de Sweet Amoris. Rosalya havia me contado que ela era enxerida mesmo e nunca pedia permissão para publicar algo sobre uma pessoa. Ela simplesmente publicava, e fodam-se as consequências.
— Fique à vontade. — Falei. Não era seguro discordar. Vai que ela cisma comigo e começa a investigar para encontrar algum segredo pessoal e publica no jornal da escola para se vingar? O pior: E se esse segredo fosse sobre eu não ser humana de verdade? De acordo com as meninas, Peggy ia fundo para buscar informações e não desistia até encontrá-las. Então, era melhor não arriscar.
— Os meninos vão? — Melody perguntou. E com isso, ela queria dizer: “Nathaniel vai?”
— Sim, já conversei com eles. — Respondi. — Todos estarão lá.
— Do jeito que meninos são ciumentos com essas boybands, vamos ter que tomar cuidado com qualquer coisa que fizermos. — Iris deu uma risada.
— Ah, pra quê, Iris? Atiçar as feras é a coisa mais legal que se pode fazer por aqui! — Riu Kim. Com sua pele morena, cabelos pretos e curtos e olhos verde-esmeralda, Kim Watson era, com certeza, a estudante mais bonita de Sweet Amoris. E tinha um corpo perfeito que me deixava morrendo de inveja (não se preocupem, é inveja boa).
— Não deixa de ser verdade! — Concordei com Kim, rindo junto com as outras meninas.
♪ ♫ ♩ │▌▌▌│▌▌│▌▌▌│▌▌│▌▌▌│▌▌│▌▌▌│▌▌│▌ ♪ ♫ ♩ └└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└└
Poucas horas antes do show, eu e as meninas já estávamos arrumadas. Não havíamos feito camisetas, mas combinamos de ir com roupas das mesmas cores que a dos Engravatados — vermelho e preto.
— O que acham do meu vestido? — Rosalya perguntou, girando do outro lado da tela do notebook. Estávamos eu, Rosalya, Wendy, Iris e Kim conversando por webcam em grupo.
— É lindo, Rosa! — Wendy respondeu.
— O seu também é maravilhoso, Wendy! — Kim disse. E, sem dúvidas, ela era a mais bonita de nós cinco. Kim não usava um vestido (ela odiava vestidos), mas sim um espartilho vermelho juntamente a uma saia preta e uma meia com cinta-liga de rendinha. Ela estava sexy e ao mesmo tempo descolada. Eu adoraria ser ousada o suficiente para ter um estilo assim.
— Quando os meninos vão, Kap? — Iris perguntou.
— Já foram, pra falar a verdade. — Respondi, passando um pouco de rímel. E então ouvi meu pai gritar meu nome. — Oh! Tenho que ir, meninas. Nós também vamos na frente pra ajeitar tudo. Até daqui a pouco!
Desliguei a webcam e peguei uma carona com meu pai até o Plasma 501. Ele era exatamente como eu imaginava, e, pra falar a verdade, até melhor. O pessoal que frequentava aquele lugar costumava ser os socialites e as celebridades de Bridgeport (eu até reconheci Lola Belle lá dentro, a famosa cantora pop). Encontrei os meninos em cima do palco, ajeitando os instrumentos. Mas Clark não estava com eles.
— Onde o Clark está? — Perguntei, chegando até o palco.
— Clark foi buscar a namorada, Lianna Bardot. — Tyler disse. — Acho que ele não deve demorar muito.
— É bom mesmo. O show começa em uma hora. — Disse meu pai, Philippe, vindo até nós.
Percebi que os garotos ficaram um pouco pressionados. Era raro meu pai ser rígido assim com eles.
Meia-hora havia se passado e Clark não voltava. David ligava como um louco para o celular dele, mas sempre caía na caixa postal. Todos os meus amigos já haviam chegado e estavam se perguntando o que havia acontecido com Clark.
— Ele foi buscar a namorada, bando de estúpidos. — Castiel disse. — Provavelmente rolou sexo e eles não querem ser incomodados.
— Que tipo de sexo demora meia hora, Castiel? — Kim perguntou, rejeitando a ideia.
— O melhor sexo do mundo! — Castiel lançou um olhar malicioso.
— Gente, dá pra parar de falar merda? — Falei. — Estamos com um problema aqui!
— Pessoal, silêncio! — David disse, erguendo seu celular e mostrando a tela para nós. — É o Clark, ele está ligando.
— É bom que ele tenha uma ótima desculpa para demorar tanto! — Philippe já estava perdendo a paciência.
— Cara, onde você está? Já está quase… — Começou David ao atender a ligação. — Oh! Sim… Jesus, você está de brincadeira comigo? Não! Não pode! Ele tem que… Tá legal. Tudo bem, eu falo para os outros.
David desligou.
