Ao norte do contado de Durham, na vila de Easington, a chuva caia em abundância, o céu nublado escurecia o povoado já obscuro e impossibilitava que Monique deixasse o casarão para seu primeiro dia no colégio.

A garota, até então, havia sido educada pela mãe e já se encontrava em idade avançada para o início de um convívio escolar, embora sua aparência não houvesse sofrido tantas alterações ao longo dos anos.

Não conhecia muito bem a luz do dia, sua pele era pálida e lisa, assim como a porcelana das raras bonecas herdadas da irmã falecida. Seus cabelos negros lembravam uma noite sem luar e trajava um vestido delicado que se confundia com a cor de sua pele.

Encontrava-se sozinha na grande casa pela primeira vez, pois a empregada havia sido demitida e Monique, deitada sobre o tapete que escondia o misterioso mapa desenhado no chão do Salão das Bonecas, lembrou-se das palavras de sua mãe:

“Nunca, jamais se atreva a seguir por este labirinto pelo mapa, está me entendendo?”

Ela compreendia e prometera, mas já era hora de desvendar o segredo que sua mãe a ocultava. Monique, que tinha uma excelente memória, havia decorado o caminho para o centro do labirinto de tanto observar o velho quadro ao fim do corredor, que continha a mesma imagem.

Subitamente, como se algo houvesse dominado seu corpo, começou a enrolar o tapete, revelando aos poucos o desenho ao chão. Era engraçado, pensou, não havia nenhum perigo naquilo.

Lilith, sua boneca preferida a encarava, como se pedisse para entrar na brincadeira. Não era bonita, tinha olhos escuros cheios de ódio e um aspecto sujo, mas Monique nunca a deixaria de lado.

Ela deu seus primeiros passos para dentro do labirinto, sem o conhecimento de que abria novas portas no casarão que antes estavam trancadas. Lilith a acompanhava, um passo de cada vez, sabia o destino de tal passeio.

A boneca preferida gostaria de avisar, mas som algum jamais escaparia de sua garganta congelada. Queria parar, mas era manipulada a seguir, guiada por uma força maior. Então, mesmo sem entender sua mensagem, Monique a deixou de lado e ela correu para fora do quarto.

Lilith ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada e encontrou-se com os olhos de sua irmã. Já era tarde, nada mais poderia fazer.

Monique puxou com força o braço da boneca de plástico, arrancando-o. Sentiria sua dor se não tivesse algo mais importante para terminar. O braço foi esfolado no chão, deixando a marca do plástico sangrento escorrendo pelo piso. Faltava pouco para chegar ao centro e então descobriria o segredo...

Mais um braço amputado, mais sangue e então o fim. Com delicadeza, Monique retirou a pesada tampa de aço trabalhado e ao invés da água transparente e límpida que normalmente se encontraria no interior de um poço, como ela decidiu nomear o buraco no chão, o que ela encontrou foi uma massa espessa e escura.

Seu coração pulsava forte contra o peito quando mergulhou seus dedos naquela não água, procurando por algo que não sabia o que era. O contraste do líquido preto com sua pele ficou mais evidente quando ela penetrou ainda mais dentro o poço. Sentiu o ar em contato com sua pele e agitou as mãos, tentando segurar o que quer que fosse.

Suas falanges fecharam-se em torno de uma corda, com força. Puxou-a.
O ar esvaiu-se de seus pulmões ao sentir uma corrente de energia rasgando seu corpo ao meio conforme seus braços emergiam do líquido, como se aquela corda que segurava estivesse ligada ao seu corpo.

Ignorou o calafrio que transpassou seu corpo logo após a dor maior que sentiu e puxou a corda novamente, decidida a descobrir o que havia do outro lado.

A cada movimento que fazia uma dor latente dominava seu corpo, estirando sua cabeça para o alto. Não pararia. Não pararia. Estava quase conseguindo. Todas as bonecas do Salão observavam a Monique atentas, em aguardo ao seu fim.

Um puxão mais forte e Monique foi jogada para trás. Durante os poucos segundos que prosseguiram tentou levantar, mas seu corpo não obedeceu a seu comando. Olhou ao redor, sem poder mover sua cabeça e encontrou a metros de si seu próprio corpo estendido ao chão.

Sangue algum jorrava de corpo decapitado, pois não havia sangue em um artefato feito de porcelana. Então este era o segredo que sua mãe a ocultava, pensou, era uma boneca, assim como todas as outras. Ela percebeu que sabia disso desde o princípio e que apenas não aceitava.

Queria voltar atrás, não ter desobedecido a sua mãe ou então apenas desculpar-se. Queria ser humana, apenas por um dia e não ser mais imatura. Vasculhava sua mente em busca de solução para não morrer. Não havia nenhuma. Nunca poderia realizar o sonho de ser humana, pois pusera fim a própria vida imaginária ao desobedecer às regras que lhe foram impostas...

Não podia gritar e nem esboçar alguma reação, mas o pânico e choque eram eminentes dentro de sua mente. Seus olhos não fecharam-se, mesmo que já não houvesse visão alguma. Todo o desespero de Monique foi sumindo junto com o fio da viva que ainda lhe restava.

Fim.

Notas finais
Quem não assistiu o videoclipe que usei de referência para escrever essa história pode ter achado um pouco confuso, mas espero que tenham gostado e gostaria de ouvir opniões. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.