Bohémienne
5 Un miracle étonnant si vous en sortiez vivants
Notas iniciais

Quando Aimée entrou bufando na tenda, Luce olhou-a com estranhamento. Mas continuou a tentar os cabelos ruivos com uma fita de pano.
— O que houve? – Indagou.
— Gahel. E um ciúme do qual ninguém escapa. – Respondeu a garota, servindo-se de um pouco da água dos cântaros de barro.
— Quer falar sobre isso? – Perguntou Luce desistindo da fita e passando a amarrar um lenço azul de franjas sobre a saia marrom.
— Não. – Falou Aimée levando as mãos com água a boca.
— Está bem.
— Eu só fiquei furiosa porque – Irrompeu ela. – eu não estava fazendo nada.
— Sim. – Concordou Luce, sem prestar atenção, apertando o nó do lenço.
— E ele acha que pode me dizer o que fazer. Quem ele pensa que é? – Esbravejou.
— Não temos condições de sermos alguém, Aimée. – Riu Luce ironicamente.
— Exatamente! – Gritou. – Lidamos com o fato de valermos menos que. E ainda querem nos limitar ao convívio com nós mesmas?
— Você percebeu que está criticando o Gahel por ter te impedido de fazer alguma coisa, mas criticou-me por ter ido à Notre-Dame sozinha? – Perguntou Luce cruzando os braços.
— São situações completamente diferentes, Luce! – Ralhou Aimée. – Você podia colocar-se em perigo. Eu estava apenas conversando. E Gahel puxou-me de repente como se eu fosse uma cabra teimosa. – Disse franzindo o cenho.
Luce revirou os olhos.
— Eu gostaria que eu estivesse realmente fazendo algo que o deixasse louco. E ir bem debaixo do nariz dele e esfregar. – Desabafou esfregando os punhos, fazendo tilintar suas pulseiras.
Quando Luce ergueu a cabeça, rindo da ideia de Aimée, uma mão enfeitada de pulseiras amarradas até em torno dos dedos empurrou a porta.
— Rosalie. – Precipitou-se Luce e saudou-a com um abraço.
— O que houve? – Indagou Aimée percebendo o olhar apreensivo da mulher.
— Apenas vim ter certeza de que estavam bem. – Disse olhando nervosamente ao redor. – Vocês duas não viram o gadjê recém-chegado por aí, não é? – Perguntou ela.
As duas entreolharam-se, titubeando por um instante.
— Ele tentou se aproximar de mim, essa manhã, mas desconversei e saí. Por quê? – Questionou Luce.
— Ce n’est rien. Não é nada.— Acalmou Rosalie, embora inutilmente pois seu ar de preocupação continuava o mesmo antes de voltar-se para Aimée. – E quanto à você Aimée?
Ela gaguejou, surpresa, mas contou:
— Logo depois de Luce sair, ele conversou comigo. – Rosalie já arregalou os olhos. – Foram poucas palavras. Do nada, Gahel apareceu e me puxou de lá sem motivo nenhum.
— Tinha motivos, sim. – Disse aflita.
— Que motivos? Ele não me disse! – Rebateu ela.
Rosalie tirou os cabelos negros do rosto e pôs as mão na cintura.
— Não sei como nem o que, mas, Gahel descobriu alguma coisa sobre o gadjê. E contou para Clopin.
Quando Rosalie falou isso, Luce mordeu a língua, para dissimular, mas já adivinhara todo o ocorrido.
— Agora estão os dois e mais alguns dos homens de Clopin, bufando como touros e revirando cada canto do Pátio dos Milagres atrás dele. – Disse a boêmia.
Luce engoliu em seco. Sabia do quanto Clopin era impulsivo. Ele seria capaz de mata-lo com a própria adaga, se tivesse a chance. A traição era um pecado mortal, até mesmo entre os pagãos. Muito mais uma traição contra o próprio povo pária e cigano que acolhia sobre o chão sujo, porém desprovido de reservas, do Pátio dos Milagres, os malditos de Paris.
Logo iniciou-se do lado de fora um rebuliço de gritos e xingamentos, que só eram ouvidos nas grandes execuções da Praça de Gréve. E, embora Rosalie tentou impedi-la, Luce correu para fora. Rosalie e Aimée a seguiram.
Saindo no exato momento em que o gadjê passava correndo ao lado da tenda. Quando ele a viu, parou por um instante. Um mísero segundo. Que foi suficiente para que Gahel, Clopin e o restante dos ciganos o emboscassem. Levando-o dali, arrastado.
— O que vão fazer com ele?! – Perguntou Luce para Rosalie.
