Blue Sky
5 Mentiras sinceras me interessam.
Notas iniciais
Caio F. Abreu
Fui para o meu sofá e me deitei. Muitas coisas passavam em minha cabeça, como um filme mudo, onde eu somente via os rostos e os sorrisos. Eu havia enfrentado muito coisa até chegar ali. Havia enfrentado o mundo para ser feliz, nem que fosse escondida. Como amante de um homem que também me amava. Ás vezes, eu achava que Bernardo sentia pena de Maite, sentia dó. Sentia um carinho por ela, e isso me machucava. Pois eu sabia, que mesmo não a amando, Bernardo a tratava muito bem. Com todo o respeito e educação que ele tinha. Lembro-me até que certa vez, pude ver uma foto dos dois em um piquenique. Ela estava acomodada em seus braços e ele sorria. O que eu poderia pedir? Ele já me dava tudo que podia. Seu amor, seu carinho, sua compreensão. Mas agora, teria de engolir o meu trabalho e minha vida independente, e daquilo eu não ia abrir mão.
Levantei-me e preparei um café, preto e forte. Em um impulso, acariciei minha barriga, querendo sentir a nossa sementinha se movendo. Que tola! Ri sozinha e tomei meu café. O dia já estava quase no fim, o crepúsculo logo chegaria. E eu queria poder saber se Bernardo viria naquela noite. E isso me machucou mais uma vez. Era toda noite assim. Eu nunca podia contar com sua presença. Afinal, Maite não poderia sequer sonhar que ele a traísse. Embora, eu, se fosse ela notaria o furo econômico na empresa. Obviamente, eu não me privava de meus vestidos de alta costura e nem nada disso. Eu podia ter absolutamente tudo que ela tivesse. E se não podia ter Bernardo como meu marido, fazia-o sentir todo o prazer, ao menos na cama. Comigo.
Quando dei por mim, já eram 19:00 horas da noite. Ouvi a campainha tocar e fui atender. Quando abri a porta, vi Bernardo com o maior sorriso do mundo e segurando uma roupinha de bebê. Ri e me lancei em seus braços, ali mesmo. No meio do corredor. Ele me levou para dentro, me enchendo de beijos por todo o rosto.
— Olá minha vida. – Ele falou calmo, ainda agarrado em mim. Eu não respondi, seu cheiro me dominava.
Ele me sentou no sofá, e se ajoelhou a minha frente, deixando a roupinha de bebê sobre minhas pernas. Suas mãos acariciaram levemente minha barriga e ele a beijou, tão calmo e tão doce.
— Oi minha sementinha. – Ele sorriu bobo, como se esperasse uma resposta e meus olhos se encheram de lágrimas. Ele me olhou. – Vem cá, meu amor. – Ele se levantou, sentando ao meu lado e me puxando para perto de seu corpo.
Aconcheguei-me em seu tórax e fechei os olhos.
— Você é tudo que eu pedi na minha vida, Ber... – Ele beijou meu cabelo.
— E você é muito mais do que eu pedi, Du.
Ficamos tanto tempo daquela forma, que eu quase me esqueci do mundo lá fora.
— Vamos jantar? Vou ligar para aquele restaurante japonês. Concorda?
— Claro que sim. Você é quem manda gostosão. – Ele riu e correu para o telefone.
Fui até a cozinha e peguei dois pratos, talheres e duas taças. Coloquei tudo sobre a mesa de granito da nossa sala de jantar.
— Já pedi. – Ele gritou enquanto ia para o quarto.
— Tá, amor. – Eu fui até o quarto e o vi retirando o terno e afrouxando a gravata. Sorri e massageei suas costas gentilmente. – Está cansado?
— Um pouco. Tive uma reunião com os acionistas. – Ele sorriu de leve.
— Ih, toda aquela baboseira? – Ele somente assentiu. – Tome um banho e relaxe um pouco, a comida vai chegar logo. – Ele sorriu, deu-me um selinho e seguiu para o banheiro.
Voltei para a sala e liguei o som. A música preferida do Ber.
Eu pude ouvir sua risada e ele cantando junto com a música. Logo o rapaz da entrega chegou. Paguei e ele se foi. Arrumei a mesa e Ber já estava saindo do banheiro. Ele apenas colocou o short rapidamente e veio até a mesa.
— Já disse que você está especialmente deliciosa hoje? – Eu ri e meu rosto flamejou.
— Não. E eu já disse que hoje você está especialmente gostoso e safado? –Ele riu e mordeu meu lábio. – Vem, vamos jantar.
Ele se serviu e se sentou. Logo eu fiz o mesmo e me sentei.
