Blue & Red

3 O bilhete - Capítulo 3


Fechei o livro.

Toda minha força tinha se esgotado, como se um caminhão de tijolos tivesse sido descarregado em mim. Um frio correu por entre minhas veias. Por todos aqueles anos, eu tinha acreditado que meus pais morreram em um acidente de carro. Eu lembro até hoje, quando abracei meu vô contra a vontade dele, logo depois dele me contar a mentira.

Virei o rosto, deixando as lágrimas caírem. Foi quando me lembrei do pequeno bilhete colado na capa do livro. Tirei-o, quase o rasgando de tanta raiva. Solucei, começando a ler:

“Peço desculpas por nunca ter contado isso para você.

Aconteceu tudo a muito tempo, dezoito anos atrás. Eu vivo viajando entre mundos paralelos, minha querida. Mas teve um que eu fiquei mais. Lá, era um mundo de maravilhas.

Eu era um mago muito poderoso. Um dia, uma jovem me procurou. Ela era linda. Se chamava Abigail. Ela implorou que eu a ajudasse. Estava grávida. Não tinha forças para parir. Eu a acolhi, e me apaixonei por ela. Mas um dia, ela foi arrancada de mim. Os guardas do rei a levaram, um mês depois de seu filho nascer. Eu implorei que não a levassem, mas não teve jeito.

O filho dela era seu pai, Luna. Ela morreu quando seu pai completou 5 anos.

Eu fiquei muito triste. Pedi aos sábios que ajudassem o seu filho. Anos depois, um dragão me entregou um pequeno colar de suas escamas e um mapa. O seu colar, Luna. E o mapa do Planeta Gaia.”

Olhei por vários lados, mas não tinha nada mais escrito. Vovô me falou que o colar era um presente da minha mãe e do meu pai. Que tinha sido feito por conchas e pedras do mar. Que ele me manteria protegida.

Me arrastei da cama, me apoiando em cada canto do quarto. Entrei no chuveiro, não me importando pelo fato de estar com roupas, e deixei a água fria cair sobre minhas roupas, me castigando de ter vivido para ouvir a história.

Até que adormeci, caída na poça de água, com o chuveiro já desligado.

Quando acordei, estava posicionada confortavelmente em minha cama. Ainda fraca, vesti um vestido preto parecido com uma túnica grega, indo até os pés e com alça só no ombro esquerdo. Os céus sabem que eu tentei disfarçar.

Dirigindo-me lentamente até a mesa da sala, sentei reta, olhando para os frios olhos negros do vovô.

Ele começou:

— Você está bem?

Suspirei, fazendo a melhor cara de deboche que ninguém nunca faria na frente de vovô.

— Você mente sobre os meus pais, praticamente me rouba de sei lá que lugar, mente sobre ser meu vô, e ainda me dá um livro contando a história dos meus pais como se fosse uma fábula para crianças. E ainda pergunta se eu estou bem?

Vovô se ajeita na cadeira, envergonhado.

— Você não estava pronta para saber, antigamente.

Olhei para ele, com a raiva crescendo em meus olhos.

— Só me diga uma coisa. – Eu disse, pausadamente, como se estivesse falando com uma criança. – A Olívia e a Thaís.. Elas ainda estão...

Vovô assentiu.

Me levantei subitamente, olhando para o meu pulso, onde eu deixava até hoje o pequeno colar de safira. Corri para fora, me sentindo mais fraca do que antes. Atravessei todo os campos, indo em direção a imensa floresta. Um lugar onde nem mesmo eu iria me achar.

Até que eu cai em algum lugar, batendo contra rochas até chegar ao duro chão de pedra.