— Na mais otimista das opiniões? – Retrucou a cigana. – Vão enforcá-lo.
Luce sentiu, de súbito, uma vertigem que ameaçou tirar-lhe a força das pernas. Quando em sua mente veio a imagem de um corpo à balançar na corda sobre o cadafalso. A imagem, que só conseguia associar ao futuro do pobre rapaz, na verdade, lhe despertara um sentimento de uma lembrança que não conseguia recordar. Uma névoa sempre cercava suas lembranças e fazia sua cabeça latejar.
No dado tempo, começaram a soar dos tambores ciganos e os gritos. Ao mesmo a voz de Clopin chamava a todo cigano ou ladrão à comparecer à lá para um julgamento.
E todos ciganos, ladrões e demais curiosos atenderam à convocação. Criando uma multidão no centro da praça. Quando já terminavam de trazer a forca, dessa vez sem o espantalho, apenas a corda pronta para ser presa à um pescoço. A forca causava em Luce tamanho temor que ela mal conseguia respirar, porém com os olhos fixos no objeto, não conseguia deixar de olhá-lo, ao mesmo tempo de procurava em sua mente o motivo de sentir-se assim.
Clopin estava ao lado da forca. Uma coroa de latão jazia sobre seus cabelos sujos. E cada insígnia, que não significavam, de fato, coisa alguma, estavam com ele. Nem um de seus trapos estava mal posto. Apertava nas mãos o boullaye e as franjas de couro rangiam entre seus dedos. Sua expressão, dura e imponente, de rei não escapavam seus olhos negros, transbordados de raiva.
E assim que terminaram com a forca e o cadafalso, Gahel e outro cigano, do outro lado do Pátio trouxeram o gadjê de cabeça baixa. Puxavam-no pelos braços, com os pulsos atados com grossas cordas e passaram no meio da multidão com ele.
O rapaz tentou olhar na direção de Luce ao passar por ela. Mas o outro cigano acertou-lhe um tapa na cabeça para que continuasse a andar com os olhos fixos no chão.
Clopin subiu no cadafalso, ordenou que todos fizessem silêncio e, em seguida, que subissem com o gadjê.
— Irmãos! – Clamou o cigano quando o acusado subira ao palco do julgamento. – Nossos anciãos da Tribo do Egito confiaram a mim o poder de guiar e proteger nosso povo. E, por isso, estou submetido à honrar o que nossas leis pregam. – As palavras de Clopin ecoavam por todo o Pátio dos Milagres. Tomando a atenção de todos.
— Esse rapaz. – Apontou com o boullaye o gadjê. – Valeu-se da nossa Lei do Asilo e nos traiu. Foi meu erro permitir sua entrada e estadia em nosso meio. – Falou virando-se aos anciãos, homens de idade mais avançada que estavam de pé logo a baixo da cadafalso. – Eu vos peço perdão. E peço também permissão de julgar esse gadjê segundo as leis e costumes nos quais fundamentam-se nossas vidas.
Os anciãos concederam aos pedidos de Clopin. E ele deu seguimento ao julgamento.
Luce, ao lado de Aimée, ouvia cada palavra apreensiva. A acusação contra o gadjê era de traição do código que regia a harmonia entre ciganos e não-ciganos no Pátio dos Milagres. O que era um afronte aos ladrões, ciganos e demais párias. Não foi citado o ocorrido do teste do espantalho.
Diante da possibilidade de assistir ao enforcamento do rapaz, Luce tentava sair da multidão mas não conseguia sequer sair de seu lugar. Tinha de haver um modo de impedir que a execução acontecesse.
— Não há direito de defesa para ele? – Questionou para Aimée.
— Há. – Sussurrou em resposta. – Mas é completamente inútil. Só serve para humilhar, ainda mais, o coitado.
— E o que é? – Indagou Luce.
— A Lei da Boêmia.* – Sussurrou ainda mais baixo.
— O que é isso? – Perguntou.
— Ele pode ser salvo se alguma mulher aceitar toma-lo por marido. – Respondeu Aimée.
Luce mordeu o interior da bochecha, pensando sobre o que Aimée disse.
— Não está realmente pensando em clamar a Lei da Boêmia em favor dele, não é? Você mesma disse que quer ficar distante dele porque ele te perseguiu em Paris. Está louca?!
— Não. Eu não. – Disse Aimée. – Você vai!
— O que?! – Aimée arregalou os olhos.
— Não disse que queria dar um motivo para o Gahel sentir ciúmes, de verdade? É sua chance. Clame a Lei da Boêmia e deixe ele pensar que você realmente está considerando casar-se com o gadjê. Depois desista. – Disse Luce no exato momento em que Clopin terminava o julgamento.
