Bon Appetite
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Depois disso, quase no final da aula, fomos buscar nossos materiais para ir para casa. Esperei a van exatamente no lugar que ela estacionava, assim que chegou tive que esperar mais pelo menos dois minutos para o pessoal do vespertino descer e daí eu subi.
– Ei Caio, o que você tem?
– Nada Marcela, estou cansado.
Eu não estava mentindo, estava mesmo cansado, mas as pessoas não estavam acostumadas a me ver assim, tinham muitos pensamentos me rondando, eu estava desesperado para ver Amanda, algo me dizia para abandonar tudo e ir falar com ela, mas eu tinha que me concentrar, pois minha escola não era brincadeira e eu estava prestes a perder meu alamar por física, eu tinha que estudar para o teste, que era na semana que vem, mas simplesmente não parava de pensar em todos os problemas que me cercavam.
– Ei cara, vamos pra quadra hoje? Jogo de vôlei, contra a quadra vinte e dois.
– Temos que estudar pro teste de física.
– Temos o fim de semana todo para ir estudar, vamos, vai ser legal, a Juba disse que vai ter que ir pro Cruzeiro, daí a gente aproveita e vai comer.
– Gabriel, o teste é na segunda! E eu to doido pra var a Amanda, se não estudar hoje, amanhã, depois de amanhã, sexta de tarde, sábado de tarde e domingo, vou perder meu alamar.
– Calma mano, foi só uma ideia.
– Desculpa.
– Ta de boa, relaxa, acho que...Vou estudar também.
Ficamos calados o resto do caminho, só abrimos a boca de novo para falar tchau.
– Ah, a mamãe ligou, disse que não vem para o almoço, torce pro Cauã ter descongelado a lasanha.
Chegando eu fui direto para a cozinha, dei de cara com ninguém menos que Agatha Souza.
– Oi Caio!
Parei, a olhei e depois olhei em volta, achando meu irmão sentado na mesa.
– Oi, Agatha.
– Hã? Agatha?
– Oi Marcela! Tudo bom?
Ela estava fazendo comida, o cheiro estava agradável.
– Eu sabia que o Cauã estava te pegando!
– É, eu não usaria esta palavra, mas, sim, próximos.
Olhei para o meu irmão e sentei- me ao seu lado.
– Eu falei com o pai dela, fica calmo.
– O que você disse?
– Perguntei se ele me daria autorização para levar a Agatha á um passeio e depois ir almoçar em minha casa.
– E ele?
– Riu e disse que eu podia sim, e também que fiz muito bem em ir falar com ele, que nossa família ganhou alguns pontos com ele.
– Isso é bom... Por que não pegou ela antes da Bruna?
Ele riu.
– Que disse que eu já não tinha o feito?
Rimos.
– Além do que, sem a Bruna, você não teria conhecido a Amanda, e então seria virgem para sempre.
– E qual o problema de ser virgem?
– Na sua idade? Muitos.
– Mas...
–Qual é... Até o Romano não é mais virgem!
– A Marcela é virgem.
– Porque ela sabe que vou cortar o bilau de quem tentar tirar isso dela.
Arregalei os olhos e balancei a cabeça.
– E se alguém cortar o meu?
– Vai ter que arriscar né?
Riu e passou de novo a mão em minha cabeça. Depois de um tempo nós fomos comer.
– Sua comida é gostosa Agatha.
Sorriu.
– Obrigada Caio, mas seu irmão me ajudou.
– Bom, a comida esta gostosa.
– Vocês até que fazem um bom casal.
Minha irmã disse, fazendo Agatha ficar um pouco vermelha.
– Ah, obrigada.
– Então, eu sinto muito, mas tenho que ir estudar.
– Ok, vai lá.
Meu irmão disse, me levantei da mesa e fui estudar, fiz uma ou duas pausas durante o dia, ouvi meu pai chegando, depois de um tempo minha mãe e também ouvi Agatha se despedindo de todo mundo e indo para casa.
Cauã entrou no quarto sete horas da noite, tinha acabado de sair do banho.
– Minha mãe mandou você parar de estudar, tomar um banho e ir jantar.
– Ok.
Me levantei e fui para o banho, depois do banho, troquei de roupas e fui para a cozinha, me sentei e esperei o resto da família.
Quando eles chegaram, começamos a comer, fui um dos últimos a sair da mesa, lavei meu prato e meu copo e então fui para a cama.
