Bohémienne
3 À la Cour des miracles
Notas iniciais

A praça, não tão grande quanto a da catedral, mas ampla, apesar de mal cimentada como todas as praças e ruas de Paris, coloria-se quase por completo de vermelho, em tons que iam do vinho ao sangue. Nas tendas esticadas, com candeias acesas e mulheres de roupas coloridas. Era quase impossível de se ouvir alguma coisa. Todos falavam ao mesmo tempo, e nem todos a mesma língua.
Ao adentrarem no Pátio dos Milagres, Aimée insistiu que Gahel a deixasse ver se não havia se machucado mais do que sentia. Então entraram os dois na tenda que Luce e Aimée dividiam. Luce não entrou.
Pondo Malheur no chão e vendo-o correr entre as tendas para voltar depois. Ela ficou do lado de fora observando os demais proscritos refugiados naquele lugar uma pequena praça, encurralada contra a antiga muralha de Paris e protegida com a velha torre, ao pé dela, os aleijados esticavam as pernas, os cegos abriam os olhos e os miseráveis contavam moedas. Onde coxos andavam eretos e os caolhos recuperavam visão, sem a necessidade de um Salvador. O “Pátio dos Milagres”.
Luce não lembrava-se como, ou quando, chegara ao Pátio dos Milagres. Acreditava ter nascido ali, entre aquelas tendas e caravanas, como Aimée e como Gahel. Embora, algumas vezes, contestara com Clopin suas diferenças para com qualquer outro cigano. Ele sempre lhe dissera que seus pais foram ciganos de outras caravanas e que provavelmente haviam sido mortos por soldados da Inquisição. Mas simplesmente não conseguia deixar de reparar, toda vez que olhava a pele morena ou os cachos escuros de Aimée, tão diferentes da sua pele alva e seus cabelos alaranjados.
Ouviu algumas vezes parisienses mais velhos, falarem de rumores sobre Clopin ou Rosalie terem-na roubado de alguma família, para alguma “bruxaria”, mas apiedando-se dela a criaram como cigana. Até mencionavam nomes, que por um momento Luce até pensara já ter ouvido, mas recusava-se a imaginar Clopin ou Rosalie esgueirando-se para tirar uma criança do lado dos pais enquanto dormiam. E apenas vivia o dia seguinte, sem indagar-se sobre o próprio passado e sem visualizar seu futuro.
Pouco depois, Gahel deixou a tenda. Apenas olhou de canto de olho para Luce, com o rosto encerrado numa expressão distante. Logo em seguida, Luce entrou na tenda.
— Ele está bem? – Perguntou Luce para Aimée que limpava num cântaro de água um trapo.
— Não se machucou muito. Apenas o corte na boca, mas já limpei. E podemos inventar para Clopin que ele se cortou na caneca de vinho. – Respondeu Aimée.
— Isso foi tudo minha culpa. – Disse revirando os olhos e caindo sentada sobre os trapos feitos em colchão que lhe serviam de cama.
— Não Luce. A culpa é daquele homem nojento que tentou te agarrar À força. – Disse torcendo o pano com as mãos.
— Ele não teria tentado me agarrar se eu tivesse olhado para o meu caminho. – Falou lembrando-se de como estava tão focada em ir até a criatura encapuzada que não enxergou mais ninguém naquela taverna.
— Por que estou achando que você quer me contar alguma coisa? – A cigana sentou-se ao seu lado. Apesar de tudo que viviam, eram apenas duas garotas. – O que aconteceu, Luce?
— Durante todos os dias que estivemos na Cité, houve essa criatura. – Confessou hesitante. – Eu não sei o que, ou quem é, mas me seguiu todos os dias e fica me olhando.
— E o que essa coisa tem a ver com o que aconteceu na taverna? – Indagou Aimée.
— Estava lá. – Respondeu secamente. – Eu estava tão centrada em ir até aquela criatura, e perguntar o porquê de estar me seguindo tanto, de desmascarar o que quer estivesse embaixo do capuz, que não vi aquele homem e, por isso, eu esbarrei nele.
Aimée ficou apreensiva, com preocupação estampada nos olhos de ressaca, Luce viu claramente: ela sabia alguma coisa.
— Aimée, você sabe alguma coisa? Me diga. O que, ou quem, é essa criatura que eu vi? – Indagou Luce.
— Não. – Respondeu a morena. – Não sei de nada.
— Aimée, por favor! Me diga. – Exigiu Luce.
— Apenas me prometa uma coisa. – Pediu Aimée com rispidez.
— Qualquer coisa. – Disse Luce.
— Deixe Rosalie ler suas mãos. — Luce revirou os olhos. Não gostava da ideia de ser controlada pelos desenhos de suas linhas, pelo acaso de três cartas ou pelo dançar da chama de uma vela. – Eu sei que você prefere não saber o futuro, mas...
— Mas? – Interrompeu Luce. Cedendo de curiosidade sobre a criatura sob o capuz.
— É para o seu próprio bem. – Aimée fez uma pausa. Engolindo em seco. E pegou com sua mão, adornada de guizos, na de Luce.