— Julia veio aqui hoje. Ela está muito empolgada com a minha gravidez. – Ele riu. – É sério, amor. Ela parece mais empolgada que eu.
— E você não está feliz? – Ele perguntou.
— Ah, claro que estou. Só que parece que a ficha ainda não caiu. Sei lá. Tá tudo tão bom, que parece mentira. – Eu ri e levei os hashis até a boca.
— Mas não é mentira, Du. E eu também estive pensando, podíamos comprar uma casa. Uma casa com jardim, piscina. Com mais espaço, entende?
— Pra quê? Pra eu poder me sentir mais sozinha? – Eu neguei. – Não. Eu gosto deste apartamento. Aqui me sinto no meu lugar. Em uma casa, seria mais complicado. Muito espaço, pouca gente. Odeio a solidão.
— Du, é pelo bebê. Afinal, vamos precisar de espaço quando ele nascer. Ele terá seu quartinho, um jardim, um salão de jogos, quem sabe. E até podemos fazer uma biblioteca.
— Ah, Ber... Não sei não. Eu não quero me sentir sozinha. E quero meu bebê sempre comigo. Ao menos poderá me fazer companhia. – Ele apenas me olhou de soslaio.
— Tudo bem. Vamos deixar isso pra lá, ao menos por enquanto. – Eu assenti. – O que me conta de novo, amor?
— Ah, eu tenho mesmo uma novidade pra te contar. – Eu falei meio baixo, tentando criar coragem. – Fui convidada a ser colunista da Cars. – Eu disse como se estivesse despreocupada.
— Como assim? E você recusou, obviamente. – Ele me olhou, confuso.
— Não, Ber. Eu aceitei. E você sabe o quão isso é importante pra mim. – Eu disse definitiva.
— Duda, eu nunca te deixei faltar nada. Por que isso agora? Tem algo faltando pra você? – Ele perguntou, enquanto levantava da mesa deixando o prato com quase toda a comida.
— Não é questão de me faltar algo. Isso é a minha realização profissional. Eu não quero e não posso ficar na suas costas a vida toda. Eu preciso disso para a minha realização. – Eu disse e me levantei também, indo até a sacada.
— Você não precisa trabalhar. E além do mais, está grávida.
— E por acaso isto é algum tipo de doença agora? Por Deus. Eu vou trabalhar Berrnardo. Queira você ou não. – Eu disse, sem olhá-lo.
— Se é o que você quer o que eu posso fazer? – Ele disse, ainda ressentido. – Só quero que me prometa, aliás, quero que jure que se qualquer coisa acontecer nesse seu novo trabalho, você saia imediatamente. Estamos combinados? – Ele me olhava, sério.
— Tudo bem. Eu juro. – Eu sorri, vencedora. E o olhei. – Obrigada meu amor. Juro que não vai se arrepender. – Ele sorriu meio de canto, ainda a contra gosto.
— Espero realmente não me arrepender. – Ele sorriu e me abraçou.
Ele terminou de jantar, e eu fui tomar um banho. Quando terminei, vesti meu pijama. Um pijama meio infantil, mas afinal a noite estava ficando fria. Coloquei o pijama e também meias e pantufa. Voltei pra sala e Bernardo caiu na gargalhada ao me ver.
— Que foi? – Eu perguntei.
— Você tá linda. É isso. Tá parecendo uma criança, e não a mãe de uma. – Eu ri e pulei no sofá.
— Amo você, bebê. Mais que a minha vida. – Eu disse enquanto apertava suas bochechas.
— E eu também, vida. – Seus lábios percorreram meu rosto.
— Você vai dormir aqui, não é? – Eu perguntei.
— Claro que sim. Maite foi a uma exposição, e dormirá em um hotel. A exposição é em São Paulo. – Ele sorriu.
— Então você vai me fazer dormir, awn. – Eu ri e o abracei. Ele riu também.
— Amor, você é linda. – Ele sorriu. – Mas e aí, já pensou em nomes pro baby?
— Não muitos. Mas se for menina, será Líz. Você gosta?
— Adoro. Eu acho lindo. E se for menino?
— Ainda não sei. Que tal, Arthur? – Eu sorri, o olhando.
— Arthur é lindo também. – Ele sorriu.
Ficamos por muito tempo pensando em nomes. Por vezes discordávamos e ele ria com a minha irritação. Já estava ficando tarde. O sono parecia que ia me pegar a qualquer hora. Decidimos ir para a cama. Bernardo se lançou na cama, e ligou a televisão do quarto. Enquanto eu ia até o banheiro fazer minha higiene. Quando voltei, Bernardo estava com meu livro preferido em sua mão, lendo algumas partes aleatoriamente. Deitei ao seu lado, com o travesseiro mais alto, de modo que eu ficasse quase sentada.
