Blue Sky
10 Intocável.
Notas iniciais
Eu não parei até ter certeza de que estava longe o suficiente. Julia não parava de gritar perguntas sem nexo algum para mim naquele momento. Eu só dirigia. Só queria chegar.
Parei em frente ao prédio de Julia, sem dizer nada. Destravei as portas e fiz um sinal com a cabeça. Naquele momento eu não era eu. Eu era um misto de confusão, surpresa, excitação e hesitação.
– Entra! Vamos conversar! Você não está bem. O que aconteceu? – Ela me suplicava, e a lágrima que escorria de meu olho ardia em meu rosto. Balancei a cabeça de forma negativa e então ela desistiu. – Me ligue quando precisar! Estou sempre aqui, Du! – Ela desceu do carro.
Não esperei que ela entrasse como de costume. Acelerei e segui pelo centro até meu apartamento. A música que tocava no rádio quase se sintonizava com o meu choro, eu não só chorava como queria gritar, gritar para que o mundo ouvisse. Eu sentia e revivia o toque, o beijo, o encontro a cada dez segundos e a cada vez que isso acontecia eu queria despedaçar. Eu me sentia tão suja. Me sentia suja por ter gostado, por ter desejado aquilo. Eu já o imaginava nu, em minha cama, me fazendo delirar e isso me fazia mal. Eu estava errada! Eu não podia estar certa, aquilo era errado! Errado! Errado!
Cheguei até meu prédio e nunca o portão me pareceu tão demorado. Estacionei o carro quase de qualquer jeito e agradeci quando vi que o elevador estava parado exatamente ali. Tirei meus sapatos ali mesmo, enquanto ouvia o barulho do elevador. Olhei para o espelho e vi a maquiagem borrada, o cabelo vermelho contrastava com os olhos negros escorrendo. Senti-me tola!
– Sua idiota! Você merece mesmo, Maria Eduarda! – Repeti para mim mesma enquanto passava as mãos sobre os olhos tentando tirar toda a maquiagem dali.
O elevador finalmente parou em meu andar. Vasculhei a bolsa em busca da chave e abri a porta. Levei um susto ao ver o sapato de Bernardo no hall de entrada. Andei devagar até o quarto e ele estava lá, deitado de bruços dormindo, e aquilo só acabou mais comigo.
Tentei ser o mais silenciosa possível, mas ele acordou.
– Ei! – Ele coçou os olhos – Onde você estava? O que aconteceu? Você estava chorando... – Ele falou ainda sonolento.
– Tá tudo bem... – Falei, tentando convencer a mim. Ele levantou rapidamente e veio até mim. Esticou os braços tentando me confortar e eu o empurrei. – O que você quer? Pedi pra que não viesse aqui. Achei que você tivesse entendido.
– Duda... Já chega disso! Vem cá vem... – Eu o empurrei novamente.
– Não me toque, por favor! Eu só quero ficar sozinha. Quero me afastar! – Eu gritei entre soluços.
Percebi que ele estava assustado. Aquela não era a Duda que ele conhecia. Ele desceu as mãos até o quadril, tentando pensar e suspirou.
– Me fala vai. O que aconteceu? Tá tudo bem com o bebê? – Ele perguntou, preocupado.
– Tá tudo ótimo com o bebê! – Joguei a bolsa sobre a cama e fui até o banheiro. Ele ainda me seguia. – Precisamos conversar! – Eu falei, antes de empurrá-lo para fora e fechar a porta.
Tirei minha roupa e prendi meus cabelos, tomei uma ducha e limpei meu rosto com demaquilante. Enrolei-me em uma toalha e saí. Ele estava sentado na cama. Ele era lindo, eu não podia negar. E aquilo me deu um choque. O que eu tinha feito de errado? Eu sabia que éramos feitos um para o outro. Eu sabia. Parece que só o destino que não havia sido avisado.
Ele me olhou de canto, pude ver uma lágrima depositada ali. Sentei ao seu lado. Ele pegou minha mão e aquilo corroeu um pouquinho do meu coração.
– Eu quero um tempo. – Eu pedi.
– Não, Du! Não é assim que a gente resolve. – Ele falou, deixando escorrer uma lágrima.
– E como é Ber? Com você casado e eu sendo sua amante a vida inteira? – Ele desviou o olhar. – Me olha. Me diz se é isso que você quer pra mim. Por que eu não quero essa vida. Eu fui muito boba de acreditar em você. De viver isso. Eu não te culpo, culpo a mim. Eu fui tola, fui inocente. Eu te amei cegamente. Coloquei a mão no fogo por você, mas para quê? – Fui forte, segurei o choro.
– Eu te disse que daria tudo que você quisesse... – Ele tentou justificar.
– Só não pode me dar seu amor por inteiro. Nunca vai me apresentar para o mundo como sua mulher. E isso eu não quero mais. Quero que você seja feliz. E quero me dar uma chance.
Ele parecia não acreditar no que ouvia. Ele levantou e andou pelo quarto, os olhos baixos...
– E o nosso filho, Duda? Você não pensa nisso? – Ele perguntou, a voz engasgada.
– Eu penso. É por ele que eu vou me dar uma chance. Eu não quero que ele seja o bastardo a vida inteira. Eu não quero ter que lhe explicar dia após dia o porquê ele é menos especial do que seus outros filhos... Ou porque ele sempre será deixado de lado nas férias na Disney, ou porque talvez você não venha em seu aniversário... Eu acho que é uma carga pesada demais para uma criança. – Eu falei e estava sendo sincera. – Além do mais, eu conheci um outro alguém...
Eu quase não pude terminar a frase e ele me olhou furioso. Ali não era o meu Ber.
– Você o quê? – Ele perguntou ainda incrédulo. – Você só pode estar brincando comigo!
Um estalo. E de repente toda a minha penteadeira estava no chão, tudo quebrando, partindo. Ele estava transtornado. Entrou no closet e não deixou nada em seu lugar. Todas as roupas estavam voando closet a fora e meus sapatos sendo jogados no chão. Eu gritava. Eu só pedia pra ele parar.
Uma dor. Uma dor tão forte tomou conta do meu corpo. Eu fui desfalecendo lentamente... Só ouvia uma voz ao fundo.
– Duda! Duda! Duda! – Ele gritava sacudindo meu corpo.
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