No dia seguinte acordei nas horas de sempre, mas meu pai falou que a gente podia dormir um pouco mais, ele nos levaria hoje, chegando na escola notei que Romano havia faltado, mas como a vida continua, tivemos três aulas de matemática, mas em uma delas o inesperável aconteceu...Um monitor entrou na sala e chamou a professora na porta.
– Professora, desculpe o incomodo, mas aconteceu um acidente e preciso saber se algum aluno dessa sala faltou.
– O...Gabriel Romano, por que?
– Aconteceu um acidente, não tem mortos, mas tem alunos da nossa escola envolvidos, talvez ele possa estar lá.
A professora arregalou os olhos e olhou para o resto da sala.
– Alguém tem o telefone ou o contato do Gabriel?
– Eu tenho!
– Liga pra ele e vê se ele está bem.
Estranhei, a professora não poderia ter feito isso, mas e daí? Meu melhor amigo pode estar mal agora.
Saí da sala e liguei para o celular de Romano, ele não atendia, então liguei para sua mãe?
– Alô?
A voz enfraquecida da Tia Ana atendeu o telefonema.
– Tia? Aconteceu alguma coisa?
– Caio? Caio, você está aonde?
– Na escola tia, por que?
– Ah, Caio, a van do Cruzeiro capotou, o Biel está no hospital, mas não posso ir para lá agora, eu não sei se ele está bem, alguém aí sabe?
– O tio Daniel não pode ir lá?
– Ele está a caminho, pode já ter chegado, mas não atende o celular, estou vendo o noticiário.
– Meu Deus...
Respirei três vezes, meu pai parecia ter acertado o dia de nos levar.
– Tia, eu te ligo se tiver notícias.
Voltei para a sala, a professora havia ligado a televisão, estava passando o noticiário, falando sobre o acidente, a van estava inexplicavelmente destruída, mostravam as pessoas sendo levadas pelos bombeiros, mas eu não via Romano e nem a Milena.
– O que aconteceu?
Todos olharam pra mim.
– A van capotou, e ele estava lá...Não sei de mais nada.
Mandei uma mensagem desesperada para minha mãe, falando que ela precisava ir ver se ele estava bem, ela me ligou.
– Professora, posso atender?
– Vai...Vai!
Disse ainda vendo as notícias.
Isso não era certo, mas estávamos todos agitados agora, a professora não ia conseguir dar aula nem se tentasse.
Fui atender minha mãe.
– Meu amor, e o que eu posso fazer?
– Mãe! É meu melhor amigo! Ele está lá sem ninguém! Ele é a porcaria da única pessoa que se importa comigo que não é dessa família e os pais dele não estão com ele!
– Mas meu filho...Eu não sou a mãe dele!
– Mas você é alguém que gosta dele! E que praticamente criou ele! Considere as milhões de vezes que ele ficou lá em casa, que ele dormiu lá! A gente precisa ir lá!
– Caio, por favor...
– Mãe! Se você não for eu dou um jeito de ir eu mesmo! Nem que eu seja expulso da escola, eu pulo esse portão e vou atrás dele!
– Tá Caio, já falou com a sua irmã? A amiga dela estava lá também.
– Não...Mas eu vou lá.
– Ok, estou indo pegar o carro, vou buscar vocês e vamos pro hospital.
O restaurante da minha mãe era incrivelmente perto da nossa escola, eu tinha que arrumar meu material e ir buscar minha irmã.
Entrei na sala.
– Professora, minha mãe veio me buscar, a senhora me da licença?
– Claro, vai lá.
Peguei meu material e desci até o segundo ano, fui para a sala da minha irmã e bati na porta, olhei pela janelinha antes, eles também estavam vendo o noticiário.
– Sim?
O professor me abriu a porta.
– Com licença professor, eu vim buscar minha irmã, nossa mãe veio nos buscar mais cedo.
– Claro.
Olhei para o corredor, logo vi a minha mãe.
– Oi filho.
Corri até ela e a dei um abraço.
– Mãe, busca minha autorização para sair mais cedo com meu monitor, lá em cima.
– Ok.
Ela foi.Minha irmã saiu de sua sala, estava com o rosto vermelho e cheio de lágrimas.
– Caio! A Milena ta mal, ela deslocou o ombro!
– E eu não sei como o Romano está, nos vamos pro hospital de base agora.
Ela me abraçou, levei um susto, foi um momento raro de amor demonstrado a mim, mas abracei ela de volta.
– Eu te amo Caio.
– Eu também.