— E outra coisa, — Luce apertou a mão de Aimée como sinal para que falasse. — Não saia mais sozinha. Leve sempre eu ou Gahel, ou qualquer outra pessoa, com você. Mas não fique sozinha.
— Mas por quê? Aimée, você sabe de alguma coisa. Algo importante e não está me contando. Por quê? Somos amigas! Por todos deuses do Egito e todos os santos das paredes de Notre-Dame, se você sabe de alguma coisa. Me diga! ... – Pediu Luce.
— Você está sendo seguida por alguém com um capuz. – Disse Aimée, aflita. – Já ouvi essa história antes. E ela não acaba bem...
Antes que Luce pudesse de pedir o resto da história à Aimée, Gahel as interrompeu puxando o tecido que fazia função de porta na tenda.
— Luce. Aimée. – Chamou-as, rindo. – Clopin voltou das ruas também. Está chamando todos pra festejar o dinheiro parisiense que ganharam.
Logo, ele desapareceu de trás do tecido. O alvoroço dos ciganos pelo retorno de Clopin, era audível de dentro da tenda.
— Isso não acabou. Você vai me contar tudo, exatamente e sem uma palavra a menos do que sabe. – Disse Luce se levantando e saindo à passos duros da tenda.
Quando empurrou o tecido uma voz lhe chamou pelo nome. Vinda do centro da praça, ao lado da fogueira.
— Luce! – Gritou novamente.
Era Clopin. O cigano de pesados e longos cabelos pretos que davam os primeiros indícios de gris intitulava-se “rei dos ciganos” e se portava com a soberania que, segundo ele mesmo, lhe cabia.
Luce correu da tenda até ele, sorrindo. O homem e a menina se entreolharam carinhosamente. Luce sorriu e beijou-lhe a mão áspera adornada de anéis falsos e, em seguida, abraçou o cigano.
— Eu senti sua falta. – Confessou Luce.
— Como Aimée e Gahel cuidaram de você durante esses dias nas ruas, petite? – Perguntou separando-se do abraço e olhando Luce de cima a baixo. Como quem procurava por algum machucado ou algo que lhe tivesse acontecido. — Você não tirou o amuleto, não é? – Perguntou-lhe com preocupação.
— Já estava demorando a ladainha de perguntas se fiz ou não fiz o que você acha certo. – Riu Luce. — Não se preocupe, não me desfiz do amuleto por um momento sequer. – Completou passando os dedos sobre a corda fina que lhe transpassava o pescoço com o pingente escondido sob a blusa.
Clopin riu em resposta.
— Posso roubar sua pequena, por instante, Clopin? – Rompeu uma voz doce e suave. Como a mulher a quem pertencia.
— Rosalie! – Exclamou Luce.
— Minha menina. – Suspirou a egípcia quando Luce atirou-se em seus braços como uma criança.
Rosalie tinha fartos cachos negros que exalavam forte cheiro de canela e, talvez para fazer jus ao nome, vestia-se sempre como uma rosa, cheia e desabrochada. E sempre de vermelho.
— Dançou como eu lhe ensinei em La Cité? Você terá que me contar cada passo que deram naquela praça. – Falou animadamente.
— Eu vou. – Respondeu Luce. Rindo nervosamente. Ponderando se esconderia certas coisas, como a Criatura Encapuzada, de Rosalie. Embora prometera à Aimée que diria.
— Celebremos essa noite! – Gritou Clopin à todos os párias da praça. E todos responderam com gritos eufóricos e palmas.
As mulheres, junto de Rosalie, gritaram em zaghareet*. Dando início a movimentação de festejos, os sons dos instrumentos, das palmas e dos risos ciganos. Os mais velhos, sentados, cantavam. As ciganas, tanto adultas quanto as mais novas, dançavam olhando umas às outras, girando, agitando as saias e rindo toda vez que erravam algum movimento.
Enquanto batia palmas, Luce virou-se para onde havia estado com Clopin. Ele não estava mais ali. Durante algum tempo, continuou a dançar na roda, sempre desviando o olhar para procurá-lo. Sem sucesso.
Rosalie puxou Luce e Aimée para ao meio da roda, onde começou a dançar. As duas mais novas imitando os movimentos de Rosalie. Todas tinham roupas coloridas. Todos batiam palma no ritmo da música e as outras ciganas continuavam a dançar ao redor.
De repente, a cantoria e as palmas foram interrompidas por gritos e palavras violentas. Três homens, entre eles Clopin, que ia à frente dos outros dois ciganos que arrastavam alguém pelas vestes. Um manto escuro, negro, e um capuz cobria o rosto.
— É a Criatura, Aimée. – Luce agarrou o braço de Aimée ao seu lado e correu perto da cena.
O rei cigano subiu em cima de um barril, apanhou o boullaye**, sentou-se como se fosse seu trono e ordenou aos homens que erguessem o gadjê***. Eles obedeceram e o despiram do capuz. Revelando-lhe o rosto alvo e de traços jovens, porém, enrijecidos pela dor que lhe infligia o modo que os ciganos o mantinham de pé, com os braços para trás e projetando-se para frente.
