Blue Ocean! (2ª Temporada)
3 O Enterro de um Amigo.
Notas iniciais
Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo. – O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry.
Depois da incrível descoberta, eu disse para a diretora que estava passando mal, e minha face horrorizada, minha expressão de susto e minha pele mais pálida do que o normal ajudou a convencê-la. Mas, algo me surpreendeu, ela também liberou minha irmã, disse que eu deveria leva-la. Ou seja, problemas.
Com minha mãe morta, meu pai sem memória e o resto da família nos odiando, eu tomo conta de Beatriz. Obviamente, isso não deveria ser permitido, por isso, ninguém sabe que minha mãe está morta, para eles, ela está em uma viagem para cuidar de minha avó. Lembrar-se de minha mãe doía. É horrível poder vê-la e toca-la, mas saber que ela não está ali. Saber que ela não pode me sentir, ou me ver.
Eu e Bia estávamos caminhando para casa, em silêncio. Até que ela perguntou.
– Caio, até quando você vai adiar aquela conversa?
Desejei voltar para o silêncio, mas não foi possível.
– Eu não sei o que você quer que eu diga – respondi.
– Quero que diga a verdade – ela murmurou. – Eu já perdi minha mãe, meu pai, meu namorado, por favor, não me faça perder um irmão.
– Você nunca vai me perder – eu disse. Segurei a mão dela. – Nem que eu tenha que te contar meus segredos mais sórdidos.
– Tipo o que? – ela desafiou.
– Tipo... – parei para pensar. A única coisa que veio em minha mente foi: estou namorando uma deusa, ou, nosso pai é um deus, eu o conheço, não está morto, só com amnésia. Mas, acho que ela iria rir da minha cara. Talvez fosse até melhor. – Se eu tivesse algum segredo para te contar. Eu contaria.
– Sei... – ela revirou os olhos e riu.
Chegamos em casa. Logo que abri a porta tive uma surpresa. Uma carta caiu de cima da porta. Abri e li em voz alta.
Querido Caio, querida Beatriz.
Venho por meio desta carta, informa-los sobre o enterro de meu filho, Jonathan.
O enterro acontecerá está noite, desculpe estar em cima da hora, mas espero vocês lá, às 19.
Olhei imediatamente para minha irmã. Ela estava inexpressiva. Apenas me encarava indiferente. Para quem não conhece minha irmã, vai achar que isso era horrível: como alguém poderia não demostrar nenhuma reação com o enterro do namorado? Mas, para mim, que a conheço, sei que, por dentro, minha irmã está completamente despedaçada.
– Bia...
Ela me ignorou e tentou correr para o quarto, mas segurei seu braço e abracei-a.
– Eu vou cuidar de você irmãzinha.
Beijei o cabelo dela. Ver Beatriz assim, era quase como cravar uma espada no meu coração, eu não conseguia pensar direito, só queria ver minha irmã feliz, como antes disso tudo. Carreguei-a até o sofá e nós dois sentamos.
– Caio, eu... – ela me encarou com os olhos inundados. – eu quero ir ao enterro.
Encarei-a por um segundo.
– Tudo bem, nós vamos – eu disse. Ela encostou a cabeça em meu peito. – Vai ficar tudo bem.
Sussurrei. No fundo, eu sabia que aquilo era mais para mim do que para ela, eu precisava acreditar que tudo ia ficar bem, era a única coisa que me fazia seguir em frente. Nunca fiz nada pelo mundo, mas sempre farei por minha família.
Após horas sentados, minha irmã resolveu ir se arrumar para o enterro. Eu deitei a cabeça no braço do sofá e suspirei.
– Não é nada fácil, não é? – uma voz entrou pela porta. Virei-me e Poseidon me olhava. – Sinto muito, pelo seu amigo.
– Ele não era meu amigo – eu disse. – Apenas conhecido.
– Então por que tanta aflição? – perguntou. Sentou-se o meu lado.
– Por que ele era mais que um amigo para Bia – eu disse.
– Hum... ei, se esse tal de John morreu há tanto tempo – disse ele. – Por que só estão enterrando agora?
– Parece que estavam procurando o corpo – dei de ombros. – Disseram que foi jogado na correnteza, por isso não encontraram.
– Entendo – ele assentiu com a cabeça. – Caio, depois que voltar do enterro. Você e sua irmã, procurem por mim lá na pensão. Tem algo que eu gostaria de conta-lo.
Assenti. Logo depois engoli em seco. A imagem de Poseidon simplesmente desapareceu na minha frente, como ele fazia quando ainda era um deus. Quando ele aprendeu isso?
– Estou pronta — Beatriz disse descendo as escadas. Virei-me. Ela vestia um lindo vestido escuro e carregava um guarda-chuva fechado. – Não se vestiu ainda?
– Eu... – levantei e corri até meu quarto. – Em um instante.
Depois de alguns minutos desci, vestido decentemente e com um terno.
– Vamos.
Eu e Beatriz saímos e caminhamos até a casa de John. Vi Julliana lá e corri até ela.
– Achei que não viriam – ela disse. Segurou a mão de Beatriz. – Sinto muito.
– Eu estou bem – ela mentiu.
– Oi pessoal – Danielle apareceu na nossa frente.
– Até você veio? – eu disse.
Dani assentiu.
– Eu e John estudamos juntos – ela disse.
– Entendo – assenti.
Meu telefone tocou – sei que, para um semideus, ter um celular não é nada seguro, mas eu tinha outras coisas para me preocupar –, atendi.
– Alô? – disse sem entusiasmo.
– Caio – a voz de Clivia soou falha e nervosa no meu ouvido direito. –, preciso de ajuda aqui. As coisas estão horríveis no Olimpo... pelas cuecas de Poseidon, o que é isso?
– Clivia, tudo bem? – perguntei.
– Procure Poseidon. Agora! Conte tudo para ele!
– Ele não vai acreditar – eu disse.
– Conte – ela gritou e desligou o telefone.
– Juh, Dani, olhem a Bia para mim – eu disse. – Preciso ir buscar meu pai.
Beatriz me encarou assustada.
– Te explico depois – beijei a testa dela.
– Caio, tudo bem? – Caroline me viu.
– Graças aos deuses – eu disse. – Vem comigo.
Corri e arrastei Carol comigo.
– O que foi? – ela perguntou.
– Precisamos chegar na pensão – eu disse. – O mais rápido possível.
– Ah, deixa comigo – ela disse. Assobiou alto e um enorme Pégaso branco sobrevoou por cima de nós. – Pula!
Pulei bem na hora que o cavalo alado passou por baixo de mim e me arrastou para longe. Em alguns segundos estávamos na porta da pensão. Corri até Poseidon desesperadamente. Ele me olhou preocupado.
– Tudo bem? – ele perguntou.
– Você precisa vir comigo. Por favor, não temos muito tempo – eu disse apressadamente.
– Caio, calma.
– Você não entende, eu preciso de ajuda, por favor!
– Filho – a voz dele causou quase um terremoto. Ele disse... impossível! – O que está acontecendo?
– Como você...
– Sim, eu me lembro, agora diga o que aconteceu – ele disse.
– O Olimpo, Clivia, ela precisa de ajuda – eu disse.
– O.K. – ele segurou meu braço e o de Carol. – Vamos do meu jeito.
De repente, tudo ficou escuro.
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