— Eu amo esse livro. É lindo. – Eu sorri e ele me puxou pra junto de seu corpo.
Ele se sentou na cama, e puxou minha camiseta até abaixo dos seios, e acariciou minha barriga. —
— Vamos ler um pedaço? – Eu o olhei, confusa. – Vamos ler pro nosso filho, ou filha. – Exatamente – disse a raposa. – Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo… – Ele parou de ler e me olhou.
— Você me cativou. E você se torna eternamente responsável por aquilo que cativas. Lembra-se? – Eu lhe perguntei. Bernardo fechou o livro e o colocou sobre a cama, beijou minha mão e sorriu.
— Você também me cativou. E és pra mim, única no mundo.
Meus olhos estavam repletos de lágrimas, beijei seus lábios carinhosamente e o abracei. Deitados ali, no silêncio da noite escura, eu só podia ouvir nossas respirações e o meu coração, que batia fortemente. O sono me embalou. Adormeci.
Na manhã seguinte, me deparei com a cama vazia. Levantei-me e fui até o banheiro. Escovei os dentes e fui tomar meu café, Bernardo já havia saído para a empresa e com certeza, Maite chegaria cedo a sua casa. O telefone tocou, e fui atendê-lo.
— Alô.
— Oi, filha. É a mamãe. Estou no aeroporto, pode vir me buscar? – Ela perguntou dócil, e eu senti meu estômago embrulhar.
— Claro, mamãe. Eu chego logo. – Desliguei e corri me vestir.
Coloquei a primeira roupa que encontrei, saia de cintura alta, blusinha branca e salto alto. Prendi os cabelos em um rabo de cavalo.
Peguei minha bolsa e desci pelo elevador. Peguei meu carro e fui em direção ao aeroporto. No caminho, liguei para Julia.
— Alô, Ju?
— Du? – Ela bocejou. – Oi, Dudinha. Que horas são?
— São onze horas, Ju. Escute, preciso de sua ajuda... Minha mãe acabou de chegar ao aeroporto, estou indo buscá-la. Mas preciso que você vá para a minha casa e que avise Bernardo. Por favor.
— Tudo bem, mas fiquei calma. Eu vou resolver tudo. Se cuide.
Ela desligou e logo eu cheguei ao aeroporto. Corri para a área do desembarque doméstico e lá estava ela. O rosto ainda era o mesmo de anos atrás, o cabelo estava mais comprido e seus olhos pareciam brilhar de expectativa. Corri até lá, e a abracei fortemente.
— Que saudade, Maria Eduarda. – Ela falou, já com a voz embargada.
— Eu também, mamãe. Muitas saudades. – Controlei-me para não desabar em lágrimas.
Ajudei-a com as malas e voltamos para o carro.
— Esse é o seu carro? – Ela perguntou, com os olhos arregalados.
— Sim, mamãe. Pode entrar. – Eu disse, enquanto abria a porta e ela entrava, sem jeito.
No caminho até em casa, trocamos poucas palavras. Ela parecia absorta em tantas informações novas. Quando chegamos, Julia estava apreensiva parada em frente ao apartamento. O celular na mão, e Felipe ao lado.
— Olá Ju, oi Felipe.. – Eu disse brincalhona e dei um beijo em cada um. – Mamãe, se lembra da Julia, não é? – Ela apenas assentiu, abraçando Julia.
— Ai, Tia Fátima, que saudade. – Julia disse, e logo a apresentou á Felipe. – Esse é Felipe, meu namorado.
— Prazer Felipe. Sim, Julia. Também senti saudades. – Ela sorriu, meiga. – Mas você sabe como é a Maria Eduarda, ela não me liga, não me dá satisfações.
— Chega com esse papinho, gente. Vem, vamos entrar. – Todos se dirigiram para dentro do apartamento e minha mãe estava de boca aberta.
Ela parecia cética em tudo que via. De fato, ela não esperava que eu estivesse tão bem de vida.
— Mas nos diga, como foi de viagem? – Felipe perguntou extremamente educado, enquanto se sentava no sofá.
Os dois começaram a conversar e puxei Julia para um canto qualquer.
— Avisou o Ber? – Perguntei, aflita.
— Sim, avisei. Ele disse que chega assim que puder. E que traz o almoço. – Ela sorriu. – Hei, fique calma, nada de mal vai acontecer.
— Ah, não? E quando ela souber que não sou casada com Bernardo? E que sim, sou amante dele? Vou morrer. – Desabafei, agoniada.
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