— Não era o Clark, era um dos médicos do hospital de Bridgeport. — Ele disse. — Clark estava vindo com a Lianna e os dois sofreram um acidente. Clark vai ficar bem, mas ele está inconsciente e não vai poder vir para o show.
— Já era, então! — Logan disse. — Clark é guitarrista e vocalista. Sem ele, a gente não pode fazer o show.
— Você está curtindo com a minha cara? — Philippe se zangou. — Deu o maior trabalho conseguir um show aqui, então nem pensem em cancelar!
— Querido, acalme-se! — Lucia estava praticamente implorando.
— Eu não quero nem saber! — Ele gritou. — Vocês vão estar naquele palco daqui a 15 minutos com ou sem Clark Oss! Se não fizerem isso, o contrato está cancelado!
Mamãe o levou rapidamente para longe de nós, para evitar que ele se zangasse ainda mais e acabasse descontando na pessoa errada. Eu estava preocupada não só pelo meu pai, mas também pelos Engravatados. Não era culpa deles. Philippe tinha razão em estar zangado, mas não deveria ter gritado ou ameaçado daquela forma.
— Meu Deus! — Tyler limpou o suor da testa. — O que vamos fazer? Sem guitarra e vocal é impossível fazer um show!
— Temos que tentar, não podemos perder o contrato! — David disse, colocando a mão no ombro de Tyler.
Tyler suspirou e assentiu com a cabeça. Eu queria ajudá-los, mas não sabia como. Eu nunca havia me apegado à uma banda que gravou com meu pai, mas com Os Engravatados foi diferente. Eles eram gentis demais para serem prejudicados dessa forma.
Então, uma ideia súbita me veio à cabeça. Era loucura, eu sabia. Mas eu tinha que tentar.
— Castiel, Lysandre! — Fui até eles. — Vocês têm que substituir o Clark.
— Epa! Vocês têm? — Castiel disse com um ar de desprezo. — Como se fosse uma obrigação? Não é culpa nossa se seu amigo sofreu um acidente.
— Por mim, tudo bem. — Lysandre concordou. — Será um prazer ajudar.
— Obrigada, Lysandre! — Pedi. — Castiel, ainda precisamos de um guitarrista.
— Vá você! — Castiel disse. — Você toca guitarra muito bem, pode substituir o Clark.
— Meu pai jamais irá concordar em me deixar subir ao palco! — Falei. — Ele disse que não quer que eu siga uma carreira artística.
E era mesmo verdade. Desde quando fui criada, Philippe deixou bem claro que, apesar de muitos almejarem o sucesso, poucos conseguiam se destacar de verdade. A vida de alguém que possui uma carreira artística não é fácil: Tem que ficar correndo atrás de contratos, gravadoras, shows, além de ter que fazer a publicidade e lançar músicas que gerem sucesso. E, por mais talentoso que você fosse, não quer dizer que você será famoso e terá algum retorno. Era um ramo arriscado e seria melhor se eu não fizesse parte dele. Nunca discordei, é claro. Ele era meu pai e só estava pensando no meu bem. Além do que, ele tinha experiência no assunto, então não estava mentindo.
— E você faz tudo o que o papai manda? — Castiel provocou.
— É, faço. — Encarei-o. — Algo contra?
Castiel calou-se e deu um suspiro bruto.
— Ainda não irei tocar. Não fui feito para me apresentar em salões. O público é mesquinho demais pra mim. — Castiel cruzou os braços.
— Por favor! — Pedi. — Eles não podem se apresentar sem um guitarrista. E se não se apresentarem, eles perdem o contrato. Faça este favor para mim!
— Nem vem! Você já gastou o seu favor comigo no Dia da Pizza, lembra? — Castiel disse.
— Mas eu não gastei o meu. — Lysandre interferiu. — E se for para ajudar, eu gasto o meu agora. Castiel, se apresente conosco, por favor?
Todos os olhares se voltaram para Castiel, como se estivessem fazendo pressão para que ele aceitasse. Ele bufou e acabou concordando. Dei um suspiro de alívio e torci para que meu pai não se opusesse. David foi falar com ele enquanto Tyler e Logan conversavam com Castiel e Lysandre e explicavam tudo sobre o show. Nesse momento, eu cruzei os dedos para que tudo desse certo.
Os minutos se passaram e chegou a hora do show. Os rapazes subiram ao palco e olharam para as pessoas do salão. Logan no baixo, Tyler no piano, David na bateria, Castiel na guitarra e Lysandre no vocal. Juntos, eles dariam um show memorável.
— Boa noite! — Tyler pegou o microfone e começou a falar. — Antes de começarmos, pedimos desculpas pela mudança de repertório. Nosso companheiro, Clark Oss, sofreu um acidente no caminho para cá e está hospitalizado. Bom, sem mais delongas, queríamos dedicar a primeira música para ele. Espero que gostem do show.