Não sei porque, mas também tive uma leve vontade de chorar ao receber a notícia, primeiro que eu podia ter perdido meu melhor amigo para sempre, e segundo que eu tive a sorte de ter sido levado em segurança para a escola.
Coloquei a mão em sua cabeça e depois dei minha mão para ela. Mamãe voltou bem rápido e pegou a autorização com o monitor de Marcela.
Monitor: Bombeiro militar que decidiu trabalhar na escola, garantindo o comportamento dos alunos da série para qual foram transferidos, aplicam F.O e também dão elogios, além de garantir que na formatura estejamos marchando direito. Cada série tem dois monitores que ficam nos corredores dos blocos.
Saímos da escola e fomos para o carro, mamãe tentou ir o mais rápido que pode para o hospital.
Ao chegarmos lá, demos de cara com três monitores, Farkas, Oliveira e o Comandante da escola Elton.
– Senhores, procuro por dois alunos que sofreram o acidente.
Minha mãe disse.
– A senhora é mãe deles?
Um dos monitores perguntou.
– Não, mas quase, e quero ver eles AGORA!
– Quem são?
– Gabriel Romano e Milena...
Olhou para a minha irmã.
– Egler!
– É, Milena Egler!
Vem comigo, nenhum parente ou responsável do Romano chegou até agora.
– Sabe se ele está bem? Quebrou alguma coisa?
Perguntei.
– Calma aluno, você vai ver.
Seguimos o monitor até a entrada de emergência, onde estavam quase todos os alunos das van deitados recebendo remédios, não foi difícil reconhecer Romano, corri até ele.
– Gabriel! Você está bem?!
– Meu braço está doendo pra caralho, meu nariz também e bati a cabeça muito forte,mas fora isso tudo bem, quem é você? Caio? Não posso levantar a cabeça, não dá pra te ver.
– Sim! Caio! Você estava sem cinto né seu babaca? Achei que tinha morrido!
– Por que não veio na van?
– Meu pai quis nos levar hoje.
Riu, seu nariz estava sangrando muito, provavelmente estava quebrado.
– Sortudo desgraçado!
– Já te deram remédio pra dor?
– Deram, mas não ta ajudando muito agora...
– Certo eu...Vou ligar pra sua mãe, melhor...Vou pedir pra minha mãe fazer isso...
Corri até a minha mãe que estava sentada ao lado de outro garoto cujo os pais ainda não tinham chegado.
– Mãe, liga pra mãe do Romano, e fala que ele ta vivo e tudo mais.
– Ok.
Voltei pra ele.
– Eu caí em cima da Milena, desloquei o ombro dela.
– Não foi culpa sua, você sabe o que aconteceu?
– Até que eu gostei dela, ela me ajudou a levantar lá dentro, mesmo com o ombro machucado.
– Ah qual é, agora não é hora pra descobrir que estava apaixonado Romano.
– Di Roma!
Olhei para trás, era meu irmão.
– O que você está fazendo aqui?
– Depois de você ter ameaçado pular o portão da escola pra vir aqui e a mamãe teve que sair correndo pra ir te buscar, ela ligou pra mim e disse que era pra eu vir porque ela tinha que voltar pro restaurante.
Olhei para a saída, e lá se ia a minha mãe, no telefone, provavelmente falando com a tia Ana.
– Você ameaçou pular o portão da escola?
Romano riu.
– Fica rindo aí babacão, na próxima você fica sozinho.
Sorri e olhei para ele.
– Valeu cara.
Sorriu.
– Até que você fica engraçado cheio de sangue na cara.
Meu irmão comentou.
– Há...ha...ha...
– Pelo menos com isso talvez dê para diminuir esse seu narizão de batata.
Nós três rimos, um médico chegou e puxou a maca de Romano, falou que se quiséssemos, podíamos ir junto, eu fui, meu irmão ficou com a minha irmã.
– Vamos fazer um raio- X, ok Gabriel?
– Ok.
– Eu preciso que você fique parado aí.
Eles entraram na sala, tive que esperar do lado de fora, depois de muito tempo pude ouvir um barulho de salto batendo no chão muito forte e rápido.
– Caio!
Era a tia Ana, ela estava correndo até mim.
– Caio, que bom que você veio, meu chefe não podia me liberar e o pai dele também não podia sair.
– Ok tia, ele...Ta bem, provavelmente quebrou alguns ossos, mas esta bem, ele precisa comer alguma coisa também...
– Caio, você é um anjo!
Me abraçou.
– Ele é meu único amigo de verdade.
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