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1 Capítulo Único
— Quem conhece A balada do cárcere de Reading? — os passos duros da professora ecoavam pela sala silenciosa, enquanto Ellie conseguia escutar seu próprio suspiro melancólico.
Estava familiarizada com os poemas de Oscar Wilde visto que vez ou outra sua colega da fraternidade lhe flagrava chorando em cima das páginas amareladas.
Não estava triste, mas sentia-se sensível desde que deixara a pequena cidade de Squahamish. Não que odiasse Grinelle, longe disso; a cidade era colorida e arejada e possuía ótimos restaurantes dos quais Paul provavelmente amaria.
Saudade; era isso que lhe afligia. Exceto talvez, as palavras duras que sua professora citaria:
— "A gente destrói aquilo que mais ama
em campo aberto, ou numa emboscada;
alguns com a leveza do carinho
outros com a dureza da palavra;
os covardes destroem com um beijo
os valentes destroem com a espada.
Mas a gente sempre destrói aquilo que mais ama" — claro que isso doía mais que o sentimento de solitude.
O resto da aula foi um borrão. Estava absorta demais em seus próprios devaneios do passado. Sabia que era errado se culpar tanto por um erro longínquo, mas a noção de que tudo poderia ter sido diferente ainda lhe atormentava; e se houvesse revelado sua identidade antes? e se não tivesse concordado com a estúpida ideia de Paul? E se… Arg! Era estúpido pensar nisso.
Se não houvesse concordado em ajudar provavelmente teria lidado com um mês sem energia elétrica e sem cartas pensantes e demasiadas de singularidade.
Também não fazia sentido em se atormentar com algo que havia acontecido há dois meses — e que havia resultado no melhor beijo de sua vida —, mas Ellie ainda sim se culpava.
Parecia errado acordar toda manhã sem suas mensagens e perguntas aleatórias. Sua voz excêntrica e sua personalidade extravagante costumavam ser a elegância e euforia de seu dia, agora tudo que tinha eram trabalhos intermináveis e uma realidade dura a se aceitar.
Por isso, quando se viu agarrando o celular e escrevendo uma mensagem a ela no Ghost, não pensou nem mesmo duas vezes antes de enviar. Alguém havia dito, certa vez, que o amor era ousado, e Ellie não poderia concordar mais.
Corona Smith: estou me sentindo inquieta. Aliás, Olá.
Jogou o celular na bolsa, temendo receber — ou não — uma resposta. Saiu da sala com uma rapidez impressionante, sem se distrair com as inúmeras pessoas que passavam pelos corredores de Grinnell. O aparelho vibrou, fazendo com que seu estômago revisasse.
Diega Riveiro: é a maldição de todo artista. Não está gostando de Grinnell?
Ok, Aster Flores estava falando com ela, e pior; estava sendo gentil, como se fosse qualquer outra conversa matinal. Sentia-se estúpida por diversos motivos em questões de minutos, mas não soube controlar a ânsia que lhe dominava.
Smith Corona: Grinnell é legal, mas um pouco solitária. Falando em maldição e artista, como vai o curso de Artes?
Encontrava-se boba comendo um sanduíche despreocupadamente. Havia sentido falta do sentimento acolhedor que encontrava nas conversas banais com Aster.
Diega Riveiro: é difícil se expressar quando há tantos artistas incríveis a minha volta.
Smith Corona: não é como se existisse uma arte mais bonita do que a outra, elas são abstratas. Não te ensinam isso na faculdade?
Diega Riveiro: não, é uma péssima instituição, talvez você devesse lecionar aqui, se sentiria menos solitária.
Ouch. Riu com a mensagem enquanto encarava a tela de maneira abobalhada.
Diega Riveiro: desculpe, é que estou irritada.
Smith Corona: Por que?
Diega Riveiro: talvez pelo fato de que você não manda mensagem há dois meses…?
Seu rosto se contorceu em uma careta confusa, aquilo não era nem um pouco justo.
Smith Corona: Pensei que precisava de um tempo, você quem disse que nos veríamos daqui uns anos.
Diega Riveiro: há uma grande diferença entre ver e mandar uma mensagem, Ellie.
Bem, era verdade.
Smith Corona: Realmente achei que precisasse de um tempo. Por que não me chamou?
Diega Riveiro: Paul vive dizendo que você está atarefada, não quis atrapalhar.
Smith Corona: Está falando com Paul?
Diega Riveiro: é claro, como saberia se você está bem se não por ele?
Sorriu ao mesmo tempo que imaginava a expressão irritada de Aster.
Smith Corona: Se serve de consolo, Paul também era minha única fonte de informação sobre você.
Diega Riveiro: só para constar, não preciso de um tempo, não que eu tenha te perdoado totalmente, mas…
Beliscava sua pele pela ansiedade exacerbada, era incrível como ela conseguia mexer com todas as moléculas de seu corpo, até mesmo por simples mensagens de texto.
Diega Riveiro: sinto falta de conversar com você.
Smith Corona: Também sinto sua falta. Ao menos temos muito a conversar.
Diega Riveiro: claro. Tenho aula agora, mas talvez eu pudesse te ligar à noite?
Um pequeno grito eufórico escapou de sua garganta, atraindo alguns olhares curiosos. Mordeu o lábio antes de responder, querendo que o tempo congeladas naquele momento.
Smith Corona: Seria ótimo. Boa aula.
Guardou o celular e levantou-se animada. Talvez houvesse destruído a confiança ou a chance de um relacionamento confiável e sincero, mas Ellie estaria disposta a correr atrás e se esforçar para consertar seu erro.
Revirou os olhos ao perceber como soava com Paul, mas não importava, estava muito contente e apreensiva pela chegada da noite.
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