Blue & Red
2 Capítulo 2 - O livro
Estava um calor infernal.
O brilho do sol se refletia no aço do carrinho de cachorro-quente. Kelly observava, com as mãos no queixo, os garotos suados correndo de lá para cá atrás da bola. Toda manhã era a mesma coisa.
— Observe e aprenda, jovem Luna. – Disse Kelly, arregalando suas sobrancelhas finas e bem-feitas. Seu gloss estava grudento de tanto calor.
Rebolando para lá e para cá, montada em seu pequeno short curto e sua camisa verde, Kelly andou até um dos meninos.
— Onde foi que vocês aprenderam a jogar? – Disse Kelly, jogando seus cabelos louros e lisos para trás. – Vocês jogam tão bem..
O que não é bem verdade. Só na metade do jogo, os dois times já tinham acertado 2 gols contra e cinco fora da rede. O jogo continuava 0 a 0, mesmo com a burrice dos goleiros. O menino deu um sorriso torto para a Kelly, claramente envergonhado.
Kelly voltou rebolando para lá e para cá, enquanto eu a encarava de um modo que diz “Você é louca?”.
Nós íamos no mesmo estádio todos os fins de semana, mesmo não tendo aula nenhuma. Kelly sempre falava que o estádio, por nunca ter ninguém mais do que pessoas jogando futebol, era nosso ponto de encontro. Embora eu soubesse que o que ela queria mesmo é observar os garotos.
— Eu criei mais um nome de penteado, Kelly. – Eu disse, prendendo a ponta do meu cabelo, em uma maria-chiquinha. – Essa irá se chamar maria caída.
Kelly revirou os olhos.
— Você AINDA faz nomes de penteados? Desde que você criou o penteado Nó-para-frente, as meninas resolveram parar de fazer o clássico nó duplo nos cabelos.
Nó era um dos meus mais clássicos penteados. O cabelo ficava solto de um só lado, e nesse lado, as pessoas fazem um grande nó na ponta que deixa o cabelo mais curto. Tendência da época. O melhor? Eu que inventei.
Com seu gloss grudento e cabelo louros, Kelly foi a única a não usar o clássico.
Kelly levantou da arquibancada, colocando as mãos no traseiro, e foi rebolando para casa. Me levantei também, tirando a poeira da roupa. Seguindo a estrada até o dojo, me certifiquei que Kelly não viria atrás de mim, como da última vez.
O dojo era um lugar totalmente vazio, visto que era um dojo, e tinha apenas pequenos bonsais para enfeitar os cantos. Vovô meditava sob um portal, em uma almofada. Me sentei de joelhos e fiquei observando suas sobrancelhas tensas enquanto meditava.
Vovô tinha uma grande barba branca, que combinava com seu cabelo. Seu quimono azul-escuro brilhava em conjunto com o medalhão. Apesar de ele ter me criado, eu não conheço nada sobre ele. Sua história de vida é verdadeiramente um mistério. Por fim, me levantei, e dando a volta no dojo, segui por uma longa estrada enfeitada com lanternas asiáticas. A estrada tinha como destino uma grande casa tradicional chinesa*.
Corri, passando pelas portas fusumás e shoji da casa, até chegar em meu quarto. O quarto tinha um padrão de preto, branco e verde, cores que vovô colocou por seu grande amor por pandas. Uma pintura de bambu descansava em um quadro na parede, e em baixo, minha cama de casal preta e branca ficava. Ajoelhei-me no tapete felpudo e preto do quarto, olhando para minha estante de livros na parede. Uma mesinha de cabeceira ficava do lado esquerdo da cama, com um pequeno abajur, segurando um livro fino e com capa surrada.
Intitulado com o nome Elemente, peguei o livro e afundei na cama de molas, ignorando o papel do vovô escrito com letra caprichada: “Leia esse papel depois de ler o livro”. Suspirei e abri o livro, relutante, como se ele fosse me machucar.
Capítulo 1: O meu noivado.
Fale com o autor