— Por assim tê-lo feito eu, Clopin Trouillefou, rei dos ciganos da Tribo do Egito, o declaro: — Ele fez uma pausa como se houvesse suspense de seu julgamento. – Culpado.
A multidão começou uma algazarra de gritos, apoiando o julgamento de Clopin, enquanto colocavam a corda ao redor do pescoço do gadjê e o faziam subir num banquinho de três pernas.
O rapaz, porém, disfarçava sentir-se impotente de salvar-se. Debatia os pulsos contra as cordas, espetando e cortando-se com ela. Desesperando-se, somente, quando Clopin se aproximou dele. Mas ainda, fingia.
O boêmio quase sorria ao preparar-se para chutar o banquinho que debaixo dos pés do gadjê.
Quando a voz de Aimée gritou mais alto que todas as vozes na multidão:
— Clopin, pare!
Todos os ciganos e bandidos que assistiam a cena. E, principalmente, Clopin e Gahel olhavam para Aimée consternados.
— Há uma de nossas leis a qual você está se esquecendo. – Clamou.
Gahel, adivinhando, o que viria a seguir fitava Aimée indignado.
— Esqueceste, então, da Lei da Boêmia? – Perguntou ironicamente. Embora, trêmula.
Clopin cerrou-se a expressão enraivecida novamente. Olhou de relance para os anciãos, claramente descontentes por ele ter deixado a Lei da Boêmia de lado.
— Trés bien. – Resmungou entre dentes.
Tomou fôlego e tornou a gritar para falar com a multidão.
— A Lei da Boêmia permite ao condenado uma última chance de salvação. Ou casa-se com uma das nossas mulheres ou a corda.
O rapaz, desconcertado, não foi capaz de dizer algo. Clopin apenas chamou as mulheres que tivessem interesse para subir ao cadafalso.
Aimée abriu espaço, caminhou por entre a multidão e subiu. Circundou o rapaz, intercalando entre olhar o gadjê e Gahel, no canto de seus olhos tentando disfarçar a raiva que fervia em seu peito.
— Então, mulher, queres toma-lo por marido? – Perguntou Clopin.
— Não é bem o que eu quero. – Disse rindo cinicamente, dando meia volta e descendo o cadafalso.
Depois de Aimée vieram mais três. Que fizeram a mesma coisa. Torciam o nariz e viraram as costas. Apenas para rir da cara do rapaz.
— Meu amigo infeliz. Parece que não há bruxa ou gata que o queira! – Riu Clopin. – Ninguém o quer? – Gritou, imitando um leiloeiro.
Luce torcia-se ao ver seu último esforço para desviar-se de um enforcamento ser em vão.
— Ninguém o quer?! Uma... – Clopin ria. – Duas... Três.
Clopin preparou-se novamente para chutar o banquinho, quando ouviu a voz de Rosalie e Aimée gritarem:
— Luce! Luce!
A garota desaparecera na multidão e reaparecera aos pés das escadas do cadafalso.
O homem parou-a no topo da escada:
— O que acha que está fazendo? – Perguntou ríspido.
— A Lei da Boêmia é clara. Desde a bruxa até a gata, qualquer uma que quiser pode ter intenção de toma-lo. – Disse Luce.
— Eu a proíbo de se oferecer para casar-se com esse gadjê. – Falou ele.
— Você não é meu pai para decidir isso. – Rebateu ela. – E como não tenho um, eu mesma decido.
Clopin arfava de raiva. Mas não tinha argumentos contra isso e, se negasse novamente a Lei da Boêmia, os anciãos se voltariam contra ele. Então deu passagem para Luce ir até o rapaz.
A garota parou diante dele, tendo de erguer a cabeça para olhá-lo nos olhos, imóveis e frios como pedras de jade, na mesma cor delas. Respirando fundo, hesitante do porquê estava fazendo isso. Apenas para evitar a cena do enforcamento. Que nem sequer sabia porquê tanto temia. Mas algo em sua mente apenas gritava para afastar-se disso.
— E então, Luce, o queres? – Indagou Clopin.
Luce, congelou por um instante tomando coragem.
— Sim. – Disse ela.
O rosto de Clopin contorceu-se de raiva. Mas, logo, forçou-se a cobrir seu desgosto. E ordenou que tirassem a corda do pescoço do gadjê.
Gahel e o outro cigano, a contragosto, o libertaram. Desfizeram o nó corredio e o mandaram descer o rapaz. Enquanto Clopin ordenava que trouxessem a moringa de barro para que se realizasse o casamento.
Embora ele estivesse um pouco desnorteado, fitava Luce confuso. E ela o olhava sem expressão.
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