Ouviram-se aplausos pelo salão e Tyler voltou para o piano. Então, eles começaram a tocar.
Livin’ On A Prayer (cover by Alex Goot) → http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=krJyRN1BekI
Todos nós aplaudimos muito. A voz de Lysandre era ainda melhor no microfone, porque ele não parecia inseguro de estar no palco. Castiel, por outro lado, estava hesitante. Mas ele estava certo sobre o pessoal que frequentava o Plasma 501: Eram um pouco mesquinhos, especialmente pela maneira como batiam palmas. Não eram animados como nós de Sweet Amoris.
O show continuou e estava ficando cada vez melhor.
Time After Time (cover by Alex Goot) → http://www.youtube.com/watch?v=hwozQ7yf1WI&feature=player_detailpage#t=38
Wide Awake (cover by Alex Goot) → http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=k3cUN70Qm34
Wonderwall (cover by Alex Goot) → http://www.youtube.com/watch?v=DXjrbhr2mIU&feature=player_detailpage
E assim foi. Os Engravatados não puderam tocar nenhuma composição deles porque Lysandre e Castiel não conheciam muito bem, mas, apesar disso, eles estavam se saindo bem até demais para um improviso. Eu estava orgulhosa dos meus amigos.
E então notei que Logan direcionou seu olhar para uma garota que acabara de sair da área VIP para assistir ao show. Ela estava maravilhosa em seu vestido preto com penas na altura dos ombros. A garota se posicionou bem na frente do palco e fitava os garotos sorrindo. Principalmente Castiel, no qual ela manteve seu olhar por um bom tempo.
— Olha só, temos uma celebridade aqui conosco! — Ao terminar a música, Logan disse ao microfone e apontou para a tal garota. — Debrah Blocch, senhoras e senhores.
A plateia aplaudiu e Debrah abriu um grande sorriso para todos. Debrah Blocch… Eu já havia ouvido falar dela. Em Malibu, eu frequentava constantemente a casa de Rachel. E a irmã dela, Jenna, era vocalista de uma banda chamada Stars From Nightmare. Pouco tempo antes de eu me mudar, ouvi Jenna se queixando de ter sido expulsa da banda e substituída por uma tal de Debrah Blocch. Seria ela?
— Senhorita Blocch, seria uma honra que você cantasse uma música conosco. — Logan disse. Olhei para Castiel e percebi que a proposta de Logan havia deixado-o meio perturbado.
— Por que não? — Debrah concordou e subiu ao palco, sendo aplaudida por todos. Então ela e Lysandre começaram a cantar:
Counting Stars (cover by Alex Goot & Chrissy Constanza) → http://www.youtube.com/watch?v=cSLAO7zxS2M&feature=player_detailpage
O público adorou a apresentação. Debrah e Lysandre formavam uma bela dupla e a voz dos dois combinava em uma sincronia perfeita.
Ao invés de descer do palco, Debrah ainda cantou mais algumas músicas com eles. Mas percebi que Castiel ainda se sentia incomodado com a presença de Debrah Blocch no palco. Ele tentava ao máximo não olhar para ela e quase tremia ao ter que fazer esse esforço. E, quando olhava, mesmo que por míseros segundos, ficava um pouco mais pálido que o normal, logo desviando a atenção para o público. Uma coisa era certa: ele não estava com a mesma concentração ou a mesma tranquilidade que tinha antes de vê-la. Pra falar a verdade, acho que ele errou umas três notas na guitarra depois que Debrah apareceu. E eu me perguntava por quê. Talvez ele não gostasse da Stars From Nightmare ou os dois possuíam uma certa rivalidade, não sei. Mas havia alguma coisa errada. Ah, com certeza havia!
Quando o show terminou, os frequentadores do Plasma 501 voltaram para o bar e eu fui parabenizar os meninos. Philippe, meu pai, também veio. Pelo visto, ele havia se acalmado.
— Vocês são mais que demais! — Falei, fazendo um high five com Tyler.
— Foi um bom improviso. Meus parabéns! — Philippe disse. Ele não estava contente por ter sido diferente do planejado, mas sabia que os garotos foram incríveis mesmo com o pequeno imprevisto. Porém, ele nunca admitiria isso.
— Obrigado, senhor. Fizemos o melhor que pudemos. — David disse, suspirando de alívio.
As outras meninas vieram dar os parabéns para eles também. Percebi que Castiel estava um pouco distante, conversando com Debrah Blocch. Não consegui ouvir muita coisa, a não ser algo como “senti sua falta, gatinho!” vindo de Debrah. Eles já se conheciam?
E então, o que aconteceu logo depois me deu certeza da resposta.

Castiel e Debrah estavam se beijando.
Fale com o autor