— Quem é você? E o que faz aqui? E seja bem específico. – Ralhou Clopin. – Eu lhe ordeno que fale.
— Um desvalido que também não pertence à esse lugar. – Respondeu o rapaz. Ele arfava cada palavra. — Vim pedir asilo.
— E algum de nós parece-lhe um beato de Notre-Dame para dar asilo à o desvalido que vem bater à nossas portas. – Rebateu o cigano. Sua expressão firme e solene era imóvel e ele olhava o rapaz fixamente, como uma serpente que prepara o bote.
O rapaz silenciou e baixou o olhar. Erguendo-o no canto dos olhos para corrê-los pelos rostos ao redor. Parando-os por um instante sobre o rosto de Luce e um brilho zombeteiro cruzou seus olhos.
— Rosalie. – Chamou a garota cigana virando-se para ela, parada logo atrás de Luce e Aimée, e depois voltando-se para ele. Não omitia seu nervosismo assistindo àquilo. – O que Clopin vai fazer com ele?
Ela deu um suspiro pesaroso antes de responder:
— Nesses casos, só há duas coisas que Clopin costuma fazer...
Antes de Rosalie terminar de dizer a Luce, mas Clopin ergueu o cabo do chicote à altura do queixo do rapaz e deu sua sentença.
— Vou dar-lhe uma chance de despertar minha misericórdia e não mandar que o enforquem. Como eu disse, não somos beatos. Asilo no Pátio dos Milagres não é algo que damos, mas que é conquistado por mérito. Cada um de nós já provou com suas vidas que merece nosso profano santuário. Mas como não quero ouvir você falar da sua vida, — Ele girou o açoite na mão e abaixou-o. – você vai ter que passar por uma prova.
Ao ver Clopin quase sorrir de satisfação. Luce voltou-se novamente para Rosalie.
— Eu não acredito que ele vai fazer isso. – Retrucava a boêmia.
— Fazer o que? – Indagou Luce.
— Esse rapaz vai ser enforcado de qualquer maneira. Não há como ele passar essa prova. – Rosalie falou com uma estranha nostalgia.
Clopin fez um sinal. Homens saíram do tumulto e voltaram, após um momento. Trouxeram dois postes terminados na parte inferior por estrados que os sustentavam de pé e na extremidade oposta havia uma viga transversal adaptada. O todo formava um palanque e uma forca.
Luce arregalou os olhos, vivera no Pátio dos Milagres por todos os seus anos e jamais vira coisa parecida. Seu susto aliviou-se ao ouvir um som de guizos e ver que traziam também um tipo de espantalho, vestido com roupas vermelhas e enfeitado com inúmeros guizos, sinos e tudo que tilintasse.
Os homens subiram no palanque e na corda, já amarrada com nó de forca, penduraram o manequim. Logo em seguida desceram e Clopin ordenou ao rapaz:
— Sobe.
Os dois ciganos que seguravam-lhe os braços, soltaram-no. E o rapaz subiu ao palanque.
Nesse momento, Luce soltou-se de Aimée, que de tão absorta na cena mal reparou. Andou por entre os demais que viam o alvoroço até a lateral do palanque. De onde via Clopin com o canto do olho e o rapaz e o manequim, virados de lado, à sua frente.
— Vou lhe dizer o que vais fazer: — Disse Clopin enrolando as pontas de couro do boullaye em volta da mão. – Você vai alcançar o bolso do manequim; procure ali dentro uma bolsa. Faz isso sem soar um guizo que seja e será um dos nossos.
— E se um dos sinos soar? – Indagou o rapaz arqueando uma das sobrancelhas.
— Nesse caso, — Clopin deu um falsos suspiro pesaroso — teremos que enforcá-lo. Compreendeu?
— Sim. — Respondeu ele.
— Agora, apressa-te que ninguém de nós quer perder a noite toda com isso. – Bradou Clopin em meio a uma risada ébria.
O rapaz escondeu o rosto atrás do manequim e sua expressão de inquieta angústia de repente transformou-se na mais petulante confiança. Um simples gesto no ar e os pêndulos de cada guizo e sino pôs-se na palma de sua mão. Assim, começou a apalpar o espantalho em procura do bolso.
Ninguém parecia ter visto a façanha do rapaz, exceto por Luce. E quando ele enfiou a mão no bolso do manequim e tirou dali a bolsa, Luce arquejou por denunciar a trapaça. Mas calou-se ao lembrar de que, se o fizesse, ele seria pendurado na forca no lugar do boneco.
— Não percam a noite por mim, então! – Exclamou ele quando ergueu na mão a bolsa.
— És um dos nossos. – Disse Clopin, com certo desagrado, desmontando sua cena enquanto punha-se de pé novamente e entregava o chicote à um dos ciganos que confiava.
Os festejos recomeçaram, como se não tivessem sido interrompidos. Os gritos alegres e a cantoria das ciganas, a música dos instrumentos e as danças. Todos retornavam ao antigo ânimo. Exceto Luce, que enquanto dançava e cantava com Aimée e Rosalie, sentia os olhos daquele rapaz sobre ela. E quando virava-se podia vê-lo a fitar fixamente seu rosto.
Fale com o autor